Gramática do Português Falado Volume VII: Novos Estudos
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Humanitas FFLCH/USP dezembro/1999
Maria Helena de Moura Neves (Org.)
Gramática do Português Falado Volume VII: Novos Estudos
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PUBLICAÇÕES FFLCH/USP
1999
Copyright 1999 da Humanitas FFLCH/USP e da Editora da Unicamp É proibida a reprodução parcial ou integral, sem autorização prévia dos detentores do copyright Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi CRB 3608 G 771
Gramática do português falado / organizado por Maria Helena de Moura Neves. – São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP; Campinas: Editora da Unicamp, 1999. v. 1 -
Conteúdo: v. 7. Novos Estudos
ISBN 85-86087-45-9 / 85-268-0497-9
1. Português (Gramática) 2. Português (Língua) 3. Fonologia 4. Morfologia 5. Sintaxe I. Neves, Maria Helena de Moura II. Título: Novos Estudos
CDD 469.5
HUMANITAS FFLCH/USP e-mail:
[email protected] Tel.: 818-4593 Editor Responsável Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento Coordenação editorial M. Helena G. Rodrigues Diagramação Selma Mª. Consoli Jacintho Capa Adilton Clayton Santos Revisão Autores / Simone Zaccarias
In Memorian Giselle Machline de Oliveira e Silva
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO Maria Helena de Moura Neves ................................................................. 9 PARTE I – GRUPO ORGANIZAÇÃO TEXTUAL-INTERATIVA Segmentação: uma estratégia de construção do texto falado (Ingedore G. V. Koch) ............................................................................ 29
A correção do texto falado: tipos, funções e marcas (Leonor Lopes Fávero, Maria Lúcia C. V. O Andrade e Zilda Gaspar O. Aquino) ........ 5 3 O relevo no português falado: tipos e estratégias, processos e recursos (Luiz Carlos Travaglia) ........................................................................... 7 7 Funções textuais-interativas dos parênteses (Clélia Cândida Abreu Spinardi Jubran) .................................................................................... 131 A hesitação (Luiz Antônio Marcuschi) ................................................. 159 Aspectos basicamente interacionais dos marcadores discursivos (Hudinilson Urbano) ............................................................................. 195 Aspectos textuais-interativos dos marcadores discursivos de abertura bom, bem, olha, ah, no português culto falado (Mercedes Sanfelice Risso) .................................................................................................... 259
Anatomia e fisiologia dos marcadores discursivos não-prototípicos (Giselle Machline de O. e Silva) ........................................................... 297 PARTE II – GRUPO SINTAXE I Estruturas coordenadas aditivas (Roberto Gomes Camacho) ............... 351 Estruturas coordenadas alternativas (Erotilde Goreti Pezatti) .............. 407 Os enunciados de tempo no português falado no Brasil (Maria Luiza Braga) .................................................................................................... 443 As construções causais (Maria Helena de Moura Neves) .................... 461 As construções condicionais (Maria Helena de Moura Neves) ............ 497 As construções concessivas (Maria Helena de Moura Neves) ............. 545 PARTE III – GRUPO SINTAXE II Elementos nulos pós-verbais no português brasileiro oral contemporâneo (Sonia Maria L. Cyrino) .............................................................. 595 PARTE IV – GRUPO DE MORFOLOGIA DERIVACIONAL Adjetivos denominais no português falado (Margarida Basilio e Léa Gamarski) .............................................................................................. 629 PARTE V – GRUPO DE MORFOLOGIA FLEXIONAL Correlação modo-temporal nas construções complexas: concessivas (Ângela C. S. Rodrigues, Odette G. L. A. S. Campos e Paulo T. Galembeck) ........................................................................................... 653 O uso do futuro do pretérito no português falado (Luiz Carlos Travaglia) .............................................................................................. 673 PARTE VI – GRUPO DE FONÉTICA E FONOLOGIA A sílaba e seus constituintes (Leda Bisol) ............................................ 701 8
APRESENTAÇÃO
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Este é o Volume VII da série Gramática do Português Falado, que tem trazido a público os textos discutidos nos seminários de pesquisa realizados anualmente pelos pesquisadores do grupo, a partir do final de 1988. A equipe, que abriga pesquisadores de todo o país, sob a coordenação do Prof. Ataliba Teixeira de Castilho, vem estudando o material do Projeto NURC (Norma Urbana Culta), desde essa época, com vistas a elaborar uma gramática de referência do português culto falado no Brasil.
1. O significado do empreendimento Os seminários anuais têm constituído a instância maior no processo de produção dos textos que vêm sendo publicados na série Gramática do Português Falado, uma vez que é nesses seminários que os estudos preparados pelos diversos pesquisadores sofrem discussão, uma discussão extremamente rica, em primeiro lugar pela diversidade de formação dos componentes do grupo, mas, especialmente, pelo modo particular de interação que esse grupo desenvolveu, dispondo-se todos a ouvir todos, e, assim, a relativizar pontos de vista, a temperar a rigidez de convicções assumidas, e, afinal, a reconhecer erros ou inadequações, sem melindres. A sensação da apresentadora e organizadora deste volume – que deve ser a de todos os outros componentes do projeto – é que poucas vezes se terá conseguido viver uma experiência como a que se viveu no interior do grupo, durante esses anos. Todos entraram no projeto achando que tinham sido convidados porque “sabiam” alguma coisa, e, no entanto, todos fizeram dele uma escola, sentando, estudando, falando, ouvindo, perguntando, respondendo,
pensando e remoendo, e, enfim, aprendendo como nunca. Quanto monstro sagrado se viu, nas atividades do projeto, desvestindo máscaras de altar, dando a face e abrindo o peito, expondo-se para ensinar, mas também para incorporar lições, com sabedoria, e principalmente com humildade – afinal, com a sabedoria da humildade, e seguindo, aliás, a postura do comandante, Prof. Ataliba. Todos disseram o que quiseram e ouviram o que lhes era dito, como se aquilo que ouviam fosse sempre o que queriam ouvir. Toda fala foi troca, e a troca foi saber, foi experiência, foi vida. Ninguém, com certeza, saiu o mesmo dessa aventura. E, com certeza, muito dificilmente se terá outra oportunidade igual.
2. Um pouco de história A história do funcionamento deste projeto está primorosamente traçada no prefácio de Mary Kato ao volume V da série, prefácio que compõe um “livro do Gênese” do projeto: vai do caos (uma barafunda de “gregos e troianos”) ao cosmos ( inspiração para o título desse volume V: “Convergências”). Isso significa que há pelo menos três anos a equipe se considera capaz de produzir uma obra em que as grandes diferenças – inevitáveis e benéficas – encontram um ponto de convergência, embora (e felizmente) sem fazer redução da riqueza de posições e de formação do grupo.
3. A natureza dos trabalhos A diversidade de posições teóricas não impede, por exemplo, que se proponham fundamentos teóricos e metodológicos que possam encabeçar confortavelmente a gramática a ser produzida: afinal com suas diferenças, todos os grupos envolvidos pretendem, a partir do tratamento dos dados da Norma Urbana Culta (NURC) em análise, não só determinar regularidades como também especificar o funcionamento dos subsistemas envolvidos na produção dos enunciados, considerada, na base, a competência comunicativa dos falantes. A partir dos pressupostos teóricos assentados dentro de cada grupo de trabalho, e também a partir dos trabalhos produzidos dentro desses grupos, o assessor acadêmico do projeto, Prof. Mílton do Nascimento, vem preparando o capítulo da gramática de referência que explicitará tais pressupostos. Em discussões que ocupam sempre um período de cada reunião anual da grande equipe, esse texto vem sendo ferrenhamente discutido e rearranjado, para que possa constituir o real registro dos objetivos, das perspectivas e das propostas da obra que será produzida. 12
4. Os princípios No ponto atual de sua elaboração, o texto do Prof. Mílton assim registra a série de pressupostos adotados na construção do ponto de vista teóricometodológico que circunscreveu o objeto de estudo dos pesquisadores: 1) uma concepção de linguagem como uma atividade, uma forma de ação, a verbal, que não pode ser estudada sem se considerar suas principais condições de efetivação; 2) a pressuposição de que, na contingência da efetivação da atividade lingüística do falante/ouvinte [na produção e recepção de textos] tem-se a manifestação de sua “competência comunicativa”, caracterizável a partir de regularidades que evidenciam um sistema de desempenho lingüístico constituído de vários subsistemas; 3) a pressuposição de que cada um dos subsistemas constituintes desse sistema de desempenho é caracterizável em termos de “regularidades” observáveis no texto e nas operações envolvidas em sua produção, “lugares” onde é possível identificar os indícios do modo de funcionamento do sistema de desempenho lingüístico dos falantes; 4) a pressuposição de que, sendo a linguagem uma atividade, uma “manifestação dinâmica da mente humana”, para descrevê-la e explicá-la precisamos de um processo analítico que disponha de categorias processuais.
5. Os grupos de trabalho Como é do conhecimento do público, são seis os grupos de trabalho que vêm preparando os textos de base para a produção da gramática do português falado culto do Brasil, cada um deles investigando dentro de uma subárea: Fonética e Fonologia; Sintaxe I; Sintaxe II; Morfologia Derivacional; Morfologia Flexional; Organização Textual-Interativa. Esses grupos estão organizados desde o início do projeto e trabalham, em seu campo e em sua linha, no cumprimento do programa maior estabelecido para toda a equipe e no cumprimento das metas traçadas. No ponto em que se encontram atualmente os trabalhos, cada um dos grupos também tem seu plano preliminarmente assentado para a gramática de referência que é o fim último do projeto. O Grupo Organização Textual-Interativa prevê uma introdução que explicite a proposta teórica, a que devem seguir-se quatro capítulos: o primeiro, 13
sobre a natureza da língua falada: a especificidade de sua produção, as atividades de formulação textual, os fenômenos intrínsecos da oralidade (hesitação e interrupção); o segundo, sobre a organização tópica: o conceito e as propriedades do tópico discursivo, o desenvolvimento tópico da conversação, o par pergunta / resposta na construção tópica, o relevo no processamento da informação; o terceiro, sobre as estratégias de construção textual: repetição, correção, paráfrase, inserção, segmentação, referenciação e progressão referencial; o quarto, sobre marcadores discursivos: traços definidores e funções textuais-interativas. O Grupo Sintaxe I, sob o tema geral “A palavra: classes, processos e funções”, projeta uma introdução que dará a perspectiva teórica, e uma série de oito capítulos, referentes às classes de palavras: nome, artigo, verbo, adjetivo, advérbio, pronomes, conjunções e preposições. O Grupo Sintaxe II também projeta uma introdução teórica sobre a questão da construção da sentença, seguindo-se quatro capítulos: sobre adjunção, sobre padrões de predicação, sobre complementação e sobre construções-Q. Os dois grupos de Morfologia devem analisar a construção morfológica da palavra. O Grupo Morfologia Derivacional prevê um texto em três capítulos que tratará dos seguintes temas: condições de produtividade e condições de produção; condições de produção de processos lexicais específicos: formações prefixadas, formações compostas, gradação e pejorativos, conversão de adjetivos e marcadores conversacionais; condições de produtividade e produção de processos lexicais categorialmente definidos: a nominalização de verbos e de adjetivos, adjetivos deverbais e adjetivos denominais, verbos denominais e verbos deajetivais. O Grupo Morfologia Flexional abriga em seu plano os seguintes estudos: da natureza e realização da flexão do português; da expressão das categorias gramaticais; da estrutura do vocábulo flexionado; da flexão como processo de expressão (as relações e os valores); da relação entre flexão e sintaxe (concordância nominal e concordância verbal); dos valores das formas verbais flexionadas (na palavra, na frase e no texto); da relação entre flexão e discurso. O Grupo Fonética e Fonologia resume sob o título “Construção fonológica da palavra” uma série de seis capítulos: sobre o acento; sobre a sílaba; sobre vocalismo; sobre consonantismo; sobre a entoação, na variação regional; sobre a visão diatópica dos fenômenos. Esses capítulos também serão introduzidos pelo texto que assenta as perspectivas teóricas, prevendo-se, no final deles, a apresentação de um glossário. 14
6. O conteúdo deste volume Os textos que neste volume VII se apresentam foram discutidos na reunião de pesquisa realizada em dezembro de 1995, tendo sido reformulados e definitivamente redigidos durante o ano de 1996. Eles quase completam a agenda firmada de cada um dos grupos, chegando praticamente ao fim o cumprimento do programa estabelecido para essa fase básica de produção dos estudos sobre os quais se vai consolidar a Gramática do Português Falado do Brasil, que se fará a seguir. Entretanto, verificadas algumas lacunas em determinados subcampos da investigação necessária a essa consolidação, o trabalho da equipe mantém-se em curso, prevendo-se, pois, dentro de um ano, a publicação do volume VIII, que será o último da série. O Grupo Organização Textual-Interativa apresenta oito textos. Cinco deles contemplam especialmente estratégias de construção do texto falado: a segmentação, a correção, o relevo, os parênteses, e a hesitação. Três outros se centram no estudo dos marcadores discursivos, num aprofundamento da análise já apresentada no volume VI da série. O último contempla um dos fenômenos intrínsecos da oralidade: a hesitação. A segmentação como estratégia de construção do texto falado é tratada no texto de Ingedore G. V. Koch, que objetiva examinar, com base no corpus partilhado do PGPF, as diferentes formas de articulação tema-rema empregadas pelos falantes da norma culta do português brasileiro, bem como descrever os matizes de sentido que cada uma delas, quando posta em ação, viabiliza. A ênfase especial vai para aquelas formas em que, em virtude de deslocamentos de constituintes, ocorre algum grau de segmentação sintática do enunciado, casos em que o falante opta pela utilização de estratégias de tematização e de rematização. O estudo mostra que, em termos da articulação tema-rema, particularmente em se tratando da língua falada, existe, ao lado de casos de plena integração sintática (construções não-marcadas, em que o rema, portador de informação nova, sucede naturalmente ao tema, que veicula a informação dada), uma série de padrões expressivos em que se pode falar de segmentação e/ou de deslocamento de constituintes. A segmentação é, então, entendida com qualquer tipo de alteração da ordem não-marcada, devida à extração, ou mise-enrelief, de um constituinte do enunciado, dando origem a construções de tema ou rema marcados. A partir da noção já corrente de que a ordem dos constituintes que seria de esperar por razões de ordem sintática é freqüentemente infringida por motivações de ordem funcional, o trabalho focaliza, dentre a multiplicidade de funções possíveis, aquelas que se afiguram mais relevantes. 15
O texto que estuda a correção como estratégia de construção do texto falado é de autoria de Leonor Lopes Fávero, Maria Lúcia C. V. O. Andrade e Zilda Gaspar O. Aquino. Operando com a noção de texto “como produto que congrega e sinaliza o processo de produção e interação”, o trabalho investiga a correção como estratégia de construção textual. Definida como procedimento empregado pelos interlocutores para suprir dificuldades e inadequações emergentes durante o processamento discursivo, a correção é examinada não só a partir da dinâmica interacional que se reflete diretamente nos aspectos lingüísticos e enunciativos, mas também quanto a sua operacionalização, os principais tipos de marcas prosódicas e/ou verbais encontradas para indicar a reformulação e as funções estabelecidas. No artigo discutem-se, ainda, os possíveis limites entre correção, paráfrase, repetição e hesitação, procedimentos reveladores do caráter criativo da atividade conversacional, que exige, constantemente, ajustes e reajustes por parte dos interlocutores na busca de cooperação e intercompreensão. O texto de Luiz Carlos Travaglia estuda o processo de estabelecimento de relevância no texto falado, buscando determinar os tipos, estratégias e recursos desse processo, além de suas funções. “Relevo” é considerado o fenômeno de o falante dar destaque a determinados elementos do texto quando o constrói e formula. Considera-se que o relevo: a) pode incidir sobre elementos unitários do texto, ou sobre um conjunto deles, ou sobre um tipo de elemento; b) pode ser positivo (os elementos são colocados em um plano de destaque) ou negativo (há uma espécie de “ocultamento” dos elementos), o que afeta a percepção do interlocutor. Esse fenômeno inclui fatos que têm sido tratados como contraste entre figura e fundo, ou primeiro e segundo planos, organização das informações em essenciais e secundárias, relevância pragmática de uma situação ou de algo no texto para a situação presente ou para um ponto de referência, fatos de focalização. Estudam-se os seguintes recursos de estabelecimento de relevo: a) os recursos fônicos: entonação, altura da voz, silabação, velocidade da fala, alongamento, “música de fundo”; b) os recursos léxicos: o uso de itens lexicais que funcionam como expletivos ou cujo semantema implica destaque de elementos do texto; c) os recursos morfológicos e categoriais: o aspecto, o tempo; d) os recursos sintáticos: topicalização, repetição, uso de orações principais cujo sentido implica destaque do que lhes está subordinado, uso de orações reduzidas ou desenvolvidas, uso de orações adjetivas; e) o uso de parênteses no texto; f) o uso de marcadores conversacionais; g) a mudança de código (dialetos e registros); h) os recursos estruturais, como a posição dos elementos dentro dos 16
segmentos textuais. Quanto às funções do relevo, observa-se que a básica é dar proeminência, derivando daí várias outras funções: enfatizar, intensificar, marcar um sentido especial, estabelecer contraste, reforçar argumentos, marcar importância dentro da estrutura ideacional do texto e marcar foco informacional. As funções textuais-interativas dos parênteses são tratadas por Clélia Cândida Abreu Spinardi Jubran, que apresenta uma classificação das funções textuais-interativas dos parênteses, com base nos critérios de desvio tópico e de introjeção dos processos formulativo e interacional no texto. O trabalho mostra que, ao longo de um contínuo, que leva em conta graus variáveis do desvio da centração tópica e da presença de dados da situação enunciativa nas inserções parentéticas, são estabelecidas quatro classes de parênteses, de acordo com o elemento focalizado predominantemente por eles: (a) elaboração tópica do texto; (b) locutor; (c) interlocutor; (d) ato comunicativo. O estudo da hesitação, de autoria de Luiz Antonio Marcuschi, tem como objetivo mostrar que os estudos formais da língua são redutores quando idealizam os materiais analisados, eliminando, por uma suposta irrelevância, aspectos tipicamente discursivos tais como a hesitação. Ele se baseia na idéia de que, embora típica da fala, a hesitação não é irrelevante como fenômeno lingüístico. De tal modo, dizer que a hesitação faz parte apenas do “uso” e não do “sistema formal” da língua é tomar a língua como uma entidade que existe “em si e por si”. Contudo, não se pode isolar, de um lado, um objeto típico da língua, “a frase”, e de outro, um objeto do uso da língua, “o discurso”: ambos estão interligados e se codeterminam funcionalmente. A hesitação é vista como parte da competência comunicativa em contextos interativos de natureza oral, e não como uma disfunção do falante. Defende-se que ela desempenha papéis importantes na fala (papéis formais, cognitivos e interacionais) e que é uma atividade textual-discursiva que atua no plano da formulação textual. Também se defende que a hesitação não se acha aleatoriamente distribuída, mas obedece a alguns princípios gerais de distribuição e serve como indicação de organização sintagmática da língua. Ela constitui uma amostra de que, se o princípio da linearidade é fundamental no uso da língua, ele não pode ser entendido como simples seqüenciação ininterrupta de enunciados da esquerda para a direita. Produzida tanto no nível suprassegmental (pela prosódia) como no nível segmental (com elementos formais da língua), a hesitação é a presença de atividades discursivas na materialidade lingüística, evidenciada numa transcrição fiel da fala. Hudinilson Urbano estuda aspectos basicamente interacionais dos marcadores discursivos com o objetivo específico de observar suas subfunções, 17
propriedades e comportamentos interativos salientes. O estudo se apóia em pesquisa maior sobre os marcadores e se centra nos marcadores que, em pesquisa anterior (publicada no volume VI da série), foram classificados funcionalmente como “basicamente orientadores da interação”. Os aspectos textuais-interativos dos principais marcadores discursivos de abertura no português culto falado são estudados por Mercedes Sanfelice Risso. O trabalho parte de um assentamento de traços definidores dos marcadores discursivos, em geral, a título de suporte para a investigação do padrão de prototipicidade dos quatro marcadores de abertura (bom, bem, olha e ah) em questão, examinados preliminarmente sob a ótica dos traços categoriais estabelecidos. A parte central do estudo é ocupada pela caracterização da função de abertura promovida por esses marcadores na articulação interna do par adjacente pergunta-resposta e em outras instâncias de organização tópica do texto falado. Aspectos funcionais básicos diferenciadores de seu foco na estrutura (inter)pessoal e ideacional do discurso são examinados à luz das relações com as respectivas fontes lexicais homônimas, sem estatuto de marcador. Desdobramentos e deslocamentos dessas diferenças são depreendidos na dinâmica da tessitura textual-discursiva. A natureza e a distribuição dos aspectos gerais apurados oferecem elementos que auxiliam na diferenciação tipológica entre as modalidades dos inquéritos analisados. Valendo-se dos critérios propostos em Risso, Silva e Urbano (1995) Giselle Machline de Oliveira estuda, como marcadores não-protípicos, as formas: etc... e tal, (comparadas a formas similares, possíveis alternantes tais como e tal e coisa, e tudo (o) mais); por exemplo, (comparada a como por exemplo, e um exemplo); digamos (vamos dizer (assim) digamos assim), assim. Os resultados são compatíveis com o modelo da teoria dos conjuntos subjacente ao trabalho. O elemento encabeçado por por exemplo (o exemplificante) é prototípico: concreto, objetivo, real e disponível. Pelo contrário, os marcadores de procura de elementos como digamos, como assim, não são prototípicos e coocorrem com elementos abstratos, subjetivos e novos. Coocorrem também com hesitações, evidenciando dificuldades de processamento do elemento e indicando uma função de preenchimento de espaço vazio na conversa durante esse processamento. As partículas de expansão etc. e tal (e as outras alternantes), tendem a fechar enumerações de elementos concretos e objetivos. Descartou-se a hipótese de que sejam majoritariamente um produto de esquecimento momentâ18
neo dos elementos da enumeração, em favor da hipótese alternativa de que a partícula de expansão serve como coringa para enumerações de pouca relevância. Assim e digamos se assemelham, mas enquanto o digamos acumula outras funções além da principal, o assim, que é de procura de um elemento, exerce apenas essa função. Malgrado essa diferença, parece haver certa distribuição complementar entre esses dois MDs, em relação a regiões do país estudadas e aos dois sexos. Se for tomado o verbo como medula espinhal do enunciado, os marcadores assim e digamos são encontrados quase que exclusivamente à direita. Além desse forte condicionamento estrutural, os fatores discursivos examinados justificam a posição à direita, que é própria dos segmentos novos (qualidade que caracteriza esses dois MDs). Já o exemplificante, que anuncia elemento disponível, está situado preferencialmente na fronteira anterior ao sujeito. Confirma-se a pouca importância discursiva do sujeito. O fato de a informação do complemento tender a ser nova e a do sujeito ser velha não basta para explicar essa propriedade: a variável status informacional não atuou com tanta força que desse conta dessa quase impossibilidade da presença de tais MDs nos sujeitos. A tendência de os MDs estudados não se aglutinarem a outros não mostrou relação com a não-prototipicidade. Outro resultado foi que a demarcação prosódica dos não-prototípicos foi menor do que a dos MDs tomados globalmente (68,9%), fato que se pode creditar à tendência que esses MDs têm de não serem tão marginais. O exame incipiente da fronteira entre MDs e alguns elementos não-MDs fez encontrar algumas diferenças dignas de estudos posteriores, como a especialização de função do digamos que, diferente de seu alelo digamos, mas não evidenciou nenhuma fronteira drástica. O Grupo Sintaxe I, que investiga o uso dos diversos itens da língua, partindo de sua organização tradicional em classes, reúne, neste volume, seus estudos sobre as diversas subclasses de conjunções, em número de seis. As tradicionalmente denominadas conjunções coordenativas são estudadas por Roberto Gomes Camacho e Erotilde Goreti Pezatti. Roberto Camacho estuda as estruturas coordenadas aditivas, com o propósito de fornecer uma classificação tipológica dos usos da relação de conjunção, a partir de um exame empreendido nos diferentes níveis da gramática do português falado. Na investigação dos usos diversos do juntivo e, o estudo assumiu um compromisso teórico com o enfoque funcional-cognitivo, que os 19
trata como casos de ambigüidade pragmática. O universo da investigação é constituído por uma amostragem do corpus mínimo do Projeto de Gramática do Português Falado, que sofreu tratamento quantitativo, mediante o uso de alguns programas do pacote Varbrul. O texto se organiza em duas partes. Na primeira, examina-se a coordenação de termos, em sua manifestação prototípica, estrutural, e em sua manifestação discursiva. Na segunda parte, examina-se a coordenação de orações em estruturas simétricas e assimétricas, descrevendose os processos de junção que envolvem também procedimentos discursivos de natureza pragmática. Observou-se que a necessidade de identidade semântica perpassa o juntivo e nos níveis sintático, textual e pragmático em que atua, incluindo-se os níveis da coordenação de termos e de orações. Se é extremamente visível no nível da junção simples de conteúdo, por outro lado no nível epistêmico e no ilocucionário a visibilidade da identidade semântica se enfraquece, mantendo-se, porém, como inferências e deduções a partir de esquemas referenciais e cognitivos. A principal direção para a qual apontam os resultados é a confirmação de que o juntivo e atua: no nível do conteúdo, como um mero coordenador de idéias independentes; no nível semântico, como um mecanismo para a construção do texto; no nível pragmático como um mecanismo interacional, seja com valor epistêmico seja com valor ilocucionário. Em razão disso, reconheceu-se a pertinência do conceito de ambigüidade pragmática para um mapeamento adequado dos usos do juntivo e numa gramática unificada, mas de condicionamentos multifuncionais. O estudo de Erotilde Pezatti fornece uma descrição do comportamento sintático-semântico das conjunções coordenativas alternativas no português falado, ou, mais especificamente, da relação de disjunção, tradicionalmente denominada de alternância. O fundamento teórico da análise das conjunções é o funcional, particularmente a Gramática Funcional de Dik. O texto se organiza em cinco partes. Na primeira discute-se a questão da disjunção, de uma perspectiva lógica e de uma perspectiva lingüística, procurando-se mostrar que o processo na linguagem natural nem sempre coincide com o que se prevê na linguagem formal. Como um reflexo da primeira, na segunda parte discutem-se os dois tipos semânticos de disjunção, a inclusiva e a exclusiva, e as condições possíveis para sua manifestação nos enunciados do corpus. Devido ao fato de a disjunção se dar em diferentes níveis, examina-se, na terceira parte, a coordenação de termos e a coordenação de orações separadamente. Na quarta seção, afinal, examinam-se os usos pragmáticos adicionais das ocorrências da conjunção ou. As tradicionalmente denominadas “conjunções subordinativas” são estudadas por Maria Luiza Braga e Maria Helena de Moura Neves. 20
Maria Luiza Braga trata as orações de tempo (na sua grande maioria introduzidas por quando), cotejando, inicialmente, o tratamento concedido pela abordagem gramatical tradicional e pela vertente funcionalista desenvolvida por Sandra Thompson. Consideram-se os dois argumentos apresentados por essa vertente para classificar as orações de tempo como hipotáticas, como não propriamente subordinadas. Examinam-se algumas propriedades formais dessas orações: realização do sujeito, ordem e correlação entre tempo e modo. Quanto à realização do sujeito, leva-se em consideração a posição, da oração e a correferência entre o sujeito da núcleo e o da hipotática. Após todos os cruzamentos, conclui-se que as orações de tempo tendem a explicitar foneticamente o sujeito, comprovando-se, portanto, a hipótese de Haiman de que a explicitação constitui um traço das chamadas adverbiais. Quanto à posição, mostra-se que a ordem não marcada é a anteposição, um dos critérios – além do tipo de conectivos – que distingue as orações de tempo nos registros falado e escrito. Quando nessa posição, as orações de tempo criam moldura temporal para os eventos que são codificados pela núcleo. Outras funções podem agregar-se a essa, tais como a sinalização de início de ‘parágrafo’ (novo episódio) e a codificação de tópico. As orações pospostas – posição marcada – são principalmente aquelas que funcionam como adendos, alguns dos quais exibem uma função metalingüística, isto é, parafraseiam um termo mencionado previamente. Verifica-se que muitas ocorrências, quando descontextualizadas, admitem a alteração da ordem. Uma vez, porém, que se considere o contexto maior, a alteração da ordem ou se vê totalmente bloqueada (casos de tópicos e adendos) ou é, no mínimo, problemática. Por fim, quanto à correlação tempo-modo, conclui-se que as orações de tempo tendem a exibir um leque mais ou menos variado de combinações possíveis. Maria Helena de Moura Neves apresenta o estudo de três tipos de construções adverbiais: as causais, as condicionais e as concessivas. Nos três casos, examinam-se construções do corpus selecionado do NURC, buscando-se discutir a noção de condicionalidade lato sensu e de causalidade lato sensu, em relação ao complexo de domínios envolvidos na produção dos enunciados. Assim, ao lado da reflexão sobre os esquemas lógico-semânticos implicados nas relações causal, condicional e concessiva, busca-se uma definição pragmática dos enunciados que se constroem sobre essas relações, envolvendo-se especialmente a questão da distribuição da informação, à qual se vincula a questão da ordem. O estudo das construções complexas considera, afinal, os diferentes domínios de interpretação semântica, conduzindo-se dentro da proposta funcionalista de organização dos enunciados em camadas, e abrigandose, ainda, no modelo mais amplo que estabelece as metafunções da linguagem. 21
No estudo das relações stricto sensu causais, verificou-se que as construções causais com a oração causal anteposta (representativamente as com como) e as construções causais com a oração causal posposta (representativamente as com porque) constituem diferentes organizações das relações causais, do ponto de vista informativo: as primeiras trazem a causa em função temática, representando basicamente informação compartilhada, enquanto as outras trazem a causa em função remática, representando basicamente informação nova. Considerando-se as diferentes camadas de constituição da frase (Dik, 1989) das construções causais, separam-se dois grandes grupos, o das causais de enunciado (em que se relacionam predicações ou proposições) e o das causais de enunciação (em que se relacionam atos de fala). Verifica-se, ainda, que as construções causais encontradas no NURC apresentam predominantemente predicações não-télicas (86%) e não-dinâmicas (70%). Predomina o tempo presente, especialmente nas predicações de estado (mais de 80%, tanto nas orações nucleares como nas orações adverbiais), o que tem relação com o caráter não-télico das predicações. No estudo das relações stricto sensu condicionais, parte-se do esquema condicional básico se x, y, em que se estabelece um possível mundo x, que será verdade apenas no caso em que y for verdadeiro nesse mundo x. Nessa definição se enquadram todos os esquemas condicionais, tanto os eventuais como os factuais e os contrafactuais. Considera-se que os esquemas eventuais constituem os hipotéticos prototípicos, porque neles é que se está em dúvida sobre o mundo A, estando, pois, a oração condicional se x fazendo uma adição hipotética e provisória ao estoque de conhecimento partilhado entre falante e ouvinte. Essas construções por excelência hipotéticas são as mais utilizadas pelos falantes do corpus do NURC (66,66%). É evidente que, quando o falante lança uma predicação condicionante para uma outra predicação, é de se esperar que mais freqüentemente esteja servindo ela como hipótese a ser verificada, já que, para condições resolvidas (que implicam causalidade, seja afirmada, como no caso das factuais, seja negada, como no caso das contrafactuais), a língua dispõe de outros recursos mais efetivos, como a própria expressão de relações causais. No estudo das construções concessivas, considera-se que, no seu esquema básico (embora p, q), a relação lógico-semântica que se estabelece é a de frustração da implicação pressuposta, que pode ser uma implicação causal ou uma implicação condicional: em uma construção concessiva, a causalidade pressuposta na oração concessiva (p) é negada na oração núcleo (q), e a condição pressuposta em (p), por sua vez, não é suficiente para evitar (q), ou seja, é 22
ineficaz para evitar o cumprimento de (q). A frustração da implicação causal / condicional pressuposta está diretamente relacionada aos esquemas envolvidos no jogo de polaridade em que (q) positivo frustra a pressuposição negativa, e (q) negativo frustra a pressuposição afirmativa. Além disso, verifica-se que, se, por um lado, são noções de natureza lógico-semântica que relacionam as construções concessivas à causalidade e à condicionalidade, por outro lado, é a sua natureza essencialmente argumentativa que as aproxima das construções adversativas. Tanto as construções concessivas quanto as adversativas são essencialmente dialógicas, ou seja, envolvem a presença de dois locutores, e o jogo argumentativo entre falante e ouvinte implica, em muitos casos, um misto concessivo-adversativo. É justamente essa natureza argumentativa e dialógica das construções concessivas que explica o fato de tais construções codificarem com maior freqüência a oposição no domínio epistêmico e no domínio conversacional, com baixa freqüência no domínio do conteúdo. Dentro do Grupo Sintaxe II, que produz estudos de sintaxe formal, este volume apresenta o trabalho de Sonia Maria L. Cyrino sobre os elementos nulos pós-verbais no português brasileiro oral contemporâneo. O estudo parte das conclusões sobre os padrões de complementação do português falado encontradas em Dillinger et alii (1996), que levam os autores a propor que haveria um “fundo” sintático para a frase do português, que é S-V-O. Continuando a análise, o estudo focaliza o não-preenchimento pós-verbal, mostrando que o complemento nulo não é homogêneo. Desse modo, as ocorrências do complemento nulo são classificadas em elipse de VP, objeto direto nulo e objeto indireto nulo. Os dados utilizados são os mesmos já codificados em Dillinger et alii (1996), com algumas alterações na escolha dos grupos de fatores e com ampliação do corpus a fim de abranger todas as capitais. O Grupo de Morfologia Derivacional estudou os adjetivos denominais no português falado. O trabalho apresentado, de autoria de Margarida Basílio e Léa Gamarski, investiga, em duas subsecções, a formação e as características de adjetivos denominais no português falado. Na primeira parte, focalizam-se questões gerais relacionadas à formação e às funções de adjetivos denominais, determinando-se algumas condições gerais de produtividade e de produção de adjetivos denominais no português falado. Na segunda parte, focalizam-se análises numéricas específicas, e cotejam-se resultados relativos a adjetivos denominais, com resultados prévios obtidos para adjetivos deverbais no que tange às ocorrências de adjetivo em posição adnominal ou predicativa nos diferentes tipos de inquérito do corpus pesquisado. Foram objeto de análise apenas as formações consideradas regulares, isto é, as formações fonológica 23
e semanticamente transparentes. Dentre os resultados obtidos, destaca-se o que faz concluir que a formação de adjetivos denominais apresenta função primária denotativa, sendo a predicativa uma função de caráter secundário e circunscrita a processos particulares correspondentes a especificações de caráter semântico, ao contrário do que ocorre na formação e no uso dos adjetivos deverbais, que apresentam sobretudo função predicativa. No Grupo de Morfologia Flexional, produziram-se dois textos, ambos sobre tempos verbais. Ângela C. S. Rodrigues, Odette G. L. A. S. Campos e Paulo T. Galembeck estudaram a correlação modo-temporal nas construções complexas concessivas. Investiga-se a manifestação formal das relações que se estabelecem entre as orações do complexo concessivo, um dos complexos subordinativos que não incluem estruturas encaixadas. A análise dos dados coletados nos inquéritos do corpus baseia-se em duas hipóteses fundamentais: 1. Existe correlação entre o valor das construções concessivas e o esquema modo-temporal empregado para expressão desse valor. 2. Existe correlação entre os conectores e o jogo modo-temporal que se estabelece nas construções concessivas. Luiz Carlos Travaglia investigou o uso do futuro do pretérito no português falado. Nesse estudo, a partir da observação do corpus, propõe-se um valor básico para o futuro do pretérito, que é o de posterioridade, do qual derivam os demais valores, sejam de natureza temporal, sejam de natureza modal. O valor temporal se subdivide em dois, cronológico e polifônico, e o valor nocional se subdivide em quatro, que são condição, possibilidade, polidez e desejo. Quantificando-se o uso da forma com estes valores em inquéritos do projeto NURC, verifica-se que os falantes a utilizam muito mais com valores nocionais do que com valores propriamente temporais. Dos valores nocionais, entre os quais estão os usos tradicionalmente chamados de modais, a maior freqüência é para condição, seguindo-se possibilidade, polidez e desejo. Dos valores temporais, apenas o cronológico apareceu no corpus, não havendo nenhuma ocorrência do polifônico. O estudo revela que descrever o futuro do pretérito como uma forma verbal que marca futuro em relação a um momento do passado, entendendo-se esse valor temporal separado dos chamados valores modais, não é uma descrição que encontre uma generalização para todos os valores da forma. Parece mais conveniente descrevê-lo como uma forma verbal cuja função fundamental no funcionamento textual dentro da língua é marcar posterioridade, derivando daí todos os valores propostos no estudo ou tradicionalmente levantados. Portanto, essa forma seria, antes de tudo, um seqüen24
ciador de situações dentro do texto, com uso também relacionado à tipologia textual. O Grupo de Fonética e Fonologia apresenta o estudo de Leda Bisol sobre os constituintes prosódicos da sílaba, que discute, inicialmente, os princípios de composição da sílaba básica, apresentados em forma de árvore, dos quais se depreende o padrão silábico do português. Segue-se o desenvolvimento da idéia de que o mapeamento da sílaba tem como ponto inicial a identificação dos núcleos, e, por ordem, o mapeamento do onset e, finalmente, da coda. Certas operações como apagamento do elemento não-silabado e epêntese, consideradas como processos de legitimação de consoantes extraviadas, merecem especial atenção, em virtude de a aplicação de uma ou outra propiciar variações silábicas. Admitindo-se que a silabação é um processo contínuo, disponível em qualquer etapa da derivação, a análise, fundamentada nos princípios gerais da teoria, busca dar conta tanto das sílabas que se encaixam no padrão canônico como das formas variantes.
7. A outra face desta publicação Este volume traz o resultado dessa série de pesquisas que acima se resumiram, constituindo o repositório de dois anos de investigação das diversas equipes, mas ele tem, ainda, um significado muito especial dentro da história da vivência do grande grupo. Dedicados a suas investigações, como se de cada um dependesse a gramática referencial do português falado culto do Brasil, no entanto todos os colegas de trabalho do Projeto GPF desenvolveram um notável espírito de união, enriquecendo a interação pessoal e criando uma comunidade de fortes sentimentos. Isso não apenas se deveu à amizade que, naturalmente, cada vez mais foi unindo a todos, indiscriminadamente, mas se deveu, muito especialmente, ao papel de alguns elementos dotados de especial força de aglutinação e brilho pessoal, que funcionaram como pólos intensificadores de relações positivas. Falo, especialmente, de Giselle Machline de Oliveira, que transitava como preferida, tanto para simples papos como para atuação em pesquisa, dentro de todos os grupos. Todos sempre achavam que tinham o que aprender com ela, e esperavam dela, inclusive, lições de vida, distribuídas, sem negaceamento, a cada frase, a cada palavra, a cada gesto e atitude. É de sua grande amiga Yonne Leite, que tão bem a conhecia, um depoimento em que a curiosidade científica e o espírito de grande mestra que Giselle possuía bem se evidenciam: bióloga que ela era, não teve dúvidas em, lá pelos anos 70, provi25
denciar uma laringe de boi – ou de vaca? – para que o seu grupo de estudos de fonética, dirigido pela Yonne, pudesse observar o funcionamento das cordas vocais. Nesse mesmo depoimento, outra notável característica de nossa Giselle – sua grande capacidade de liderança – também encontra comprovação: Yonne, recém-chegada dos Estados Unidos, queria converter todos ao gerativismo, mas, sob a liderança da Giselle, tudo terminou num grupo de sociolingüística, que, instigado por ela, ouvia antropólogos, sociólogos, demógrafos, abrindose sempre a novas indagações. De Giselle, um outro amigo, Hudinilson Urbano, diz que “tinha sensibilidade e carinho à flor da pele”. E isso foi o que, mais que tudo, nos marcou. Foi ela que simbolizou a dor da perda que o grupo teve com o passamento do colega Fernando Tarallo, em 1994: a força de sua dor era bem a amostra do quanto ela era o próprio grupo. Agora estamos nós editando este volume VII da Gramática do Português Falado em homenagem a Giselle Machline de Oliveira, “extraordinária cientista, colega, amiga, mulher e mãe” (como lhe chama o Hudinilson), falecida em 2 de abril de 1996. Faz parte do livro o último trabalho que ela produziu e apresentou dentro do grupo, trabalho que tive o privilégio de debater, no nosso seminário de 1995, em Campos de Jordão. Preparado para publicação por sua grande amiga Maria Luiza Braga, ele está aqui enriquecendo este volume VII, e adiando para o próximo volume a grande lacuna que agora se instalará no âmbito das produções do grupo. Na própria homenagem que aqui lhe fazemos, com toda a nossa força de amigos e admiradores cativos, vai notar-se que ficará faltando aquela fibra que só uma homenagem que ela própria – Giselle – encabeçasse conseguiria ter. Afinal, na amizade não se herda, e não somos mais que pálidos discípulos, que, acima de tudo, a ela agradecemos as inesquecíveis lições de caráter e de vida que nos deu.
Maria Helena de Moura Neves
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PARTE I GRUPO ORGANIZAÇÃO TEXTUAL-INTERATIVA
SEGMENTAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO DO TEXTO FALADO
Ingedore G. V. Koch (UNICAMP)
Introdução O presente trabalho insere-se no temário previsto no Projeto “Organização textual-interativa no português falado no Brasil”, a saber, no item 3.1 – “Estratégias de construção”. Essas estratégias fazem parte do subsistema de desempenho textual, pedra angular do sistema de desempenho lingüístico (cf. Nascimento, 1993). É sabido que cada língua apresenta uma variedade de formas de expressão, abrindo-se, desta maneira, para o falante um amplo espaço de formulação, isto é, a possibilidade de escolha entre um leque de opções possíveis. Assim, a construção dos sentidos no texto depende, em grande parte, das escolhas que ele realiza. As várias possibilidades de efetivar, nos textos, a articulação temarema constituem um desses leques de escolhas significativas. Este estudo objetiva, portanto, examinar as diferentes possibilidades de articulação temarema, com ênfase especial naquelas em que, em virtude de deslocamentos de constituintes, ocorre algum grau de segmentação sintática do enunciado – casos em que o falante opta pela utilização de estratégias de tematização e de rematização (ou seja, de deslocamento do tema ou do rema) –, bem como descrever as nuances de sentido que cada uma delas, quando posta em ação, viabiliza. Os conceitos de tema e rema em questão são aqueles postulados pelos autores da Escola Funcionalista de Praga (Daneš, Firbas, Sgall, entre outros),
ou seja: do ponto de vista funcional, cada enunciado divide-se em (pelo menos) duas partes – tema e rema –, a primeira das quais consiste no segmento sobre o qual recai a predicação trazida pela segunda. Isto é, tem-se um segmento comunicativamente estático – o tema – oposto a outro segmento comunicativamente dinâmico – o rema, núcleo ou comentário. Não se trata aqui apenas de um critério posicional (posição defendida, como se sabe, por muitos lingüistas), mas de um critério funcional, fortemente relacionado à prosódia do enunciado (portanto, verificável especialmente na fala) e, sob muitos aspectos, associado às noções de dado e novo. No dizer de Ilari (1992: 25), “a Escola Funcionalista de Praga “ desenvolve em suma uma lingüística da fala (...) e insiste no fato de que se podem encontrar regularidades, que autorizam tentativas de organização e descrição, mesmo no nível da oração realizada (utterance). Ora, ao analisar orações efetivamente realizadas, e não apenas orações que sirvam de exemplo de boa formação sintática, constata-se que, enquanto unidade comunicativa, a oração serve aos locutores para realizar uma dupla função: a de estabelecer um elo com a situação de fala, ou com o texto lingüístico que a precedeu, e a de veicular informações novas”. Assumindo tal posição, tomaremos como unidade básica de análise o enunciado ou a unidade comunicativa (Marcuschi, 1986: 62)1, embora, como será ressaltado mais adiante, uma construção com tema marcado tenha, em muitos casos, a função de delimitar segmentos tópicos ou indiciar a introdução ou a mudança de tópicos discursivos. Em termos da articulação tema-rema, particularmente em se tratando da língua falada, tem-se, como mostram Koch & Oesterreicher (1991), ao lado de casos de integração sintática plena (construções não-marcadas, em que o rema, portador de informação nova, sucede naturalmente ao tema, que veicula a informação dada), uma série de padrões expressivos em que se pode falar de segmentação e/ou de deslocamento de constituintes. A segmentação será aqui entendida como qualquer tipo de alteração da ordem não-marcada, devida a uma cisão ou modificação na ordem não-marcada dos constituintes, com vistas à extração ou mise-en-relief de um constituinte do enunciado, dando origem a construções de tema ou rema marcados. Daneš (1967) já afirmava que a ordem dos constituintes que seria de se esperar por razões de ordem sintática é freqüentemente infringida por razões de ordem funcional. Existem, assim, duas grandes modalidades de seqüenciação tema-rema: 1. seqüências em que ocorre plena integração sintática entre elementos temáticos e remáticos, sem qualquer tipo de segmentação (construções não marcadas), que constituem o padrão, sendo comuns à oralidade e escrita; 30
2. construções com tema ou rema marcados (em conseqüência do emprego de estratégias de tematização e de rematização), com graus mais reduzidos de integração sintática, devidos à ocorrência de segmentação, nos termos acima definidos. Objetivamos, neste trabalho, aprofundar o estudo da segunda modalidade. Serão examinados casos de deslocamento (anteposição e posposição) de elementos temáticos e remáticos. Em se tratando de tematização, serão examinados especialmente os exemplares de temas marcados representados por SNs. Não se tratará, portanto, de todos os casos de anteposição de constituintes, como, por exemplo, a anteposição dos diversos tipos de construções adverbiais, a não ser que estas venham a assumir a forma de sintagmas nominais nãopreposicionados (SPs sem cabeça, na terminologia de Kato, 1989) ou a configurar o tipo específico de tematização marcada derivada da anteposição do que, nas gramáticas tradicionais, se costuma denominar adjunto adverbial de assunto (cf. item 1.1, caso 1). Levar-se-ão em conta, na análise, os seguintes critérios: a. grau de integração sintática do enunciado, nos moldes postulados por Koch & Oesterreicher, 1991; b. procedimentos lingüísticos utilizados para realizar a tematização ou a rematização (marcas); c. funções discursivas das construções resultantes de segmentação. Esta pesquisa situa-se, pois, na interface sintaxe-discurso.
1. Seqüências tema-rema O papel das construções segmentadas é, em se tratando de construções com tema marcado, destacar um elemento do enunciado, colocando-o em posição inicial, com o objetivo de indicar para o interlocutor, desde o início, aquilo de que se vai tratar, ou em posição final, para fornecer um esclarecimento a mais, uma complementação, um adendo. O emprego destas construções permite, assim, operar um tipo de hierarquização das unidades lingüísticas utilizadas, trazendo uma contribuição importante para a coerência discursiva, da mesma forma que a anteposição do rema ao tema desempenha funções discursivas e interacionais relevantes, conforme será visto a seguir. Passaremos, pois, a examinar as seqüências tema-rema de acordo com os critérios acima explicitados. 31
1.1 No que diz respeito aos graus de integração sintática, na acepção de Koch & Oesterreicher (1991), podemos destacar os seguintes casos: 1. construções com tematização marcada, introduzidas por expressões do tipo quanto a..., no tocante a..., no que diz respeito a..., com referência a.... etc., que são comuns às modalidades oral e escrita, sendo mais freqüentes na comunicação relativamente formal. Além do enunciado que introduz o presente item, vejam-se, por exemplo: (1)
“Em relação às bancadas, os quercistas sentem maiores dificuldades no Senado. Um grupo de senadores chegou a convidar o governador Luiz Antonio Fleury Filho (SP) para uma conversa anteontem, em Brasília.”(FSP, 19/3/93, 1-9).
(2)
... e nós temos boas orquestras também ( )... inclusive na Tupi temos boas orquestras e temos... e no que tange a nossa música popular eu acho que:: agora a televisão está abrindo as portas... para a nossa música popuLAR coisa que o rádio não faz...
(NURC/SP – D2 333: 335-339) (3)
então... sobre o problema do primário... essa reforma do primário e ginásio eu não estou muito a par não, né?
(NURC/SSA – DID 231:17-19) Ilari (1992: 58) acrescenta a esse tipo de construção enunciados introduzidos mediante expressões como “por falar em...”, “a propósito de...”, “já que você tocou em “ / “já que estamos tocando em...” e outras, bastante comuns na interação informal face-a-face. 2. construções com tema marcado, em que ocorre a anteposição de um elemento do enunciado com função sintática bem definida, que é depois confirmada pela presença de um elemento de retomada no interior do comentário. Segundo Lambrecht (1981), “a coocorrência de um nome e de um pronome anaforizado nas construções deslocadas é a manifestação formal de um princípio funcional: a codificação de uma relação tema-propósito na estrutura de superfície do enunciado”. 32
Riegel, Pellat & Rioul (1994) afirmam que “a informação veiculada pela frase analisa-se em uma parte conhecida, o tema e uma parte nova, o comentário (...). Um constituinte destacado em início de frase e retomado por um pronome desempenha o papel de tema. Fala-se, então, em tematização”. Blasco (1995), por sua vez, acusando de reducionistas as análises puramente temáticas ou discursivas, procura mostrar a importância de se levarem em conta as propriedades morfossintáticas dos elementos que entram nessas construções e, em especial, de se distinguir entre deslocamentos para diante do verbo e deslocamentos para depois do verbo, já que, para ela, tanto a posição como a forma morfológica e a função sintática do elemento deslocado são indissociáveis de seu valor informacional. Tais questões serão retomadas mais adiante. Limitamo-nos, por ora, a apresentar alguns exemplos do caso em tela: (4)
... ele vai ao jogo de futebol com o tio... porque o Nélson.... fins de semana ele estuda então:: quase não sai com a gente...
(NURC/SP – D2 360: 1356-1358) (5)
então o Japão... ele... desde o seu início...((interferência de locutor acidental)) desde o seu início... ele tinha... ele contava como força fundamental das suas cidades-colônias... os dois fatores ...
(NURC/RJ – EF 379: 53-56) (6)
esses Bicudos ... parece-me que um deles foi para:: região de Itu ... e o outro entrou... para o vale do Paraíba...
(NURC/SP – DID 208: 551-553) (7)
como assim? não entendi a sua dúvida por exemplo o::... lemingue toda vez que tem superpopulação eles vão para o mar e:: se matam aos montes... (NURC/SP – D2 343: 1466-1468)
(8)
esse problema de puxar pela criança --- “Ah, não deve puxar pela criança” -- eu acho que isso não funciona muito
(NURC/SSA – DID 231: 93-95) Cabe observar que, quando o elemento de retomada é, como no exemplo (8), um pronome demonstrativo ou indefinido como isto, isso, aquilo, tudo, etc., ele remete, freqüentemente, a seqüências significativas expressas ou su33
bentendidas no contexto precedente, que nem sempre são fáceis de delimitar com precisão. 3. construções com tema marcado, sem retomadas pronominais, isto é, com elipses (categorias vazias), mas em que a função sintática, no enunciado, do elemento tematizado é, em geral, bem definida: (9)
bebida alcoólica... eu gosto muito (0) ... sabe? (NURC/RJ – DID 328: 773)
(10) mas eu:: ahn merenda escolar eu tenho pouca noção (0)... (NURC/RJ – DID 328: 510-511) (11) ... eu não viajo nem num outro carro acima de oitenta ou noventa... de velocidade... a Kombi dá pra fazer isso (0) de modo que eu vou tranqüilo (NURC/SSA – D2 98) (12) Olinda ninguém mora (0)... ninguém diz é lá que eu moro... não... diz é lá que eu pernoito (NURC/REC – D2 05: 1094-1096) (13) as comidas baianas eu gostei muito (0) sabe? (NURC/RJ – DID 328: 167-168) (14) ...então a menopausa... é::... nós vamos notar uma diminuição considerável d/dos hormônios... dessas glândulas mamárias (0) ... (NURC/SSA – EF 049: 62-64)
Casos dos tipos 2 e 3 são extremamente comuns em nosso corpus, nos três tipos de inquéritos, com o elemento tematizado exercendo as mais variadas funções sintáticas no enunciado. Há exemplos em que os dois tipos estão co-presentes, como em: (15) ... mas o campo deles eu acho que (0) está muito mais saturado do que o nosso... tanto é que:: ... eu conheço ...em:: advogados que eles estão trabalhando como ...auxiliares na nossa própria empresa entende?... (NURC/SP – D2 62: 1199-1203)
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Em outros casos, temos a coexistência dos tipos 3 e 1, como se pode verificar no exemplo (3) acima. 4. construções com tema livre (“tema pendens”, “hanging topic”), antecedendo uma seqüência oracional, sem explicitação do nexo sintático e/ou lógicosemântico: (16) agora H. ah:: filme... água-com-açúcar -- digamos assim -- para a gente ver certas coisas que a gente vê:: americanas principalmente... antes A Moreninha né?
(NURC/SP – D2 333: 779-781) (17) ... o direito... o fenômeno jurídico... você olha... o fenômeno jurídico ... através de uma perspectiva...
(NURC/REC – EF 33) Em (17), acumulam-se dois segmentos tematizados, o primeiro – o direito – um “hanging topic” e o segundo – o fenômeno jurídico – do tipo 2, com as peculiaridades que serão apontadas no item 1.2. 5. construções com deslocamento para o final de um elemento do enunciado que, no interior deste, é introduzido apenas por meio de um pronome ou de uma categoria vazia. Trata-se de um procedimento bastante produtivo, em que o SN deslocado convalida, precisando-o melhor, ou chamando a atenção sobre, o referente da forma pronominal ou da categoria vazia, desambigüizando a mensagem e facilitando a compreensão. Lambrecht (1981) chama a atenção para a importância, no francês não-standard, dessas construções, que denomina antitópicos, exemplificadas, entre muitas outras, pelo grito de guerra de Astérix: “Ils sont fous, ces romains”. Vejam-se os seguintes exemplos, extraídos do nosso corpus: (18) L1 e... depois volto para casa mas chego já apronto o outro para ir para a escola... o menorzinho... e fico naquelas lides domésticas... (NURC/SP – D2 360: 157-159) (19) ... então os ingleses estão importando os filas naciona/brasileiros... Para... amansarem – isso2 que é lindo a contribuição do Brasil para a paz ((risos) --
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não digo entre os povos mas pelo menos entre os cães -- para amansar os cães de guarda... ingleses que eram muito ferozes... (NURC/SP – D2 333: 1057-1062)
Na terminologia de Blasco (1995), temos aqui o deslocamento para depois do verbo. Segundo a autora, nesses casos, o elemento lexical deslocado para depois do verbo é sempre uma espécie de lembrete (“rappel”) lexical, referencial e sintático. Para ela, o referente do sintagma deslocado não pode ser pressuposto: será sempre um referente conhecido e dado pelo contexto anterior. Acontece, porém, que, em muitos casos, o referente, mesmo tendo sido mencionado ou indiciado, de alguma forma, no contexto anterior, é difícil de determinar, de modo que o uso desse tipo de construção tem por fim, justamente, deixar claro para o interlocutor, precisando-o melhor, o referente de que se trata, como é o caso em (18). 6. construções em que se justapõem os dois blocos de informação, sem qualquer ligação sintática. Por exemplo: (20) “e os amigos... nada...” (embora se trate de um exemplo criado, são construções extremamente comuns na fala espontânea) (21) porque a telenovela... como é feita aqui é um gênero ... que o estrangeiro... o estrangeiro... de bom nível intelec/intelectual que chega ao Brasil... se enamora das boas novelas bem entendido então Gabriela ... conversei com um professor francês que disse que jamais isso veria nada parecido em Paris... que achava a televisão que se fazia lá... do ponto de vista ficcional... era... infinitamente pior... porque... eles não tem:: eles/ eh em matéria de ficção são os velhos filmes não é? (NURC/SP – D2 333: 385-394)
Poder-se-ia, assim, definir os seis tipos aqui apresentados por meio da combinação dos seguintes parâmetros:3
36
QUADRO 1 CASO direção do desloc. ligação sintática pres. de pron.sombra caso 1 esquerda explícita ou inexistente sim/não caso 2 esquerda explícita sim caso 3 esquerda não explícita-intuível não caso 4 esquerda não há não caso 5 direita explicíta ou intuível sim/não caso 6 sem deslocamento não há não 1.2 Quanto aos procedimentos lingüísticos utilizados, podem-se, pois, arrolar os seguintes: 1.2.1 deslocamento à direita do SN extraído a. com presença de uma forma pronominal no lugar do elemento extraído; b. sem a presença de qualquer forma pronominal marcando o lugar do elemento extraposto (categoria vazia). 1.2.2. deslocamento à esquerda: a. com o uso de expressões tematizadoras (exs. 1 a 3); b. com retomada do elemento tematizado no interior do enunciado (exs. 4 a 8); c. sem retomada do elemento tematizado no interior do enunciado (exs. 9 a 14); d. através de mera justaposição, acompanhada de entonação específica (exs. 20 e 21). Nos casos de deslocamento com retomada do elemento tematizado, é interessante examinar a natureza do elemento deslocado (função sintática e categoria sintagmática), bem como a do elemento utilizado como repetidor e, ainda, as diferenças que ocorrem conforme os vários casos. 1. Quanto à função sintática do elemento deslocado (co-indexado): a. sujeito: (22) ... a glândula mamária... como vocês estão vendo... ela representa a forma de uma semiesfera... de uma semiesfera... (NURC/SSA – EF 049: 41-42) 37
(23) então a minha de onze anos... ela supervisiona o trabalho dos cinco... (NURC/SP – D2 360: 61) b. sujeito da subordinada: (24) medicina você sabe que (0) é prática (NURC/SSA – DID 231: 145) (25) ... a Air France a gente só ouve falar que (0) dá prejuízo... (NURC/RJ – D2 355: 1203-1204) c. complemento: (26) inclusive o tal pato no tucupi eu achei (0) muito ruim ((rindo)) sabe... (NURC/RJ – DID 328: 140-141) (27) mas eu... ahn... merenda escolar eu tenho pouca noção (0) (NURC/RJ – DID 328: 512) (28) doce em calda ... eu não vi (0) não... (NURC/RJ – DID 328: 287-288) d. complemento da subordinada: (29) essas outras peças que eu tenho assistido eu não acho que o público se manifestasse assim aplaudindo (0) (NURC/SP – DID 234: 116) e. adjunto (indexado à posição não-V-argumental), dando origem a “SPs sem cabeça”: (30) Paris eu não pago hotel... Paris... eu fico na casa de um amigo... apartamento de um amigo... (NURC/RJ- D2 335: 83) (31) Drama já basta a vida (NURC/SP – DID 234: 155) 38
(32) o Amazonas é impressionante o número de frutas (NURC/RJ – DID 328: 85) 2. quanto à categoria sintagmática do elemento deslocado: a. SN – simples ou complexo: veja-se, por exemplo, (27), (28), (29), (30) b. pronome – pessoal ou dêitico: (33) eles também eles comem muitas coisas... (NURC/RJ – DID 328: 171) (34) Olhe isso eu repito (0)... (NURC/REC – EF 337: 140) (35) é... isso eu já estou sabendo a causa (0) (NURC/SP – D2 343: 625) Caso interessante é o seguinte, que parece “ir contra” as regras de anaforização, já que o pronome vem antes de seu referente, ou seja, age cataforicamente: (36) L. ... inclusive o pato no tucupi eu achei muito ruim... sabe... eu não gostei realmente... achei ruim demais... não... não sei se é por que não é... eles acham aquilo maravilhoso... né... mas pro meu gosto [Doc. como é... você sabe? ] L.
é o pato é assim... ele vem o pato cozido feito uma espécie de canja... (NURC/RJ – DID 328: 140-147).
Talvez se pudesse classificá-lo como um deslocamento à direita, mas não me parece ser este o caso. Seria algo como: “Nesse prato (pato no tucupi) o pato vem cozido...” ou “Ele (o pato) vem cozido”. c. SP: (37) De primeira classe hoje em dia aqui nós temos poucas 0 (NURC/SSA – D2 98: 194) 39
d. SP sem cabeça: (38) ... o Amazonas é impressionante o número de frutas... (NURC/RJ – DID 328: 90-91) 3. Quanto à categoria sintagmática do elemento co-indexado interno ao enunciado: embora se costume dizer que o caso mais comum é a retomada através de um pronome-cópia ou pronome-sombra (pessoal, demonstrativo, partitivo), são mais freqüentes em nosso corpus as retomadas através da repetição integral ou parcial do próprio elemento lexical anteposto, como foi também constatado por Koch (1992) e Callou, Moraes, Leite, Kato et al.(1993) e se pode ver nos exemplos abaixo: (39) ... então a salada pro... pro pessoal de Buenos Aires a salada se resume a alface e tomate... (NURC/RJ – DID 328: 231-232) (40) Doc. a que se deve esse hiato que o senhor mencionou? Inf. o quê? Doc. esse hiato Inf. esse hia::to olha é um pouco difícil de se estabelecer assim:: a ... causa desse hiato porque ... o...essa... (é) o Orfeu do Carnaval se eu não::estou bem lembrada da data... mas me parece que foi num momento... (NURC/SP – D2 333: 698-704) (41) não... tu vês... por exemplo... o peixe ... peixe aqui no Rio Grande eu tenho impressão que se come peixe exclusivamente na Semana Santa... (NURC/POA – D2 291: 25-26) (42) um arquiteto que se forma, o salário inicial de arquiteto (es)tá em torno de quatro mil e quinhentos cruzeiros... (NURC/RJ – D2 335: 265-267) Questão interessante, que já tem sido objeto de estudos na área da sintaxe (cf. por exemplo, Kato, 1989) e na interface sintaxe/discurso (cf. Pontes, 40
1987), é a do SP sem cabeça: em sendo o elemento tematizado um adjunto adverbial introduzido por preposição, ao operar-se o deslocamento para a esquerda, a preposição é, com grande freqüência, omitida na fala. Isto me leva a discordar de Ilari (1992: 56), quando afirma haver “uma compulsão para preposicionar o tópico quando falta um pronome-sombra no comentário”(o que explicaria, inclusive, o uso do objeto direto preposicionado), mesmo porque tal uso fica praticamente limitado à linguagem escrita ou à fala altamente formal. Relevante é lembrar, como o faz também Blasco (1995: 53), que os elementos lexicais deslocados para diante do verbo, mesmo que já tenham sido mencionados no contexto precedente, nem sempre correspondem a entidades dadas, no sentido de informação velha, de modo que se faz preciso distinguir entre retomada lexical e retomada referencial. Há casos, por exemplo, em que se antepõe ao verbo um SN genérico, que é depois retomado no interior do enunciado por um pronome ou um SN definido, que refere membros da classe, sendo, pois, ao mesmo tempo, novo e previsível, devido à relação semântica que mantém com o SN já mencionado, como em (43): (43) como assim? não entendi a sua dúvida por exemplo o::... lemingue toda vez que tem superpopulação eles vão para o mar e:: se matam aos montes (NURC/SP – D2 343: 1466-1468) Outras vezes, o SN anteposto é retomado apenas parcialmente (cf. ex.42); ou, então, expande-se, por ocasião da tematização, um SN presente no contexto imediatamente anterior (em exemplos como “O motor é novo; um motor novo, ele necessita de um tempo de amaciamento”). Pode ocorrer, também, a tematização de um elemento lexical que designa um domínio de referência (frame), sendo o elemento de retomada um dos elementos desse domínio (em exemplos do tipo O ônibus, o pneu estava furado.), isto é, o elemento de retomada pode remeter a algum conhecimento pressuposto pelo SN tematizado. Também aqui, o elemento deslocado é, ao mesmo tempo, novo e previsível, em função do nexo semântico que mantém com um elemento precedente4. Há, ainda, casos como o do ex. (17), em que o “hanging topic” – o direito – é, em seguida, especificado por outro elemento tematizado – o fenômeno jurídico –, sendo este retomado no interior do enunciado. 41
Interessante é também o exemplo (44) abaixo, em que o SN complexo tematizado é retomado por outro elemento também tematizado, no caso, o demonstrativo aquilo: (44) aquelas matérias todas que publicam ali aquilo até eu coleciono (0) (NURC/SP – D2 255: 1176-1177) Outro caso em que o elemento tematizado não veicula necessariamente informação dada é aquele em que dois enunciados são ligados por conectivos semânticos. Reinhart (1980) defende a posição de que, ao relacionarem dois enunciados, os conectivos semânticos abrem a possibilidade de se introduzir, no tema (marcado) do segundo, informação nova. Seria o caso de: (46) L1
agora eu vou por isso só... porque eu tenho que fazer esse negócio e vou aproveitar pra uma coisa que há muito tempo desejava ver... que é o Maquiné...
L2
Maquiné...
L1
... tem uma visita à gruta do Maquiné... porque Ouro Preto eu já conheço já tive lá... Congonhas também... de modo que minha pretensão agora é essa... (NURC/SSA – D2 98: 110-117)
Contudo, a informação aqui introduzida é nova apenas com relação ao contexto imediatamente precedente: levando-se em conta que o tópico desse segmento é viagens e que o locutor está falando de Maquiné, local turístico do Estado de Minas, Ouro Preto e Congonhas fazem parte do mesmo frame ou domínio de referência.
1.3 Quanto às funções da tematização: Vimos acima que, ao lado das seqüências em que há integração plena entre elementos temáticos e remáticos, sem segmentações ou retomadas pronominais – as construções não-marcadas, que constituem um padrão neutro em relação a oralidade/escrita – têm-se os procedimentos de tematização marcada, alguns também comuns aos textos falado e escrito (em geral aqueles em que se 42
verifica maior integração sintática!), outros típicos apenas da modalidade oral. Pode-se dizer que, de modo geral, ao recorrer às construções com tema marcado, o falante seleciona um elemento (estado de coisas, propriedade, relação, coordenada espacial ou temporal, indivíduo ou grupo de indivíduos etc.) que deseja ativar ou reativar na memória do interlocutor e sobre o qual seu enunciado deverá lançar nova luz, para apresentar a seguir algo que considera desconhecido por este, que deseja enfatizar ou com o qual pretende estabelecer algum tipo de contraste. É por esta razão que o elemento tematizado desempenha papel relevante no processamento pragmático-cognitivo do sentido, na medida em que esta forma de organização é determinada quer por questões ligadas à continuidade ou mudança de tópico, quer por fatores como facilitação do processamento do texto, interesse, relevância, expressividade, necessidade de ganhar tempo para o planejamento da parte restante do enunciado, entre outros. Vejamos um exemplo em que, através da tematização, se introduz um novo segmento tópico: (46) Doc. agora aquela zona ali do Paraná... eu tenho parentes lá... as sobremesas deles você teve oportunidade de... L.
ah... sobremesas... não... nós não ficamos muito tempo em Curitiba nós... fomos a/ viemos.... quando nós voltamos da Argentina nós fizemos pernoite só em Curitiba e viemos...entende? (NURC/RJ – DID 328: 252-258)
Em (47), por sua vez, a tematização do SN bebida alcoólica na resposta do informante assinala a mudança de tópico induzida pela pergunta do doc. (47) Doc.e bebida alcoólica? L.
bebida alcoólica... eu gosto muito... sabe... e domingo também eu às vezes me dou ao luxo... eh...às vezes a gente põe assim um vinhozinho ... então a gente toma vinho de acordo também com o tipo de comida... se é carne... aqueles hábitos que a gente tem... se é carne é vinho tinto... se é peixe a gente usa vinho branco... (NURC/RJ – DID 328: 772-778)
O exemplo(4), aqui retomado como (48), é um exemplo em que, através da tematização, ocorre a retomada de um tópico anterior (Nelson, marido da locutora, havia constituído o tópico de um segmento anterior do diálogo): 43
(48) ... ele vai ao jogo de futebol com o tio... porque o Nélson... fins de semana ele estuda então:: quase não sai com a gente (NURC/SP – D2 360: 1356-1358) Em (49), temos um caso semelhante: o documentador apresenta um quadro tópico – derivados do leite – cujos diversos itens a locutora passa a desenvolver para, no final, através de um “aposto resumitivo”, reiterar o tópico que lhe foi oferecido, sob forma de um antitópico: (49) Doc. há um derivado da:: do leite... que (assenta) bem em regimes... dependendo do tipo né?... L.
é o queijo de Minas... eu o uso:: de manhã às vezes eu como um pedaço de queijo Minas... e quando eu éh quando eu sinto que vou passar (um) período do dia... fora de casa que eu não vou chegar a tempo pra comer meio-dia... eu então levo um pedaço de queijo de Minas... é o que eu uso e/ uso também muita ricota...
Doc. ah tá... L
. ... gosto muito de ricota... sa/ iogurte às vezes eu em vez de tomar café com leite... eu tomo iogurte ou coalhada também... que eu gosto... sabe?... eu gosto muito de coalhada... iogurte esses produtos derivados do leite eu... mas só... queijos brancos... eu só como queijos brancos (NURC/RJ – DID 328: 610-623)
Outra função que costuma ser atribuída à tematização é de estabelecer contraste entre a informação veiculada pelo elemento tematizado e alguma informação apresentada anteriormente ou à qual a primeira se opõe. Veja-se, por exemplo: (50) L2 ... os outros mesmos não se incumbem de colocá-la no lugar dela? L1
bom... com uns TApas... às vezes ela se coloca
L2
ahn
L1
[mas com palavras ela não se coloca porque ela
L2 L1
[ ahn aumenta a voz com os irmãos... não é? ... (NURC/SP – D2 360: 258-234)
44
Função interessante é aquela apontada por Blasco (1995: 52). Segundo ela, o deslocamento do SN para diante do verbo funciona como um dispositivo que permite retomar, em posição associada ao sujeito, um elemento lexical com todo o seu peso referencial. Assim, de uma parte, o elemento lexical se desloca no interior do discurso de uma posição construída pelo verbo regente (argumental) a uma posição não construída (não-argumental); de outra parte, esse deslocamento permite “retomar” o elemento já citado no contexto anterior em posição associada ao sujeito, podendo-se, assim, dizer que se trata de uma articulação sintática que organiza a repetição. A par de tudo o que foi discutido acima, pode-se afirmar, de conformidade com Van Dijk (1982, 1983) que, ao estabelecer o quadro geral de referência no interior do qual o conteúdo proposicional do enunciado se verifica, a estratégia da tematização desempenha papel de relevo na construção da coerência, tanto no nível local, quanto no nível global do texto.
2. Seqüências rema-tema Ao lado das estratégias de tematização acima descritas, existem, também, as estratégias de rematização, responsáveis pela marcação do elemento focal, freqüentemente com a anteposição do rema ao tema. 2.1 Também aqui podem-se observar diferentes graus de integração sintática, nos termos de Koch & Oesterreicher(1991): 1. casos em que se verifica um alto grau de integração sintática é o de algumas das orações, comuns à fala e à escrita, denominadas cindidas por Ilari (1992: 43), nas quais ocorrem “partículas de realce” ou construções gramaticais utilizando orações relativas que “desdobram” a oração em duas partes. Tais orações são também denominadas na literatura de clivadas (cf., por exemplo, Kato et al. 1995; Braga,1991), podendo apresentar configurações sintáticas bastante diferentes. Em (51), que é clivada, bem como em (52), que constitui clivada com inversão (cf. Kato et al., 1995), antepõe-se o elemento focal, ocorrendo, portanto, a rematização: 45
(51) é o tal problema que a gente sente (NURC/SP – D2 62: 325-326) (52) ... é isso que eu acho entende? (NURC/SP – D2 62: 436 – D2 343: 1571-1573) Já (53) consiste em exemplo do que se tem denominado pseudo-clivada em que ocorre rematização: (53) o que me revolta profundamente é o programa Cinderela (idem). (NURC/SP – D2 333: 1117) 2. construções com rema anteposto, marcado apenas prosodicamente, específicas da modalidade oral. Segundo Ilari (1992: 43-44), a expressão do rema está sempre associada a algum tipo de proeminência entoacional. Assim, ao papel de rema estaria ligado um invariante fonológico que permite o seu reconhecimento nas diferentes posições da oração em que possa ocorrer5. Vejamse alguns dos exemplos extraídos de nosso corpus: (54) ..passei ali em frente à:: Faculdade de Direito... então estava lembrando... que eu ia muito lá quando tinha sete nove onze... (com) a titia sabe?... e:: está muito pior a cidade... está... o aspecto dos prédios assim é bem mais sujo... tudo acinzentado né? (NURC/SP – D2 343: 20-24) (55) L1 L2
... e toda segunda à noite eu passo ali do lado da faculdade certo? quando você vai pra:: para Aliança né? [
L1
é quando eu pego o carro... e:: também é horrível o aspecto... (parece) assim montoeira de concreto... sem nenhum aspecto humano certo? (NURC/SP – D2 343: 28-33)
(56) ... Lins por exemplo não é assim né? você tem... tem um aspecto de::... de acho que parece bairro a cidade né? (NURC/SP – D2 343: 58-59) 46
(57) Doc. vocês acham então que o noticiário em TV tem melhorado bastante [ tem pode melhorar mais nesse ponto o o:: telejornal nosso... pode aprimorar bastante... eu acho... bastante (NURC/SP – D2 333: 988-902) Interessante é notar que, no exemplo acima, tem-se um caso de “doublebind” sintático (cf. Frank, 1986): o tema o o:: telejornal nosso, posposto ao rema, torna-se, por sua vez, o tema (não marcado) do rema seguinte pode aprimorar bastante . (58) então o cara aí ... analogia né? o cara está no carro mas... o que querem?... é tribal a coisa né? (NURC/SP – D2 343: 701-702) (59) e o pato é assim... ele vem o pato cozido feito uma espécie de canja... só que o caldo é justamente é uma água misturada com uma farinha eu acho
que é... é ta/ tacacá se não me engano o nome da farinha que eles usam... (NURC/RJ – DID 328: 133-136) 3. seqüências formadas dos dois blocos – rema-tema – sem verbo, apenas justapostos sem vínculo sintático, em que ocorre um aumento da expressividade, a par de um menor esforço de planejamento6: (60) ...eu gostei é um filme de amor... umas cenas maravilhosas... lindo o filme... eu assisti faz tempo já... (NURC/SP – DID 234: 335-337)
4. seqüências em que se antepõe um elemento remático que é repetido imediatamente na seqüência (cf. Castro, 1994). Trata-se de repetição que incide quase sempre sobre um substantivo, adjetivo, advérbio ou verbo, tendo, como uma das principais funções, enfatizar o significado essencial do termo ou, muitas vezes, questionar a adequação de seu emprego naquela situação Por exemplo, “almoçar, não almocei ainda; só comi um sanduíche na cantina”; “bom bom, só achei 47
o último capítulo”) Todavia, no exemplo (61), extraído do nosso corpus, não me parece ser esta a função, mas algo como “você me pergunta se evoluiu, e eu me apresso a responder” ou, então, “é preciso reconhecer que evoluiu”: (61) Doc. você acha que o teatro evolui::u? como é que está? Inf. evoluir evoluiu... evoluiu muito o teatro principalmente no Brasil... (NURC/SP – DID 161: 625-627) 2.2 Quanto aos procedimentos lingüísticos utilizados, tem-se, basicamente, o deslocamento à esquerda . Este pode ocorrer acompanhado apenas de marcas prosódicas (casos 2 e 3), ou com a utilização de determinadas marcas sintáticas que caracterizam as orações cindidas (caso 1), a saber: a. expressão é que(foi que) delimitando o rema anteposto b. expressão é que(foi(o) que/ que) seguindo o rema anteposto c. construções gramaticais usando orações adjetivas, como o que(me) ... é/foi, podendo o pronome relativo vir elidido . 2.3 Quanto às funções que desempenham as construções com anteposição do rema, verifica-se que estão diretamente ligadas à expressividade e ao envolvimento do falante com o assunto e com o interlocutor, sendo, por isso, mais freqüentes na fala do que na escrita, especialmente em situações de interação menos formais. A anteposição do rema ao tema constitui expressão de alto envolvimento. Na perspectiva do falante, permite-lhe antecipar na formulação aquilo que constitui a meta de sua comunicação; do ponto de vista do interlocutor, tal seqüência, normalmente acompanhada de acentuação entonacional do rema, é sentida como marcada relativamente à seqüência tema-rema e, portanto, veiculadora de algum tipo de informação discursiva adicional, o que, sem dúvida, compensa o seu duplo custo operacional: o rema fora de sua posição sintática normal e de sua posição em termos da estrutura informacional dado/novo. Assim, no caso das orações cindidas, em que comumente a parte focal representa informação nova e a parte pressuposicional, informação dada, a função é enfatizar o rema anteposto. Desta forma, um importante fator determinante do uso das cindidas seria o propósito do falante de assinalar uma 48
sutil oposição ou contraste. Segundo Hupet & Costermans (1982: 280), ao usar uma estrutura cindida, a intenção do falante é contrastar sua mensagem com qualquer outra proposição que poderia invalidá-la. Os autores acabam por concluir que, em termos dos componentes pragmáticos determinantes desse uso, as cindidas podem ser vistas como motivadas pela discordância que o falante supõe existir entre a sua posição e aquela que ele se sente autorizado a atribuir ao seu interlocutor. É importante essa ressalva: não se trata da real posição do interlocutor, mas daquela que o falante lhe atribui, isto é, das crenças que, correta ou incorretamente, o falante atribui ao seu parceiro. Hupet & Costermans ressaltam, ainda, que há casos em que a oração cindida enfatiza não um elemento que poderia ser visto como não partilhado pelo interlocutor, mas um elemento sobre o qual o próprio falante não tinha total certeza até alguns minutos atrás. Aqui seria como se o falante “falasse com seus botões”, corrigindo seu ponto de vista anterior. Ao contrário das estratégias de tematização, que têm sido objeto de ampla gama de investigações, as estratégias de rematização, excetuando-se o caso das orações clivadas e pseudo-clivadas, constituem um domínio ainda pouco explorado, pelo menos no que diz respeito ao português (ressalve-se, contudo, o trabalho de Ilari, 1987/1992).
Considerações finais O grupo de estratégias que estamos estudando sob o rótulo de segmentação tem interferência direta na produção do sentido e exerce, portanto, papel relevante na construção do texto e da coerência textual. As marcas de redundância implicadas na formação das construções segmentadas, conforme ressalta Lèbre (1987: 129), constituem, para o locutor, um meio de remediar os inconvenientes da linearidade da fala, já que nesta qualquer retorno é impossível, bem como acrescentar ao seu enunciado índices que, sem elas, não lhe seria possível inserir. Freqüentemente, as construções segmentadas, por vezes precedidas ou seguidas de hesitações ou de marcadores discursivos como enfim, quer dizer, bom, bem, entre outros, são resultantes de estratégias de reformulação ou correção do texto falado. Além disso, como bem mostra Lèbre, a segmentação permite ao locutor proceder a uma espécie de hierarquização das unidades lingüísticas utiliza49
das, e apresentar um ponto de vista pessoal, modalizando destarte seu enunciado. Desta forma, tais construções constituem marcas da inscrição do enunciador no discurso. Ao destacar um elemento do enunciado, estabelece-se uma oposição entre ele e outros elementos, que pode ser explícita ou implícita. As oposições implícitas, que são apenas sugeridas pelo elemento destacado, revelam a presença de um não-dito: “Faire d’un objet quelconque un thème marqué, l’isole et par là même le définit comme quelque chose dont le commentaire ne peut s’appliquer qu’à lui. Il y a une exclusion implicite dans toute topicalisation, et dans tout thème marqué, il y a toujours, implicite, un autre”. (Laparra, 1982: 222, apud Lèbre, 1987). Além disso, salienta Lèbre, as construções segmentadas desvelam um não-dito de certa forma inerente à elaboração de toda e qualquer produção de linguagem, já que permitem distinguir entre o que é posto e o que é pressuposto e estabelecem as próprias condições de existência do discurso. Assim, para o interlocutor, as construções segmentadas são também o índice de uma confrontação ou de uma aproximação não explicitamente marcada entre os propósitos explicitamente apresentados e outras produções discursivas, o que vem comprovar a afirmação de Bakhtin (1929: 113) de que “toda comunicação verbal, toda interação verbal, desenrola-se sob a forma de um intercâmbio de enunciados, isto é, sob a forma de um diálogo”. São as aproximações implícitas que permitem relacionar a expressão destacada, isolada do enunciado, à temática global de um discurso, estabelecendo um liame entre seus diferentes segmentos. Isto explica por que, muitas vezes, o emprego de construções segmentadas coincide com a passagem de um segmento tópico a outro, isto é, marca uma mudança ou um deslocamento do tópico discursivo. Outra função importante das construções segmentadas em que se desloca para a direita o elemento extraído é, como foi dito, a de desambigüizar o enunciado e facilitar a compreensão: a redundância assegurada pela retomada contribui para a melhor interpretação do texto e para a construção de sua coerência. Por todas estas razões – a par de outras que não puderam ser aqui destacadas – é que se pode afirmar que as estratégias de segmentação desempenham papel de relevância na construção e na compreensão do texto falado. Embora muitas delas já tenham merecido bastante atenção da parte de muitos sintaticistas e semanticistas, as abordagens textuais-discursivas são ainda 50
pouco numerosas em nosso país, especialmente em se tratando das estratégias de rematização, embora, evidentemente,se deva ressalvar, a par de outros, os autores citados neste trabalho.
NOTAS 1
“A expressão unidade comunicativa é aqui tomada (cf. Rath, 1979) como substituto conversacional para ‘frase’, ou seja, é a expressão de um conteúdo que pode dar-se, mas não necessariamente, numa unidade sintática tipo frase.” (Marcuschi, 1986: 61/ 62).
2
Observe-se que isso, neste exemplo, parece funcionar, simultaneamente, como anafórico e catafórico, isto é, remete tanto ao que o precede, como ao que vem na seqüência.
3
Este quadro me foi sugerido por Rodolfo Ilari, mas, infelizmente, acho que não consegui dar-lhe o aspecto sintetizador por ele proposto.
4
Tais entidades entram na categoria das inferíveis, na classificação proposta por Prince (1981).
5
Muitos autores tratam tais exemplos como casos de deslocamento à direita. Ilari, por exemplo (comunicação pessoal) os enquadraria como antitópicos; Kato (1989) os considera como exemplos de deslocamento à direita do tópico, que supõem um sujeito nulo. Prefiro, contudo, sustentar a tese da rematização e acredito que uma análise prosódica mais acurada que pretendo empreender com o auxílio de um fonólogo deverá vir a reforçar esta posição.
6
É o que Kato (1989) denomina “free small clauses”.
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A CORREÇÃO NO TEXTO FALADO: TIPOS, FUNÇÕES E MARCAS
Leonor Lopes Fávero Maria Lúcia da Cunha Victório de Oliveira Andrade Zilda Gaspar Oliveira de Aquino (Universidade de São Paulo)
1. Objeto da Pesquisa e Corpus O presente trabalho integra o projeto maior da Gramática do Português Falado que se propõe a elaborar uma gramática referencial da língua falada no Brasil. Nesse sentido, investigar-se-á um dos processos de formulação do texto falado – a correção, como contribuição para que se possam explicitar quais os mecanismos de construção desse tipo de texto. O corpus restringe-se, predominantemente, ao material do Projeto Norma Urbana Culta (NURC), englobando as três modalidades de inquérito: Diálogo entre dois informantes (D2), Diálogo entre informante e documentador (DID) e Elocução formal (EF), não excluindo o exame de conversações espontâneas, coletadas em situações e contextos variados. As gravações espontâneas não utilizaram video-tape (da mesma forma que o material do Projeto NURC), já que não se considerou a configuração não-verbal (gestos, mímica e outros). A escolha das três modalidades deveu-se ao fato de que se julgava possível encontrar uma freqüência significativa de casos de correção nos inquéritos em que há maior convergência de situação menos formal e maior troca de turnos. De fato, esses dados repercutem na formulação do texto: quanto maior a troca de turnos, isto é, a dialogicidade, menor a formalidade e maior o número de correções encontrado, revelando, claramente, nas marcas deixa53
das no texto, o processo de co-autoria. É preciso salientar que o tipo de inquérito e não o tempo de gravação parece ser fator determinante quanto à localização das correções. Considerando-se a relação dialogicidade/ formalidade numa escala decrescente/crescente, foram analisados: – Diálogos entre dois informantes (D2) São Paulo inquérito 360 São Paulo inquérito 396 Recife inquérito 05 – Diálogo entre informante e documentador (DID) São Paulo inquérito 234 Recife inquérito 131 Rio de Janeiro inquérito 328 – Elocuções formais (EF) São Paulo inquérito 405 São Paulo inquérito 377 Rio de Janeiro inquérito 379 Neles foram localizadas 75 correções (o que mostra ser a correção um dos mecanismos mais utilizados na língua falada), assim distribuídas: D2
32
DID
28
EF
15
Como o trabalho está voltado para a elaboração de uma gramática referencial da língua falada, “é necessário identificar regularidades na construção do texto falado, regularidades dadas pela recorrência em contextos definidos, pelas marcas formais que os caracterizam e pelo preenchimento de funções 54
que lhes são específicas” (Proposta Teórica), já que somente a junção desses dados permite chegar-se à sistematicidade do processo.
2. Bases Teóricas Como já foi dito, esta pesquisa integra o Projeto Gramática do Português Falado, subgrupo “Organização Textual-Interativa” cuja proposta teórica (Koch et alii, 1994), assentada na Pragmática, na Lingüística Textual e na Análise da Conversação, vê a linguagem como atividade de interação social, isto é, como manifestação de uma competência comunicativa, definível como “capacidade de manter a interação social mediante a produção e entendimento de textos que funcionam comunicativamente” (id. ibid.). Essa competência comunicativa não exclui a competência lingüística (conhecimento de um sistema de regras interiorizado pelos falantes e que lhes permite produzir e interpretar orações) nem a ela se adiciona, mas, pelo contrário, a requer para a formulação e compreensão textual. O texto, unidade global de análise, “um subproduto que congrega e sinaliza o processo de produção e interação, é visto como lugar privilegiado para a identificação de pistas que marcam as regularidades e caracterizam o sistema de desempenho lingüístico, constituído dos subsistemas fonológico, morfossintático e textual” (Nascimento, 1993).
3. A Correção Enquanto Atividade de Formulação 3.1 Conceituação e Propriedades Identificadoras Segundo Antos (1982: 92), o locutor que produz um enunciado não efetua somente uma seqüência, mas realiza uma atividade intencional: formular é efetivar atividades que estruturam e organizam os enunciados de um texto. “Formular um texto não é só planejá-lo, mas também realizá-lo” (id. ibid.) e o esforço que o locutor faz para produzir um enunciado se manifesta, como já foi dito, por traços que ele deixa em seu discurso, isto é, formular um texto não significa simplesmente deixar ao interlocutor a “tarefa” da compreensão, mas significa deixar, através das marcas, pistas para que ele, interlocutor, se esforce por compreendê-lo; isso faz com que a produção do texto falado seja ação e interação. “A compreensão nunca se realiza na perspectiva de um dos interlo55
cutores. É preciso que a ação de ambos convirja para que ela ocorra” (Hilgert, 1989: 147). Partindo-se dessa concepção, é possível observar as atividades de formulação em ocorrências nas quais não há evidência de “problemas” de processamento e linearização e um outro tipo em que há evidência de “problemas” de formulação e é preciso resolvê-los. As situações que desencadeiam essas atividades de formulação aqui denominadas “problemas”, segundo Antos (id.), recebem diferentes denominações: trouble-source (Schegloff, Jefferson e Sacks, 1977: 363), störungen (Gulich e Kotschi, 1987: 233), turbulências (Marcuschi, 1986: 30). São constituídas por: – hesitações, quando o “problema” é captado durante sua formulação/ linearização, isto é, on line, caracterizando-se por seu aspecto prospectivo, já que tem como escopo algo que vem depois; – correções e alguns tipos de paráfrases e repetições1 (denominados por Gulich e Kotschi (id.) de refrasagens: repetição de uma estrutura léxicogramatical), quando o “problema” é captado após sua formulação, isto é, ele é textualmente manifestado e dá-se, então, uma reformulação (re + formulare = formular de novo). Estas reformulações apresentam um aspecto retrospectivo, tendo como escopo um elemento anterior. Vejam-se os exemplos: (1)
L1 ... não tem ainda assim muita::... éh uma... um objetivo a atingir sabe? (SP-D2 360: 1290-92, p.169)
(2) L2 depois disso ainda ti/tive problemas de...saúde problemas de tiróide não sei que:: (SP-D2 360: 75-76, p.138) (3) L1 a irmã dela eu conheço que é jornalista né? é uma moça jornalista... L2 poetisa L1 poetisa... (SP-D2 333: 622-625, p.249)
56
Em (1), L1, seguindo o curso normal da formulação depara-se com um problema de formulação/ linearização: encontrar a palavra adequada para dar seqüência ao turno: após uma... hesita e acha a palavra adequada: um objetivo. Em (2), a locutora julga importante explicitar problema de saúde, reduzindo a abrangência do enunciado-fonte: problema de tiróide, criando uma paráfrase. Em (3), L2 corrige L1 – jornalista X poetisa – que no terceiro turno acata a fala de L2, instaurando uma correção. A correção, objeto de estudo deste trabalho, desempenha papel considerável entre os processos de construção do texto, como demonstra o número elevado de correções encontradas nos inquéritos analisados. Corrigir é produzir um enunciado lingüístico (enunciado reformulador – ER) que reformula um anterior (enunciado fonte – EF), considerado “errado” aos olhos de um dos interlocutores; a correção é, assim, um claro processo de formulação retrospectiva: problema de formulação
EF
retrospectiva
reformulação correção ER
Veja-se o exemplo a seguir em que L1 percebe um problema de formulação no enunciado de L2 (meu genro), sugere uma reformulação (seu genro não seu cunhado) e L2, aceitando , processa a correção: (4) L2 a filha do Osvaldo... nesse tempo meu genro era... L1 ( ) L2 vereador parece
L1 seu genro não seu cunhado [ L2
meu meu cunhado que já morreu que foi vereador (SP-D2 396: 1510-1514, p.218-219)
57
O enunciado X (meu genro) é reformulado pelo enunciado Y(seu cunhado) com a finalidade de garantir a intercompreensão, podendo-se depreender o seguinte esquema: X
Y=
x R y (R = relação semântica)
R É necessário salientar que a paráfrase e a refrasagem (= quase repetição) têm também a função de assegurar a intercompreensão, porém “elas se diferenciam pela natureza da relação semântica (R) que liga o enunciado reformulador (Y) ao enunciado fonte (X) e pelos marcadores de reformulação” (Gulich e Kotschi, 1987: 43). Na paráfrase há uma relação de equivalência semântica, na refrasagem, de sinonímia denotativa e na correção, de contraste, entendendo-se essas relações no sentido que lhes dá a semântica estrutural (Greimas, 1966; Lyons, 1977). (5)
temos o caso por exemplo aqui do nosso sindicato...que recentemente construiu... uma sede...um edifício de quatro pavimentos... edifício moderno (RE-DID 131: 65-68, p.2)
(6) L2 (...) depois o café:: em casa o café é muito demorado... muito complicado (SP-D2 360: 311-312, p.144) (7) L1 agora tem sempre... L2 um já ajuda o outro L1 numa família grande há sempre um com tarefa de supervisor... por instinto não é por obrigação... (SP-D2 360: 188-191, p.141)
Em (5) a fala de L2 mantém a mesma dimensão semântica da fala de L1, instaurando-se uma paráfrase. 58
Em (6) há uma relação de sinonímia, efetivando uma refrasagem. Esse tipo de reformulação pode ser incluído na categoria das repetições, conforme o fez Gaulmyn (1987) para quem se torna problemático o limite entre as repetições e as paráfrases. Esse autor inclui entre as repetições os casos em que as mesmas palavras reaparecem, mas podendo aí ocorrer redução, expansão, reordenação, já, nas paráfrases, delimita os casos que apresentam uma substituição sinonímica, uma explicação ou uma ilustração. Em (7), L1 emprega o verbo ter no sentido de haver e, após o turno de L2, reformula seu enunciado com o verbo haver, efetuando uma correção. Neste inquérito observa-se uma preocupação de L1 em empregar a norma culta, visto estar ciente de quem é seu interlocutor (falante culto). O enfoque, então, é interacional, já que, ao reformular seu enunciado, L1 preserva sua imagem diante de L2. Por apresentarem traços comuns, a reformulação de ter por haver não ocorreria se a conversação fosse efetivada por falantes que se utilizassem de outras variantes da língua. Para eles, não haveria contraste semântico, mas sim, uma espécie de neutralização entre os dois termos. Como se pôde observar no corpus, muitas vezes são tênues os limites entre paráfrase e correção e certos casos podem ser considerados – como já assinalou Barros (1993) – tanto paráfrases como correções, ocorrendo uma neutralização entre as oposições. O que se pode observar é que na paráfrase é maior o ponto de contato em relação à questão da equivalência semântica, enquanto na correção este ponto de contato é menor. Além disso, merece ser incluído o aspecto pragmático-interacional, pois em muitos casos ele se coloca como elemento norteador para que se efetive a reformulação, como se observou em (7). Gulich e Kotschi também consideram difícil a delimitação entre paráfrase e correção porque na correção o “erro” não é necessariamente erro, mas assim é considerado e, como tal, substituído por um outro termo. Daí resulta para a correção a mesma estrutura básica da paráfrase: EF
ER
Após o exame dos limites entre paráfrase e correção, torna-se necessário observar as diferenças entre correção e hesitação, já que esta última constitui também uma atividade de formulação. 59
Observem-se os fragmentos: (8) L2 é...es/essas esses progressos...houve isso houve muito progresso (SP-D2 333: 379-380, p.243)
(9)
...tendo em vista os elevados custos... que nós...habitualmente verificamos...quando se trata por exemplo de uma...de um pro/quer dizer de um problema de internação... hospitalar por exemplo (RE-DID 131: 15-17, p.1)
Exemplos como esses revelam o que já foi apontado por Koch e Osterreicher (1990: 60) de que “em todas as línguas existem procedimentos e elementos que permitem introduzir no interior do discurso o próprio processo de formulação tão logo surgem dificuldades de formulação na ‘prospectiva’ o que dá tempo e facilita a compreensão”. Nos dois casos há uma retomada da construção para reelaborar os enunciados. Como observa Marcuschi (1993: 92), “a hesitação deve ser vista como uma evidência de planejamento e verbalização simultâneos (...). A hesitação diz respeito (Petrie, 1987) ao como se está falando e não ao que se fala...”. Chafe (1985:18) também afirma que a hesitação constitui uma “evidência de que a fala não é matéria de regurgitação de materiais já estocados na mente em forma lingüística, mas é um ato criativo, relacionando dois meios, pensamento e linguagem, que não são isomórficos, mas que requerem ajustes e reajustes mútuos”. A hesitação difere da correção porque esta, como já dissemos, representa uma solução a um dado problema de formulação retrospectiva, enquanto a hesitação é produzida na prospectiva. Problema de formulação hesitação
prospectiva
Um critério de distinção entre hesitação e correção é o que diz respeito ao estágio de desenvolvimento da formulação/reformulação textual. Nos ca60
sos de ocorrência de hesitação, detecta-se uma interrupção no fluxo informacional, devido a uma má seleção futura de um ou mais termos do enunciado, resultando um enunciado ainda não concluído do ponto de vista da organização sintagmática. Por outro lado, instaura-se uma correção num ponto em que uma má seleção já se efetivou, o enunciado já poderia ser considerado como concluído do ponto de vista sintagmático, mas é necessário reformulá-lo, por motivos já expostos neste trabalho. Desse modo, casos como os dos exemplos (8) e (9) são aqui considerados hesitações e não correções como o fazem alguns lingüistas. Comumente se considera a correção um mecanismo que repara infrações a regras conversacionais (Sacks, Schegloff e Jefferson, 1974), porém a visão aqui proposta é mais ampla, já que se considera o papel da correção na construção do sentido do texto.
3.2 Tipos O exame do corpus confirmou a existência de dois tipos de correção: a infirmação (do latim infirmare = anular, revogar, invalidar) e a retificação (do latim rectificare = que segue sempre a mesma direção)2 . Consideremos os exemplos: (10) L1 ela vive dançando a Laura a:: Estela a Laura não se definiu tenho a impressão de que ela vai ser PROmotora... (SP-D2 360: 1374-1376, p.171) (11) L1 então eu tenho impressão de que quando o menor... já:: estiver assim... pela quarta série terceira quarta série... ele já estará mais independente e:: (SP-D2 360: 1225-1228, p.167)
No exemplo (10), o enunciador L1 anula a Laura, substitui por Estela e volta a anunciar explicitamente: a Laura não se definiu; há, portanto, uma anulação do enunciado-fonte (a Laura), que é substituído por a Estela e este, por sua vez, é reformulado por a Laura. 61
Já no exemplo (11), L1 corrige parcialmente o enunciado-fonte, alargando-o: terceira quarta série. O mesmo tem-se em: (12) Inf. ..então como eu ia explicando... no início do século vinte ou melhor no século dezenove... só existiam... a Europa e a... Ásia... bom... formadas... por culturas diferentes... atravessando situações históricas de feudalismo diferentes... (RJ-EF 379: 45-47, p.76)
– em que a locutora, professora, explica em aula sobre geografia econômica como se deu a industrialização japonesa, quando afirma que no século vinte só existiam a Europa e a Ásia, mas imediatamente anula no século vinte, corrigindo-o para século dezenove. Trata-se de uma infirmação. Já em: (13) L2 (então a firma) não pode tirar das pessoas... dos seus próprios clientes (SP-D2 360: 1106-1107, p.164)
ou (14) L1 então ele quer ser cientista... arqueólogo (SP-D2 360: 1455, p.173)
em que temos uma retificação. O mesmo ocorre nas conversações espontâneas a seguir: (15) L1 você mora em São Paulo, hein? L2 em São Paulo não... na periferia (16) L1 você mora agora em São Paulo, hein? L2 Finalmente... na periferia
62
Supondo-se um contexto em que o status de morar ou não na periferia seja decisivo, observa-se que em (15) q substitui p (infirmação) e em (16) não há anulação “da verdade” do enunciado-fonte (retificação); trata-se de uma reformulação a mais, podendo-se, inclusive, introduzir um sim (Charolles, id. ibid.): (16a) L2 sim... finalmente... na periferia
Rath (1979:181) também participa desta posição dizendo que, por meio do enunciado-reformulado, o locutor anula total ou parcialmente a formulação do enunciado-fonte. Considerando-se esses dois tipos de correção, cabe-nos agora examinar os aspectos linguístico e enunciativo encontrados nos inquéritos analisados, lembramos que tal divisão ocorreu somente por uma questão metodológica, já que esses aspectos estão integrados na construção textual.
I Lingüísticos: a) fonético-fonológico: em que se observa uma correção de pronúncia ou de articulação. (17) evidentemente que a democracia para a democracia plana plena... esta nunca existiu (RE-DID 131: 494-495, p.14)
Esse foi o caso menos freqüente no corpus; a bem da verdade, há somente 9 ocorrências. Explica-se pelo fato de ser o corpus do Projeto NURC constituído de gravações de norma urbana culta em que os falantes têm nível universitário e conhecem a “boa pronúncia”, pouco “errando”; assim, os casos encontrados são relativos à correção da articulação. Muitas vezes, não se trata de uma correção, mas sim, de uma hesitação, já que o falante pode, antes de terminar um vocábulo, interromper e ele mesmo efetivar a elaboração adequada, como ocorre em: (18) L2 mas a gente está esperan::do::... não sai nada L1 é da pe/ da prefeitura... e ... para procurador do Estado... (SP-D2 360: 504-505, p.149)
63
b) lexical: em que a seleção léxica não era a pretendida e há uma substituição: (19) Inf. e do outro lado três potências também capitalistas FORTES... Alemanha e Fra/ e a Itália principalmente... perdão Alemanha e o Japão principalmente e a Itália... que também a gente vai dar um pouco mais de atenção a ela e à Alemanha dentro da Europa (RJ EF 379: 136-139, p.79) (20) L2 de eu poder trazer para casa porque aí eu fico trabalhando em casa mas tomando conta toda hora preciso interromper no meio de um negócio para::...levar um ao banheiro para dar uma comida para outro::...e as coisas de casa que a gente aten/tem que atender normalmente com crianças BRIgas que a gente tem que repartir [ L1
apartar
L2 tem que apartar:: isso toda hora...mas:: aí (SP-D2 360: 486-494, p.148) (21) L2 vovó tinha um:: um sírio um turco... que ele vinha trazer em casa para ela (a sacola) ( ) (SP-D2 396: 757-759, p.199)
c) morfossintático: quando a concordância, a regência, etc. são mal formuladas (má formação da frase). (22) L2 ele já ia à escola da manhã que eu comecei quando eu comecei a trabalhar... comecei a trabalhar a dois anos (SP-D2 360: 1374-1375, p.145) (23) Inf. eu acho que eles têm mais... éh mais preparo mais... sei lá:: eles... devem... deve ser outro tipo de de de trabalho né? (SP-DID 234: 240-241, p.109)
64
(24) Inf. porque é através desse sistema democrático que nós podemos... obter como já disse anteriormente e repito... toda... uma série eNORme de reivindicações... reivindicação essa essas que são evidentemente as maisimportantes (RE-DID 131: 525-30, p.15)
II Enunciativos: A formulação não é a que se pretendia, então reformula-se, ao mesmo tempo em que se imprime ao enunciado um caráter de maior subjetividade. Embora não tenhamos conduzido a pesquisa sob esta perspectiva, observa-se que a subjetividade pode ser tratada quanto ao nível ilocutório, efetivando-se por modalizações epistêmicas, como se verifica em: (25) L1 mas são muito acomodadas... ainda não
começaram assim...
aquela fase... chamada de... mais difícil de crítica [ L2
(chamada mais difícil)
L1 né? L2 ahn anh L1 ainda não... felizmente ainda não começaram agora eu acho que:: eu... (SP-D2 360: 43-51, p.137) (26) Inf. ...aquelas comidas assim muito típicas
lá da...da Bahia... e
são... eu achei gostosas (RJ-DID 328: 191-192, p.140)
4. Operacionalização Nas correções devemos considerar quem tem a iniciativa e quem a processa, permitindo visualizar: 65
– autocorreções auto-iniciadas; – autocorreções hetero-iniciadas; – heterocorreções auto-iniciadas. A autocorreção auto-iniciada é a processada pelo próprio falante e pode ocorrer no mesmo turno ou em turno diferente. O mais comum é que ocorra no mesmo turno e geralmente na mesma frase porque o falante tem pressa em corrigir-se, já que pode perder o turno e a oportunidade de reformular seu enunciado. (Schegloff, 1979: 267-268). “Talvez, diz Marcuschi (op.cit., 32) seja este um dos motivos de muitas sentenças na conversação serem truncadas, já que se prefere sacrificá-las a perder a oportunidade de reparar um equívoco”. O exemplo (27) mostra o falante se auto-corrigindo sob o aspecto lingüístico (fonético-fonológico). Já o exemplo (28) mostra claramente a autocorreção hetero-iniciada3 : (27) Inf. uma OUtra forma de:: de (se) estudar a inteligência...seria mais uma frase de... de:: evolução da inteligência... FA::ses da inteligência... (SP-EF 377: 333-35, p.30) (28) L1 aquela sua amiga a:: Andréa que está estuda::ndo medicina L2 não não é medicina... L1 ah é...é enfermagem...então ela estava me dizendo que...a profissão exige mu::ita dedicação (Conversação espontânea)
Na heterocorreção auto-iniciada, o falante corrente inicia a correção que é efetivada pelo interlocutor. De modo geral, esta correção pode ser confirmada no terceiro turno, quando o falante que produziu a inadequação retoma a palavra, aceitando a reformulação feita pelo interlocutor: (29) L1 ah...a professora mandou ler os contos de Rubem Braga... não::o não é Rubem Braga este é cronista é...é... L2 Fonseca... Rubem Fonseca... o autor de “A Grande Arte” L1 esse mesmo Rubem Fonseca... você tem razão (Conversação espontânea)
66
5. A Questão das Marcas Gulich e Kotschi (op.cit.) dizem que os diferentes tipos de reformulação não se distinguem unicamente pela relação semântica existente entre o enunciado-fonte e o enunciado-reformulador, mas também pelo tipo de marcador empregado para indicar esta relação: “...é freqüentemente com a ajuda do marcador que o locutor cria uma relação de reformulação entre dois enunciados diferentes. Uma relação semântica – por exemplo, a da equivalência – não é dada simplesmente (pela estrutura proposicional do enunciado-fonte e do enunciado-reformulador), mas é estabelecida pelo locutor. O marcador é um traço deixado no discurso pelo trabalho conversacional do locutor”(p.44). Muitas vezes, torna-se visível a presença dos três elementos: Enunciado Fonte
(EF)
Marcador
(MC)
Enunciado Reformulador
(ER)
Observando-se o diálogo a seguir: (30) Doc. que tipo de carreira...fora essa...seriam digamos conveniente... L2 eu acho que isso seria qual/qualquer uma( ) quer dizer::oo:: lado...de ciências mais human/ah de o lado humano o ou de::... ciências exatas como chamava-se no MEU tem::po (riso) (SP-D2 360: 648-54, p.152)
– vemos que, na resposta de L2 ao Documentador, há claramente a presença de três elementos: enunciado-fonte, marcador de reformulação e enunciado-reformulador: qualquer uma
(EF)
quer dizer::
(MC)
oo::lado...de ciências mais human/ah de o lado humano o ou de::...ciências exatas
(ER)
67
O exame do corpus mostrou que a correção é sempre acompanhada de um sinal explícito que marca seu caráter reformulador (Gulich e Kotschi, op.cit.). Isto não significa que deva haver sempre um marcador verbal em todas as ocorrências; muitas vezes, ele não foi encontrado, mas, sim, certas marcas prosódicas que vão exercer essa função, como, por exemplo, a ênfase dada ao elemento corretor, a mudança na curva entonacional. Assim, é possível distinguir-se dois tipos de marcas: prosódicas e verbais e, embora tenhamos feito apenas um levantamento preliminar, notamos que as primeiras predominam.
5.1 Prosódicas As principais marcas prosódicas encontradas são: pausa
60%
mudança na curva entonacional
30%
velocidade da elocução
24%
alongamento
19%
intensidade de voz
19%
“Essas manifestações são, porém, muito disseminadas no texto, têm natureza multi-funcional, o que torna a análise muito difícil e se articulam freqüentemente com instâncias extra-lingüísticas” (Hilgert, 1989:194).
Constituem instâncias extra-lingüísticas marcas não verbais, como os gestos, o riso, o olhar, entre outras, não tratadas neste trabalho. É muito freqüente a combinação de duas ou mais marcas: mudança na curva entonacional e velocidade da elocução, mudança na curva entonacional e marcador verbal geralmente com intensidade de voz, etc. Cabe apontar que os fenômenos estão sendo considerados sem que se levem em conta as fronteiras de ocorrência. No exemplo (31), a linha entonacional do enunciado-reformulador é mais baixa do que a do enunciado-fonte, além de haver uma maior velocidade da elocução: 68
(31) Inf. ...geralmente eu almoço em volta de/por volta de meio dia e janto por volta das sete horas... sete e meia... (RJ-DID 328: 597-99, p.151)
e no (32) há uma ruptura na curva entonacional e o marcador NEM é acentuado: (32) L2 a paralisação de transportes coletivos transformou a cidade num verdadeiro caos também TODOS os funcionários aderiam à greve L1 é verdade... demorei quase duas horas para chegar na empresa L2 quer dizer... NEM todos... a maiori::a
dos funcionários porque
havia alguns ônibus circu::lando... (Conversação espontânea)
5.2 Verbais Os marcadores verbais constituem uma classe bastante heterogênea. O exame do corpus mostrou a existência de:
5.2.1 expressões estereotipadas: quer dizer
ou melhor
em outras palavras
não é bem assim
em termos
perdão
digamos
desculpe
digamos assim
69
5.2.2 morfemas diversificados (advérbios, conjunções, interjeições) como: não
bom
ah bom
ah
aliás
então
ahn ahn
ou
logo
hein
nada
finalmente
Entre essas marcas, algumas parecem ser diferentes: não é tipicamente de infirmação e enfim, finalmente, quer dizer, de retificação, embora este último seja típico de paráfrase (é necessário fazer-se um estudo mais aprofundado desses marcadores)4. Isto fez Gulich e Kotschi dividirem os marcadores em fortes e fracos: fracos quando a relação semântica entre os dois termos da reformulação é claramente reconhecível; então um marcador fraco é suficiente para marcar a atividade reformuladora; fortes quando a relação semântica entre os dois termos da reformulação é fraca e um marcador forte pode compensá-la. Afirmam ainda que os diferentes tipos de reformulação se distinguem, em princípio, pelo emprego de marcadores diferentes, isto é, quer dizer seria um marcador típico de paráfrase, não, de correção etc. Este fato nem sempre se confirmou em nossas análises, pois encontramos no corpus quer dizer para correção (ex.33); no caso do não este fato parece confirmar-se (ex. 34), porque ele indica explicitamente que é preciso anular o elemento precedente. (33) Inf. ... a mão de obra ainda é a RIQUEZA do Japão...claro...população de cento e tanto milhões...TODA ELA integrada à produção... TODA quer dizer...pelo menos na sua grande parte... (RJ-EF 379: 280-283, p.83) (34) Inf. ...eu acho que é... é tá... tacacá... se não me engano... o nome da farinha que eles usam... é uma farinha tirada de uma folha de árvore... uma coisa assim... que eles depois fazem uma farinha... eu realmente não me detive muito Doc.não é tacacá...não... é uma outra erva... (RJ-DID 328: 148-154, p.139)
70
Justifica-se, desse modo, a classificação em marcadores fortes e fracos, já que há marcadores que, apenas por sua significação lexical, não distinguem o tipo de reformulação. Sabemos, também, que o tipo de análise aqui realizado apresenta um problema já detectado por Charolles (op.cit.): a observação de um corpus, por mais rico que ele seja, não permitirá o exame de todos os contextos em que esses marcadores podem ocorrer e, conseqüentemente, das restrições estruturais e semânticas que recaem sobre eles. É preciso salientar que os marcadores de correção constituem-se numa subcategoria dos marcadores conversacionais e não são exclusivos deste procedimento de reformulação.
6. As Funções da Correção As correções apresentam a função geral de caráter interacional, no que diz respeito à busca de cooperação, intercompreensão e ao estabelecimento de relações de envolvimento entre os interlocutores, como ocorre no exemplo a seguir: (35) L2 (...)às vezes a dificuldade que se encontra porque tem muito::s... executivos...de idade...mais ou menos razoável dentro do que eles querem porque... L1 a mínima... [ L2 funciona realmente aquele negócio de... [ L1
requerida...
L2 aquele negócio de limite de idade funciona (muito)... [ L1
quarenta anos...
L2 não normalmente é no máximo [ L1
no máximo
71
L2 né? L1 no máximo L2 é:: no máximo...existe para alguns (SP-D2 360: 975-88, p.160-61) (36) L2 escrever PAra a faculdade...pedindo os melho/os nomes dos melhores alunos... dos últimos anos...para poder eh poder procurar [ L1 localizar L2 para poder localizar (SP-D2 360: 942-46, p.160)
Nos exemplos citados anteriormente, verifica-se que, ao corrigir seu interlocutor, o falante encontra uma possibilidade de participar da conversação, cooperando para o seu desenvolvimento; já que a correção apresenta um caráter de retomada, evidenciando não só envolvimento entre os interlocutores, mas também atenção, interesse pela fala do outro, mesmo que haja discordância. Queremos ressaltar que a função interacional pode, por exemplo, orientar o foco de atenção para elementos específicos; sobre: a) o tópico: esclarece o interlocutor sobre o conteúdo objetivo da mensagem. (37 ) Inf. (...) eu ia dizendo é o seguinte – ...que não é à toa que a atual indústria naval japonesa... atual e já no início do século vinte... ela havia tido uma das maiores motivações... quais sejam... (RJ-EF 379: 67-69, p.77)
Quando o locutor faz uma pausa e reformula seu enunciado, tem por objetivo a adequação do conteúdo tópico, visando à precisão referencial, já que não se trata da atual indústria naval, mas sim, da indústria naval do início do século até a atualidade. Nesse exemplo, o locutor busca levar seus interlocutores, já que se trata de uma aula, a compreender com exatidão suas informações. 72
b) os interlocutores e as relações entre eles: esta função relaciona-se à compreensão da posição social – devido à adequação às normas lingüísticas e sociolingüísticas (ex. 38), ou à preservação da auto-imagem pública (ex. 39). Podem ocorrer casos em que as correções se efetivam para evidenciar as opiniões dos interlocutores (cf.exs. 25 e 26). (38) Inf. ao secretário evidentemente...levar: ao senhor presidente...todas aquelas questões...que diz que dizem respeito... aos associados (RE-DID 131: l.229-31, p.6)
Nesse exemplo, o falante busca, pela correção, evidenciar sua posição social, adequando sua fala ao registro sociolingüístico do “bem falar”. (39) L2 (...) toda a parte eh praticamente toda a parte jurídica do Estado é feita... não espera aí ((risos)) já estou exagerando não é toda a parte jurídica...do Estado...mas todos::... mas a grande parte jurídica do Estado... como a de... to/todo o ser/ todo serviço de advocacia do Estado... é feita por procuradores do Estado (SP-D2 360: 806-11, p.156)
Nesse caso, registra-se uma ocorrência de manutenção da face. L2 autocorrige-se, buscando adequar a informação referente à parte jurídica do Estado, já que sua interlocutora tem condições de averiguar a exatidão dessa informação por ser casada com um procurador do Estado, podendo – inclusive – invalidar a informação dada por L2, pondo em risco sua face. No corpus não são freqüentes correções que se relacionam à posição social do falante, dada a natureza desse mesmo corpus.
Conclusão A correção desempenha papel considerável entre os processos de construção do texto falado como mostra o número de correções encontradas nos nove inquéritos analisados e baseia-se, como já dissemos, na relação de contraste. Esse trabalho procurou conceituá-la como uma estratégia de reformula73
ção textual, quando o falante encontra “problemas” e deve resolvê-los. Foram examinados os tipos de correção, sua operacionalização, funções e marcas. No que concerne à possibilidade de ocorrência de correções na conversação, observou-se que há uma forte tendência a que os falantes reciclem o que disseram e se expressem de um modo diferente, o que revela a existência de uma norma conversacional. Pode-se dizer que há uma ordem de reelaboração e ela não é ocasional ou aleatória. Isto aponta para um possível local relevante para a ocorrência de correção, o que leva a reafirmar5 que as ocorrências de composição do texto conversacional são produto de uma organização local, específica da oralidade, já que o falante tem a possibilidade de usar uma palavra ou estrutura que acabou de produzir ou, ainda, procurar uma nova e/ou mais satisfatória que permita a intercompreensão. Assim é possível afirmar que as correções correspondem a um processo altamente interativo e colaborativo. Quando usadas apropriadamente, colocam-se como um dispositivo dinâmico, em potencial da língua falada; entretanto, é possível deixar passar um evento sem que se corrija o interlocutor. As razões da não efetivação dessas reformulações podem ser várias, entre elas destaca-se a tentativa de preservação da face do outro. Caso ocorram, o grau de monitoração da correção varia de acordo com a situação comunicativa e com fatores pessoais. Ainda no que se refere à questão da manutenção das faces, pode-se dizer que a auto-correção se realiza com o intuito de preservar a auto-imagem pública. Certamente, é esta a razão de terem sido encontrados um número maior de ocorrências desta no corpus.
NOTAS 1
A paráfrase, a repetição e a hesitação estão sendo objeto de estudo de outros pesquisadores do grupo.
2
Esta é a terminologia adotada por Charolles (1987).
3
Não consideramos correção quando há sobreposição de vozes, porque o intelocutor fala simultaneamente com o falante, tornando impossível dizer-se que houve uma correção.
4
Os marcadores conversacionais estão sendo estudados por outros pesquisadores do grupo.
5
Conforme proposta teórica do subgrupo “Organização Textual-Interativa”.
74
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76
O RELEVO NO PORTUGUÊS FALADO: TIPOS E ESTRATÉGIAS, PROCESSOS E RECURSOS
Luiz Carlos Travaglia (Universidade Federal de Uberlândia)
1. Introdução Chamamos de relevo ao fenômeno de o falante, ao falar, formulando, construindo, constituindo seu texto: a) dar destaque a determinados elementos1 dentro desse mesmo texto, colocando-os em proeminência em relação a outros ou b) fazer um rebaixamento, “ocultamento” de determinados elementos em relação a outros. No primeiro caso, temos um relevo positivo, pelo qual, dentro do desenvolvimento do tópico discursivo, os falantes fazem relevo de determinados conteúdos ou aspectos do que dizem (partes da seqüência lingüística), dando um destaque especial a certas entidades e informações ou a um conjunto de elementos do texto ou a um tipo de elemento dentro do texto, que ficam então, de alguma forma, em um plano mais elevado que os demais elementos do mesmo texto. No segundo caso, temos um relevo negativo, pelo qual, por alguma razão, o falante quer que determinado(s) elemento(s) do texto passem despercebidos ou não tenham a atenção do interlocutor, não porque sejam sem importância, mas quase sempre por questões de argumentação ou questões ligadas às relações entre ele e o interlocutor2. Apenas para efeito de distinção podemos chamar o relevo positivo de proeminência e o relevo negativo, de rebaixamento. Assim com relação ao relevo podemos propor que os elementos do texto teriam um “status” proeminente, normal ou rebaixado.
O relevo pode ser local, quando se aplica a elementos pontuais isolados do texto, mas pode ser mais abrangente quando atinge um determinado tipo de elemento do texto em relação aos outros. Parece que o falante dá relevo a elementos dentro do desenvolvimento do tópico discursivo por razões diversas, sobretudo por razões ideacionais/cognitivas, argumentativas e emocionais, com diferentes funções. O relevo, assim, estaria ligado à estrutura ideacional e interacional do texto. Entre as funções do relevo positivo a básica é exatamente dar destaque/ proeminência, que pode ter funções derivadas tais como: a) enfatizar; b) intensificar; c) marcar um valor especial, indicando que o elemento em relevo deve ser tomado num sentido diverso do habitual, muitas vezes contrário; d) estabelecer contraste; e) reforçar um argumento; f) marcar importância para a estrutura ideacional/informacional; g) marcar o foco informacional etc. Nada podemos dizer quanto às funções do relevo negativo, já que não encontramos ocorrências do mesmo no “corpus” analisado. Sem dúvida, marcar relevo é um recurso de organização do texto, sobretudo no que diz respeito aos elementos ideacionais do mesmo, marcando avaliações que o produtor do texto faz basicamente sobre o conteúdo do texto, mas também sobre alguns elementos da interação. A própria apresentação que o produtor do texto faz para o receptor dessas avaliações representa já um aspecto interacional, pois na verdade o produtor com tal relevo está propondo ao seu interlocutor uma direção e não outra dentro da interação a que o uso do texto está servindo. Esse direcionamento representa uma dimensão argumentativa (em sentido amplo) do relevo. O relevo parece marcar como o produtor do texto representa os elementos constitutivos do texto, como ele propõe que o ouvinte represente o texto. O objetivo básico deste trabalho é estudar a atividade de se produzir relevo na constituição de um texto (no desenvolvimento do tópico discursivo e em alguns aspectos interacionais), procurando: a) levantar os tipos de relevo que podem ser encontrados na língua falada; b) elencar os recursos lingüísticos de diferentes tipos ou ordens que os falantes usam na Língua Portuguesa falada para marcar a proeminência ou o rebaixamento, configurando o fenômeno da língua que 78
estamos chamando de relevo e observar particularidades de seu funcionamento; c) identificar funções que o relevo pode ter no funcionamento do texto em uma dada situação de interação. Para este fim trabalhamos com os seguintes inquéritos do NURC3: D2
DID
EF
1º grupo POA 291 (80 min.)
RJ 328 (40 min.) REC 337 (60 min.)
SP 59 (grav. secr.-20 min.)
SP 234 (40 min.) SP 405 (35 min.)
SSA 231 (46 min.)
2º grupo SP 360 (66 min.)
2. Tipos de relevo Como já vimos na introdução, quanto à direção do relevo, este pode ser positivo (proeminência) ou negativo (rebaixamento). Quanto à natureza o relevo pode ser de diferentes tipos4: 1) O estabelecimento de contraste entre figura e fundo, entre primeiro e segundo planos no texto. O objetivo aqui é buscar os mecanismos e recursos (formas, categorias, etc.) envolvidos neste contraste que está ligado à relevância temática, que, segundo Fuchs (1987) seria a relação de uma predicação com um quadro temático compartilhado pelos interlocutores Na literatura lingüística sobre o assunto, a maioria dos autores afirma que o estabelecimento de figura e fundo é função do aspecto verbal (Cf. Hopper, 1982 para o Malaio; Li, Thompson e Thompson, 1982 para o Mandarim; Rafferty, 1982 para o Indonésio e Travaglia, 1991 para o Português). Outros autores colocam o estabelecimento de figura e fundo como função dos tempos verbais (Weinrich, 1968), ou de modos verbais (Kalmár, 1982). Parece, portanto, que o contraste figura/fundo seria sempre função das formas e categorias verbais. Estes estudos referem-se sobretudo à língua escrita e foram feitos em sua maioria com relação à narração. 2) Organização das informações em termos de informações essenciais e secundárias. O falante marca de alguma forma informações que consi79
dera essenciais, importantes e outras que considera menos importantes dentro do tópico que está desenvolvendo, servindo mais à constituição do quadro temático a que Fuchs se refere. Alguns autores, como Kalmár, 19825 e Travaglia, 19916, realizaram estudos em que o verbo aparece como organizador das informações em essenciais e secundárias, mas temos evidências de que não é só o verbo (suas formas e categorias) que exerce esta função. Temos outros recursos tais como: entonação, elementos lexicais, tipos de oração. Alguns desses recursos marcam certas informações como importantes para o falante dentro do que ele está colocando no desenvolvimento do tópico e, portanto, como algo que ele vê como essencial. 3) Indicação de relevância pragmática de uma situação, de algo no texto (acontecimento, estado, comentário) para a situação presente (o aqui e o agora) ou para um ponto de referência7. 4) Os fatos de focalização em que se observa o destaque, a proeminência que se dá a um tipo de elemento do texto. Os tipos de elementos que podem ser focalizados parecem variar de acordo com o tipo de texto. Como hipótese, pode-se propor algumas possibilidades teóricas de focalizações diferentes (cf. Travaglia, 1991), algumas já constatadas, tais como: a) na narração: foco no participante e seus estados, nos acontecimentos, no falante (narrador)8; b) na descrição: foco em características de tipos diferentes: psicológicas/físicas, transitórias/permanentes, elementos/atributos, etc.; c) na dissertação: foco em conceitos e relações, em argumentos ou não argumentos; d) na injunção: foco na ação a executar, no executante, no ato de determinar a realização de algo, na justificativa. Independentemente do tipo de texto, o Português faz focalização de diferentes elementos (como a informação nova), utilizando recursos diversos: entonação, velocidade de fala, recursos sintáticos (topicalização, expletivos) e lexicais (uso de expressões como “importa notar /observar/ registrar, etc.”; “é importante”; note-se que”, etc.) Quanto aos planos em que o relevo se instancia e que se caracterizam pela razão do relevo, temos pelo menos três tipos: 80
1) Fatos de relevo emocional, em que o falante dá destaque a determinados elementos e/ou passagens do texto, em conseqüência de seu envolvimento emocional com o que diz, do impacto emocional que as idéias ou fatos têm sobre o falante. 2) Relevo argumentativo, quando o falante destaca uma informação ou argumento que ele julga fundamental dentro do que ele diz, para se chegar à conclusão que ele deseja; 3) Relevo ideacional/cognitivo, quando o falante aponta determinados elementos como importantes para as idéias que estão sendo colocadas; Parece-nos que esses tipos não são excludentes e podem aparecer em conjunção, sobretudo os tipos ligados aos planos de instanciação do relevo. Assim, por exemplo, é comum termos um relevo ao mesmo tempo emocional/ argumentativo ou ideacional/argumentativo. E toda informação que recebe um destaque por ser importante para o falante, evidentemente será para ele uma informação essencial dentro do desenvolvimento de seu tópico. O que ele coloca em primeiro plano normalmente é visto como mais importante no desenvolvimento do tópico do que o que coloca em segundo plano, pelo menos no sentido de que o tópico não ficaria devidamente desenvolvido se estas informações fossem eliminadas ou não fossem processadas levando em conta o destaque que se dá a elas.
3. Recursos marcadores de relevo Pudemos observar que o relevo é estabelecido por recursos de diferentes naturezas quer quanto ao plano da língua a que pertencem (fônico, lexical, morfológico, sintático) quer quanto a sua função na constituição do texto (marcadores conversacionais, parênteses, recursos expletivos, etc.). Na análise dos dados pudemos observar a atuação no estabelecimento de relevo, dos recursos abaixo especificados e que por vezes atuam em conjunto.
81
3.1 Recursos fônicos 3.1.1 Entonação Em alguns momentos o falante dá a um determinado trecho um contorno entonacional bastante particular destacando-o dos demais trechos. Fica difícil descrever este contorno entonacional sem reproduzi-lo graficamente por aparelhos apropriados. Seria interessante que especialistas da área de fonética e fonologia determinassem com exatidão o que há de especial em trechos onde se percebe a “ouvido nu” algo de particular que dá proeminência a determinado trecho. (1)
.... você falando sobre como o ca/ como é o café... isso me ocorreu... é assim usar frutas... né... de manhã no café... normalmente quando você vai pra fora...eles servem um... um café bem mais... eh... abundante... né? você tem frutas... você tem frios... eles servem suco... depois então ainda servem o café com leite... mas realmente se você tomar isso tudo... me... onze meia que é a hora que eu almoço... normalmente... eu não tenho vontade de almoçar... e aí ... já sabe... a minha TAXA de... a gordura vai aumentar sensivelmente porque come um tanto de coisa ( ) ............... (NURC/RJ DID 328 l. 312-321)
Falando sobre alimentação, nesta passagem a falante, que diz sempre ter uma preocupação com não engordar, dá um destaque todo especial ao que emocional e racionalmente seria a razão para ela não fazer um café da manhã como o que descreve. O relevo aqui tem uma natureza entre emocional e ideacional e é argumentativo, mas o que parece provocar a entonação especial (inclusive num tom meio jocoso, como que rindo) parece ser o componente emocional que a falante agrega a este elemento. (2) I1- ........ eu tenho um co nhecido, aliás, um amigo comum nosso que ele é especialista em comida internacional então vai faze(r) uma comida chinesa, indiana, qualque(r) coisa até incenso ele queima, bah, só falta música ambiental, só falta eu me vesti(r) a rigor. (NURC/POA D2 291 l. 125-129)
O modo como o falante diz dando um destaque é que nos pareceu ter um caráter emocional, marcando o quanto o fato impressiona o falante, o quão especial ele acha o modo como o amigo serve. 82
(3)
I2- ....... eu acho que é errado que compre inclusive um melhoral sem receita médica. .. eu acho isso uma monstruosidade, entretanto muito mais do que o melhoral até mesmo, antibióticos se compra sem receita médica. (NURC/POA D2 291 l. 642-643)
Em (3) o falante dá um contorno à pronúncia de “monstruosidade” que evidencia o quanto, em sua opinião, este fato é errado: a palavra é falada num ritmo mais lento, quase recortando as sílabas, com um tom mais alto na primeira sílaba que é alongada, abaixando a seguir e voltando a subir na sílaba tônica. A motivação parece ser um pouco ideacional/cognitiva, mas essencialmente emocional e resulta em intensificação da vertente emocional da opinião do falante.
3.1.2 Altura da voz 3.1.2.1 O recurso A altura da voz é o tom que o falante usa ao falar determinados elementos: normalmente sílabas ou palavras e mais raramente trechos maiores do texto. Existe a altura normal de fala e o falante pode enunciar alguns elementos em tom mais alto ou mais baixo. Dessa forma a altura, normalmente, pode ser usada basicamente com dois fins: a) para destacar (tom alto), por exemplo, informação nova ou informação considerada fundamental pelo falante para a compreensão do que ele diz; b) para apagar, obscurecer, “camuflar” (tom baixo). Neste caso o falante diz, mas, por qualquer razão, não quer que o interlocutor perceba, preste atenção ou mesmo registre o que ele disse e então usa uma altura (bem) mais baixa do que a normal de sua fala. Não encontramos exemplos do segundo caso, talvez, porque quando isto ocorre normalmente, pelo menos nos inquéritos observados, a fala ficou ininteligível nas gravações. Os exemplos do uso de uma altura maior para destacar são bastante freqüentes. Na verdade talvez o recurso fônico mais utilizado em todos os tipos de inquéritos. Vejamos alguns exemplos. 83
No exemplo (1) a falante dá proeminência a “taxa”, usando a altura da voz, além do relevo já atribuído pelo modo particular de dizer o trecho. Isto ocorre porque é muito importante para ela não engordar e a taxa de gordura é fundamental na constituição de sua forma de alimentar-se. (4)
“esses saberes fundamentais sobre o jurídico ... são ciências”... esses três saberes... não é? são ciências no sentido de que ... representam um conjunto or-de-na-do de definições... CLASSIFICAÇÕES e proposições... sobre relações... pertinentes ao direito...” (NURC/REC EF-337 l. 290-294)
No exemplo (4) a professora em sua aula sobre direito destaca os elementos que julga fundamentais para o subtópico que desenvolve no momento de que a sociologia do direito, a filosofia do direito e a dogmática jurídica são perspectivas de abordagem do direito que mantêm entre si uma complementariedade e têm caráter científico. É um relevo de natureza ideacional/ cognitiva. (5) a-
.......você tá entendendo João agora a diferença?... não é que o estudo não seja sério... é sério também como eu falei antes... HÁ sistematização EXISTE sistematização... existe análise também... eu diria que existe até mes:mo... um olhar assim um tanto voltado à realidade... (NURC/REC EF-337 l. 355-360)
b-
outra pergunta foi a seguinte... existe diferença ... entre... ciência do normativo e... uma ciência normativa?........................................................ .......................................... expliquem com suas próprias palavras o que foi que vocês encontraram? existe diferença? HÁ diferença? ou não? ... talvez seja a pergunta mais difícil de todo o capítulo... (NURC/REC EF-337 l. 470-487)
Nas duas passagens era fundamental para a professora a existência dos elementos: no primeiro a existência de sistematização, no segundo caso a existência ou não de diferença. Assim, por razões ideacionais/cognitivas, a falante dá relevo ao fato de estes elementos existirem. No exemplo b pode-se também 84
pensar que a falante está fazendo uma correção de uma forma menos culta para uma forma mais culta e dá destaque ao elemento corrigido9. Esta hipótese é plausível em primeiro lugar porque várias vezes a falante alterna as formas “há” e “existe” (além das passagens de 5, veja também no exemplo 6 as formas em itálico) e em segundo lugar porque em alguns momentos a falante se mostra preocupada com as pesquisadoras da área de Letras dentro da sala de aula, o que poderia levá-la a uma preocupação maior com a forma de sua fala. (6)
...... são as três:... num é? perspectivas... elas são:... complementa:res ou não: Eduardo? há um sentido de complementariedade ou não ou são assim... cada uma que se vire e: que não olhe a outra... você diria ((intervenção de locutor acidental)) é... uhum... Arnaldo não é? faz uma... complementação NO TEXTO ou PELO TEXTO há existe complementariedade... bem nós VA:MOS não é? admitir... aqui... em aula... que: existe uma: complementaridade entre esses três saberes... ou três conhecimentos... (NURC/REC EF-337 l. 133-140)
A professora dá relevo a “no texto” e “pelo texto” para marcar que a idéia que está colocando é do texto, embora ela também participe dessa idéia de que há complementariedade entre as três abordagens do direito em discussão. O relevo de “vamos” parece ter sido usado para marcar que a seguir vem algo importante para a aula: a posição que a professora quer que seja assumida. (7)
..... porque a sociologia do direito por exemplo ela não estuda somente ... ela estuda a lei mas NÃO somente a lei TAMBÉM a lei... em relação: ou em adequação com a própria realidade... social... então João ...se... não é? na próxima avaliação... eu pergunto... ou eu AFIRMO... eu posso afirmar também... sociologia do direito é igual a sociologia... jurídica... corre:to... ou errado... justifique sua resposta vamos supor... (NURC/REC EF-337 l. 170-177)
Nesta passagem a professora estabelece relevo em “não” e “também” para marcar que a lei é apenas uma das coisas estudadas pela sociologia do direito. Temos um relevo de natureza ideacional/ cognitiva. Já a proeminência dada a “afirmo” tem uma natureza mais difícil de determinar. Ela parece estar querendo marcar a alternativa de questão que lhe parece melhor elaboração 85
para uma questão sobre o assunto em foco, ou seja, a proeminência apontaria a forma preferida para a questão, indicando aos alunos o que mais provavelmente ocorrerá. (8) I2- Mas exótico, exótico mesmo, foi na casa do cônsul japonês aqui em Porto Alegre... há uns três anos atrás mais ou menos eu fui convidado prum almoço assim muito íntimo e a senhora... ela que preparou... eram olhos de peixe... a sopa. (NURC/POA D2 291 l. 272-275)
Em (8) a altura da voz deu proeminência à idéia de exotismo, porque antes o falante contara sobre outras comidas exóticas, mas quis colocar a que vinha a seguir como a mais exótica de todas. Além do relevo à idéia de exotismo a altura da voz serviu também à manutenção do turno, uma vez que o outro falante (I1) começou a entrar e I2 não tinha terminado. Parece que só a manutenção do turno justifica a manutenção da voz em uma altura maior no trecho em negrito a partir de “foi”. Neste caso, além da altura da voz, atuam na atribuição de relevo a repetição de “exótico” (cf. item 3.4.3) e o uso do item lexical “mesmo” (cf. item 3.2.2). (9) I2- .......por exemplo, pitanga, tem uma vizinha ali que tem um de pitanga que é uma SEN-SA-CIO-NAL, o tamanho das pitanga(s), puxa! Aquilo é uma beleza.... (NURC/POA D2 291 l. 552-554)
Aqui o relevo dado pela altura da voz e pelo recorte silábico serve para o falante reafirmar o quanto ele acha as pitangas boas, grandes, bonitas. (10) I2- ..... Com a, a, a, olha aqui, alguém duvida, por exemplo, eu, já, falando sobre o aspecto de comida de novo... mas alguém duvida da, da qualidade da sardinha brasileira. Alguém duvida? Pois eu, eu jogo o que quiser, pode abri(r) quantas latas de sardinha estrangeiras quiser... pode abrir quantas latas de sardinhas nacionais quiser das diversas marcas, eu garanto que não fica devendo nada, pra nenhuma sardinha portuguesa, francesa, italiana ou seja lá o que for ou espanhola... é de ALTA qualidade a nossa sardinha... entretanto...
86
I1- O Gomes da Costa! I2- Entretanto o Gomes da Costa, o Coqueiro, e, e aquela outra, como é belga como é... I1- Não sei. I2-
Bom, enfim,
I1- Sardinhas é contigo! I2- São SEN-SA-CIO-NAIS, entretanto, muita gente acha que o produto estrangeiro... e se o que se importa de sardinha neste país é uma loucura (NURC/POA D2 291 l. 1290-1308)
Aqui o falante, defendendo a qualidade do que é nacional de uma maneira geral, dentro do exemplo das sardinhas, pronuncia a palavra “alta” num tom muito mais alto que o restante do trecho, dando relevo ao fato de que a qualidade é alta, quer que o ouvinte, perceba, registre, marque bem esse grau de qualidade, que vem confirmado depois pelo altura da voz em “sen-sa-cionais”, onde se tem também o recorte silábico.
3.1.2.2 Alguns aspectos do funcionamento do recurso Observando os elementos que são enfatizados levantamos a hipótese de que alguns tipos de elementos lingüísticos pareciam ser mais colocados em relevo pela altura da voz do que outros. Assim nos pareceu que “intensificadores” eram mais enfatizados por esse recurso do que outros tipos de elementos. Observamos também que normalmente o relevo se fazia pelo aumento da altura da voz apenas em parte de uma palavra (sílaba) e levantamos a hipótese de que o relevo pela altura da voz se fazia essencialmente pela elevação da altura da sílaba tônica. Fizemos então algumas quantificações que apresentamos e comentamos a seguir.
87
QUADRO 1
Quantificador
Intensificador
D2
DID
2/73
13/109
7/97
22/279
2,74%
11,93%
7,22%
7,88%
13/73
31,51% 18/10
17,81% Advérbio
Verbo
Substantivo
Adjetivo
Sintagma
Numeral
Pronome
Artigo
Interjeição
Preposição
Conjunção
EF
34,86%
16,51%
9/97
TOTAL
31,96% 40/279
9,28%
14,34%
8/73
7/109
15/97
30/279
10,96%
6,42%
15,46%
10,75%
5/73
14/109
13/97
32/279
6,85%
12,85%
13,40%
11,47%
5/73
35,62% 20/109
52,3%
26/97
49,49% 51/279
6,85%
18,35%
26,81%
14/73
19/109
9/97
42/279
19,18%
17,43%
9,28%
15,05%
2/73
4/109
3/97
9/279
3,67%
3,09%
3,22%
3/73
—
—
3/279
4,11%
—
—
1,08%
8/73
15,07% — —
—
1/109
—
0,92%
1/73
1,37%
2/109
0,92%
6/97
6,19%
14/279
6,19%
5,02%
—
1/279
— 1,83%
—
—
3/279
1,83%
—
1,08%
10/73
2/109
1/97
13/279
13,69%
1,83%
1,03%
4,66%
2,74%
16,43% 7/109
10,09%
4/97
6,43%
4,12%
9,27%
13/279 4,66%
Conector
—
2/109
2/97
4/279
(marcador)
—
1,83%
2,06%
1,43%
Operador
TOTAL
88
7,18%
0,36%
1,37%
2/73
48,02%
18,28%
2,74%
10,96%
32,97%
—
—
2/97
2/279
—
—
2,06%
0,72%
73/279
109/279
97/279
279/279
26,16%
39,07%
34,77%
100%
1,08%
11,47%
QUADRO 2
D2
DID
EF
TOTAL
1.1 – Tônica
44/73 60,27%
62/109 56,88%
43/97 44,33%
149/279 53,41%
1.2 – Tônica e seguintes
2/73 2,74%
3/109 2,75%
— -
5/279 1,79%
1/73 1,37%
— —
4/97 4,12%
5/279 1,79%
4/79 3,67%
5/97 5,15%
12/279 4,30%
1) Sílaba
1.3 – Átona 1.3.1 – Tônica do primitivo
1.3.2 – Sílaba inicial 3/73 ou outra 4,11%
2) Palavra toda 2.1 – Monossílabo tônico
15/73 20,55%
21/109 19,27%
21/97 21,65%
57/279 20,43%
2.2 – Dissílaba paroxítona
1/73 1,37%
12/109 11,01%
14/97 14,43%
27/279 9,68%
2.3 – Trissílaba proparoxítona
1/73 1,37%
— —
— —
1/279 0,36%
2.4 – Outras
4/73 5,48%
3/109 2,75%
7/97 7,22%
14/279 5,02%
3) Sintagma
2/73 2,74%
4/109 3,67%
3/97 3,09%
14/279 3,22%
TOTAL
73/279 26,16%
109/279 39,07%
97/279 34,77%
279/279 100%
Como se pode ver tivemos 279 ocorrências de relevo pela altura da voz assim distribuídas: 89
D2
TOTAL
DID
EF
SP 360 : 65
SSA 231 : 47
REC 337 : 18
POA 291 : 8
SP 234 : 62
SP 405 : 79
73
109
97
No D2 tivemos uma quantidade menor porque no inquérito D2-POA 291 os falantes fizeram apenas 08 relevos com a altura da voz. Nas EF as poucas ocorrências em EF-REC 337 foram contrabalançadas pela alta ocorrência em EF-SP 405. O número de inquéritos analisados não permite uma generalização segura, por causa do que parece ser característica idiossincrática dos falantes de alguns inquéritos de fazer mais ou menos relevos, usando a altura da voz, mas de qualquer modo parece haver uma tendência para o equilíbrio entre os três tipos de inquéritos no que diz respeito à quantidade de ocorrências de relevo feito por este recurso. No que diz respeito à classe do elemento enfatizado encontramos as seguintes classes com pelo menos um (01) elemento em relevo pela altura da voz: 1) quantificadores: pouco(s), tudo, todo(a)(os)(as), tanto(a), muito(as) nada, mais, tão, bem (veja exemplos 13 e 57); 2) intensificadores: demais, muito (v. ex. 21, 23), muitíssimo, mais, bem, tão, meramente (veja exemplos 53, 57); 3) advérbios: sozinha, fora, realmente, dentro, não, nunca, única(mente), lá, hoje, antigamente, sempre, agora, só, basicamente, exatamente, como; (veja exemplos 7, 9, 10, 12, 15, 55, 56); 4) verbos (veja exemplos 5, 6, 7, 53); 5) substantivos (veja exemplos 1, 4, 12, 18, 54, 55, 57); 6) adjetivos (veja exemplos 9, 10, 12, 13, 14, 19a); 7) sintagmas: no texto, pelo texto, para alguns, é a sala de aula, muito importante, eu fiz, preCISA TER IGUAL, TEM AUla, BEM LIMpos)(veja exemplos 6, 11 e 17); 90
8) numerais: nove, um, dois; (veja exemplos 12b, 55) 9) pronomes: outro, mesmo, meu, tudo, tal, algo, neste, o que, certas, aquilo (veja exemplo 12a); 10) artigo: uma (veja exemplo 13); 11) interjeições: droga!, nossa! (veja exemplo 14); 12) preposições: d(o)(a), para, a(o)(à), n(o)(a)(os) (ele), desde (veja exemplos 15 e 54); 13) conjunções: mas, ou, onde, quando, como (veja exemplo 16 e 17); 14) conector (marcador): agora (veja exemplo 57), aí, bom (veja exemplo 18), bem; 15) operador (argumentativo): também, ainda (veja exemplo 7: também) (11) L2- ................................................... ................................................... depois o café:: em casa o café é muito demorado... muito complicado quer dizer então até eles comerem todas as coisas que fazem... parte do café eles demo::ram um briga com o outro a divisão tem que ser ABsolutamente exata... porque se um tiver mais do que o outro sai um monte de briga na realidade não acabam tomando tudo não comendo que tem L1- (e eles tem) L2- mas preCISA TER IGUAL L1- ( ) [ L2- basta ser igual... pode sobrar tudo mas a divisão tem que ser igual. (NURC/ SP D2 360 l. 311-323) (12) a-Inf. ............quanto à coleta se eles dependiam... da colheita ... de... frutos... raízes... que eles NÃO plantavam... que estava à disposição deles na natuREza... eles também tinham que obedecer o ciclo::... vegetativo... então existe uma época para ter uma maçã outra época para ter laranja outra época para ter banana... existem CERtas regiões onde há determinados frutos OUtras regiões... com OUtros frutos... então eles tinham que acompanhar este movimento também:: e por isso eram nômades e
91
não se fixavam... a lugar nenhum... então numa vida deste tipo ... a preocupação PRINcipal está centrada na sobrevivência............. ................................................................................................................................................................ ............. e que o estilo e que a arte SEMpre vão refletir uma determinada ma-NEI-ra... de considerar o mundo e a natureza... ora a maneira do homem pré-histórico era... BAsicamente eu preciso comer... e eu preciso::... me defender dos animais e eu preciso me esquentar na medida do possível... certo? então a arte pré-histórica só vai poder refletir::... então a arte vai nascer:: em função dessa NEcessidade... de se manter vivo... (NURC/SP EF 405 l. 76-115). b-Inf.
.................. e finalmente... a terceira perspectiva... a filosófica... ou como nós colocamos... filosofia do direito... o que estuda?... estuda o fenômeno jurídico... a-pro-fundan: do... a partir... dos conhecimentos... científicos... ou da própria dogmática... do direito... esse fenômeno/... então novamente... a filosofia do direito... é nada mais do que... um tipo de estudo... um conhecimento... que aprofun:da mais: aqueles outros DOIS... seja um conhecimento num é sociológico... ou conhecimento... normativo... lógico-normativo... vamos dizer que o conhecimento... da filosofia do direito num é? sobre o fenômeno jurídico... ele transcen:de... à pesquisa... isso significa... daí não haver o rigor no estudo... ele vai além: de... ele diz como o comportamento deve ser... independente do que ele é.. como ele deveria ser... vocês realmente estão percebendo gente? tão compreendendo mesmo? (NURC/REC EF 337 l. 434- 450)
(13) a-Inf.
92
................................................ quando chegou o balê russo aqui em São Paulo ele pediram que as alunas do do do da Prefeitura que éramos nós... aquele grupo TOdo fosse fazer cena num num num dos números que eles apresentam era Pássaro de Fogo me parece... eu achei aquilo horroroso viu? me chocou tremendamente porque... éh por detrás dos bastidores é Uma coisa horrível né?... é tudo tão::... parece tão tão mascarado sei lá e quando aparece em cena o público vê uma coisa totalmente bonita né?... aquelas luzes... quer dizer aquilo me chocou era tão criança eu me lembro
que eu... já achava... diferente o Municipal era LINdo maraviLHOso visto do lado de cá né? (NURC/SP DID 234 l. 259-270) b- Doc. qual é digamos assim o esporte que você:: aconselharia (ao) tipo de crianças conforme... os primeiros anos do curso primário criança do curso secundário L1-
ah bom qualquer tipo de esporte é válido... viu? agora o esporte... que melhor pro organismo... por causa de todos os músculos e (tu/) é a natação... então É difícil nas escola... as criança praticarem natação porque não tem escola com piscina... raras são as escolas que têm piscina ... né?... aqui pelo menos (é o) Instituto Normal... tem piscina quando eu estudei eu já ia às aula agora... acho que só ele porque::... nem os outros não tem [
Doc. L1-
eles não têm condições ( ) não tem piscina... seria A natação o melhor exercício para a criança... ainda mais criança que tem problema respiratórios... (NURC/SSA DID 231 p. 10)
(14) Doc. Inf.
(15) a- L2-
se fosse passar um filme para crianças que tipo de filme a senhora acha que deveria ser passado? um:: tipo de filme como O Mágico de Oz que todo mundo achou MAravilhoso parece que está voltando agora... ah::... que::... qual outro filme que... o público infantil achou e gostou... aquelo filme dos cachorrinhos com é o nome?... dos dois cachorrinhos... NOssa criançada adorou aquele filme... eu tenho uma memória... sei lá eu acho que filme desenhos animados... é que a criançada assiste tanto desenho na televisão né? .......................chega a ponto de até às vezes ele éh éh ele:: escrever PAra a faculdade... pedindo... os melho/ ah os nomes dos melhores alunos ... dos últimos anos... para poder eh poder procurar [
93
L1-
localizar
L2-
para poder localizar... porque REalmente a dificuldade é grande (NURC/SP D2 360 l. 941-947)
(16) Inf. ........................ nesse estágio ele não::... assiste aula... apenas ele faz... o::... a parate corriqueira do ambulatório... ele atende os doentes... medica... é supervisionado sempre por um professor ou por um médico no caso... e::... depois ele vai fazer... o seu::... relatório... dos doentes que ele atendeu quais os diagnósticos tratamento que ele fez por esse relatório então nós fazemos o::... vamos dizer o gabarito do::... do estudante se ele foi bom estudante se ele teve... uma:: uma freqüência boa ou se ele foi aceito ou se ele foi um estudante relapso... (agora) QUANdo eles são estudante d/... nos primeiros anos que eles não ainda têm contacto com o doente... eles apenas assistem aulas...tanto teórica como prática... alguns fazem pesquisas que gostam... então eles entram mais na área da pesquisa... outros apenas... ficam somente na parte clínica... do tratamento pro doente né? (NURC/SSA DID 231 p.14) (17) Inf. pro estudante... ter o seu recreio ter a sua hora de descanso... ahn?... prática de esporte... então nós (precisamos) de ter:: as (pérgulas) com todos os tipos de esportes prá ser praticado... piscina prá natação que é muito importante prá:: saúde.. biblioteca né?... ahn e setor médico também e odontológico que precisa numa escola né?... fora a parte de::: diretoria né? salas de diretores... secretárias né?... vice-diretores... de escola... isso é um setor a parte na escola [ Doc.
(essa parte de...)
Inf. MAS o importante É SALA DE AULA eu acho que o importante é sala de aula e:: esporte né? (NURC/SSA DID 231 p. 9) (18) Doc.é isso o que mais chama atenção por exemplo quando a senhora olha para o filme assim a não ser as cenas e o conteÚ:: do o que mais impressiona a senhora?... Inf. não sei o que te responder o que mais me impressiona?... ah nem sei... BOM eu acho que para mulher o que mais chama atenção são as cenas
94
lindas os locais que que passam o mais a roupa né?... eu acho que mais é a roupa maquiagem cabelo... as artistas... parecem umas bonecas né? quando trabalham em filme ((risos))... fala (NURC/SP DID 234 l. 349-357)
Pode-se observar no quadro 1 que a classe dos intensificadores realmente é uma classe bastante colocada em relevo pela altura da voz sobretudo em D2 (17,81%) e DID (16,51%), com uma média geral de 14,34% só inferior à dos substantivos (18,28%) e à dos adjetivos (15,05%). Portanto a hipótese ao ser testada revelou outros fatos como a observação de que verbos, substantivos, adjetivos apresentam sempre uma porcentagem também significativa de relevo pela altura da voz. Isoladamente as quinze classes encontradas não permitiram a percepção de nenhum princípio interessante no que diz respeito ao relevo feito pela altura da voz, exceto o fato de que o número de substantivos em relevo nas EFs é significativamente alto e se lembrarmos que isto pode ser explicado pelo fato de os inquéritos serem dissertações tipo aula em que são importantes os conceitos ativados por esta classe e a explicação dos mesmos. Por outro lado observa-se o quanto os adjetivos foram enfatizados nos D2, o que parece interessante sobretudo se observarmos que a maioria desses adjetivos têm um uso avaliativo e não descritivo (bárbara, boa, incrível, sensacional, importantíssimo, ótima, horroroso, maravilhoso, medonho, bom, tremenda) e nesse caso o relevo chamaria a atenção para a avaliação do produtor do texto ou o relevo serve para intensificar certos atributos das entidades (enorme, aconchegante, lindo, cansada, grande, inteiro, exótico). O mesmo pode ser observado nos DIDs e EFs. Chama também a atenção a porcentagem bastante alta de preposições em relevo pela altura da voz nos D2 (13,69%). Não pudemos levantar nenhuma hipótese comprovável sobre a razão desse número: podemos ter como explicações possíveis ou uma idiossincrasia dos falantes ou talvez o fato de a preposição ser a cabeça de sintagmas preposicionais, considerando que os elementos iniciais de sintagmas tenderiam a ser colocados em relevo. Todavia permanece o fato de que o mesmo não acontece nos DIDs e nas EFs. Todavia, se fizermos alguns agrupamentos, levando em conta certas afinidades, pode-se tirar algumas conclusões interessantes. Assim, se reunirmos num grupo substantivos, adjetivos, verbos e sintagmas, considerando este grupo como o dos ativadores de conceitos e modelos cognitivos globais (frames, esquemas, planos, scripts) observamos que, no conjunto, estes respondem por 48,02% das ocorrências de relevo pela altura da voz, o que nos permite dizer 95
que dada a importância de tais conceitos e modelos cognitivos o produtor do texto falado dá relevo sobretudo a estes para marcar bem a estrutura ideacional desejada. Um segundo grupo reúne os quantificadores, intensificadores e advérbios que têm natureza aproximada tanto que a distinção entre quantificadores e intensificadores nem sempre é fácil e se faz mais pelo fato de se aplicarem a entidades contáveis ou a atributos graduáveis. Por outro lado os intensificadores têm tradicionalmente sido encarados como advérbios de intensidade. Observa-se que esse grupo responde por 32,97% das ocorrências de relevo pela altura da voz. Talvez sua elevada taxa de relevo pela altura da voz possa ser explicada pelo fato de eles serem responsáveis pela apresentação da maneira como o produtor do texto quer que seu interlocutor considere os conceitos e modelos cognitivos ativados pelos elementos do primeiro grupo. Isto, sem dúvida, tem uma dimensão interacional. O terceiro grupo é o que congrega preposições, conjunções, conectores (marcadores) e operadores argumentativos que são responsáveis em conjunto pela coesão seqüencial por conexão (cf. Koch,1989), marcando relações entre elementos e partes do texto, o que significa que, quando estes elementos são colocados em relevo pelo produtor do texto, este está pretendendo marcar tais relações como importantes ou merecedoras de atenção especial dentro da estrutura ideacional que ele pretende para o seu texto. Este terceiro grupo é responsável por 11,47% das ocorrências de relevo pela altura da voz, o que significa que estes três grupos em conjunto representam 92,46% do relevo pela altura da voz. O grupo dos determinantes (numeral, pronome e artigo) com destaque para os pronomes (5,02%) é responsável por 7,18% dos relevos pela altura da voz. Constituímos este grupo como o dos determinantes porque os numerais e pronomes que foram colocados em relevo estavam todos acompanhando substantivos. As interjeições foram responsáveis por apenas 1,08% e os três casos que ocorreram tinham motivações emocionais como era de esperar. O quadro 2 contém as quantificações relativas à extensão do segmento em que a altura da voz era elevada: uma sílaba, mais de uma sílaba, palavra inteira, sintagma. Como a tonicidade parecia ter um papel importante este foi também um parâmetro que utilizamos no estabelecimento das variáveis e o levantamento feito nos levou ao que está registrado no quadro 2. Como se pode observar a sílaba tônica realmente tem importância capital no estabelecimento do relevo pela altura da voz. Observa-se que no geral 53,41% das ocorrências de relevo pela altura da voz acontece na sílaba tônica. Se juntarmos aí os monossílabos tônicos teremos 73,84% dos relevos pela altura da voz na sílaba tônica, o que parece confirmar a hipótese levantada. 96
Cremos que não há problema em juntar os monossílabos tônicos porque, na verdade, embora seja a palavra toda que está em relevo é sua única sílaba, que é tônica, que foi usada para o relevo e neste caso parece não haver nenhuma razão para não juntar os dois casos como ocorrências do mesmo fato. O segundo caso ligado à questão da tônica é do relevo feito na sílaba tônica e nas que lhe são posteriores (1,79%) (casos como: muiTÍSSIMO-2, liDERA, perDIDA, antigaMENTE). Neste caso pode-se incluir o relevo na palavra toda quando temos dissílabas paroxítonas (9,68%) (casos como: ALTA,......... ) e trissílabas proparoxítonas (0,36%) (a única ocorrência foi ÚNICA). Teríamos então 11,83% de ocorrências em que o relevo não é exclusivamente na sílaba tônica mas está relacionado com ela. Isto perfaria um total de 84,83% de casos em que o relevo pela altura da voz é feito na sílaba tônica ou parece depender dela. Depois disso teríamos dois grupos de ocorrência: 1) o grupo do relevo feito pela altura da voz na sílaba átona com um total de 6,09% das ocorrências e que se subdivide em dois subgrupos: a) o das palavras derivadas em que o relevo pela altura da voz foi feito na sílaba que era a tônica do primitivo (1,79%) (casos como: imporTANtíssimo, eXAtamente, BAsicamente); b) o grupo das palavras em que o relevo pela altura da voz foi feito na sílaba inicial ou outra qualquer não tônica (4,30%) (casos como: REalmente, PROmotora, MAravilha, MAravilhoso(as), QUAlidade, NEcessidade, PRINcipal). Como se pode ver só ocorreram casos com a sílaba inicial; 2) o grupo do relevo feito pela altura da voz na palavra toda e no sintagma (8,24% das ocorrências) e que não pode ser explicado pela tônica e seguintes e que também se divide em dois subgrupos: a) o grupo em que o relevo foi feito na palavra toda inclusive em sílabas átonas anteriores à tônica (5,02%) (casos como: SOZINHA, SENSACIONAL, EXÓTICO, PRECISA TER, ROTINA, BANGUE BANGUE, MERAMENTE, AFIRMO, EXISTE, CLASSIFICAÇÕES, TAMBÉM CRIAR); b) o grupo dos sintagmas (3,22%) (casos como: É SALA DE AULA, MUITO IMPORTANTE, EU FIZ, NO TEXTO, PELO TEXTO, PARA ALGUNS, preCISA TER IGUAL, TEM AUla); 97
No subgrupo 1a parece ser natural tal ocorrência, pois se estaria dando relevo à base que contém o lexema/semantema fundamental para a estrutura ideacional e não ao sufixo que contém a tônica. Todavia seria preciso explicar casos em que o relevo se dá no sufixo que no entanto parecem ser muito raros. No subgrupo 1b, com o relevo pela altura na sílaba átona inicial, parece que se explica pelo fato de o produtor querer marcar logo de saída a importância do elemento em questão. Mas resta explicar por que isto acontece em alguns casos que não são tão poucos já que no corpus analisado representaram 4,30% das ocorrências. Os casos do subgrupo 2 parecem se explicar por uma necessidade maior de relevo, ou seja, quando o relevo é feito na palavra toda ou num sintagma, temos um grau mais alto de relevo, pois é este o efeito que se observa em comparação com aqueles casos em que apenas uma sílaba ou parte da palavra é posta em relevo pela altura da voz. Isto valeria também para o caso das palavras inteiras em relevo e que incluímos na influência da tônica por serem dissílabas paroxítonas ou trissílabas proparoxítonas e o relevo se faria após a tônica. Considerando que haveria um grau maior de relevo nas palavras que só tiveram relevo na sílaba tônica e seguintes, pode-se propor uma gradação crescente de relevo na seguinte ordem: relevo na sílaba tônica > relevo na sílaba tônica e seguintes > relevo na palavra toda ou no sintagma. Isto significa que o relevo feito na palavra toda ou no sintagma é mais forte que aquele feito apenas na sílaba tônica ou na tônica e seguintes.
3.1.3 Recorte silábico ou silabação O recorte silábico é representado pela pronúncia das palavras separando-se suas sílabas ou algumas delas. A separação das sílabas leva também ao aparecimento de um ritmo diferenciado de fala (mais lento) que contribui para a proeminência que o falante atribui a determinado elemento. Geralmente essa forma de relevo tem uma motivação ideacional/cognitiva, sendo usada para destacar elemento importante para o falante dentro do conteúdo em questão, normalmente visto como importante para a compreensão do que se diz, ou para ressaltar que é o que se diz e não outra coisa qualquer. 98
Temos esse recurso de relevo nos exemplos (4), (9) e (10). Em (4) o termo “or-de-na-do” aparece com recorte silábico porque a professora acha fundamental esta idéia para que se entenda e perceba que as três abordagens do direito que ela está discutindo com os alunos são científicas, têm caráter científico. Em (9) e (10) o falante além de aumentar a altura da voz faz o recorte silábico do termo “sen-sa-cio-nal” em (9) para marcar bem o caráter excepcional das frutas de que fala e em (10) para destacar a qualidade da sardinha nacional que ele está defendendo e é importante para ele. O falante ainda usa o mesmo recurso em duas outras passagens como se pode ver nos exemplos de (19). Em (19a) com o mesmo fim de (9): ressaltar a qualidade de algo (no caso do restaurante de que ele está falando) e em (19b) para ressaltar que é aquilo mesmo que o interlocutor ouviu e não outra coisa. (19) a- I2-
............. ali na, na, na subida da da, da, na Doutor Timóteo, tu conhece(s) ali, o Bruno? O Bruno é SEN-sa-cio-nal, o Bruno faz um rim que é assim demais é,........ (NURC/POA D2 291 l. 375-377)
b- I2-
Negócio sério. É, eu, eu, eu, eu tive assim uma, algumas coisas, exóticas, macaco, uma ocasião.
I1-
Como é macaco?!
I2-
Ma-ca-co, na Amazônia tem um tipo de macaco lá que se prepara e aí, eu confesso, toda serenidade, provei e achei bom, não é ruim não ((risos)) (NURC/POA D2 291 l. 250-255)
3.1.4 Velocidade da fala (ou ritmo) A fala tem um ritmo normal, que embora tenha uma média esperada pode variar dentro de um certo padrão de falante para falante. Se o falante foge ao seu ritmo normal de fala, acelerando-o ou tornando-o mais lento, pode chamar a atenção para determinados elementos do texto. Como já vimos, quando há o recorte silábico há um ritmo especial da fala que contribui para a proeminência que temos ali. A proeminência marcada por este recurso parece ter, muito freqüentemente, uma motivação emocional, com preferências do falante ou sua perspectiva emocional sobre algo. 99
Este recurso aparece no exemplo (3) onde o produtor do texto falando bem lento ajuda a destacar o quanto ele vê como errado a compra de remédio sem receita médica. Nos exemplos com recorte silábico (4, 9, 10 e 19) vimos que o ritmo mais lento sempre contribui para a proeminência que se estabelece. Em (19a) o ritmo é bem mais lento corroborando a proeminência dado ao caráter de especial do restaurante de que ele está falando, à boa qualidade deste. Esse recurso de um ritmo mais lento de fala é muito usado pela falante do DID 328 NURC/RJ, como se pode ver nos exemplos de (1) e (20) a (22). Em (1) o ritmo mais lento se concentra no termo “sensivelmente” e há quase um recorte silábico, porque para a falante é importante o quanto sobe sua taxa de gordura: daí o destaque a “sensivelmente” que aqui indica esse quanto. (20) Doc.-
ele é feito de que... você sabe? [
Loc.-
o acarajé? eu acho que de feijão... não é? feijão... eles fazem bolinho de feijão e aí depois fazem vários molhos... você pode escolher... (NURC/RJ DID 328 l. 177-182)
Em (20) os termos em negrito foram falados num ritmo bem lento, dando a impressão que a palavra se alonga e parece que o tom é ligeiramente mais alto. A motivação aqui é informacional: a falante dá destaque à informação nova que foi solicitada na pergunta. (21) Loc.-
....... Recife nós comemos coisas assim muito gostosas ... também muito ligada a peixe... eles também... eles comem muita coisa... a lagosta de lá é uma delícia a lagosta de Recife... (NURC/RJ DID 328 l. 192-195)
Em (21) o ritmo lento se acentua nos termos em negrito que parecem se alongar e ter um tom ligeiramente mais alto. Na primeira ocorrência a falante quer destacar o quão gostosas as comidas são em Recife e na segunda ocorrência, o quanto se usa peixe nas comidas de lá. Talvez ela dê este relevo ao quanto se usa peixe porque isto contrasta com sua preferência que é por carne 100
e que já fora bastante marcada anteriormente: então chamou sua atenção o usar-se muito peixe em Recife e no Nordeste em geral. (22) Doc.Loc.-
mas vocês comem sempre carne de boi? ah... é... não... não... a titia... aqui a gente varia... a gente come carne de boi... pode comer... a gente come galinha também... come peixe... ela procura fazer um... uma coisa assim de cada... eh... em cada dia da semana a gente procura variar... mas a base mesmo é a carne... (NURC/RJ DID 328 l.448-453)
No termo “peixe” a falante usa um ritmo mais lento fazendo como que um alongamento, criando uma proeminência para contrastar com a colocação da documentadora em sua pergunta.
3.1.5 Outros recursos fônicos Além dos recursos já comentados encontramos nos inquéritos analisados dois outros recursos fônicos para estabelecer relevo de elementos do texto. O primeiro foi o alongamento como se pode observar no exemplo (23), onde o falante alonga bastante a vogal [u] da palavra “muito” para ressaltar o quão bem feito era o coelho que comeu. Marcuschi (1995: 4), tratando das hesitações, também observou essa função dos alongamentos dizendo “.... nem todo alongamento da vogal é uma hesitação. Há alongamentos que funcionam como coesão rítmica, freqüentes sobretudo na formação de listas. Outros alongamentos operam como ênfase.” (23) I2- ...... Como é o nome daquele ali em cima do Floresta Negra, acima, ah, tu entras na Galeria, Floresta Negra fica aqui à esquerda tu tens uma escada, tem um restaurante ali em cima, eu comi ali foi um coelho, uma ocasião, mu:::ito bem feito, mu:ito bem feito... (NURC/POA D2 291 l. 361-365)
O segundo recurso tem uma natureza onomatopaica imitando uma música de fundo que marcaria algo como importante, como num filme. Tratase da seqüência “tcham tcham tcham” no exemplo (24) que é comum na fala, 101
quando as pessoas vão introduzir algo que consideram importante dentro da situação para si ou para o ouvinte. Parece ter uma motivação sobretudo emocional10. (24)
.......... não tem po:vo que não ten:da a se organizar... e o direi:to... aí vem assim né? como diria Jo João... tcham tcham tcham num é? para o direito... ((intervenção de locutor acidental)) meu Deus! e o dire... eu ... eu esqueci... e o direito num é? ((risos)) nada mais é: num é? que esta organização mesma... então o direito nada mais é é a fra:se... que eu saliento dessa... desse trecho de Duckheim da citação de DUckheim... “e o direito nada mais é do que essa organização” (NURC/EF REC 337 l. 685-693)
3.2 Recursos léxicos 3.2.1 Uso de itens lexicais Muitos itens lexicais apresentam traços em seu significado ou têm papéis (funções) dentro do texto que permitem utilizá-los para fazer relevo de elementos de um dado texto. Estão neste caso verbos como “insistir”, “sublinhar”, “destacar”, “importar”, “notar”, “destacar(-se)”, “salientar”, etc. e operadores argumentativos como “mesmo” e “até”. Nos exemplos (8) e (27) vemos que o uso de “mesmo” reforça o relevo já dado pela altura da voz e também pela repetição (em 8) e pelo expletivo (em 27). “No exemplo (24) (cf. o trecho repetido abaixo) a palavra “saliento” dá destaque a uma parte da citação que a falante julga importante no desenvolvimento do seu argumento. (24)
“então o direito nada mais é é a fra:se... que eu saliento dessa... desse trecho de Duckheim da citação de DUckheim... “e o direito nada mais é do que essa organização” (NURC/EF REC 337 l. 690-693)
No exemplo (25) abaixo é interessante observar que o falante dá um destaque especial à sua preferência por comer usando a expressão “em primeiro lugar”. Ele dá uma proeminência ao ato de comer, quando está falando do prazer que tem nisso ao responder à pergunta da documentadora sobre o que seria comer bem. 102
(25) I2- Opa, melhor ainda. O comer, sempre quando eu falo em comer, por exemplo, é um negócio que, que me atinge diretamente, porque em primeiro lugar, eu gosto de come(r), e mais do que isso eu gosto de prepara(r), tenho prazer de faze(r) determinados pratos, gosto, me sinto bem, talvez um hoby, né? (NURC/POA D2 291 l.95-99)
O exemplo (26) é uma fala em que, no contexto de uma discussão sobre o que é estar bem vestido (em que o falante vinha argumentando que isto depende da ocasião e das regras e exigências sociais), usando o verbo “notar” o falante chama a atenção do interlocutor para um exemplo que comprovaria sua colocação de que não adianta exigir uso de terno e gravata se a pessoa (por exemplo, um gerente de banco) fica com o colarinho aberto e a gravata afrouxada. Neste caso também não se estaria vestido adequadamente. (26) I2- Agora, podem ve(r) notem isso, eu pelo menos não vi, se vir, será esse verão, agora, a partir de dezembro, não demora começa o verão, nós (es)tamos vivendo o problema já do calor, mas certamente, o gerente de banco, por estrutura da própria. I1- Depois é um dogma, e era obrigado. [ I2- Da direção do banco.
Em exemplos como os de (24) e (27), pode-se considerar que temos o uso de parênteses para fazer o relevo (cf. item 3.4.2). Todavia o relevo dado pelos parênteses se deve particularmente ao valor semântico dos itens lexicais aqui destacados.
3.2.2 O uso de expletivos 3.2.2.1 Ser11......que, ser11 que Temos aqui um recurso de clivagem e ficamos em dúvida sobre elencálo entre os recursos lexicais ou entre os recursos sintáticos. Em (27) temos “é que” dando proeminência ao tipo de biscoito que a falante come preferencialmente no café da manhã. Aqui o relevo vem ratificado pelo uso de “mesmo”. Em (28) “foi que” dá destaque ao elemento da per103
gunta que representará a informação nova que o falante solicita do ouvinte. Esse uso de expletivo na interrogativa é comum na língua falada em que os falantes usam sobretudo o “que” sozinho ou “é que” em seqüências como as de (29). Não encontramos muitas ocorrências deste recurso no corpus (cf. 29 e,f), embora este tipo de ocorrência seja freqüente no Português falado. Podese propor a hipótese de que, talvez, este tipo de recurso seja mais típico de uma variedade não culta do Português. Em (30) “era...que” dá relevo a “ela”, a avó que era o centro da narrativa. (27)
...... às vezes como biscoito... geralmente biscoito... assim... esses biscoito tipo integral... é que eu como mais mesmo de manhã... de manhã... (NURC/RJ DID 328 l. 299-301)
(28)
outra pergunta foi a seguinte... existe diferença ... entre... ciência do normativo e... uma ciência normativa?................................................... ........................................ expliquem com suas próprias palavras o que foi que vocês encontraram? existe diferença? HÁ diferença? ou não? ... talvez seja a pergunta mais difícil de todo o capítulo... (NURC/REC EF 337 l. 470-487)
(29) a-
(O) Que que você quer de presente? b- Quem (foi) que trouxe estas flores? c- Onde (é) que vai ser a festa? d- Quanto (é) que custa este CD (compact disc)?
e-
Doc. agora... por exemplo assim nas escolas onde há::... éh::... uma parte assim artística com a (aula) de cultura qual que seria o material? ... que levaria ahn? (NURC/SSA DID 231 p. 12)
f-
Inf.- ...... para mostrar: que... não é propriamente uma ciência que se chama ciência normativa... o que é que vocês diriam sobre isso? quem encontrou: uma resposta... que encontre como satisfatória... para os demais... (NURC/REC EF 337 l. 474-478).
(30)
........ela então veio com a notícia que aquele Ketchup que estava sendo servido era ela que tinha feito.......... (NURC/POA D2 291 l. 214-216)
104
3.2.2.2 Uso de verbos gramaticais de relevo12 Alguns verbos dentro do funcionamento textual têm a função (nem sempre exclusiva) de dar proeminência a elementos do texto. O verbo “ser” quando funciona como expletivo tem essencialmente esta função (cf. exemplo 23 – trecho reproduzido abaixo e exemplo 31). Outros verbos funcionam também como verbos de relevo, mas esta não parece ser sua função exclusiva (cf. o item 3.4.5). (31)
...........no sul eu me... eu me prendi mais foi justamente às frutas... né? (NURC/RJ DID 328 l. 291-292)
(23) I2- ...... Como é o nome daquele ali em cima do Floresta Negra, acima, ah, tu entras na Galeria, Floresta Negra fica aqui à esquerda tu tens uma escada, tem um restaurante ali em cima, eu comi ali foi um coelho, uma ocasião, mu:::ito bem feito, mu:ito bem feito... (NURC/POA D2 291 l. 361-365)
Aqui também se pode pensar, pelo menos para alguns exemplos, em uma falsa clivagem e levantar o mesmo tipo de questão posta em 3.2.2.1, mas mesmo que consideremos como um recurso sintático o relevo é feito pelo uso de elementos lexicais, tanto no caso anterior como aqui.
3.2.2.3 Outros expletivos Alguns recursos expletivos usados no escrito poderiam aparecer também na língua falada. Estariam neste caso, por exemplo, a partícula de realce “se” e alguns casos de objeto direto preposicionado em que a preposição seria um recurso expletivo, como por exemplo os que temos em seqüências como “João pegou do chicote, para castigar o filho” e “Ele ama às artes mais do que os filhos”. No corpus analisado não encontramos exemplos que confirmem esta hipótese.
3.3 Recursos morfológicos/categoriais 3.3.1 Aspecto O aspecto atua sobretudo no estabelecimento do relevo do tipo fundo e figura e, pelo que pudemos verificar no corpus analisado, isto acontece em 105
textos narrativos. Neste caso os trechos com aspecto perfectivo aparecem em primeiro plano como figura e os trechos com aspecto imperfectivo aparecem em segundo plano como fundo, constituindo um quadro em que a ação característica da narrativa se desenvolve. Assim, considerando a superestrutura dos textos narrativos, os trechos de fundo aparecem essencialmente nas partes chamadas de orientação (normalmente onde se descrevem principalmente cenários e participantes da ação ou se monta um quadro de acontecimentos com o qual a ação da narrativa coincide temporalmente) e avaliação (onde normalmente o falante registra suas impressões sobre a ação avaliando-a ou justificando em textos de natureza quase sempre dissertativa). Esta constatação faz ver que neste particular o falado não se diferencia do escrito (cf. o que diz Travaglia, 1991). Vejamos alguns exemplos. Legenda a ser considerada nos exemplos (32) a (34): itálico – fundo (orientação) sublinhado – fundo (avaliação) negrito – figura [ – início do trecho a ser considerado. letra normal – trechos de fala, marcadores e outros. (32) I1- Olha eu me limito a faze(r) um bom, bom! Um churrasco (superposição) churrasco. Mas eu posso fala(r) da, da experiência engraçado, tem pessoas que tem um, um, um, em termos gastronômicos um, um, uma, um talento uma habilidade, impressionante,[ a minha avó era assim, ela qualque(r) prato, podia se(r) o mais complexo, de gosto mais estranho ou exótico possível, ela detectava tempero por tempero e depois reproduzia fazia eu sei que, ãh, quando chegô, praticamente os primeiros vidros de Ketchup que chegaram dos Estados Unidos era material importado, meu tio trouxe pra casa a prova daquilo, isso em mil novecentos e vinte ou qualque(r) coisa assim e a velhinha (ininteligível) todo mundo elogiou o vidrinho tal e coisa, ela ficou quieta, no dia seguinte, o Ketchup estava na mesa, hum, também provou, etecétera, etecétera e ela então veio com a notícia que aquele Ketchup que estava sendo servido era ela que tinha feito, o outro, ela tirou, botou o dela e serviu. Aí o pessoal, não é possível, foram provar era o mesmo. I2-
106
Sensacional, né?
I1- Impressionante,é... ela fazia isso, ela tinha, pegava o negócio assim, mas analisava o negócio inteirinho, sabe que é uma coisa assim muito rara. É incrível! Eu digo talvez os temperos não fossem os mesmos, mas ela conseguia, ia provando, ia botando mais um pouquinho e pá, e encontrava, o mesmo gosto e a mesma aparência, isso também. (NURC/POA D2 291 l. 201-224) (33) I2- ............ Ontem, eu não me lembro, eu acho, não [ ontem eu estava esporte, ontem eu estava de camisa, manga de camisa, hoje tinha uma série de, de compromissos, achei na obrigação de coloca(r) calça e... como é? casaco e, paletó enfim, terno, terno................ (NURC/POA D2 291 l. 895-899) (34) L-
Ma(s) num tinha um qui chegava i para... Intão, a genti tava paradu im frenti à casa da Fátima i eli subiu, mais eu... sabi qui eu tava... assim convandu c’u Bona i eu nem prestei atenção purqui eu tava tão cansada... Tava meia ainda... purque imagini! Uma noiti di sonu prá quem dormi novi horas pur dia, deiz horas... já viu, né? (NURC/SP DID 59 p. 4).
Nos exemplos (35) e (36) do item 3.3.2 a seguir também se pode observar este contraste entre fundo e figura, aqui antecipamos os exemplos marcando os trechos de fundo e figura de acordo com a legenda acima. (35) L-
“... i cumu eu vô sempri na casa da Teresa, eu peçu carona prá eli, purque é na rua deli mesmu, né. Intão, eli desci, mi de(i)xa lá, né. Depois eu voltei da casa... Eu sempri veju eli depois... eli vem... sei lá... intão, cumu eli num tava passan(d)u, né, eu peguei i fui...fui à pé mesmu. I quan(d)u tô passan(d)u im frenti à casa deli, eli tá lá cum duas minina” (NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.2)
(36) L-
... i u Vanderlei adora fazê aqueli balãozinhu na toda, né? Eli sempri passava pu ali. Intão, eu já fiquei meiu assim, né... que eu lembrei i... sempri... eli adora... pu(rque) num tem uma veiz achu qui eli num sai na rua, qui eli num vai fazê aqueli balão lá...
107
E-
Sei.
L-
... eli adora... na hora qui eli... i a genti tá descendu i eli tá subindu.
E-
Ham!
L-
Cu’a minina!
E-
Cum ela!? (NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.5)
3.3.2 Tempo Encontramos basicamente dois casos em que o tempo atua no estabelecimento de relevo. No primeiro caso temos o presente do indicativo alternando com o pretérito perfeito para marcar relevo emocional em narrativas no passado. Este é um caso em que o relevo é de natureza inteiramente emocional, pois o falante destaca aquele(s) acontecimento(s) dentro da seqüência de acontecimentos da narrativa que o marcou (marcaram) emocionalmente por qualquer razão. Em (35) e (36) a falante coloca no presente momentos em que ela flagra o namorado com outra dentro da narrativa em que ela vinha contando à interlocutora o problema que houve entre ela e o namorado: este é sem dúvida o momento mais emocionalmente dramático para a falante. Em (37) a mesma falante enfatiza emocionalmente a chegada da amiga com quem ela sai, o que resulta no encontro com o namorado após o desentendimento, o que, sem dúvida, tem para ela uma carga emocional especial. (35)
trecho inserido numa narração em pret. perf. do ind. Relata o momento em que a falante flagrou o namorado com outras moças. L- “... i cumu eu vô sempri na casa da Teresa, eu peçu carona prá eli, purque é na rua deli mesmu, né. Intão, eli desci, mi de(i)xa lá, né. Depois eu voltei da casa... Eu sempri veju eli depois... eli vem... sei lá... intão, cumu eli num tava passan(d)u, né, eu peguei i fui...fui à pé mesmu. I quan(d)u tô passan(d)u im frenti à casa deli, eli tá lá cum duas minina” (NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.2)
(36) L-
108
... i u Vanderlei adora fazê aqueli balãozinhu na toda, né? Eli sempri passava pu ali. Intão, eu já fiquei meiu assim, né... que eu lembrei i...
sempri... eli adora... pu(rque) num tem uma veiz achu qui eli num sai na rua, qui eli num vai fazê aqueli balão lá... E-
Sei.
L-
... eli adora... na hora qui eli... i a genti tá descendu i eli tá subindu.
E-
Ham!
L-
Cu’a minina!
E-
Cum ela!? (NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.5)
(37) L-
.................Falô qui tinha idu prá floricultura né. Falei assim é: “Floricultura, hein! Velhu truqui, hein, essa floricultura né”mais... ma(s) prá mim a... sei lá... era seti i meia, né?
E-
Ham.
L-
Aí, daqui a poucu... chega a Beti... i eu desci pru Pirituba. Qué dizê que eu num... num sabia mais, né?
E-
Sei
L-
... i, aí eu desci né, fiquei lá conversan(d)u... (NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.5)
No segundo caso, temos um relevo do tipo 3, especificado no item 2: indicação de relevância pragmática de uma situação, de algo no texto (acontecimento, estado, comentário) para a situação presente (o aqui e o agora) ou para um ponto de referência. Encontramos em estudo anterior com textos escritos (cf. Travaglia,1991) que este tipo de relevo no Português é marcado por formas perifrásticas que seriam basicamente: a) ter (presente do indicativo) + infinitivo. Esta perífrase, sendo a forma de expressão do tempo “passado até o presente”, marca a relevância pragmática de uma situação para o presente (cf. exemplo 38); b) vir + gerúndio. Com o verbo “vir” no presente do indicativo esta perífrase marca a relevância pragmática de uma situação para o presente (cf. exemplo 39a) e com o verbo em formas de passado marca este mesmo tipo de relevância para um ponto de referência, especificado no texto (cf. exemplo 39b); 109
c) ir + gerúndio. Esta perífrase indica sempre a relevância pragmática de uma situação para um ponto de referência. Com o verbo “ir” em formas de passado a relevância para um ponto de referência anterior ao momento da fala (passado) (cf. exemplo 40a) e com o verbo “ir” no presente do indicativo ou em formas de futuro, para um ponto de relevância futuro (cf. exemplos 40b,c). Os exemplos (38) a (40) devem ser considerados como fazendo parte de um texto constituído pela discussão de interlocutores sobre a possibilidade de estabilizar a economia do Brasil. Não encontramos ocorrências no corpus analisado. (38) O Presidente tem insistido no fato de que sem a reforma econômica e fiscal não será possível estabilizar a economia. (39) a-
O Congresso porque não quer, pois o Presidente vem insistindo na necessidade dessas reformas para a estabilização econômica.
b-
O Presidente veio insistindo na necessidade das reformas econômica e fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se convenceu disso e votou as reformas propostas pelo Executivo.
(40) a-
O Presidente foi insistindo na necessidade das reformas econômica e fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se convenceu disso e votou as reformas propostas pelo Executivo.
b-
O Presidente vai insistindo na necessidade das reformas econômica e fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se convença disso e vote as reformas propostas pelo Executivo.
c-
O Presidente irá insistindo na necessidade das reformas econômica e fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se convença disso e vote as reformas propostas pelo Executivo.
3.4 Recursos sintáticos 3.4.1 Topicalização A topicalização é um recurso lingüístico bastante estudado e por isto não nos estenderemos aqui em sua caracterização. O que importa registrar 110
neste momento é que, sem dúvida alguma, a topicalização é um recurso usado para dar proeminência a elementos do texto, parecendo ser esta sua motivação textual fundamental. A seguir alguns exemplos. (19b)I2- Negócio sério. É, eu, eu, eu, eu tive assim uma, algumas coisas, exóticas, macaco, uma ocasião. I1- Como é macaco?! I2- Ma-ca-co, na Amazônia tem um tipo de macaco lá que se prepara e aí, eu confesso, toda serenidade, provei e achei bom, não é ruim não ((risos)) ................ (NURC/POA D2 291 l. 250-255) (25) I2- Opa, melhor ainda. O comer, sempre quando eu falo em comer, por exemplo, é um negócio que, que me atinge diretamente, por que em primeiro lugar, eu gosto de come(r), e mais do que isso eu gosto de prepara(r), tenho prazer de faze(r) determinados pratos, gosto, me sinto bem, talvez um hoby (óbi), né? (NURC/POA D2 291 l. 95-99)
(41) ....... mas a base mesmo é a carne... porque eu acho que sai mais barato... peixe por exemplo... se você compra... a gente compra só em dia de feira... porque é o peixe mais fresco... o peixe na peixaria geralmente é muito caro e na feira é mais fresquinho e é mais em conta... sabe? (NURC/RJ DID 328 l. 454-457) (42) I2- Não, tu vês, por exemplo, o peixe, peixe aqui no Rio Grande eu tenho impressão que se come peixe, exclusivamente na Semana Santa, porque é um, é um dogma, o padre mandou, seja lá o que for né? (ruído de microfone) na Semana Santa, mas não é hábito gaúcho come(r), come(r) peixe. No norte, por exemplo, é o, o contrário, nós aqui, eu acho que a gente fica mais vinculado ao aspecto da carne, por exemplo, a minha mulher, a minha mulher é uma pe/, é uma criatura que vive mais na carne, (es)tá, gosta da carne, eu tenho um cunhado meu, irmão dela. (NURC/POA D2 291 l. 25-29)
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3.4.2 Uso de parênteses Com freqüência o falante usa certas frases que dão proeminência a determinados elementos, quase sempre a passagens do texto, que acabaram de ser ditas ou que serão ditas a seguir, mas às vezes também que estão sendo ditas como no exemplo (44). Estas frases quase sempre funcionam como parênteses (Cf. Jubran, 1995) e normalmente têm formas tais como: “atenção aqui”, “notem agora”, “prestem atenção em....”, “quero que vocês prestem atenção em.....”, “aqui vocês devem prestar atenção”, “não esqueçam (isso, o que acabamos de dizer, este conceito, etc.).....”, “isto é importante/ fundamental/essencial/central para que estamos demonstrando (querendo provar, explicando, etc.)”. Estas frases parentéticas têm sempre em seu significado traços comuns de chamar a atenção para algo ou de marcar sua importância para o tópico/subtópico em desenvolvimento. Interessante anotar que os dois exemplos que encontramos (cf. 43 e 44 abaixo) estavam em uma EF (Elocução Formal). (43)
........ porque eu encontrei... uma definição... não é? lendo agora um trabalho bem recente... uma definição... na qual... mostra realmente/ não está no livro porque é recentíssima é uma é uma definição... não é? ligando as três perspectivas... de um artigo de mil novecentos e oitenta e seis... então atenua um pouco... a hostilida:de que existe entre a tre três perspectivas... que é a seguinte... eu vou lê João depois... falamos... talvez até coloque para vocês... isso é uma maneira também de pedir... que prestem atenção... não é? esse... trechinho ou essa citação... de um artigo... diz assim aspas mesmo podem colocar... não quer dizer não escrevam não eu digo colocar nas cabeças de vocês... ou à medida que vão usu que vão ouvindo........... (NURC/REC EF 337 l. 277-290)
(44)
................ existe análise também... eu diria que existe até mes:mo... um olhar assim um tanto voltado à realidade... mas... fazer uma análise... um estudo sistemático... somen:te... aí é que está a diferença... somente... vamos grifar... somente levando em consideração a realidade social... em adequação.. à lei por exemplo... ao direito... vigente... (NURC/REC EF 337 l. 358-364)
112
3.4.3 Repetição A repetição tem inúmeros papéis e funções na constituição de um texto13. Um deles é fazer relevo dando proeminência a determinados elementos do texto. Evidentemente nem toda repetição marca relevo. Não se trata aqui de intensidade, mas a repetição para intensificar seria uma espécie, uma forma de proeminência como a repetição de “fininho” por I2, no exemplo (45), em que o falante I1 repete o termo “polvo” para destacar algo que lembrou. No exemplo (11) a repetição de “igual” com diferentes modalizações (precisa ter igual, basta ser igual, tem que ser igual) dá relevo, marcando a importância da igualdade na distribuição das coisas no café da manhã para as duas crianças, reforçando o relevo com a mesma função que já tinha sido feito pela altura da voz na primeira ocorrência (preCISA TER IGUAL). No exemplo (8) a repetição do termo “exótico” ajuda a marcar o relevo que o falante dá ao exotismo da sopa de olhos de peixe. No exemplo (23) a repetição de “muito bem feito” em conjunto com o alongamento e a velocidade dá relevo ao quanto o falante considera o prato bem feito. Veja também os exemplos (46 a,b). Pareceu-nos que a entonação é importante na identificação de repetições com a função de atribuir proeminência. Veja também as repetições de “precisa” em (47). (45) I1- A comida japonesa, basicamente é peixes crus I2- Quando comem peixe, comem cru. I1- É I2- E bem fininho. I1- Polvo, polvo. I2- Fininho, fininho, fininho (NURC/POA D2 291 l. 320-325) (46) a- I1- O poncho, a pala, essas coisas, regional é nosso aqui, então, em termos de funcionalidade é uma beleza, no entanto era uma coisa que poderia se(r) uniforme do gaúcho, do, do homem na cidade, usa(r) aquele negócio, claro com outro tipo de corte, com outro tipo de fazenda, enfim seria o sobretudo europeu, francês inglês... (es)tá entendendo, poderia se(r) perfeitamente, vestiria muito bem, e poderiam usa(r) normalmente uma, uma peça dessas mas por que? Jamais, o cara que sai(r) é o grosso entendeu? Agora, digamos, invertamos a, a
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situação, digamos que, que esse tipo de roupa seja usado na Inglaterra, ah! bom! Trouxe um poncho inglês? Olha só! (Es)tá usando. Claro, não é? e já se vê moda, digamos, o, o como disse, invertamos o sobretudo fosse uma coisa de gaúcho, ficaria coisa de grosso, de grosso, seria o termo e o poncho seria, (es)tá entendendo, é por isso e sempre a influência do meio industrialmente desenvolvido, mas... (NURC/POA D2 291 l. 1010-1024) b- Doc.-e quando vocês quiseram... escolher uma carreira... o que as levou escolher a carreira? L2- a minha eu acho.. eu não tenho certeza para julgar mas eu acho que foi incutida... meu pai... foi o um::... era militar:: mas a vocação dele era ter sido... advogado então ele vivia dizendo isso... e eu tenho a impressão eu não posso dizer porque é difícil... para a gente dizer porque de jeito nenhum ele falou “focê vai fazer isso”... nunca... mas eu acho que ele falava tanto tanto tanto e eu o admirava muito... eu tenho a impressão que foi... por causa disto embora minha meta fosse Itamarati eu sempre... Doc.-Diplomacia L2- pensei em fazer Diplomacia sempre sempre sempre... mas depois.. por uma série de circunstâncias... não foi possível................. (NURC/SP D2 360 l. 1511-1526) c- L2- ......a gente vive de motorista o dia inTEIRO, mas o dia inTEIro... (NURC/SP D2 360 l. 93-94)
Um caso interessante de relevo pela repetição é quando esta é mediada por uma conjunção “mas”. Nestes casos observa-se que o relevo feito pela repetição parece ser reforçado pela presença do “mas” (cf. exemplo 46 c).
3.4.5 Orações principais Outro recurso usado para marcar relevo é usar orações principais que no todo do período funcionam como “predicados”. Estas orações principais dão proeminência devido ao seu valor semântico que “diz” da importância para o falante do conteúdo de uma oração que lhe é subordinada (normalmente uma subjetiva simples ou de uma subjetiva + uma objetiva) chamando a aten114
ção do interlocutor para tal conteúdo. Basicamente temos dois tipos de oração principal que desempenham este papel: a) aquelas constituídas por seqüências (expressões) tais como “é importante”, “é urgente”, “é notório”, “vale a pena”, “é fundamental”, “é imprescindível”, “é significativo”, “é interessante”, “vale a pena” e que vêm acompanhadas de uma oração reduzida de infinitivo subordinada substantiva subjetiva cujo conteúdo recebe um destaque de natureza ideacional/cognitiva, modalizando-o de diferentes maneiras de acordo com a expressão usada, que dirige a atenção do ouvinte para o que se diz a seguir (veja no exemplo 17 o uso de “o importante é”). No exemplo (47) abaixo tem-se a ocorrência de duas dessas orações mas com sujeito representado por SN, mais a repetição dando relevo a “esporte” e criando uma espécie de gradação. (47) L1-
é... então :: ele se vê no ápice da glória como jogador de futebol sempre... ele joga bem sabe?... mas ele se vê sempre como o Pelé::... não é?... e:: então::... a gente... está pensando... como encaminhá-lo no colegial mas também sem... lutar muito contra esse gosto dele [
L2L1-
ahn ahn precisa praticar esporte precisa... é necessário é fun::/é fundamental o esporte né? ainda mais nessa fase de adolescência... (NURC/SP D2 360 l. 1338-1346)
b) aquelas constituídas por verbos cujo significado contém traços capazes de fazer o relevo tais como “cumpre/urge/importa/etc.” e que vêm acompanhadas de uma oração reduzida de infinitivo subordinada substantiva subjetiva normalmente seguida de uma oração subordinada substantiva objetiva (importa + notar/observar/registrar/salientar/etc. + que.........). O relevo normalmente é para o conteúdo da oração objetiva, que pode ser ainda mais marcado se a subjetiva é um verbo como salientar/insistir/etc. Alguns exemplos seriam como os de (48). (48) ab-
Importa determinar se o direito é ou não uma ciência. Cumpre registrar que minha opinião sobre a questão difere da sua.
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Este recurso de relevo é muito comum no escrito. Embora teoricamente ele também apareça no oral, não encontramos, no corpus analisado, exemplos do mesmo. Somente uma ampliação do corpus permitiria verificar se tal recurso realmente é pouco usado na língua falada ou se o fato de não termos encontrado exemplos é apenas uma característica dos inquéritos analisados.
3.4.4 Orações reduzidas e orações adjetivas As orações reduzidas e as orações adjetivas normalmente veiculam informação que o falante vê como secundária ou que, por alguma razão, quer apresentar como tal ao seu interlocutor. Este é o caso em diferentes tipos de texto, conforme já verificamos em estudos anteriores14. Não encontramos no corpus analisado (ou nos passou despercebido pela baixa freqüência de ocorrência) exemplos que nos permitissem confirmar ou não tal fato para a língua falada. Dessa forma o que pudemos fazer até o momento foi levantar a hipótese de que aparentemente as orações reduzidas e adjetivas têm uma freqüência baixa de ocorrência na língua falada (a confirmação dessa hipótese, todavia, exige um estudo quantitativo cuidadoso que ainda não pudemos fazer). O único exemplo que levantamos deste tipo de recurso foi uma oração adjetiva no exemplo (32) destacada no trecho deste exemplo que reproduzimos abaixo. Evidentemente um único exemplo não dá condições para confirmação ou falseamento da hipótese levantada, mas pode-se perceber que a informação aparece aí como secundária. (32)
..........o Ketchup estava na mesa, hum, também provou, etecétera, etecétera e ela então veio com a notícia que aquele Ketchup que estava sendo servido era ela que tinha feito, o outro, ela tirou, botou o dela e serviu. Aí o pessoal, não é possível, foram provar era o mesmo (NURC/POA D2 291 l. 213-217).
3.5 Marcadores conversacionais Levantamos a hipótese de que alguns marcadores conversacionais teriam a função de marcar relevo. Isto seria feito sobretudo por aqueles que objetivam chamar a atenção do falante para determinados elementos e idéias 116
dentro do texto a exemplo de “olhe”, “olha!”, “ó!”, “óia!”, “veja!”, “veja bem!”. Estes marcadores sinalizariam uma opinião do falante, destacando-a. Essa hipótese parece se confirmar, conforme se pode ver no trecho do exemplo (10) que reproduzimos abaixo, em que o falante chama a atenção para o argumento que vai propor a seguir; no exemplo (24) (cf. “olha”) em que o falante dá relevo ao que ele sabe fazer e também nos exemplos (49) a (51) a seguir. (10) I2- ..... Com a, a, a, olha aqui, alguém duvida, por exemplo, eu, já, falando sobre o aspecto de comida de novo... mas alguém duvida da, da qualidade da sardinha brasileira. Alguém duvida? (24) I1- Olha eu me limito a faze(r) um bom, bom! Um churrasco (superposição) churrasco. Mas eu posso fala(r)............ (NURC/POA D2 291 l. 201-202) (49) L-
... i que era hora di eli vim aqui, intão eu saí c’a minha mãe. Intão, olha só, mais óia, achu qui issu é... gozadu até purque é au contráriu, né, as coisas... (NURC/SP DID 59 l. 17-19)
Neste exemplo a falante dá relevo ao fato de que os acontecimentos são ao contrário do esperado e o uso do marcador “olha” é que faz isto chamando a atenção do interlocutor para o que o falante vai dizer. Já em (50) o marcador (interjeição?) “ó” dá relevo ao espanto que o fato causou na falante. (50) L-
....................... Ela derrubô ácidu sulfúrico na calça..... (inaudível).
E-
Sei.
L-
...feiz uma bola!... i a professora: “Passa sabão na... na peli, logu”, né, purqui pegô i ficô tudo vermelhu. Intão, ela, ela pidiu prá mim qui tava ma(is), nossa! Purque, né... A otra, intão, pe... num sei a mistura errada qui ela feiz, começô a saí uma fumaça... azul! Ela começô a tussi... a minina ficô tão mal!
E-
Nossa!
L-
Achu qui já tava cum tossi... ela feiz a mistura errada.
E-
Sei.
117
L-
... começô a saí... ó... mais, sabi, pare(cia)... Si filmasse aquilu lá... Nossa Sinhora!... intão né... aí. (NURC/SP DID 59 l. 7-19)
(51)
.......... exa:to que é a ética do dever ser do ou do que deveria ser ainda mais entendeu? ((intervenção de locutor acidental)) olhe antes que eu esqueça um parêntese... na realidade social talvez eu esqueça isso de futuro... por isso vou dizendo loga agora... o ser e o deve ser na realidade social... eles se: ãh!... complementam andam juntos (NURC/REC EF 337 l. 580-587)
Em (51) a falante dá relevo ao que vai dizer chamando a atenção através do marcador “olhe” e do anúncio do parênteses.
3.6 A mudança de código (code switching) A mudança de código, ou seja, a passagem de um tipo de dialeto ou registro para o outro no decorrer de um mesmo texto é um recurso que os falantes utilizam para marcar a importância ou respeito que atribuem ao interlocutor ou ao conteúdo, à entidade que constitui o tópico discursivo (por exemplo ao falar de coisas sagradas, da mãe, etc.). Este tipo de recurso pode ser observado na fala, mas não detectamos a ocorrência do mesmo no corpus analisado. Efetivamente o recurso opera, pois, inclusive quando um falante entende que seu interlocutor não está dando o devido respeito a algo, costuma cobrar isto do outro. É o que acontece em seqüências como a de (52) abaixo. (52) – E aí? Aquela velha chata, encheu muito seu saco ontem? – Dobra a língua meu. Quando eu te dei liberdade para falar assim da minha mãe? – Desculpe. Sua mãe ficou muito brava ontem, por você chegar tarde? Talvez o aumento do corpus permita encontrar exemplos deste recurso no corpus mínimo do PGPF. 118
3.7 Recursos estruturais 3.7.1 Posição nos segmentos textuais Giora (1983) diz que a posição final de segmentos textuais (frases, parágrafos, capítulos, versos, estrofes, etc.) dá à informacão (entidade, elemento temático) aí colocado um status de “foreground”, um status de informação semanticamente dominante enquanto o que é colocado em posição inicial tem um status de informação “background” dentro da estrutura informacional do texto. No nível da frase isto está diretamente relacionado à questão do tema/ tópico – rema/comentário e dado/novo, mas em outros segmentos, inclusive nos maiores (verso, parágrafos, estrofe, capítulos, etc.) o status informacional é o mesmo. A autora não observa conversações e não considera segmentos próprios de textos orais tais como os turnos conversacionais. É uma hipótese a verificar se esta forma de relevo ocorre para segmentos próprios dos textos falados tais como os turnos e os segmentos tópicos (cf. Jubran et alii, 1991).
4. Focalização 4.1 Focalização no produtor do texto No que se refere aos fatos de focalização o que pudemos observar é que, nos inquéritos analisados, o foco predominante é no falante: suas idéias, suas opiniões, suas experiências, de modo que as narrativas são predominantemente na primeira pessoa e os modalizadores nos trechos dissertativos vêm sempre na primeira pessoa (eu acho, eu achei, eu penso, eu gostei, etc.). Este fato observado merece um estudo mais detalhado, para registrar efetivamente como isto acontece. Além do mais não nos parece que se possa afirmar este foco como uma característica fundamental da língua falada, sobretudo se lembrarmos que nos inquéritos do NURC, que constituem o corpus básico do Projeto de Gramática do Português Falado, sempre se solicitava ao falante que falasse de suas vivências e opiniões sobre os temas propostos.
4.2 Focalização de partes do texto Koch (1994), falando de coesão por remissão, coloca que ela teria duas funções: a reativação de referentes e a sinalização textual. A sinalização textual tem segundo a autora (cf. p. 3) uma “função básica de organizar o texto 119
fornecendo ao interlocutor ‘apoios’ para o processamento textual, através de ‘orientações’ ou indicações para cima, para baixo, para a frente e para trás, ou estabelecendo uma ordenação entre segmentos textuais ou partes do texto”. Essa sinalização é feita por recursos tais como “abaixo, a seguir, acima, respectivamente, seguinte, a seguir, que segue, mais adiante, anterior, posterior, etc.” em expressões como: nos exemplos abaixo/a seguir, no capítulo seguinte/ anterior; no próximo capítulo/parágrafo; etc. Koch (1984:3,4), adotando proposta de Ehlich (1981), acha que nestes casos seria mais adequado falar de “dêixis textual”, porque o que se tem em verdade é uma “mostração” dêitica. KOCH registra ainda que para EHLICH “as expressões dêiticas permitem ao falante obter uma organização da atenção comum dos interlocutores com referência ao conteúdo da mensagem. Para consegui-lo, o produtor do texto tem necessidade de focalizar (grifo nosso) a atenção do parceiro sobre objetos, entidades e dimensões de que se serve em sua atividade lingüística”. Isto seria feito através do procedimento dêitico. Ora, este fato configura um recurso de relevo em que o falante dá destaque a algo provocando a concentração da atenção de seu interlocutor em determinado elemento do texto: entidade, item tópico, segmento, etc. Interessa aqui particularmente a dêixis textual como recurso de relevo. O caso do uso de marcadores registrado no item 3.5 acima parecenos ser um caso de relevo por dêixis textual em que o produtor do texto como que diz ao seu interlocutor “ó/olha/veja preste atenção no que vou dizer agora”. Veja, em (59) abaixo, exemplo de ocorrência deste tipo de recurso de relevo. (59) a)
.............. a segunda pergunta diz assim o que significa dizer que as regras de... conduta social são imposições? foi a segunda pergunta... tem uma parte que complica um pouquinho essa resposta... complica pelo seguinte porque diz... que são... imposições... e tem algo ligado com imposições de conhecimento... aí vou explicar né? a vocês o que significa isso... eu já expliquei: eu me lembro porque algumas pessoas tiveram dificuldade... mas agora para todos... toda sociedade... à medida que socializa o indivíduo... vai fazendo através do elemento... do composto... sentimento idéia... e vantagem do elemento idéia... ................. (NURC/REC EF 337 l. 52-62)
b)
120
....... isso eu expliquei... eu a acho que na segunda ou terceira aula... mais do que as religio:sas mais do que: as regras morais etecetera... eu
acho que expliquei isso... então vamos passar... por cima disso... ainda um outro ponto... não é? a segunda resposta vocês têm de uma maneira... um pouco rápida porque leram... eu volto somente se alguém tiver alguma pergunta... (NURC/REC EF 337 l. 80-86) c)
há três perspectivas que vocês leram de novo... isso aí para vocês duas mais do que para eles... elas apenas como reforço didático porque inclusive... já... leram e tiveram um pouco o que significa isso? há três perspectivas... em olhar num é? o direito... o fenômeno jurídico (NURC/REC EF 337 l. 117-122)
d)
isso a gente nós já explicamos em classe... (NURC/REC EF 337 l. 230)
e)
isso eu disse não é? na aula passada... (NURC/REC EF 337 l. 248-249)
Pode-se observar neste exemplos que a falante busca de diversas maneiras focalizar a atenção do interlocutores (alunos) para coisas que já disse anteriormente (inclusive em outras aulas) no texto que o curso representa, que vai dizer, ou para o tratamento que vai dar a algo em sua fala. Como se pode observar, pelo menos nestes exemplos, a dêixis textual no oral nem sempre é tão direta e precisa como no escrito, mesmo porque o falante parece não ter uma consciência muito clara dos segmentos do texto oral quanto tem dos segmentos do texto escrito (parágrafos, seções, capítulos, etc.) e por isso refere-se mais a blocos do tipo “eu falei/expliquei/perguntei/propus (ontem/na aula passada /antes, há pouco, etc); “como no exemplo que vou dar agora/a seguir”; “na análise que fiz/farei”;”então agora posso concluir”; “os casos que vou elencar a partir de agora mostram.....”. É bem verdade que estes recursos muitas vezes parecem ordenadores dos elementos no texto, e são, mas também focalizam a atenção para elementos do texto que já foram ou vão ser ditos. É interessante observar ainda que no 121
oral os recursos de dêixis textual que resultam em relevo de focalização são basicamente expressões de natureza temporal (tempos verbais, sobretudo passado e futuro, e expressões do tipo “antes, agora, na aula passada, ontem”, etc.) ou de classificação de elementos utilizados no desenvolvimento do tópico acompanhados de algum elemento ordenador (os exemplos que darei a seguir, a análise que fiz/que farei a seguir, podemos agora tirar uma conclusão, etc.).
5. Algumas observações sobre as funções do relevo Como dissemos na introdução a função básica do relevo positivo é exatamente dar destaque, proeminência, e dessa “derivariam” funções tais como enfatizar; intensificar; marcar um valor especial, indicando que o elemento em relevo deve ser tomado num sentido diverso do habitual, muitas vezes contrário; estabelecer contraste; reforçar um argumento; marcar importância para a estrutura ideacional/informacional do texto, etc. Vamos agora dar alguns exemplos de ocorrência dessas funções, dentro do corpus analisado. A função de enfatizar ocorre, entre outros, nos exemplos (19b), (25), (41), (42) (todos de relevo feito por topicalização); (23), (27), (28), (29), (30) e (31) (todos de relevo feito por expletivos) e (45) (repetição de “polvo”) e (46) (repetição de “grosso”). Evidentemente a ênfase pode ter razões ideacionais e interacionais como o destacar que é uma entidade que deve ser levada em conta e não outra. A função de intensificar aparece nos exemplos (3) com a entonação particular de “monstruosidade”, (23) com o alongamento de “muito” e (45) com a repetição de “fininho” e em praticamente todas as ocorrências em que o intensificador muito está em relevo. A função de marcar sentido especial pode ser observada abaixo no exemplo (53) (relevo de “diSSEram” pela altura da voz) em que a falante quer que se considere o “dizer” como duvidoso apesar do uso do pretérito perfeito do indicativo que implicaria certeza e no exemplo (54) (relevo de “enGAnos” pela altura da voz) em que a falante sugere pelo contexto que na verdade não eram enganos, mas algum tipo de desonestidade. (53) L2- eu estou em casa... estou super/supervisionando o que pessoal está fazendo... não é?... então (né?) fica mais fácil... e:: o que não dá para fazer
122
durante o dia eu faço à noite... mas realmente nós estamos precisando de bastante gente... (está precisando deMAIS lá) L1- mas vai ser logo... L2- eles dizem que vai ser logo [ L1-
eu acho
L2- mas a gente está esperan::do::... não sai nada L1- é da pe/da prefeitura... e... para procurador do Estado... L2- ahn ahn L1- meu marido supõe que::... no primeiro semestre do ano que vem ... L2- já saia? [ L1-
seja marcado...
L2- ah é? L1- é L2- porque diSSEram não sei se é mesmo... que enquanto existe um projeto nosso... e::: provavelmente ele deve ter falado com você L1- enquanto houver concursados:: L2- não L1- vão sendo chamados [ L2- enquanto nã/ não for ser resolvido esse projeto não o projeto que tem... sabe? para os procuradores uma lei... nossa uma regulamentação nossa (NURC/SP D2 360 l. 496-521) (54) L2- houve uma série de irre/éh:: de irregularidades... nas lis/na apresentação da lista de classificação irregularidade foi engano... no no no fazer... na confecção da lista... de de aprovados hou/houv/ começaram a haver alguns enganos... então o pessoal que mand/entrava com mandado de segurança... dizendo que foi contado pontos errados... enGAnos simples comuns eh aritmética (às vezes) de somar o número de pontos... então eles entraram com mandado de segurança... anulando aquela lista de classificação... e então havia publicação de outras... e assim foi indo e:: e
123
a::... de acordo com o edital a validade é dois anos DA publicação... dos resultados... da lista de aprovados... então com a:: com esta... com este recurso de mandado de segurança... não foi propriamente o recurso foram coisas que realmente aconteceram... (NURC/SP D2 360 l. 589-604)
A função de marcar contraste pode ser observada no exemplo (7) com o relevo de “AFIRMO” para contrastar com “pergunto”. No exemplo (17) o relevo dado à conjunção “mas” por si marcadora de oposição, contraste, reforça o contraste que a falante faz entre tudo o que acabou de citar e o que acha realmente importante na escola. No exemplo (55) abaixo o relevo dado pela altura da voz a “HOmens” estabelece um contraste com a idéia de que uma vez que os homens fazem tantas restrições à carreira de procurador era de se esperar que eles não se candidatassem tanto. No mesmo exemplo o relevo pela altura da voz dado ao numeral “UM” estabelece um contraste entre o número de advogados e o número de engenheiros solicitados pelas empresas para contratação, enfatizando ao mesmo tempo a diferença. No exemplo (56) o relevo do advérbio “aGOra” marca o contraste entre antigamente e a situação atual. No exemplo (57) o relevo de “priMÁrio” e “giNÁsio” estabelece um contraste entre estes níveis de ensino e o nível superior (medicina). (55) L2- é...( ) depois éh depois passou a carreira para ser procuradores do estado... e aí ( ) e e apesar de todas essas restrições feitas... pelos homens... é inCRÍvel o número de candidatos para prestar concurso... o numero de HOmens que se candidatam ... e por aí a gente vê por FOra... como a coisa está difícil( ) por isso eu vejo pelo meu marido... como eu falei para vocês ele faz seleção de pessoal né?... então... ele diz que para.......................................................................... ....................................................................................... que para cada cem engenheiros que são pedidos... é pedido UM advogado... quer dizer a desproporção é inCRÍvel...
(56) Inf. certo eu acho que o o o antigamente os cinemas... o ambiente era outro... a gente ia ao cinema tinha em São Paulo tinha uns cinemas ótimos eu acho que aGOra o:: o pessoa::l sei lá eles vão de qualquer jeito ao cine-
124
ma do jeito que estão::... eles emendam saem do trabalho vão ao cinema saem da escola vão ao cinema..................... (NURC/SP DID 234 l. 542-547) (57) Doc.sei e (o ensino?) Inf. aGOra o ensino... eu acho naquele tempo o ensino melhor do que... hoje né? porque eu acho hoje um pouquinho::... (vamos dizer) confuso pra o:: o estudante Doc.em todos os níveis ou ... cê acha que [ Inf.
não... no nível superior medicina não eu acho que (ao menos) medicina... bom as deficiências que tem agora os estudantes... falam nós também tínhamos naquela época não bradávamos tanto quanto eles bradam é questão só de... falar de reclamar né?... então nós tínhamos também no ensino superior não agora no priMÁrio e no giNÁsio eu acho... diferença... antigamente achava be/bem melhor o ensino (sabe?)... apesar de os estudantes hoje terem muito mais facilidade do que nós no ( ) antigamente né... então nós tínhamos MUIto mais dificuldade... porque não tinha MUItos meio de comunicação como o estudante tem hoje.............................. ............................................... (NURC/SSA DID 231 p. 2)
A função de constraste pode apresentar subfunções tais como marcar algo como ou oposto ou simplesmente diferente de algo que veio antes; marcar, na correção, a forma correta em relação à errada anterior (cf. exemplo 5b). A função de reforço de argumento pode ser observada no exemplo (7) com o relevo dado ao operador argumentativo também em “TAMBÉM a lei”. A função de marcar importância para a estrutura ideacional/informacional (cognitiva) aparece em quase todos os exemplos com relevo dado a substantivos como no exemplo (4), em que temos o relevo de “or-dena-do” (pela silabação) e de “CLASSIFICAÇÕES” dados como importantes para o conteúdo da idéia defendida pela professora, e no exemplo (1) em que o relevo dado ao adjetivo “ALTA” pela altura da voz marca a importância deste fator na justificativa para não fazer o café da manhã tal como descrito, o que certamente implica em reforço de argumento. 125
O relevo pela altura da voz pode ter a função de marcar o foco informacional15, indicando a informação que é vista como inteiramente nova, muitas vezes constrastando com uma informação que se pretende corrigir. Isto pode ser observado em uma seqüência como a de (58). (58) A- Seu irmão chegou hoje, não foi? B- Não, ele veio ONTEM.
Embora o relevo possa acontecer por razões emocionais (raiva, irritação, entusiasmo, surpresa) não parece que se possa dizer que o relevo tem a função de marcar emoções. Nem sempre é fácil fixar a função que tem um dado relevo feito pelo produtor do texto porque na verdade ele pode ter várias funções em planos diferentes muitas vezes derivadas umas das outras. Assim por exemplo uma ênfase pode ter implicações ideacionais ou argumentativas ou no estabelecimento de contraste, este por sua vez pode reforçar um argumento e assim por diante. Evidentemente o capítulo das funções ou papéis que o relevo tem no funcionamento do texto em uma situação concreta de interação merece um estudo particular e aprofundado que certamente não fizemos. Além do mais a teorização sobre as funções exige que outras questões sobre como o relevo ocorre estejam devidamente descritas, embora alguns fatos ou princípios já possam ser levantados com base no já estudado. As funções acima arroladas certamente dizem respeito a certos tipos de relevo como o feito por meios fonológicos, lexicais, alguns sintáticos tais como a topicalização e a repetição. Já os relevos de figura e fundo feitos pelo aspecto e pelo tempo, a apresentação de informações como principais e secundárias podem ter funções de organização de informações que parece não seriam próprias de algumas formas de relevo. Assim a teoria das funções exigiria primeiro o estabelecimento de cada tipo de relevo e de como ele feito, em seguida o estudo das funções que cada tipo de relevo pode exercer e finalmente um cotejo que levantaria quais funções seriam comuns a todas ou a algumas formas de relevo e se alguma forma de relevo teria funções que lhe seriam próprias e particulares.
6. Considerações finais Constatada a existência do fenômeno do relevo e que ele se estabelece através de vários e diferentes recursos da língua, algumas questões começam a 126
se delinear. Assumindo que o falante dá instruções ao ouvinte durante o ato comunicativo por meio de elementos lingüísticos que tipo de instrução representa o relevo? Parece que várias respostas são possíveis, mas de maneira geral a instrução é algo que poder-se-ia verbalizar como: a) ”dê importância maior a tal elemento e não a outro ou b) dê importância ao que vou dizer agora, ou c) o que disse, estou dizendo ou vou dizer, por alguma razão, é importante para mim ou considero-o importante: – para as idéias que estou apresentando e/ou – para a conclusão a que quero que você chegue e/ou – para a interação que está ocorrendo entre nós e) por isso, você deve levar isto em conta” d) ou, no caso do relevo negativo, não dê importância a este elemento ou ao que estou dizendo agora. As conseqüências disto nos efeitos de sentido que são produzidos entre os interlocutores nas situações concretas de comunicação são muitas e variadas e abrem também um novo veio de questões a serem resolvidas. O relevo é de que nível: sintático, semântico, pragmático? Parece que independente do tipo de recurso utilizado ele é sempre de caráter pragmático e tem uma origem e um resultado na interação entre os falantes numa dada situação de comunicação em que o relevo adquire um determinado valor e não outro em decorrência de sua função específica dentro de um texto específico usado como meio de interação em uma situação específica. Em vários momentos pudemos constatar que os recursos utilizados para dar relevo podem atuar em conjunto e em alguns exemplos anotamos tal ação conjunta. O estudo de como essa ação conjunta se dá, de quais recursos podem ou não agir conjuntamente no estabelecimento de relevo é, sem dúvida, um estudo a realizar. Finalmente é preciso registrar que o relevo é um fenômeno da constituição dos textos que realmente tem um papel importante na construção e organização dos mesmos, tanto que perpassa vários outros fatos da língua em vários planos e níveis, uma vez que se faz com recursos fonológicos, morfoló127
gicos, lexicais, sintáticos, semânticos e da estrutura do texto, atingindo elementos isolados ou tipos de elementos. Essa abrangência do fenômeno recomenda que ele deve ser melhor estudado enquanto um dos organizadores do texto e da interação a que este serve. Como se vê este estudo revela que temos aqui outro campo para pesquisas lingüísticas e que há muitos fatos a serem descritos e muitos problemas a serem resolvidos.
NOTAS 1
Os elementos que se colocam em relevo seriam “partes” do conteúdo ou certos tipos de conteúdo (como, por exemplo, ações que constituem os episódios de uma narrativa que aparecem em partes da narrativa como a complicação e a resolução em relação ao pano de fundo que aparece em partes da narrativa como orientação e avaliação) dentro do desenvolvimento do tópico discursivo ou se dá relevo a certas entidades, relações, mudanças de tópico, etc. Assim podem ser colocados em relevo: a) episódios de uma narrativa em relação ao cenário, descrições de personagens, ações de pano de fundo; b) ações em relação a outras por razões emotivas; c) determinados conceitos; d) um argumento em relação a outros; e) a introdução de um novo subtópico ou a volta a um subtópico; f) determinadas relações entre proposições; g) uma forma de dizer em relação a outra que talvez o falante considere menos apropriada, etc.
2
No relevo negativo, o falante procura fazer com que algo passe despercebido, provavelmente algo que não pode deixar de dizer, mas a que não quer o interlocutor dê muita atenção. Um recurso para este fim seria falar rápido e baixo. Não encontramos exemplos deste fato no corpus analisado, talvez porque os mesmos ocorram exatamente nos pontos dos inquéritos em que a fala fica ininteligível.
3
Os inquéritos do segundo grupo só foram utilizados na análise que resultou nos quadros 1 e 2.
4
As formas de relevo aqui elencadas foram basicamente levantadas em Travaglia (1991).
5
Kalmár (1982) afirma que nas narrativas da língua esquimó Inuktitut o modo verbal organiza as informações em essenciais e secundárias.
6
Travaglia (1991) registra para o Português que em todos os tipos de textos (descrição, dissertação, narração e injunção) as formas nominais (em orações reduzidas) sempre veiculam informações secundárias.
7
Li, Thompson e Thompson (1982) dizem que no Mandarim este relevo, na narração, seria marcado por uma espécie de sufixo, a partícula “-LE”.
8
Entrariam aqui questões como o que a teoria literária estudou com o nome de foco narrativo: no falante: 1ª pessoa, nos participantes: 3ª pessoa.
9
(5b) permite levantar a hipótese de que há correções em que o falante dá relevo à forma correta para marcá-la. É preciso verificar se este caso ocorre mais vezes, ampliando o corpus e levantando mais casos de correção com relevo da forma correta.
128
10
As lingüistas Maria Luiza Braga e Margarida Basílio levantaram a hipótese de que este recurso é lexical e não fônico. A meu ver a hipótese procede, se considerarmos “tcham, tcham, tcham” como uma palavra da língua e não uma espécie de música de fundo.
11
O verbo ser aparece usado em diferentes tempos e pessoas.
12
Este tipo de verbo foi proposto por Travaglia (1991: 67).
13
Veja, por exemplo, Travaglia (1989) (1989a) e Marcuschi (1992).
14
Veja Travaglia (1991).
15
Isto já foi observado por outros autores, como por exemplo Halliday (1967) apud Braga e Oliveira e Silva (1984).
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130
FUNÇÕES TEXTUAIS-INTERATIVAS DOS PARÊNTESES
Clélia Cândida Abreu Spinardi Jubran (UNESP/Assis – CNPq)
I. Introdução Pretendemos apresentar, neste artigo, uma tipologia das funções textuais-interativas exercidas por parênteses em textos falados, do Projeto NURC. A análise baseia-se na Proposta Teórica elaborada pelo Grupo de Organização Textual-Interativa do PGPF (Koch et alii, mimeo), bem como nos princípios e critérios para uma classificação das funções pragmático-textuais das inserções parentéticas, expostos em Jubran (1966 b), a seguir sintetizados. No contexto de uma perspectiva textual-interativa para descrição de corpus falado, apoiamo-nos nas postulações teóricas de que o interacional é inerente ao lingüístico e de que a interação verbal resulta do exercício de uma competência comunicativa, que se concretiza por meio de textos. Dado o imbricamento entre o interacional e o lingüístico, os dados pragmático-situacionais se introjetam no texto, deixando marcas do processo formulativo-interacional na sua superfície (Koch et alii, mimeo). Em consonância com tais colocações teóricas, os parênteses são vistos como um dos recursos pelos quais os interlocutores articulam o texto falado, manifestando, na sua materialidade lingüística, as posições que assumem na situação de enunciação e o correlativo envolvimento com o ato de fala que executam. Através de procedimentos parentéticos, são explicitadas avaliações que os interlocutores fazem do quadro sócio-comunicativo no qual interagem, pondo à mostra, assim, o processamento discursivo.
Incidindo sobre o modo de formulação do que se diz, sobre o foco enunciativo e o conseqüente estabelecimento de uma direção interpretativa do que se diz, ou ainda sobre qualificações que os interlocutores se atribuem no intercâmbio comunicativo, e que repercutem no que se diz, os parênteses operam desvios momentâneos do quadro de relevância tópica de um segmento textual. Tais desvios são assinalados por marcas formais típicas de elemento inserido, que permitem precisar a sua identificação e delimitação (Jubran, 1996 a e Tenani, mimeo). Os desvios parentéticos do tópico discursivo em proeminência em determinado segmento do texto falado manifestam-se em graus variáveis, desde um afastamento tópico mais tênue até um mais pronunciado. Correlacionando essa gradiência de desvio tópico com a propriedade, acima referida, de os parênteses conjugarem o interativo com o textual, observa-se que: a) de um lado, os parênteses são mais desviantes do tópico quando apresentam uma tendência mais acentuada para focalizarem o processo de enunciação, sem que, com isso, sejam anuladas as suas implicações no desenvolvimento do texto. Equivale a dizer que, quando quebram o fluxo temático para, no limite, incidirem dominantemente sobre o ato enunciativo, os parênteses mesmo assim repercutem no texto, por estarem perspectivando as condições enunciativas necessárias à própria existência do texto; b) por outro lado, os parênteses são menos desviantes do tópico quando pendem mais para o “conteúdo” dos enunciados de relevância tópica, esclarecendo-os, exemplificando-os, sem deixarem de indiciar demandas pragmáticas para a sua ocorrência. Isto significa que, nos casos de uma orientação mais pronunciada dos parênteses para o tópico em proeminência no texto, decresce a manifestação explícita das circunstâncias situacionais da interlocução (Jubran, 1996 b). A partir das constatações acima, pretendemos estabelecer uma tipologia de funções textuais-interativas de parênteses, instituindo classes dispostas ao longo de um contínuo, que vai desde uma proximidade maior dos parênteses à construção tópica do segmento textual contextualizador da inserção parentética, até uma maior aproximação dos parênteses à situação enunciativa em si. Como está em causa uma classificação de parênteses assentada em um contínuo que se estende desde um pendor dos parênteses para a construção 132
tópica do texto até um pendor para o espaço discursivo gerador do texto, julgamos ser pertinente, para os nossos propósitos de pesquisa, considerar o elemento focalizado predominantemente pelos parênteses. Nesse sentido, adotamos, como princípio primeiro de sistematização dos dados, o foco sobre o qual incide a inserção parentética. Chegamos, assim, a quatro grandes classes de parênteses, que envolvem fatores discursivos implicados pela perspectiva textual-interativa aqui assumida, e que enfocam: (a) a construção tópica do texto, (b) o locutor, (c) o interlocutor e (d) o ato comunicativo. A disposição das classes nessa ordem reflete os graus sucessivos de maior proximidade ao tópico discursivo e menor explicitação verbal do pragmático no texto (classe a), passando por classes intermediárias (b e c), em que se acentua, na materialidade lingüística do texto, a presença dos interlocutores, provocando um desvio para a instância de enunciação, até chegar ao afastamento tópico máximo e à aproximação maior do ato interacional em si (classe d). Convém enfatizar que a demarcação dessas classes será sempre feita de acordo com a dominância do que é promovido como foco, pois os fatores nelas envolvidos muitas vezes se interrelacionam. O princípio classificatório será funcional, no sentido de que a descrição dos vários tipos de parênteses ressaltará de seu uso e funcionamento em situações de interação verbal.
II. Tipologia de Parênteses 1. Classe a Elaboração tópica do texto Esta primeira classe particulariza-se pelo fato de ser constituída por parênteses relevantes para a elaboração dos tópicos discursivos desenvolvidos em um texto falado, (a) seja no sentido de manterem alguma conexão de “conteúdo” com os mesmos, (b) seja no sentido de sua formulação lingüística, (c) seja ainda no sentido de sua construção textual. Compreende, portanto, três subclasses.
1.1 Parênteses correlacionados com o conteúdo tópico Os casos de parentetização englobados neste tipo estão na situaçãolimite de reconhecimento de um segmento textual como parentético ou não. Isto porque atenuam a propriedade de desvio tópico, particularizadora de 133
parentetização, na medida em que são concernentes com os enunciados de relevância tópica, por manterem conexões de conteúdo com eles. São esclarecimentos, analogias, exemplificações, justificativas, correções, ressalvas, retoques, reiteração ou desdobramento de informações tópicas. Poderiam ser considerados equivalentes, na classificação de digressões feita por Dascal e Katriel (1982), às “quase-digressões”, integrantes do tipo de digressões baseadas no enunciado, segundo colocação dos autores citados. Pelo fato de esses parênteses guardarem proximidade ao tópico discursivo em desenvolvimento, o critério do desvio tópico torna-se menos operante para a sua identificação. A natureza típica de segmento inserido é dada, então, pelas propriedades formais de parentetização. É através das marcas formais do processo parentético que podemos discernir quando esclarecimentos, exemplificações e analogias, em princípio concernentes com os enunciados que elucidam e, portanto, menos desviantes do tópico, adquirem ou não estatuto de parênteses. Além dos indícios formais de parentetização, que ocorrem nas fronteiras inicial e final das inserções parentéticas (como pausas, possibilidade de interrupção sintática do enunciado em que se encaixam e posterior retomada do mesmo, marcadores de suspensão e de retorno do tópico), sobressaem, como critério de identificação e delimitação dessa modalidade de parênteses, as marcas prosódicas de alteração de tessitura e aceleração do ritmo de elocução. Conforme dissemos na Introdução, em virtude de o foco de parênteses dessa natureza recair preponderantemente sobre o tópico discursivo, diminui a expressão do processo interativo na materialidade lingüística do texto. Na grande maioria das ocorrências, os dados pragmáticos são perceptíveis pelo fato de que o caráter elucidativo dos enunciados topicamente relevantes, que eles assumem, indicia objetivos interacionais de criar mecanismos facilitadores da compreensão das proposições tópicas. Sob esse aspecto, eles asseguram a inteligibilidade e aceitabilidade do texto, preenchendo condições discursivas importantes para a eficácia do ato comunicativo. Um dos recursos de elucidação do conteúdo das proposições tópicas é o da exemplificação, pela qual se introduzem, no texto, dados fatuais comprovadores do que está sendo dito. A função de exemplificação, conforme se verifica em (1), aponta o envolvimento do locutor com o assunto, revelando sua atitude em relação ao conhecimento do que comunica: a de que este se baseia na evidencialidade dos exemplos. Essa atitude gera a confiabilidade no conhecimento (Chafe, 1985), levando, interativamente, à aceitação do que é dito e à esperada adesão do interlocutor. 134
(1)
Inf. cooperativas também são... entidades... realmente bastante... significativas...dentro de uma conjuntura... ou dentro da conjuntura... nacional por exemplo para citar especificamente o caso... do nosso país... sabemos por exemplo que países altamente evoluídos e avançados... [como é o caso por exemplo da Suécia... que é um país que pratica na opinião de alguns... um socialismo considerado como democrático]... têm nas cooperativas uma espécie de suporte ou de tripé... para o seu desenvolvimento... (DID REC-131)
Com função de esclarecimento interpõem-se no texto parênteses que detalham dados expostos nos enunciados topicamente relevantes, atendendo à regra de “clareza”, que faz parte do acordo contratual estabelecido entre os participantes da ação discursiva (Betten, 1976). É o que se observa em (2), em que o parêntese, pela menção ao nazismo e fascismo, introduz uma particularização da informação precedente, de que a Segunda Guerra se deu em função de antagonismos ideológicos. (2)
Inf. e muitas vezes a gente tende... a simplesmente explicar uma segunda grande guerra como tendo sido uma guerra ... claro ... não uma guerra de ocupação como foi a primeira... mas uma guerra ... principalmente em função de .. antagonismos ideológicos ... [no caso o nazismo e o fascismo tá? (as) raízes do eixo] ... economia basicamente social e a guerra é o mais social possível ... (EF RJ-379)
Ressalvas, retoques e correções de informações que constróem a centração de um segmento discursivo são três outras funções freqüentes da modalidade de parênteses em questão. Pela ressalva, insere-se uma observação sobre a extensão do significado de uma proposição, que pode ser ampliado ou reduzido, tendo em vista um ajuste do âmbito significativo dessa proposição. Em (3), o parêntese opera uma redução da informação anterior, pela qual a qualidade de raciocínio lógico e abstrato parecia genérica e indistintamente atribuída a todos os membros da classe dos juristas: (3)
Inf. a linguagem ... o raciocínio ló:gico ... abstrato ... do jurista ... [bem claro que não é de TODO ... deveria ser de todo] ... é bonito ... é algo bem pró:prio dele ... (EF REC-337)
135
O parêntese-retoque, como em (4), reformula uma informação precedente, precisando-a por meio da repetição de um elemento nela contido e o acréscimo de elementos diferentes. Já o parêntese-correção, como em (5), embora compartilhe com o retoque a propriedade da reformulação textual, dele se distingue porque anula, retrospectivamente, a informação sobre a qual recai o processo corretor. (4)
L1
e logicamente indo ao banco levando essa proposta eles me trouxeram ... eles me deram de volta uma série de duplicatas para que eu assinasse e ... [eu e o fiador] ... e isso então foi entregue de volta (D2 RJ-355)
(5)
L1
de um modo geral na Europa eu não gasto dinheiro com hotel ... o ano passado eu: ... em dois meses ... paguei dois dias de hotel em Madri ... foi só ... [não ... dois dias eh não ... foi um não um dia em Madri e um dia em Munique] ... quer dizer ... em dois meses eu paguei dois dias de hotel ... (D2 RJ-355)
As funções de inserções parentéticas ressaltadas até o momento, com o objetivo de exemplificar a subclasse dos parênteses correlacionados com o conteúdo tópico, associam-se à construção da referencialidade textual, que se dá de forma momentânea e dinâmica, no desenrolar do ato comunicativo. O encaixe na linha discursiva de exemplos, esclarecimentos, ressalvas, retoques e correções das informações em curso denuncia essa especificidade de monitoração local e contínua no processamento do texto falado, com vistas à produção de um texto capaz de funcionar comunicativamente.
1.2 Parênteses relacionados com a formulação lingüística do tópico Os parênteses atinentes à formulação lingüística do tópico são fragmentos discursivos que se desviam da centração tópica, colocando em foco o sistema verbal que está sendo utilizado pelos interlocutores. Nesse sentido, eles realizam uma função metalingüística, por terem a particularidade de serem enunciados lingüisticos que, reflexivamente, focalizam a própria linguagem. 136
O conceito de metalinguagem pode ser entendido, neste caso, no sentido restrito de exploração do próprio sistema de signos lingüísticos, uma vez que os parênteses metalingüísticos fazem sempre referência ao código do discurso, estabelecendo relações entre signos. No entanto, para uma necessária adequação desse conceito à ótica textual-interativa de nossa pesquisa, é preciso não só levar em conta as relações de signo para signo, instituídas pela metalinguagem, como também as relações entre usuários e signos. Nessa linha, a metalinguagem será vista no seu funcionamento em situação de comunicação, englobando, portanto, fatores do processo de enunciação: locutor dirigindo-se a um interlocutor, e utilizando-se de enunciados metalingüísticos com propósitos interacionais. Sob esse ângulo, recupera-se, como bem o demonstra Borillo (1985), o sentido que Jakobson conferiu à função metalingüística. Jakobson (1969) define metalinguagem como discurso centrado sobre o código, acrescentando a essa definição uma observação relativa a condições enunciativas para a ocorrência de enunciados metalingüísticos: a de que eles decorrem da necessidade de o destinador e/ou destinatário verificarem se estão utilizando o mesmo código, a fim de promoverem a intercomunicação. Essa concepção de metalinguagem, que aqui adotamos, aproxima-se da de metadiscurso, já que, como nas situações de metadiscursividade, é relacionada com o ato de enunciação que dá origem às formulações metalingüísticas (Borillo, 1985). Partindo, então, dessa visão mais ampla, agrupamos, nesta classe de parênteses voltados para a formulação lingüística do tópico, não só as inserções parentéticas que deixam patentes operações metalingüísticas, no sentido restrito de tradução intra-língua, como também as que pontualizam o texto falado com procedimentos de busca de denominações e de confirmação ou rejeição de opções lexicais. Tendo em vista que esta pesquisa tem enfoque interacional, são também englobados, nesta classe, os parênteses pelos quais o locutor, suspendendo momentaneamente o tópico discursivo, declara ao interlocutor que está processando opções lexicais, ou dele solicita colaboração para a escolha de denominações. A título de ilustração, apresentaremos algumas das funções de parênteses que enfocam o processamento lingüístico dos tópicos discursivos. A primeira, de explicitação do significado de palavras, pode ser evidenciada pelo primeiro parêntese assinalado em (6). Ela se manifesta freqüentemente por meio de procedimentos metalingüísticos, em que um termo em137
pregado no texto (no caso, bisonte) torna-se objeto de um comentário sobre o seu significado e/ou referência. O segundo parêntese destacado no mesmo trecho, ao focalizar o significado de veado, já tem uma função mais específica, que é a de explicação do valor de uma palavra no contexto. (6)
Inf. aqui nós vamos ... fazer uma leitura em nível PRÉ-iconográfico nós vamos reconhecer as formas ... então que tipo de formas que nós vamos reconhecer? ... nós vamos reconhecer bisontes ... ((vozes)) ... [bisonte é o bisavô... do touro ... tem o touro o búfalo:: e o bisonte MAIS lá em cima ainda] ... nós vamos reconhecer ahn:: cavalos ... nós vamos reconhecer veados ... [sem qualquer (em nível) conotativo aí] ...e algumas vezes MUIto poucas ... alguma figura humana ... (EF SP-405)
Observando a questão da elaboração lingüística do texto falado, constatamos casos de suspensão momentânea do fluxo informacional motivada pelo encarte, no texto, de segmentos parentéticos reveladores do processamento formulativo: (7)
Inf.
uma vez ... ele era tesoureiro ... outra vez vice-presidente ... outra agora ele é ... eu disse vice-presidente ainda agora ... né? ... mas não ... vice-presidente é o outro ... ele foi no ano passado ... ele é ... [como é que se diz a pessoa que cuida do clube ... que toma ... [não ... não é ecônomo] ... é o que toma conta assim da ... dessa parte ... que ele tem que cuidar dessas obras tudo ... diretor de patrimônio... é isso ... né?] ... então a gente ... quando tem também esses encontros ... (DID POA-45)
O parêntese acima projeta, no desenvolvimento sintagmático do texto um processo semasiológico de estabelecimento do significado do que se quer comunicar (a pessoa que cuida do clube, que toma conta, que tem que cuidar das obras, de tudo), na direção de um processo de designação e, portanto, de seleção onomasiológica, explicitado pelo encarte de outro parêntese (não ... não é ecônomo). O término desse processo de designação se dá com o encontro do termo buscado (diretor de patrimônio). Este parêntese é bastante elucidativo do processo de formulação lingüística do tópico, porque põe à mostra a operação de seleção paradigmática 138
de lexias, para a combinatória semântico-sintática de elaboração dos enunciados, evidenciando a “mise-en-scène” do código. É elucidativo também do processo interacional, porque materializa lingüisticamente a interação com o interlocutor, chamando-o a colaborar na seleção onomasiológica, através da pergunta como é que se diz, introdutora do parêntese, e a confirmar a adequação da denominação encontrada, por meio de outra pergunta é isso ... né?, finalizadora do parêntese. A verbalização do processamento lingüístico do texto promove a função parentética de busca de denominações, que pode vir indicada por vários recursos: a) por expressões como mais precisamente, sobretudo, isto é, quer dizer, que, acompanhadas de uma opção lexical, constituem parênteses que retificam ou corrigem uma outra opção lexical anterior aos parênteses. Mediando as duas opções, tais expressões indicam que a segunda é mais apropriada que a primeira. Em vez das expressões acima citadas, pode ocorrer a alternativa ou introduzindo o parêntese, como em (8), em que a inserção ou precisão provoca um retorno, no eixo sintagmático, ao núcleo do SN precedente (exatidão), substituindo-o, enquanto alternativa de opção lexical mais adequada ao contexto (desenho). (8)
Inf. bom ... outra coisa que nós vamos ver ... nos slides na na aula que vem ... é a extrema precisão do desenho ... eles conseguem chegar a uma fidelidade linear ... da natureza ... à extrema exatidão do desenho ... [ou precisão] ... e eles conseguem chegar ... a é óbvio uma evolução certo? (EF SP-405)
b) por justaposição ou alternância de sinônimos, no interior de um parêntese, que ou podem se excluir, de modo que o último será mais apropriado às necessidades comunicativas, ou podem se reforçar uns aos outros e, por acumulação, transmitir o significado desejado. Esta segunda possibilidade ocorre em (9), em que o parêntese contém uma lista de sinônimos (ou três perspectivas ou três linhas ou três maneiras), que acabam por clarear o significado do SN precedente os três saberes. Observe-se que as alternativas de denomina139
ção poderiam ocupar o mesmo lugar sintático do referido SN, o que demonstra a projeção da escolha paradigmática no eixo sintagmático (Blanche-Benveniste, 1984). (9)
Inf. mos:tra ... num é? nesse trechozinho ... ou nessa citação ... que os três ... saberes ... [ou três perspectivas ou três linhas ou três maneiras] ... de se olhar o direito ... mostra que ... todas três ... na realidade ... definem ... classificam ... e têm ... proposições ... sobre as relações ... pertinentes ao direito ... (EF REC-337)
c) por frases que registram um procedimento metalingüístico pela presença de termos da linguagem-objeto e da metalinguagem, conforme se verifica em (10). O parêntese comporta um termo-objeto (tênis de praia) e um comentário metalingüístico que focaliza esse termo-objeto enquanto expressão (que se chama) e conteúdo (aquilo com raquete). (10) Inf. bom ... o que eu vejo lá na ... na ... praia o pessoal joga muito aquelas raquetes assim ... jogam vôlei ... [ tênis de praia que se chama aquilo com raquete] ... é tênis de praia ... vôlei ... isso que eu vejo na praia ... né? (DID POA-45)
d) por comentários parentéticos do locutor a respeito de uma opção lexical, como em (11), em que o parêntese (a palavra neutralizar não sei se se aplica bem) encerra uma observação sobre a adequação ou não da escolha do verbo neutralizar para descrever a atitude dos países vencedores da Segunda Grande Guerra de ajudarem economicamente o Japão, país vencido. (11) Inf. elas (as economias industriais aliadas que ganharam a Segunda Guerra) resolveram ... trazer ... a economia japonesa para seu lado ... tá claro? ... quer dizer ... [a palavra neutralizar ... não sei se se aplica bem] ... mas resolveram mostrar ao Japão que não eram os inimigos
140
que eles estavam do mesmo lado ... que todos podiam em termos industriais ... se desenvolver ... (EF RJ-379)
e) por expressões como digamos assim, podemos dizer assim, por assim dizer, vamos dizer assim, que precedem ou sucedem uma determinada opção lexical, indicando que a denominação escolhida aproxima-se do que se pretende comunicar, não sendo, necessariamente, o termo mais pertinente. Por meio dessas expressões, o locutor sinaliza, para o interlocutor, uma certa imprecisão na formulação lingüística dos enunciados que produz, antecipando-lhe uma possível “falha” de funcionamento do código, no uso que dele faz. Tais expressões têm, assim, esse intuito interacional e revestem-se de um teor metalingüístico, exatamente porque testam as possibilidades comunicativas dos signos previstos no código. Em (12), o emprego do adjetivo novos é questionado pela expressão digamos assim, tanto que, na seqüência do parêntese, o locutor justifica tal emprego, definindo o espaço de tempo recoberto pelo adjetivo: (12) L2
e agora saíram uns ... uns temperos mais ... mais novos [digamos assim ... porque têm dois anos mais ou menos] ... que é esse puro purê ... (D2 POA-291)
Ainda dentro dessa função de indiciar, por meio da parentetização, o processo de seleção lexical, há casos bastante interessantes para a perspectiva interacional que adotamos, porque destacam a co-participação dos interlocutores na construção do texto. São casos em que o locutor interrompe por momentos o desenvolvimento do tópico discursivo, a fim de, entre parênteses, chamar o interlocutor para dentro do texto, com o intuito de pedir-lhe ajuda para encontrar uma denominação, como em (13), ou delegar-lhe a escolha de um lexema, entre alternativas que lhe são colocadas, como em (14). (13) L1
o governo acha ... o governo acha que a solução do ... do chamado ... [como é o nome?
L2
é a UPC ou ...
L1
é UPC e ...
141
L2
índice de ...
L1
índice de correção monetária] ... é a solução para ... éh ... corrigir a inflação (D2 RJ-355)
(14) Inf. o ser e o dever ser na realidade social... eles se: éh: ... complementam andam juntos ... o ser e o dever ser ou seja o mundo real e o mundo ideal ... ou irreal [eu num num ... como vocês queiram chamar] ... esses dois vi:vem ... lado a lado na realidade social ... (EF REC-337)
1.3 Parênteses relacionados com a construção textual Assim como os parênteses vistos no item anterior, os relacionados com a construção textual são igualmente metadiscursivos, porque põem em evidência, no texto, a sua própria estrutura. Para a análise desse tipo de parênteses, procedemos a uma adaptação do estudo que Borillo (1985) faz sobre expressões e enunciados metadiscursivos indicadores da construção do discurso. Essa adaptação consistiu, em primeiro lugar, em considerar tais expressões e enunciados apenas quando apresentam as propriedades da parentetização, adquirindo, portanto, estatuto de inserção parentética. Em segundo lugar, consistiu em averiguar até que ponto as funções, por ele apontadas, eram igualmente realizadas por parênteses. Pela pertinência que tem para a nossa abordagem textual-interativa dos parênteses, retivemos, de Borillo, a observação de que a função textual de assinalar a estruturação do texto, que esses fragmentos metadiscursivos preenchem, tem a sua contrapartida interacional: esclarecendo a organização do discurso, tais fragmentos facilitam o trabalho de formulação e apresentação do texto falado e, conseqüentemente, de recepção do mesmo De acordo com Borillo, os marcadores de estruturação textual operam em três planos “ligeiramente diferentes”: a progressão lógica, a composição ou disposição e a argumentação. Quanto à progressão lógica, destaca enunciados metadiscursivos que asseguram a progressão seqüencial do discurso, estabelecendo relações anafóricas entre enunciados sucessivos, e assegurando, assim, a coesão e coe142
rência textuais. Pela sua denominação, são marcadores de seqüencialidade, como expressões do tipo: a isto se acrescenta ..., a seguir, em primeiro lugar, a partir daí ..., para completar ..., o que conduz a ... São também marcadores de seqüencialidade os verbos de movimento que indicam progressão no eixo espácio-temporal que cria o discurso à medida que este se constrói: continuar, seguir, chegar a, passar a, levar a. Quanto ao esquema de composição, refere-se a enunciados metadiscursivos que mencionam o lugar e o estatuto de um fragmento de discurso relativamente a uma composição, tomada no seu conjunto. Podem assinalar as diferentes fases de estruturação textual, como introdução, desenvolvimento, conclusão (via expressões do tipo de para introduzir, para concluir, a título de introdução ou de conclusão), ou mesmo conferir, a uma seqüência discursiva, o papel que ela assume no texto, como resumo (em síntese, resumindo, em resumo), ênfase (insisto, sublinho, destaco), informação paralela (entre parênteses), e outros. Em síntese, trata-se de expressões ou enunciados que participam da elaboração discursiva, operando como fatores de integração e organização textuais. No que diz respeito ao esquema argumentativo, Borillo salienta determinados enunciados que têm natureza metadiscursiva por fornecerem indicações sobre como funciona o discurso, em relação a objetivos do locutor de demonstrar movimentos de raciocínio na produção do texto: objeções, concordâncias, suposições, demonstrações, ilustrações (contesto, objeto que, admito, a partir de... concluo que..., confirmo, suponho, contradigo, à guisa de demonstração ou de ilustração, etc.). Levam a um desenvolvimento controlado do discurso, governando a sua elaboração e melhor assegurando a sua compreensão. Partindo dessas colocações de Borillo, analisamos os parênteses do corpus que focalizam a construção textual e chegamos à constatação de que esses três planos, principalmente os dois primeiros, muitas vezes se justapõem: informações parentéticas sobre o esquema de composição do texto podem simultaneamente assinalar progressão lógica de tópico, fazendo remissões a fragmentos discursivos e articulando-os tanto no interior de um tópico, por relações intra-tópicas, quanto na globalidade do texto, por relações inter-tópicas. No quadro das relações intra-tópicas detectamos duas funções parentéticas: a de marcação de subdivisões de um tópico discursivo e a de marcação de retomadas do tópico, no interior do mesmo segmento discursivo. A primeira ocorre em tópicos desenvolvidos por partes ou abordados sob vários aspectos ou perspectivas. Pode ser constatada no exemplo (15), em que o Informan143
te discorre sobre o tópico discursivo proposto pelo Documentador (assuntos geralmente debatidos em assembléias sindicais), subdividindo-o de acordo com a enumeração de itens de pauta das assembléias. O parêntese como já disse fecha o primeiro item referido (vantagens salariais) para introdução do segundo (questão do horário), apontando para o interlocutor a organização interna do tópico com base em uma progressão em etapas. Nesse caso, mesclam-se as funções metadiscursivas de indicação de progressão textual e de esquema de composição, colocadas por Borillo. (15) Doc. Nessas assembléias que assuntos em gerais são debatidos? Inf. bom estas assembléias ... habitualmente elas tratam dos assuntos ... que dizem diretamente ... / que diz respeito ... de assuntos que dizem respeito ... aos: associados ... como por exemplo ... a questão do: aumento ou do piso salarial ... sabemos que a inflação ... reduz o poder ... aquisitivo do nosso povo ... então anualmente o governo ... estabelece ... os chamados ... reajustes ... salariais o governo por exemplo paga aos seus funcionários normalmente um reajuste salarial ... no mês de março ... onde ele estabelece critérios ... onde ele estabelece índices salariais ... baseados em cálculos que são feitos ... se não me engano pela fundação Getúlio Vargas ... que é um órgão ... que po / que é um órgão técnico ... que: normalmente ou habitualmente fornece subsídios ... a todas as entidades ... que a ela que a ele recorrem ou que a ela recorre ... a fim de poder com isto levar adiante suas reivindicações ... junto à justiça do trabalho então habitualmente nessas assembléias os associados tratam ... realmente [como já disse] ... das vantagens ... salariais como também ... os associados ... tratam também a respeito de da questão ... do horário (DID REC-131)
A segunda função atrás mencionada, de marcação de retomadas intratópicas, manifesta-se em parênteses encaixados em segmentos cujo tópico é suspenso por uma digressão e é posteriormente reintroduzido. O segmento abaixo apresenta essa estrutura, visto que o tópico (no início do século a África e a América Latina eram quase que ilustres desconhecidos) é interrompido por uma digressão, a respeito do total de população nesses continentes, e retomado após o parêntese (então como eu ia explicando). Parênteses dessa natureza promovem uma remissão retroativa, anafórica, a algo já dito, estabelecendo coesão entre as partes tópicas cindidas. 144
(16) Inf. no início do século ((ruído)) ... a África e a América Latina ... eram quase que ilustres desconhecidos ... (vo)cês viram ( ) aqui que o total de população ... que o total de população ... no início do século ... na África ... e na América Latina ... era um total ... bastante pequeno ... e que foi a grande taxa ... maior que a da ... na América e na África que fizeram com que hoje ... realmente apesar de uma taxa muito alta .. ainda em termos totais ... tanto a África como a América Latina ... teriam uma população RElativamente pequena em comparação ... à Europa e à Ásia ... [então como eu ia explicando] ... no início do século vinte ou melhor no século dezenove ... só existiam ... a Europa e a ... Ásia ... bom ... formadas ... por ... culturas diferentes ... atravessando situações históricas de feudalismos diferentes ... mas ... tanto a Ásia como a Europa ... já ... passavam por passados ... o que não acontecia com América e com África ... tá? ... (EF RJ-379)
Essa mesma função de retomada tópica aparece também na estrutura global do texto, conectando tópicos distanciados entre si. Assim, informações contidas em fragmentos discursivos de tópicos diferentes são repisadas e os parênteses, que marcam essas retomadas, estabelecem coesivamente articulações na montagem do texto no seu conjunto. Uma terceira função dos parênteses em estudo é a de marcação de fases de estruturação do texto, como introdução, desenvolvimento e conclusão. No exemplo (17), o parêntese (finalizando mesmo) demarca a etapa de conclusão do texto, anunciando a proximidade do seu término. Inserções parentéticas desse tipo põem à mostra o esquema de composição textual, sinalizando suas etapas. (17) Inf. para ele: Durkheim ... primeiramente vem o direito ... o até mesmo os mo:res ... que vocês estudaram ... vem:... de maneira secundária ... o principal já no tempo né? de Durkhein era o direito ... como máximo ... num é? para impor normas ... e ... [finalizando mes:mo] o direito reproduz ... todas as formas essenciais ... e é apenas ... estas que precisamos conhecer (EF RC-337)
A quarta e última função dos parênteses focalizadores da montagem textual é a de marcação do estatuto discursivo de um fragmento no texto. É o 145
caso de (18), em que o primeiro fato de parentetização (olhe antes que eu esqueça ... um parêntese) confere estatuto de parênteses, de segmento encartado em outro, ao trecho que contém a informação de que, na realidade social, o ser e o dever ser se complementam. A natureza parentética desse trecho, no contexto do tópico relativo à ética do dever ser, é reiterada pela justificativa da ocorrência de uma inserção neste ponto do texto, contida no segundo parêntese (talvez eu esqueça isso de futuro ... por isso vou dizendo logo agora). (18) Inf. a ética do dever ser do ou do que deveria ser ainda mais entendeu? ((I.L.A.)) ... [olhe antes que eu esqueça ... um parêntese] ... na realidade social [talvez eu esqueça isso de futuro ... por isso vou dizendo logo agora] ... o ser e o dever ser na realidade social ... eles se: éh: ... complementam andam juntos (EF REC-337)
2. Classe b Parênteses com foco no locutor Integram esta classe as inserções parentéticas pelas quais o falante se introjeta no texto que produz, focalizando representações suas a respeito de seu papel discursivo de locutor-instanciador do discurso, bem como caracterizando o foco enunciativo a partir do qual são persperctivados os tópicos abordados no texto. Essa introjeção provoca desvios do tópico em curso para elementos do espaço discursivo gerador do texto, que repercutem no que é dito. Isto porque os dados enunciativos revelados entre parênteses têm papéis importantes no estabelecimento da significação proposicional, de base informacional, que constrói a centração tópica. Desse modo, os parênteses desta classe, desviando-se de seu contexto, com ele se articulam, por atuarem sobre o conteúdo das proposições criadoras desse contexto (Jubran, 1996 a e b). A introdução do locutor no texto é lingüisticamente expressa por recursos como os estudados por Chafe (1985) para as situações de ego-envolvimento (principalmente uso de pronomes de primeira pessoa) e de envolvimento do falante com o assunto (lexias que manifestam o grau de interesse ou conhecimento do assunto enfocado). A demarcação de uma classe de parênteses centrados no locutor não invalida a perspectiva interacional de nossa pesquisa, visto que parênteses de envolvimento do locutor com sua função enunciativa e/ou com o assunto que 146
aborda resultam, no jogo de intercâmbio verbal, de representações recíprocas dos papéis discursivos e sociais dos participantes do ato comunicativo. Qualificações que o locutor se atribui ou referências sobre suas relações com o que diz permitem ao interlocutor a contextualização das condições sob as quais se produzem sentidos – daí a dimensão interativa da parentetização com foco no locutor. Dentre as funções parentéticas observadas no interior dessa classe, destacamos as abaixo arroladas. a) Auto-qualificação ou auto-desqualificação do locutor para discorrer sobre o assunto.
A auto-qualificação pode ser vista em (19), em que o parêntese atesta a vivência sindical do falante para dizer das deficiências de um sindicato sem sede. (19) Inf. sabemos por exemplo ... [nós que entramos aqui nesse sindicato no ano de mil novecentos e setenta e quatro] ... das carências ... e das deficiências que o sindicato apresentava por não ... possuir uma sede ... adequada ... (DID REC-131)
A auto-desqualificação é registrada em (20), exemplo que põe em destaque a interferência das relações interativas na representação recíproca dos interlocutores. Face a uma pergunta do Documentador sobre as marcações nas estradas da Bahia, L1 sugere que tal pergunta seja dirigida a L2, que é técnico na área. Com essa atitude, traz para o texto uma informação sobre a atividade profissional do interlocutor e se situa, em relação a esse dado, reconhecendose como desqualificado para abordar o tema (eu sou apenas ... um: usuário um usuário das marcações). (20) Doc. como é que são as marcações no estado? L1
como é que são as marcações no estado ... [bom você devia perguntar isso ao técnico e não a mim eu sou eu sou apenas ... um: um usuário das marcações] eu acho que aqui nós já temos certas estradas relativamente bem sinalizadas ... (D2 SSA-98)
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b)Manifestação de interesse ou desinteresse pelo assunto
Em (21), o parêntese introduz no texto um comentário sobre o alto grau de envolvimento, de afinidade, do locutor com o tema. Já em (22), a inserção parentética atesta desinteresse do Informante em desenvolver o tópico proposto pelo Documentador. (21) Inf. sabemos por exemplo ... que o sindicato ... dos comerciários [para falar de um assunto que nos toca ... parti / particularmente] ... possui uma granja na cidade de Carpina ... e que proporciona ... àquela imensa ... leva ... de associados ... um lazer realmente magnífico ... (DID REC-131) (22) Doc. Dona 1. além da participação do artista ... no filme quais os outros elementos importantes na sua opinião para que o filme seja bem sucedido bem aceito pelo público? Inf. fundo musical né? ... eu acho que influi bastante ... eu já falei para vocês cenários né? Doc. uhn uhn ... Inf. [sei lá mais o que] cenário fundo musical ... o tema do filme né? (DID SP-234) c) Desconhecimento do assunto proposto pelo interlocutor
No exemplo (23), o parêntese se encaixa entre a introdução tópica, feita pelo Documentador através de pergunta, e o desenvolvimento do tópico pelo Informante. Assim, antes de responder à questão, o Informante declara ao interlocutor a sua falta de conhecimento sobre o tema, antecipando-lhe a possibilidade de uma resposta precária. (23) Doc. e como é que a senhora acha que é elaborada uma peça de teatro antes dela ser apresentada? Inf. [ah aí você pegou porque eu não sei não] como é elaborada? ... deve ser como na televisão eles preparam o o o::... o a peça ... e:: devem dividir o o os... o o as partes para os artistas deve ter um ensaio meDOnho (DID SP-234)
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Nesta função estão também enquadrados os casos em que o desconhecimento atinge detalhes do assunto, sendo expresso por referências à falta de lembrança de algum dado integrante do tópico discursivo em desenvolvimento, como em (24). (24) L2
o que está acontecendo é o seguinte ... é que o meu ah ... isso ... há um decréscimo em cada prestação ... por exemplo ... eu pago ... [agora não lembro assim de cor ... mas é um determinado número] ... não sei quantas UPCs ... vírgula zero ... zero não sei o quê ... (D2 RJ-355)
d) Manifestações atitudinais do locutor em relação ao assunto
Por meio da parentetização, pode-se manifestar a modalidade, ou seja, “a relação que se estabelece entre o sujeito da enunciação e seu enunciado” (Maingueneau, 1990). Nesse caso, as inserções parentéticas exprimem o modo pelo qual o significado dos enunciados tópicos é qualificado, de forma a refletir o julgamento do falante sobre a probabilidade de serem verdadeiras as proposições expressas por eles. Revela-se, assim, o valor epistêmico que o locutor atribui às proposições tópicas adjacentes aos parênteses, conforme se pode verificar no exemplo (25), em que o parêntese (acredito eu) mostra que o locutor relativiza o teor de certeza e veracidade do conteúdo do enunciado no qual esse parêntese está inserido (normalmente existe um colegiado). (25) Doc. o senhor falou que o presidente pode estabelecer regras ... normas ... de: em torno do sindicato que ele: preside ... essas normas ele decidiria só? sozinho ele decidiria eu quero que seja feito isso isso isso e isso? Inf. normalmente existe ... [acredito eu] ... um colegiado ... é graças a este colegiado ... que o senhor presidente vai evidentemente pautar: suas decisões ...
e) Indicação da fonte enunciadora do discurso Foram detectadas três situações referentes a essa função parentética: – intromissão do locutor no texto, circunscrevendo como foco enunciativo a sua própria perspectiva: (26) L2
uma das coisas fundamentais de qualquer prato ... [eu pelo menos penso assim ... quer dizer ... é a minha opinião] ... é que as pessoas ... ao
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... ao ... ao ... comerem ou ao saborearem um prato fiquem sempre perguntando como é ... como foi feito ... sem que se distinga ... ou possa se distinguir o tempero ... (D2 POA-291) – atribuição da perspectiva sobre o assunto a uma outra fonte de enunciação identificada no texto: (27) Inf. então nós estamos ... numa faixa diferente ... não é mais a faixa da ciência DO normativo ... mas ciência normativa ... que é a ética [ou como disse João] ... a própria domi/dogmática jurídica ... (EF REC-337) – atribuição de pontos de vista sobre o assunto a fontes não identificadas, promovendo polifonia de enunciadores, mediante a qual o locutor se exime da responsabilidade do que é dito ou fundamenta o que diz por meio de evidências baseadas no “ouvir dizer” (Chafe, 1985): (28) Inf.... e ficar em casa tomando seu cafezinho comendo seu sanduíche e e ... ((risos)) e assistindo filme ... eu acho que o que mais prende o pessoal [que a gente ouve e eu vejo o o o os come/ e e eu ouço os comentários] eu acho que são os filmes que passam principalmente nos fins de semana ... agora novelas também né? (DID SP-234)
3. Classe c Parênteses com foco no interlocutor Nesta classe estão os parênteses que materializam a presença do interlocutor no texto falado e fazem referência a condições enunciativas do discurso que garantem a possibilidade de intercâmbio. Preenchem uma função fática e são, sob esse aspecto, acentuadamente interacionais. Apresentam, assim, um grau maior de manifestação do processo interativo na superfície textual, relativamente aos parênteses da classe anterior, sem, contudo, deixarem de ter implicações no que se diz sobre os tópicos discursivos. Ao explicitarem relações de contato entre locutor e interlocutor, tais parênteses evidenciam uma “interação centrada” (Goffman, 1976), de envolvimento conjunto dos partici150
pantes do ato comunicativo na abordagem de temas sobre os quais concentram sua atenção. Eles co-participam da produção de sentidos do texto, dentro de determinadas contingências de interlocução, que podem aflorar no texto sob forma de parênteses. A particularidade dos fatos de parentetização desta classe está em provocar uma suspensão momentânea do tópico discursivo, para, nesse intervalo, colocar em proeminência informações sobre o papel discursivo do interlocutor, seus atributos para exercê-lo e seu envolvimento com o(s) outro(s) participante(s) do ato verbal e com os assuntos abordados. A função fática, comum a todos os parênteses centrados no interlocutor, realiza-se nas subfunções abaixo. a) Estabelecer a inteligibilidade do texto
Neste caso, geralmente ocorrem seqüências parentéticas esclarecedoras das proposições tópicas, com em (29): entre a questão formulada pelo Documentador, introdutora de tópico discursivo, e a resposta do Informante, inserese um par adjacente pergunta/resposta, pelo qual se esclarece o tópico colocado na pergunta inicial. O desenvolvimento desse tópico só tem início após essa “negociação” de inteligibilidade do segmento discursivo em questão. (29) Doc. qual a manifestação que a senhora nota ... ah::: por parte do público ... depois de uma representação teatral? ... Inf. [como qual a manifestação você pergunta? Doc. como é que o público se manifesta ou depois de terminado um ato no intervalo ou depois da peça? ... no que diz respeito à peça em si?] Inf. eu não a:: não acho assim que eles ... aplaudem:: (DID SP-234)
b) Evocar conhecimento partilhado do tópico
O conhecimento do tópico ou de detalhes do tópico sobre o qual se fala, por parte dos envolvidos no ato comunicativo, pode ser dado como consensual. Neste caso, o consenso é demonstrado ou pelo emprego de primeira pessoa do plural, unindo locutor e interlocutor (ex. 30), ou ainda pelo uso de frases declarativas, que atestam que o interlocutor, representado no texto por você, domina aquele conhecimento (ex. 31). 151
(30) Inf. então habitualmente nessas assembléias os associados tratam ... realmente como já disse ... das vantagens ... salariais como também ... os associados ... tratam também a respeito de da questão ... do horário porque [como nós sabemos] a classe comerciária por exemplo ... tem um horário estipulado ... pela lei das conso / pela lei clt ... em torno de: oito horas ... diárias ... quatro horas pela manhã quatro horas ... pela tarde ... (DID REC-131) (31) Inf. não é tão raro o caso de:: polimastia ... poli ... [como vocês sabem] ... é um número além daquele normal ... ou seja mais de duas .... (EF SSA-49)
Em outros casos, o domínio do conhecimento sobre o tópico, da parte do interlocutor, não é afirmado, como acima, e sim requerido do interlocutor, através de perguntas diretas ou indiretas, formuladas pelo locutor, que levam à concessão de turno para o interlocutor: (32) Inf.
o grupo que trabalha em Hair é enorme né? ... [você não assistiu? você assistiu né?
Doc. uhn uhn Doc.2 assisti] Inf.
tenho impressão que ali levou tanto tempo de ensaio ... (DID SP-234)
c) Testar a compreensão do interlocutor
Esta função aparece sempre sob forma de perguntas, muitas vezes estereotipadas, como entendeu? está claro?, que permeiam o desenrolar do tópico discursivo. Há, entretanto, parênteses que fogem a essa estereotipia, expressos por perguntas que incorporam o elemento do tópico discursivo cujo entendimento se quer averiguar: (33) Inf. ele está se referindo exatamente a essa essência tradicional da economia japonesa tá? Quer dizer uma uma situação ... eu vou repetir ... muito diferente do início da economia americana ... [tá dando pra situ-
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ar a diferença?] Uma americana nascendo linearmente ... etc etc e a outra BRIGANDO pra poder nascer ... (EF RJ-379) d) Instaurar conivência com o interlocutor
Por meio de parênteses com esta função, o locutor procura envolver o interlocutor em comentários, avaliações e opiniões suas a respeito do assunto: (34) Inf. mas eu acho que o teatro hoje em dia está:: está indo para um caminho eh tão TANto palavrão tanta ... ((risos)) ... [é um negócio né? fala a verdade] ((risos)) eu tenho assistido umas PEças (DID SP-234) e) Chamar a atenção do interlocutor para um elemento do tópico
O parêntese (35) é inserido em uma citação de Durkheim, feita por uma professora em sala de aula. Essa inserção destaca a necessidade de contato entre professora e alunos, para a devida apreensão de um dado que, provavelmente, é tido como importante naquela situação comunicativa. (35) Inf. “as pessoas que ... [prestem bem atenção] ... a pessoa que no restaurante ... tendo começado pela sopa ... termina pela sobremesa ... e que não deixará em seguida de pedir a conta ... isso é o mais normal ... (EF REC-337) f) Atribuir qualificações ao interlocutor para a abordagem de um tópico
Em (36), L2 dirige uma pergunta a L1 e nela interpõe um parêntese sobre a condição de técnico, de L1, na área de conhecimento envolvida pela pergunta. Com esse parêntese, L2 focaliza o interlocutor no seu papel profissional, que o qualifica para o desempenho de seu papel discursivo: a pergunta é claramente dirigida ao técnico. (36) L2
então porque ( ) ... [você que é técnico nisso] ... essas estradas são bitoladas a sete metros?
L1
(é uma coisa ... veio) da convenção internacional que (dois) metros e meio dá prá passar um carro ou caminhão ... (D2 SSA-98)
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Concluindo esta parte, convém ressaltar que, embora haja uma gradiência crescente de incursão de dados pragmáticos no texto e decrescente de relações com o conteúdo tópico, da classe b (foco no locutor) para a c (foco no interlocutor), ambas as classes provocam um desvio do tópico para os agentes instanciadores da interação verbal, mas, como vimos, atuam sobre as proposições tópicas, porque as ancoram no espaço discursivo que lhes dá origem. Por isso são consideradas em um grau intermediário do contínuo do menor ao maior desvio tópico e da menor à maior manifestação do interacional no texto falado. Cumpre também observar que, no limite entre essas duas classes, há parênteses que as interseccionam, porque deixam transparecer simultaneamente a perspectiva do locutor e a que este pressupõe ser a do interlocutor. Trata-se de parênteses constituídos por negações polêmicas (Ducrot, 1987), que criam uma polifonia enunciativa, fazendo ecoarem duas vozes contrapostas em um mesmo enunciado: (37) L1
seria muito importante para o Brasil que o nordeste crescesse porque:: ... [não é bairrismo não] ... aqui no nordeste está o que há de mais autêntico da brasilidade em termos mundiais ... (D2 REC-05)
O segmento acima traz, para dentro do texto, a informação implícita de que o falante é nordestino, e a de que ele assume uma atitude enunciativa de neutralidade ao falar sobre o Nordeste. Entrecruzam-se, nesse parêntese, dois pontos de vista antagônicos: um positivo, a do enunciador E1, pressuposto como voz do alocutário (é bairrismo declarar P) e outro negativo, a do enunciador E2, assimilada ao locutor, e que se apresenta como recusa da primeira (não é bairrismo declarar P). (Jubran, 1996 b). Há, nesse caso, uma antecipação, pela qual o locutor marca a sua atitude em relação ao seu interlocutor: o locutor atribui ao destinatário um discurso “normal”, um conjunto de opiniões estabelecidas (representação do outro) e, partindo da idéia de que o outro o representaria pelo já sedimentado sóciohistoricamente, previne-se e responde a isso, antecipadamente (Orlandi, 1983). O parêntese aponta, portanto, para o jogo de representações recíprocas que os interlocutores acionam na interação verbal. 154
4. Classe d Parênteses que focalizam o ato comunicativo em si Parênteses dessa categoria promovem um desvio tópico em grau máximo, visto que provocam uma mudança de planos da centração sobre um tópico discursivo para o ato de interagir verbalmente. Os dados introduzidos pelo segmento parentético não são nem relevantes nem concernentes com as proposições tópicas precedentes e seqüentes ao parêntese. Perspectivando dominantemente o ato de comunicação, quebram o fluxo temático para, no interior do texto falado, focalizarem contingências necessárias para a própria existência do ato em si, como: presença de interlocutores, predisposição e envolvimento dos mesmos na situação comunicativa, negociação de turnos, afastamento de ruídos ou quaisquer outros fatos que possam vir a perturbar o canal físico ou o contato entre os locutores, na produção do texto falado. A função textual-interativa dessa modalidade de parênteses reside, então, na garantia da existência da interação verbal e, conseqüentemente, do texto, produto dessa interação. Os parênteses enquadrados nesta classe podem registar as situações abaixo. a) Quebra de condições enunciativas
A interferência de ruídos (perceptíveis na gravação) ou fatos (não recuperáveis, por ter sido o corpus coletado apenas por gravação) pode acarretar uma ruptura na formulação do texto falado. Quando há, no texto, referência a esses ruídos ou fatos, ela assume uma forma parentética, suspendendo por momentos o desenvolvimento do tópico, que é retomado após o afastamento desses dados externos. No segmento (38) há um exemplo dessa natureza, em que o parêntese é precedido por risos, provocados por algum fato interferente no contexto de uma aula. (38) Inf. naquela época ... o que existia eram os bisontes e os mamutes também ... alguns mamutes ... mamute ... vem a ser ... o bisavô ... do elefante ... ((risos)) ... [Betina ... ((vozes))) ... já resolveu? tudo bem] ... bom ... então primeiro em nível de tema ... a seguir ... qual seRIA ... o motivo pelo qual ... eles:: ... começaram ... a pintar ou a esculpir ... estas formas ... (EF SP-405)
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b) Estabelecimento da modalidade do ato comunicativo
Em (39), uma professora interrompe o desenvolvimento do tópico, para estabelecer a participação dos interlocutores e esclarecer a natureza dialógica que quer imprimir à interação em sala de aula. Observa-se que, nessa situação ritualizada de aula, a professora, enquanto locutora que tem ascendência sobre os interlocutores-alunos, determina, além do tipo de interação, o ato de fala permitido aos alunos: perguntas sobre o que diz. Trata-se, portanto, de um parêntese que evidencia condições interativas em uma situação específica. (39) Inf. o povo japonês ... e a população do Japão ... extremamente GRANde pra sua área e extremamente laboriosa no sentido de que ... SABIA que pra conseguir sobreviver ... tá? ... PREcisava AMPLIAR a sua área de atuação ... tá claro isso? [ a aula é gravada mas as perguntas podem ser feitas e devem ... senão fica parecendo monólogo] nenhuma dúvida então? ... quer dizer ... situando ... o Japão ... que a gente conhece e ouve falar de unidade japonesa (EF RJ-379)
O parêntese acima é margeado por dois outros (tá claro isso? e nenhuma dúvida então?), que não estão aqui destacados, por pertencerem a uma outra classe, a dos parênteses com foco no interlocutor, com função de testarlhe a compreensão. c) Estabelecimento de condições para a realização ou prosseguimento do ato comunicativo
Em (40), sucedem-se três parênteses, em situação de aula. Os dois primeiros cortam o desenvolvimento temático da aula, e voltam-se para atos comuns nessa situação (copiar as anotações da lousa), que provocam intervalos na exposição tópica. Nesse contexto, os parênteses em questão funcionam no sentido de averiguação de condições para o prosseguimento da explanação feita pela professora. Já o terceiro parêntese (giz não tem giz) refere-se à verificação de condições materiais para a realização de uma aula, e, portanto, para a eficácia do ato comunicativo que ela encerra. A professora está enumerando os itens da aula sobre região mamária, provavelmente registrados na lousa, e, antes de iniciar a abordagem deles, realiza os parênteses em destaque. 156
(40) Inf. oitavo ... nós temos os vasos ... e nervos ... nono ... é ... e as veias ... [quem ... copiaram? ... vou colocar aqui para lhes passar alguma coisa] ... bom ... então vamos ... [já copiaram tudo?] ... [giz não tem giz] ... bom ... vamos começar ... região mamária:: ... ora nós definimos como sendo região mamária ... a região ocultada pela glândula mamária (EF SSA-49)
d) Negociação de turnos
Parênteses com função de negociação de turnos focalizam uma propriedade fundamental do ato interativo, que é a do jogo pela posse do turno conversacional. O parêntese (41) encaixa-se em texto de aula expositiva. A professora procura manter o seu turno e, evidentemente, o seu papel de domínio, inclusive verbal, da interação em sala de aula. (41) Inf. então vocês notam como o fenômeno jurídico ... é o mais importante ... é a própria organização ... o direito ... no seu caráter então complementando [gente Arnaldo pera aí Arnaldo eu sei que é sobre ... a matéria mas eu tô querendo ... terminar tá certo?] no seu caráter mais estável e preciso ... (EF REC-337)
III. Conclusão Ainda que apresentando apenas as funções parentéticas mais proeminentes e uma amostragem reduzida dos casos estudados, procuramos, neste artigo, demonstrar uma classificação de parênteses, de acordo com as funções textuais-interativas que eles assumem em textos falados. Pudemos comprovar que as inserções parentéticas têm papéis importantes na formulação textual, não podendo, portanto, serem vistas como segmentos isolados. A projeção, operada pelos parênteses, do processo formulativo-interacional na materialidade lingüística do texto leva à contextualização do que é dito na situação de dizer, circunscrevendo os sentidos do texto e orientando sua compreensão. 157
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BETTEN, A. (1984) Ellipsen, Anakoluthe und Parenthesen. Deutsche Sprache 4. BLANCHE-Benveniste, C. La dénomination dans le français parlé: une intérpretation pour les répétitions et les hésitations. Recherches sur le Français Parlé 6. BORILLO, A. (1985) Discours ou Metadiscours? DRLAV 32. CHAFE, W. (1985) Linguistic differences produced by differences between speaking and writing. In: OLSON, D. R., TORRANCE, N. e HILLYARD, A. (eds.). Literacy, Language and Learning. Cambridge, Cambridge University Press. DASCAL, M. e KATRIEL, T.(1982) Digressions: a study in conversational coherence. In: PETÖFI, J. S. (ed.). Text. vs. Sentence. Hamburg, Busque, v. 29. DUCROT, O. (1987) O dizer e o dito. Campinas, Pontes. GOFFMAN E. Replies and Responses. Language in Society 5, 1976. JAKOBSON, R. (1969) Lingüística e Comunicação. São Paulo, Cultrix/EDUSP. JUBRAN, C. C. A. S. (1996 a) Parênteses: propriedades identificadores. In: CASTILHO, A. T. e BASÍLIO, M. (orgs.). Gramática do Português Falado. Campinas, Editora da UNICAMP; São Paulo, FAPESP, vol. IV. ________ (1996 b) Para uma descrição textual-interativa das funções da parentetização. In: KATO, M. A. (org.). Gramática do Português Falado. Campinas, Editora da UNICAMP; São Paulo, FAPESP, vol. V. KOCH, I. G. V. et alii. (1994) Proposta teórica do Grupo de Organização Textual-Interativa do PGPF (mimeo). MAINGUENEAU, D. (1990) Élements de Linguistique pour le Text Litéraire. Paris, Bordas. ORLANDI, E. (1983) Destruição e Construção do Sentido. Campinas, UNICAMP. TENANI, L. E. (1995) Marcas prosódicas de inserções parentéticas. Dissertação de Mestrado. Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP.
158
A HESITAÇÃO
Luiz Antônio Marcuschi (UFPE)
1. Apresentação O presente estudo faz da hesitação um tema de investigação, baseandose na idéia de que, embora típica da fala, a hesitação não é irrelevante como fenômeno lingüístico. Dizer que a hesitação faz parte apenas do “uso” e não do “sistema formal” da língua é tomar a língua como uma entidade que existe “em si e por si”. Contudo, não se pode isolar, de um lado, um objeto típico da língua, “a frase”, e de outro, um objeto do uso da língua, “o discurso”. Ambos estão interligados e se codeterminam funcionalmente. Partindo do pressuposto de que analisar a língua é analisar também usos, adota-se aqui a posição de que a hesitação é parte da competência comunicativa em contextos interativos de natureza oral e não uma disfunção do falante. Embora não se possa defender que a hesitação tenha funções tais como outras unidades da língua, pode-se dizer que ela desempenha papéis importantes na fala: papéis formais, cognitivos e interacionais. É uma atividade textualdiscursiva que atua no plano da formulação textual. Por outro lado, também se defende a tese de que a hesitação não se acha aleatoriamente distribuída, mas obedece a alguns princípios gerais de distribuição e serve como indicação de organização sintagmática da língua. O estudo da hesitação mostra que se o princípio da linearidade é fundamental no uso da língua, ele não pode ser entendido como simples seqüenciação ininterrupta de enunciados da esquerda para a direita, mas um processo multiorganizado. Produzida tanto no nível suprassegmental (pela prosódia) como nível segmental (com elementos formais da língua), a hesitação é a pre-
sença de atividades discursivas na materialidade lingüística, evidenciada numa transcrição fiel da fala.
2. Características da hesitação Blanche-Benveniste (1990) analisa a hesitação no contexto da “denominação”, isto é, das operações de referenciação léxica, que são perceptíveis nos momentos de “repetição, erros, hesitações e buscas da palavra certa” (p.109). A autora restringe-se ao caso da hesitação por repetição, observando-a sob os aspectos da linearidade, referência e denominção. Uma transcrição da fala na forma de grade (num eixo biaxial) deixa claro como o texto “avança” e permite observar que “a repetição de hesitação não concerne à própria sintaxe, mas ao preenchimento lexical das posições sintáticas” (p.113). Assim no caso de: il y a toujours des des des relations interperso entre personnes relations de domination Nota-se que: (a) des: anuncia um sintagma nominal, sem léxico (b) des relations interperso: uma realização lexical pelo nome e pelo elemento de tipo adjetival (c) entre personnes: uma realização lexical pelo elemento adjetivo (d) relations de domination: realização lexical dum nome e novo léxico pelo tipo adjetival. Hesitações deste tipo são uma espécie de “patinação” que permite uma análise de processos sintáticos (como a coordenação e a aposição), processos semânticos (problema da referência) e estratégias lexicais (escolha de elementos). Blanche-Benveniste (1990) sugere que a repetição hesitativa, por exemplo, é um fato fundamental na língua falada e diz respeito à “construção da denominação”. Isto a leva a admitir que “os referentes dos quais o discurso 160
fala não são dados adiantadamente, mas construídos por aproximações sucessivas no discurso”. Assim, a enunciação se dá numa constante interação com o conteúdo do enunciado, o que impede “isolar, de um lado, o objeto produzido pela atividade da língua (o enunciado) e, de outro lado, a atividade produtora dessa língua; ambos acham-se intimamente ligados”. A repetição de hesitação afeta sobretudo as realizações lexicais e não chega a comprometer a sintaxe. Em outro momento, Blanche-Benveniste (1990) postula que a língua falada, por se apresentar como um “borrão” do texto pretendido, do qual nada se apaga, pode ser vista como um laboratório especial da sintaxe. O borrão envolve vários fenômenos de “titubeio” (“bafouillage”), como as hesitações, os retoques, as repetições, as perplexidades lexicais, os comentários e outros. A autora sustenta que tais fenômenos não devem ser eliminados da análise sintática, pois não são aleatórios e sim “regulados pela gramática”, ou seja, são sintaticamente explicáveis. Não obstante isso, surgem muitas questões relevantes ainda não de todo esclarecidas, pois temos que distinguir entre identidade e diferença de referentes a fim de saber se estamos diante de um ou mais de um complemento de um dado verbo em casos de coordenações como o seguinte (1987: 126): Je pense à lui, à lui, à lui. O verbo “penser” tem, em princípio, apenas um complemento e não vários, mas é possível imaginar que nos três casos de lui não se trata de uma identidade referencial. É perfeitamente possível supor a seguinte interpretação: Je pense à lui Paul, à lui Pierre, à lui Jean. As realizações concretas da língua falada, quando contém tais listas, nem sempre supõem identidades referenciais, o que acarreta conseqüências diretas para a análise sintática. Resumo dessa posição da autora é a afirmação de que “le ‘dit’ et le ‘dire’ étaient moulés dans les mêmes moules syntaxiques”(p.150), ou seja, toda a formulação lingüística na fala se dá ao longo de um eixo paradigmático que considera a construção sintática em andamento. James (1972 e 1973) analisa as interjeições e as hesitações mostrando que existem relações sistemáticas entre tais fenômenos e os ambientes em que 161
se realizam. Em Inglês, as interjeições sofrem certas restrições, não podendo referir uma oração ou um elemento externo à sua “ilha de realização”. James, adotando uma posição muito próxima à de Blanche-Benveniste (1990), sugere que a hesitação tem um referente. Além disso, defende que as hesitações são úteis para testar a estrutura de constituintes.Tome-se este caso: That Kay is thinking of a boutique in.. ah .. San Francisco is considered likely by Bob. Aquele “ah” indica que o falante esqueceu e trata de lembrar algo e o mais razoável é que ele tenha esquecido o nome “San Francisco” e não todo o enunciado que produziu a partir daquele ponto. Neste sentido, o referente de “ah” é aquele nome, ou seja, um constituinte. Para James, existe uma diferença notável entre as hesitações e as interjeições que operam nesta perspectiva e outros elementos que não são hesitações e podem referir anaforicamente ou com escopos maiores do que o sintagma da construção adjacente. A tese mais curiosa e polêmica de James é a de que “interjeições e hesitações são uma parte da competência e obedecem a regras gramaticais” (1973: 250). Taylor & Cameron (1987: 125) observam que os diversos modelos de Análise Conversacional deram por certo que existe uma relação particular entre o desempenho conversacional e a estrutura lingüística. Em outros termos, o pressuposto é o de que “todo enunciado conversacional é tomado como uma ocorrência (token) de um tipo (type) de unidade particular e os traços estruturais dessa unidade são definidos pelas regras gramaticais da língua”. Contudo, a relação tipo versus ocorrência implicada nessa formulação não tem sido estudada. Os gramáticos, quando analisam materiais transcritos da fala natural, tendem a editorá-los com sensíveis eliminações de elementos, sob pena de não poderem analisar as frases que têm pela frente. Para Hockett (1958), isto seria um pré-requisito para a análise gramatical. As regras de editoração são as regras usadas pelos gramáticos para idealizar os dados orais, depurando-os de todos os elementos inanalisáveis. Na verdade, observam Taylor/Cameron (1987: 129), os ouvintes em geral também procedem a editorações constantes ao eliminarem, para compreensão, todas as hesitações, autocorreções, autorrepetições, elipses e disfluências do falante. Essas produções representam descontinuidades e são eliminadas pelo ouvinte ou então supridas com inferências locais, como no caso das elipses. 162
Uma hipótese geral percorre todas essas observações de lingüistas das mais diversas procedências e dentro dos mais diveros modelos teóricos, isto é: a hesitação parece ser um fenômeno sistemático na organização sintagmática, mas não faz parte da estrutura dessa organização. Diante dessas posições, nosso interesse é saber em que lugares esse “intruso” se situa e porque ele se coloca precisamente ali. Esta resposta só será possível se considerarmos os fatores textuais-discursivos que comandam os processos e as estratégias de formulação textual. A hesitação tem como característica básica o fato de constituir evidentes rupturas da fala, na linearidade material, em pontos não previstos por fatores sintáticos ou prosódicos, mas que também não são aleatórios. Portanto, a hesitação pode ter motivações discursivas, preservando a fluência, já que a fala, mesmo com hesitações, pode continuar fluente. Assim, fluência discursiva e descontinuidade sintática não formam uma dicotomia, já que dizem respeito a níveis de observação diversos. É provável que, do ponto de vista teórico, esta confusão tenha sido a responsável pela eliminação da observação do fenômeno por parte dos lingüistas que consideraram a hesitação como uma simples disfunção. A hesitação só é detectável no decurso das atividades comunicativas e se caracteriza como a presença de atividades discursivas na superfície lingüística. Idéia semelhante foi defendida também por Koch & Österreicher (1990: 60) ao sugerirem que a hesitação é um mecanismo presente em todas as línguas, que permite introduzir no próprio discurso o processo de formulação “prospectiva”. Parece perfeitamente possível observar a relação da hesitação com o status informacional dos elementos lingüísticos em cujos contextos ou fronteiras ela ocorre. Tem um papel pragmático considerável e não passa despercebida pelos falantes. A hesitação revela as estratégias adotadas pelos falantes para resolverem os problemas que surgem devido ao processamento on line de formas e conteúdos. Isto quer dizer que a hesitação não é uma propriedade ou característica do falante como tal, nem da língua em si, mas um fenômeno de processamento.
3. Aspectos formais As hesitações incidem em determinados fenômenos tais como os seguintes: 163
I. fenômenos prosódicos: pausas, geralmente prolongadas e alongamentos vocálicos; II. expressões hesitativas: “éh”, “ah”, “ahn” “mm”; III. itens funcionais: artigos, preposições, conjunções, pronomes, verbos de ligação; IV. itens lexicais: substantivos, advérbios, adjetivos,verbos; V. marcadores conversacionais acumulados: “sei lá”; “quer dizer sabe”, “então né áh”, etc.; VI. fragmentos lexicais: palavras iniciadas e não concluídas. Esses fenômenos não formam uma tipologia das hesitações. São apenas as diversas marcas empíricas de sua manifestação. Vejamos agora algumas observações sobre cada um desses conjuntos. (I) fenômenos prosódicos: (a) pausas – Nem todos os silêncios são pausas, nem todas as pausas são hesitações. Assim, os silêncios inter-turno (também conhecidos como switching pauses) em geral não são pausas, mas uma manifestação discursiva que pode constituir até mesmo um turno (no caso de um falante permanecer em silêncio na sua vez de fala). Os silêncios intra-turno, com uma certa duração e um padrão entoacional característico são prováveis hesitações, sobretudo se vierem em contextos sintáticos ou junções fonêmicas em que não é prevista a pausa. Neste caso contrastam com as chamadas pausas de juntura que aparecem entre grupos fonêmicos ou nas fronteiras sintáticas entoacionalmente marcadas e não formam hesitações. Parece que a posição da pausa é relevante para determinar se sua ocorrência deve-se a uma atividade de planejamento sintático ou de busca de um item lexical (pela baixa predizibilidade do item procurado). Tomemos o exemplo a seguir, do Projeto NURC: (1)
NURC-SP – 234: 1.132-43:
1
Doc: e o que a senhora considera uma boa peça teatral? (1.60)
2
e o que
3
Inf: eu ach/
4
Doc:
164
que ela precisa conter?
5
Inf: (2.5) conter? ... eu acho que o o o (2.8) como é que eu vou dizer?
6
o que: : (2,5) sei lá (2.8) o que mais a peça nos chama a atenção é o
7
o o: : (1.0) o enredo da peça (0.5) ah ahn os artistas bons porque às
8
vezes né (0.6) eu tenho gostado mas (1.6) eu acho que assisti: : (2.2)
9
você sabe que não guardo nome mas eu assis/ eu
10
Doc:
não o nome da peça não importa
Neste segmento, que tem a duração de 39 segundos, temos precisamente 18.1 segundos (46.4%) de silêncios acumulados com hesitações que também servem para preencher pausas. Nota-se a dificuldade que a informante (INF) tem de expressar sua opinião. Na linha 1, a DOC entrega o turno à INF que por sua vez demora 1.6 segundos para tomar a palavra levando assim a DOC a apreciar isto como dificuldade. Daí sua tentativa de ir em socorro com mais explicitude na linha 4. Mesmo assim, a INF demorou 2.5 segundos para tomar seu turno na linha 5 e prosseguiu cheia de hesitações ao longo de todo o turno. Observe-se que a DOC lançara um novo tópico difícil para a INF, levando-a a indecisões para localizar o foco de sua abordagem. Trata-se de uma dificuldade de planejamento cognitivo refletida na execução lingüística. Ilustrativa é aqui a sequência das linhas 5 e 6 com várias hesitações, sendo uma delas com um marcador metacomunicativo que expressa sua dificuldade “como é que eu vou dizer o que: : (2.5) sei lá (2.8)”. (b) alongamentos vocálicos: Quanto ao alongamento vocálico, temos algumas questões bastante complexas. Em primeiro lugar, é bom lembrar que nem todo o alongamento da vogal é uma hesitação. Há alongamentos que funcionam como coesão rítmica, freqüentes sobretudo na formação de listas. Outros alongamentos (geralmente acompanhados de elevação do tom) operam como ênfase. Os alongamentos de vogais com característica hesitativa vêm sobretudo em final de palavra, principalmente as palavras monossilábicas ou em sílabas finais átonas. Em geral, quando no interior de uma palavra, os alongamentos são coesivos ou enfáticos e recaem em sílabas tônicas. (II) expressões hesitativas: Em geral, estas são as de maior freqüência como formas de hesitação e se constituem de sons que não realizam palavras lexicalizadas. Entre elas estão 165
os áh, éh, ahn, mm quase sempre alongados e preenchendo pausas. Eles são a matéria-prima das pausas preenchidas. Esses marcadores parecem representar sons de alta freqüência no Português e certamente são especializados como hesitativos. Outras línguas também têm seus sons preferenciais e é comum identificarmos um alemão, um americano ou um francês por suas hesitações quando falam Português, mesmo que com grande perfeição. (III) itens funcionais: A noção de itens funcionais cobre todos os elementos lingüísticos que não têm significação referencial, tal como os artigos, as preposições, as conjunções, os pronomes. Os diversos levantamentos estatísticos realizados mostram que em mais de 50% das hesitações encontramos itens funcionais. Por um lado, estes elementos são em sua grande maioria monossilábicos e se prestam para este papel, já que as hesitações realizam-se com palavras curtas, em geral não mais do que duas ou três sílabas, que permitem um alongamento de vogal no final; por outro lado, situam-se em posições sintáticas preferenciais para o surgimento das hesitações, ou seja, no momento de construir um sintagma, como é o caso das preposições e dos artigos. (IV) itens lexicais: Os itens lexicais são menos freqüentes que os formais como constituidores de hesitação. Aparecem os verbos de uma ou duas sílabas em grande parte. Quanto aos advérbios, adjetivos e substativos, eles ocorrem em número bastante limitado. (V) marcadores conversacionais acumulados: Estes fenômenos são os mais problemáticos. Trata-se de marcadores que formam conjuntos que se acumulam num certo momento e realizam-se com marcas prosódicas típicas. Por exemplo; “ah; ontem eu tava lá assim sabe… sei lá…meio cansado” (VI) fragmentos morfológicos: Também aqui a decisão é difícil e parece que não temos condições de distinguir com clareza entre hesitações e correções. Muitos fragmentos de palavras constituem momentos de autocorreção. Por isso a fronteira entre correções e hesitações é, neste caso, muito tênue. Vejam-se estes exemplos: 166
– essa ul/ a última eu não lembro não – dep/ antes de Hair eu assisti um outro uma outra peça – prefiro ficar assi/ a a aqui assistindo televisão sabe? Este tipo de hesitação opera como o prenúncio de uma correção e não como correção, já que esta só pode ser de algo que já veio. A correção é, portanto, uma solução a um dado problema de formulação de caráter “retrospectivo”, em oposição à hesitação que é produzida na “prospectiva”. Da mesma forma que no caso da repetição, toda a correção que visa a reformular um item devido a uma má seleção futura ou na prospectiva, temos um caso de hesitação. A classificação acima tem vários problemas. Alguns parecem casos de busca (caso dos alongamentos e dos fragmentos) e outros seriam estratégias (caso dos marcadores) e alguns podem ser problemas de seleção (caso dos itens formais e lexicais). Na realidade, todos são fenômenos do processamento. Além dessa dificuldade, há ainda outras como as apontadas por Crystal (1969), para quem a hesitação deve ser considerada entre os fenômenos paralingüísticos situados no nível da prosódia. Ao descrever os tipos de sons ou preenchimentos de pausa com suas características acústicas, Crystal julga discutível incluir a pausa preenchida entre os traços prosódicos, já que do ponto de vista fonético elas não o são, pois não fazem parte dos suprassegmentos como no caso do silêncio. “É melhor ver nas pausas preenchidas um dos pontos em que o sistema prosódico do Inglês inicia sua imersão no não prosódico”, conclui Crystal, pois esses sons estão a um passo de todo tipo de vocalização e a vocalização está a um passo do léxico inteiro. De resto, Crystal observa que: (i) a distinção entre pausa de juntura e pausa de hesitação é questionável por se basear em noções gramaticais não bem definidas. De igual modo, a distinção entre itens lexicais e itens de função é questionável. (ii) a distinção entre pausa silenciosa e pausa preenchida foi recebida de forma não-crítica, já que existem gradações entre ambas. Também não foi notada a relação dessas pausas com outros fenômenos prosódicos como o tempo e o ritmo. (iii) qualquer afirmação razoável sobre o aspecto idiossincrático no uso da hesitação deve ser reportada tanto à distribuição relativa quanto à absoluta. Dois indivíduos podem ter o mesmo número total de pausas hesitativas, mas uma distribuição completamente diversa. Será necessário definir medidas e critérios gramaticais para determinar o que é idiossincrático ou não. 167
4. Classificação das hesitações A tipologia das hesitações aqui sugerida segue a praxe usual na literatura a esse respeito1 . Considerando os recursos acima apontados, proponho a seguinte classificação: i. pausas não preenchidas (PNP) ii. pausas preenchidas (PP) iii. gaguejamentos (GA) iv. repetições hesitativas RH) v. falsos inícios (FI) Como se observa, dá-se aqui uma redução de tipos em relação a outras classificações por mim feitas. Em outras oportunidades, eu distinguia mais dois tipos: (a) marcadores conversacionais hesitativos (tipo que foi incluído no conjunto das pausas preenchidas, já que têm um funcionamento semelhante) e (b) cortes oracionais (agora incluídos nos falsos inícios, já que se aproximam dessa classe). Os tipos aqui identificados podem ser assim caracterizados: i. pausas não preenchidas (PNP): silêncios prolongados que se dão como rupturas em lugares não previstos pela sintaxe (cortes de estruturas sintagmáticas) e pelo fluxo da fala – não gosto muito de: filme (0.5) muito triste – tem um restaurante com o nome (3.0) também não lembro ii. pausas preenchidas (PP): ocorrências de marcadores de hesitação do tipo “éh”, “mm”, “ah”; alongamentos vocálicos com características hesitativas e marcadores conversacionais acumulados – e um professor de São: : SÃO Caetano do Sul ...éh: : ele dá aula: : ... no serviço social – o que me chama muito atenção? ...ah... é roupas éh: : ... cenários – o papel que ele está desempenhando ...ah... que eles éh éh a gente perceba – tem um grupinho que nós... éh... um grupo assim: : da minha idade 168
– que realmente está trabalhando: bem: : sei lá: : não sei: : tem tantos artistas bons iii. gaguejamentos (GA): repetições de unidades inferiores a um item lexical e pedaços de palavras iniciadas – o cenário de Hair é uma ma/ MAravilha – aquela artista f/ famosa iv. repetições hesitativas (RH): as repetições julgadas não significativas semanticamente, geralmente repetição de itens formais –
o que a senhora o que a senhora mais gosta
– olha nem sei viu?... o que o que falar – de acordo com o que ele tá... tá fazendo – a última peça foi com aquelas aquela aquela artista – a as minhas amigas vão vão sempre a teatro quase ...quase sempre v. falsos inícios (FI): todos os inícios de unidades sintáticas oracionais, que são iniciados com algum problema e refeitos ou retomados, o que distingue este tipo dos cortes oracionais que são construções abandonadas. – agora eu tenho u/ a as minhas amigas vão vão – dep/ antes de Hair eu assisti um outro uma outra peça – essa úl/ a última eu não lembro – eu acho que uma: : ... a última peça – eu acho que o teatro tá... tá tão/ não sei eu vou
5. Freqüências das hesitações Uma análise de 11 textos do NURC (selecionados 21 minutos de cada um para estudo, com o objetivo de homogeneizar o volume de fala, já que os eventos são desiguais em tempo, nas coletas originais) deu os resultados gerais apontados na Tabela 1 que registra as quantidades de hesitações encontradas, excluindo-se as pausas não preenchidas (PNP) pela dificuldade de identificálas com segurança sem instrumentos de medidas acústicas. 169
Tabela 1: Ocorrências de hesitações no corpus Textos
Quantid. de textos
Hesitações
NURC-D2
6
408
NURC-DID
2
178
NURC-EF
3
101
11
687
É relevante observar que uma hesitação pode dar-se com vários elementos lingüísticos (repetidos), sendo que neste caso teremos mais ocorrências de material lingüístico do que hesitações. No geral, temos dois elementos concorrendo para a construção de uma hesitação. Por exemplo: uma preposição alongada e repetida como neste caso – comentário de: de: de Temos aqui 1 hesitação mas 4 ocorrências de fenômenos, ou seja, dois alongamentos e uma preposição duplicada. Este é um problema para a estatística, pois não se trata de quantidade de elementos produzidos e sim de fenômenos hesitativos. Em outros casos, quando a hesitação se dá como presença de um dado fenômeno, por exemplo, um artigo ou uma preposição, a preposição ou o pronome conta apenas uma vez, sendo que uma das entradas é sua presença necessária e regular. Veja-se este caso: – cê vai...cê vê em Londres cê cê olha um mapinha Apesar de ocorrerem dois “ce” só contabilizamos um deles para hesitação, pois um deve permanecer como regular na estrutura. Uma vez feita essa observação, verificamos que para as 687 ocorrências de hesitações, temos a ocorrência de 1.283 fenômenos formalmente identificáveis na estrutura de superfície. Um dado interessante neste contexo é a presença de itens funcionais nas hesitações com um total de 529 itens (529/ 170
1283 = 41.2%), ao passo que itens lexicais perfazem um total de 151 formas (151/1.283 = 11.7%). O percentual de itens funcionais é revelador e sugere que as hesitações são de fato momentos de planejamento on line que interferem no processamento. A Tabela 2 traz os totais para cada um dos fenômenos identificados. Note-se que estes números não correspondem à quantidade de hesitações e sim de elementos que entram na sua composição. Assim, os 1.283 fenômenos aqui contabilizados distribuem-se nas 687 ocorrências de hesitações. Tabela 2: Freqüência das formas em cada classe CATEGORIAS I. Manifestões prosódicas – alongamentos vocálicos II. Marcadores hesitativos – eh (repetidos ou não) – ah – ahn III. Palavras funcionais – artigos – preposições – conjunções – pronomes – verbos de ligação IV. Palavras lexicais – substantivos – verbos – adjetivos – advérbios V. Mcs acumulados VI. Fragmentos lexicais
NURC-D2
NURC-DID
NURC-EF
TOTAIS
217
92
54
363
58 28 7
14 7 –
13 1 3
85 36 10
103 95 66 51 34
47 35 16 27 7
17 9 9 10 3
167 139 91 88 44
12 40 4 21 29
14 15 – 19 6
9 8 5 4 1
35 63 9 44 36
50
11
11
72
Considerando os quatro gêneros de texto trabalhados, observa-se uma notável consistência quanto à freqüência de fenômenos. Dois fatos saltam à vista de imediato. 1 – O marcador hesitativo por excelência da língua portuguesa falada é o eh ou éh, que aparece com o maior percentual em todos os textos e níveis de formalidade enquanto tipo. 171
2 – A classe de palavras menos usada e menos presente em todos os gêneros de texto e graus de formalidade textual é o adjetivo que em muitos casos sequer ocorre. Aliás, convém observar que os adjetivos de um modo geral são uma categoria muito pouco presente na fala (a escrita tem cerca de 4 vezes mais adjetivos que a fala). Retirando-se o total de 363 alongamentos de vogais, já que neste caso não se tratava de um tipo de palavra e sim de palavras já contabilizadas em algum outro momento, as freqüências foram, em percentuais arredondados: 1 – artigos
18 %
2 – preposições
15 %
3 – marc. de hes.
14 %
4 – pronomes
10 %
5 – conjunções
10 %
6 – fragm. lexicais
8%
7 – verbos plenos
7%
8 – advérbios
5%
9 – verbos de ligação
5%
10 – substantivos
4%
11 – MCs acumulados
3%
12 – adjetivos
1%
Notável é o fato de que mais da metade das formas são constituídas por artigos, preposições, conjunções e pronomes, o que revela que esses elementos representam os momentos críticos na construção sintagmática. Por outro lado, convém ressaltar que os fragmentos lexicais, os MC acumulados e os marcadores de hesitação não constituem categorias gramaticais, o que poderia acentuar ainda mais os percentuais acima. É interessante considerar os vários elementos lingüísticos nas categorias. Vejamos mais de perto este fato: – Os artigos mais freqüentes são o/os (97) e a/as (64). – Os artigos indefinidos um/uns (31) e uma/umas (25). 172
É importante não perder de vista que muitas hesitações são constituídas de vários artigos repetidos, inclusive de artigos masculinos, femininos e indefinidos numa mesma hesitação. Por isso mesmo, esse número tão alto de artigos constitui cerca de 40% de casos de hesitações como tal, ou seja, os aproximadamente 200 artigos só contabilizam uns 80 casos de hesitação, pois eles se acumulam. – No caso das preposições temos a freqüência maior para de/do/da/ dos (135) – e em seguida vêm em/no/na/num/numa (35). – as demais preposições foram: com, pra, até, a, entre, sem, sobre Também aqui temos algo similar ao que ocorre com os artigos, sendo no entanto a relação de ocorrências de hesitações constituídas por preposições levemente superior ao caso dos artigos, isto é, em torno de 50%. Isto sugere que é mais fácil encontrar a preposição certa (em caso de dúvida) do que o artigo, já que encontrar o artigo significa ter decidido que nome foi escolhido. Isto pode sugerir que as hesitações têm diretamente a ver com o problema da construção da referência, tal como frisava Blanche-Benveniste (1990). – As conjunções mais freqüentes foram e (41), que (30), – seguindo-se, mas, ou, como, daí, já, então, se. O número de hesitações constituídas por conjunções apresenta em torno de 30% das ocorrências de hesitações. – Finalmente, para os pronomes dá-se que o mais freqüente foi eu (36) – seguido de ele, você, tu e então outros como os demonstrativos isso, esse, – aquela e alguns possessivos como minha, meu, sua. A relação entre ocorrência de formas pronominais e casos efetivos de hesitação foi aqui um pouco inferior a 50%, ou seja, a cada dois pronomes em contextos hesitativos, um constituía aproximadamente uma hesitação. Seguindo esta linha de análise vemos que no caso dos nomes, verbos e advérbios a situação fica ainda mais rarefeita, estando eles com uma relação aproximadamente em torno de 25%. Somente no caso de fragmentos lexicais é que se dá uma relação de aproximadamente 100% de fenômenos, ou seja, cada vez que aparece um fragmento lexical temos efetivamente uma hesitação. 173
Como os alongamentos de vogal contribuíram com cerca de 20% das marcas de hesitação, podemos distribuir equitativamente esse percentual entre as categorias, com um peso um pouco maior para as palavras funcionais, já que são em geral as mais curtas, quase nunca recebem tonicidade na entoação e são as mais freqüentes. Algumas conclusões básicas ressaltam neste momento: 1 – as palavras funcionais são as formas lingüísticas mais freqüentes como material lingüístico para constituir as hesitações; 2 – há um som característico em língua portuguesa para se hesitar; 3 – ao contrário do que estamos acostumados a pensar, as hesitações são menos freqüentes do que outros fenômenos característicos da fala, tais como as repetições e os marcadores conversacionais; 4 – por fim, vale ressaltar que o predomínio das palavras funcionais na construção de hesitações sugere que as hesitações são um indicador de planejamento sintático e cognitivo e não uma estratégia de formulação textual.
6. Distribuição das hesitações No item anterior, foi observada a distribuição da hesitação sob o ponto de vista das formas. Interessa agora situar a hesitação na estrutura lingüística e investigar se há alguma regularidade sob o ponto de vista estrutural em termos de posições preferenciais ou canônicas da hesitação. A maioria dos estudos sobre as hesitações sugere que elas ocupam posições bastante regulares dentro da estrutura lingüística. A análise dos materiais do Projeto NURC evidenciaram algumas posições como as mais freqüentes. Antes de mais nada, parece muito oportuna uma observação de caráter geral quanto às posições da hesitação na estrutura sintática, pois é bastante problemática a análise de fenômenos lingüísticos da fala tendo por base unidades como a frase ou outras similares. Neste caso, há uma justificativa bastante clara que permite utilizar a frase como unidade básica para a distribuição da hesitação na estrutura lingüística. Os argumentos são os seguintes: (a) a unidade sintática chamada frase é bem conhecida em sua estrutura e dispõe de uma metodologia de análise passível de operacionalização 174
(b) a fala, embora tenha unidades funcionais que não podem ser identificadas com a frase em sentido estrito, como mostraram muitos estudos, não pode superar a condição geral a que estão submetidos todos os usos da língua, que é a sua organização em enunciados estruturados em frases (c) como mostrou Chafe (1982 e 1985) em suas análises a respeito da relação entre fala e escrita, os enunciados da fala e as frases analisadas pela sintaxe do sistema abstrato da língua têm um alto índice de coincidência. Esses argumentos permitem que usemos, mesmo que com cautela, a noção de frase para analisar a distribuição das hesitações na estrutura frasal. A hipótese é de que haja uma certa regularidade nesta distribuição. À primeira vista, há cinco posições típicas para as hesitações, considerando-se a organização da frase. O interessante é que em todos esses casos não se prevê rupturas, seja por pausa ou outra marca qualquer. (a) entre o sujeito e o verbo (b) entre o verbo e o complemento (c) entre o complemento e os adjuntos (d) entre um determinante e seus membros constituintes (e) entre uma oração e outra Uma análise detalhada mostrará que, efetivamente, a maioria das hesitações distribui-se nesses lugares, tendo algumas preferências, mas também algumas inibições bastante sistemáticas, como já foi notado em outros estudos para o Português. Pode-se dizer que as hesitações não correm com a mesma intensidade em todos esses pontos. Também há uma diversidade em se considerando as categorias gramaticais. Vejam-se, por exemplo, essas brevíssimas considerações preliminares, levando em conta apenas a questão da pausa na sua relação com alguns fatores: (i) em geral, pode-se dizer que uma pausa entre S e V numa frase, seria uma hesitação, mas sabemos que nem sempre é assim. Por outro lado, as pausas ditas silenciosas e preenchidas parecem não se equivalerem funcionalmente. Há autores (cf. Beattie e Butterworth, 1979) que postulam uma complementaridade entre pausas hesitativas silenciosas e preenchidas, observando que as silenciosas vão progressivamente diminuindo caso tragam conseqüên175
cias negativas para o falante, como por exemplo a perda da palavra com maior freqüência. (ii) também parece que há uma relação entre certas construções sintáticas e a presença maior de pausas, tendo-se observado, por exemplo, que construções com relativas têm menos pausas do que construções de grupos nominais ou construções de orações substantivas. (iii) um aspecto interessante também já observado por Mollica (1984: 145) é o de que que os pronomes pessoais inibem a presença de pausa. Por outro lado, os determinantes e os itens de função como preposição e conjunção favorecem o surgimento da pausa. Caso haja hesitações no sujeito pronome, isso se dá preferencialmente como alongamento de vogal ou repetição do item. (iv) parece que a posição da pausa é relevante para determinar se sua ocorrência deve-se a uma atividade de processamento sintático ou de busca de um item lexical (devida à baixa predizibilidade do item procurado). Tomemos o exemplo a seguir, do Projeto NURC, já utilizado no início deste trabaho: NURC/SP, INq. 234: 1.132-43: 1
Doc: e o que a senhora considera uma boa peça teatral? (1.60)
2
e o que
3
Inf: eu ach/
4
Doc:
5
Inf: (2.5) conter? ... eu acho que o o o (2.8) como é que eu vou dizer?
que ela precisa conter?
6
o que: : (2,5) sei lá (2.8) o que mais a peça nos chama a atenção é o
7
o o: : (1.0) o enredo da peça (0.5) ah ahn os artistas bons porque às
8
vezes né (0.6) eu tenho gostado mas (1.6) eu acho que assisti: : (2.2)
9
você sabe que não guardo nome mas eu assis/ eu
10
Doc:
não o nome da peça não importa
Neste segmento de 39 segundos de duração temos 18 segundos (46%) de silêncios acumulados com hesitações para preencher pausas. Trata-se de uma dificuldade de natureza cognitiva (falta de memória) refletida na dificuldade de execução lingüística. Parece que a busca em grupos nominais é um problema sério para os desmemoriados. 176
O exemplo acima é importante porque ele levanta a hipótese de que não é só na estrutura sintática que se deve buscar as hesitações, mas também no aspecto cognitivo e no processamento lingüístico que tem a ver com a seleção lexical. Uma observação geral é a de que a posição mais freqüente da hesitação se acha sempre na construção de sintagmas. É pouco freqüente que as hesitações se situem em fronteiras externas aos sintagmas ou entre um sintagma e outro. Isto permite sugerir que a hesitação é um fenômeno que indica a dificuldade de construção de constituintes oracionais. Por vir no início de estruturas, parece que a hesitação de fato se relaciona com o planejamento lingüístico e como mostrou James (1972) ela é um orientador para a aferição da estrutura sintagmática da língua. Na perspectiva da organização textual-discursiva, estes dados são de extrema importância por sugerirem que os falantes, ao estarem muito atentos aos aspectos relativos à própria interação, se voltam menos para os processos formulativos do conteúdo. As hesitações, ao contrário das repetições, por exemplo, não são estratégias de formulação textual e sim indícios ou sintomas de dificuldades de processamento cognitivo/verbal localizado na estrutura sintagmática. Além disso, como já lembrado, estas características estruturais fazem com que a hesitação se distinga de modo bastante claro dos marcadores conversacionais, cuja posição canônica é outra, ou seja, no exterior de fronteiras sintagmáticas e desligados das estruturas como tal, e por isso com funções discursivas muito nítidas. Vejamos aqui alguns do pontos em que as hesitações aparecem: i. na construção de grupos nominais (a) { artigo } nome – numa faixa média a a: a comunicação pode – temos certeza de que o o o homem precisa (b) nome { preposição } nome Este caso é de alta freqüência e surge em sintagmas nominais em geral de caráter explicativo. Vejam-se estes casos: – como conseqüência de uma de de uma comunicação – em termos de de de uma crise moral – tentativa (mundial) de de de de arquivamento 177
– problema do do do retrato – é parecido com a bola de de de bilhar ii. na junção do grupo nominal sujeito com o verbo SN { hesitação } verbo – porque se uma emissora ah: : .. for transmitir éh: : Hamlet ou então quando se põe o sujeito após o verbo como em: – e o que é que diz o o o Rotary? iii. nas construções verbais transitivas Podem ser construções tanto com objeto indireto (preposicionadas) ou com objeto direto (com artigos entre o V e o Comp.): V
{ prep./art. } N/V inf. – estamos nesse nesse nese século – foram obrigados a a a importar – falando éh éh éh com problemas – chegar áh áh áh então à conclusão – estamos falando agora aí de de de Gabriel Garcia Marques – tiveram a: : éh: áh uma crise de cultura – for transmitir éh: : qualquer coisa – você deve éh: : fiscalizar – ter éh éh éh preocupações – você liga sua sua sua seu aparelho de TV – tá criando uma uma cul um uma criança – transmitir éh éh áh Hamlet
ou alguma variação deste mesmo tipo em que o V tem um circunstancial (de lugar ou de tempo) antes do objeto direto, como em: – ele estuda em Paris o os os o número iv. na construção de sintagmas adjetivais ou adverbiais (a) N {...} adj – até onde existe uma uma: : realidade éh éh áh objetiva? 178
(b) Adv {...} N – em virtude do de da do fato – junto da: junto da: junto da janela – há cerca de: ... de de um ano – em torno do da da doença v. na junção de orações subordinadas Um caso dos mais comuns é o da junção de subordinadas integrantes com que ou qualquer tipo de subordinação (no momento de selecionar a conjunção). V + {que/conj} V – eu acho que tá tá tá em tempo de fazer – você vais achar que que que vai melhorar – sempre digo que que que precisa fazer – agora... eu acho que: : ... eu... espero: : ... não ter problemas – para ver se: : ... se começa a falar mais rapidamente – e o governo se advirta de que: : .. educar o adulto é bom – homens cultos porque: : .. éh: se eles não tinham analfabetos
vi. na junção de orações coordenadas Tanto faz se aparece ou não o conectivo unindo as orações: oração 1 {...} oração 2 – falsificando a cultura éh éh a e prostituindo a arte – nós paramos no sexto filho e: : ... estamos muito contentes vii. na construção de negações e disjunções (a) no uso da negação: – você não não não não tá dialogando – mas não não não é um grande livro – eu não não não absorvi 179
(b) em disjunções: – aceite Hamlet ou: : ... ou cultura evidentemente satisfatória – falsa cultura o o a a a ou ou cultura medíocre Quanto à relação entre as posições sintáticas e os tipos de hesitação, a questão é bastante complexa, pois depende de uma definição muito clara tanto dos tipos como das posições. Como isto é bastante problemático, já que a hesitação aparece em muitas posições, mas sempre na formação de algum sintagma, aqui são dadas algumas observações genéricas. (i) As PNP situam-se em três lugares característicos: (a) no interior de um sintagma (b) no final de uma unidade ideacional (c) na troca de turno. (ii) As PP são freqüentes no encadeamento de elementos de uma listagem, na seqüência de orações e na formação de séries em geral. (iii) As RH aparecem no início de sintagmas que formam o sujeito, na produção de predicados, na realizacão de complementos preposicionados, nos verbos de ligação e na seleção de artigos, pronomes e preposições. Tal como em outros estudos, também aqui notou-se uma parcela mínima de repetições hesitativas de mais de uma palavra. Além disso, é de notar que quase todos os elementos repetidos têm entre uma e 3 sílabas, sendo raros os casos com mais de três sílabas. A preferência absoluta é por itens de função. Em termos de quantidade, as RH são o tipo de maior freqüência e por isso mesmo os mais espalhados em todos os momentos da organização sintática. (iv) As FI são construções incompletas, geralmente não retomadas e soltas ou retomadas com outro rumo. As FI precedem uma outra construção e funcionam como um aviso das dificuldades de engate. (v) As GA são pouco comuns e surgem com nomes, adjetivos e verbos dando a impressão de serem correções entoacionais, seja do ritmo da unidade iniciada ou da produção do item realizado. São de baixa freqüência. Às vezes aparecem como indicadores de dificuldade de identificação da classe do item lexical selecionado. Uma observação comum a todas as análises sobre a hesitação é que elas situam-se de preferência na cabeça das construções sintagmáticas, em 180
geral à esquerda do núcleo de qualquer constuinte em construção. São menos freqüentes as hesitações em posições marginais de constituintes ou à esquerda e direita de constituintes completos. Já no caso dos marcadores conversacionais dá-se quase o inverso. Os exemplos trazidos acima mostram que é pouco comum as hesitações romperem sintagmas, pois elas são atividades construtivas. Elas são uma espécie de “titubeio” que sinaliza uma reorientação sintagmática, mas raramente uma ruptura ou um abandono de sintagmas, até mesmo naqueles casos dos FI. Assim, do ponto de vista da orientação, as hesitações operam na prospectiva, ou seja, referem ou indiciam e sinalizam constituintes futuros, numa atividade para-catafórica.
7. Papéis da hesitação Uma análise dos resultados até aqui obtidos a respeito das formas e posições da hesitação sugere que ela interfere particularmente na enunciação discursiva (refletindo condicionamentos pragmáticos) e nas atividades cognitivas (refletindo-se no processamento da compreensão).1 No geral, ela não chega a comprometer a gramaticalidade dos enunciados. Isto chega a ser surpreendente, mas se tirarmos as hesitações, veremos que elas não tinham papel sintático algum. Mesmo seus papéis pragmáticos e discursivos são secundários em relação ao discurso, mas não irrelevantes. A tese central aqui defendida é que a hesitação, ao contrário de outras características da fala, tais como a repetição, a paráfrase, a correção, as parentetizações e os marcadores conversacionais, não tem funções sistemáticas no plano da formulação textual. Isto não significa, porém, que a hesitação é vista como uma simples disfunção da fala. Significa que seu papel é muito mais o de sugerir os sintomas de um processamento em curso do que o de propor alternativas de formulação textual-discursiva. Portanto, é fundamental ter presente que a hesitação é aqui vista como um índice problemático da formulação e não como uma atividade formulativa. Macklay/Osgood (1959) observam que quando o falante tem pouco controle do seu turno, ele produz pausas silenciosas maiores, mas quando quer manter o controle do turno as pausas silenciosas diminuem na quantidade e na duração, entrando aí as pausas preenchidas, pois o silêncio pode levar à perda do turno. Assim, falantes menos fluentes têm dificuldade de manter o turno. Segundo Rochester (1973: 75), isto teria algumas conseqüências interessantes, tais como: 181
(a) essa correlação vale mais para os diálogos e menos para monólogos; (b) os silêncios aumentam em final de turno e em final de tópico; (c) há maior equilíbrio desses fenômenos quando o número de falantes é constante, aumentando o preenchimento no caso de variação de falantes potenciais; (d) acentuam-se os preenchimentos quando o falante carece de meios visuais para controle de seu turno, como no telefonema. Isto parece comprovar a interferência das variáveis de caráter interacional. Para o caso (d), Rochester (1973: 76) postula dois tipos de variáveis que entram em ação: (i) variáveis mediadoras: tais como mudanças na situação da audiência e predisposição para responder aos ouvintes; (ii) variáveis de controle: número de falantes, desejo individual de tomar a palavra. As variáveis de (ii) tendem a reduzir o tempo e o número de pausas silenciosas, sendo as de (i) indiferentes a isso. Assim, torna-se interessante investigar a influência do tipo de falante e do tipo de participação do falante na relação com o tipo de texto produzido. Ao analisar as impressões que as hesitações das testemunhas causam nos advogados em depoimentos na Justiça, Walker (1985) defende a tese de que “em situações nas quais questões de verdade são importantes, o silêncio é uma faca de dois gumes por natureza; uma face representa a necessidade cognitiva do falante de organizar o pensamento e a outra a necessidade do ouvinte de atribuir motivos para uma quebra no fluxo da fala”. Esta cabeça de Janus da hesitação e do silêncio torna-os significativos e funcionais sob o ponto de vista da interpretação.2 Chafe (1985), postula que a hesitação só pode ser analisada em situações concretas de uso da língua e por isso não foi tratada nos estudos lingüísticos dominantes, já que estes se ocupam com “falantes ideais”. Ao se investigar a fala, a hesitação se torna uma espécie de medida para verificar processos cognitivos e estratégias lingüísticas que se dão na textualização em tempo real. Chafe observa que na fala as idéias são produzidas em blocos não necessariamente longos nem completos do ponto de vista gramatical. As hesitações seriam uma espécie de indicador desta atividade, seja de suas facilidades ou dificuldades. A tese de Chafe (1985: 79) é a de que o falante produz hesitações para busca do foco. Observa, por exemplo, que quando alguém inicia uma narrati182
va, ele hesita até encontrar o foco. O mesmo poderíamos dizer numa correlação com a introdução do tópico. Pode-se hesitar na hora de determinar o foco do novo tópico e isto com maior freqüência quando o tópico é mais dificil, como observou Rochester (1973). Esta tese de Chafe é de interesse aqui porque guarda uma correlação muito estreita com os nossos achados anteriores. Explica-se, assim, por um outro caminho, porque as hesitações acumulam-se no início de produções discursivas, sejam elas no plano formal das estruturas sintáticas ou no plano discursivo-textual da formulação enunciativa. As dificuldades acumulam-se nos primeiros passos e não nos finais. É um fato que as hesitações ocupam sempre posições iniciais, seja no contexto da formulação dos tópicos, seja no contexto da construção sintagmática ou planejamento sintático em geral. A idéia de foco proposta por Chafe também se coaduna com a tese da denominação de Blanche-Benveniste (1990). Pois a hesitação tem um escopo geralmente muito imediato. Neste caso, diverge das estratégias de formulação tais como os marcadores e as repetições ou correções cujo escopo é mais do que o simples contexto imediato das relações formais ou discursivas do item envolvido. Aparentemente, a hesitação instiga a colocar o princípio funcionalista da iconicidade das formas sob novo enfoque, já que as hesitações não são formas funcionais e sim disfuncionais, se as observarmos sob o ponto de vista de sua contribuição discursiva. Nós podemos inferir várias coisas no contexto de um falante hesitativo, mas todas essas inferências partem muito mais de nossa avaliação do que de evidências trazidas pela hesitação como tal. Por isso, a hesitação é uma oportunidade de refletir sobre as relações entre forma e função. O falante hesita para decidir o quê falar ou porque está decidindo como falar. Mas não porque está querendo dizer algo com a hesitação. Chafe (1985: 82) sugere que os focos em geral se organizam em unidades sintáticas ou então em unidades entoacionais. Neste caso é explicável que haja mais hesitações entre os focos que dentro de um foco, ou seja, no interior de uma unidade. De igual modo as transições dentro de um mesmo tópico (ou episódio) conteriam menos hesitações do que as transições entre tópicos diferentes. Lembra ainda a mesma tese de Walker (1985) que a verbalização de informações não verídicas pode levar a um maior número de hesitações que as verídicas. Esta via psicologizante de entender e explicar o fenômeno não é boa, mas é a mais comum entre os psicólogos que vêem na hesitação um sintoma de insegurança, ansiedade ou medo. Esse não é o caminho seguido neste ensaio. 183
Em resumo, pode-se afirmar que há uma relação entre a hesitação e tópico, conhecimento de mundo, capacidade de codificação e conhecimento lingüístico. Por outro lado, teríamos os fatores representados por: falanteouvinte (estrutura da participação), organização dos turnos de fala (estrutura de produção) etc. Tendo em vista que o texto dialogado é produzido coautoralmente e em turnos sucessivos, há sempre a necessidade de uma progressão sob o risco de perda da palavra. Neste caso, é importante produzir sons ao invés de ficar em silêncio. Tanto isso é verdade que às vezes um ouvinte entende a posição hesitativa do falante como pedido de socorro e lhe dá um auxílio na formulação avançando o que o outro iria dizer, tornando o texto mais colaborativo e a interação envolvente. Embora opere como descontinuadora da fala em sua materialidade, a hesitação é ao mesmo tempo a garantia da continuidade discursiva, servindo como estratégia para manutenção do turno em momentos críticos. Estes momentos críticos ocorrem na falta de memória, embaraço no conteúdo, problema de planejamento sintático etc. Considerando estas duas perspectivas de análise, pode-se observar o funcionamento da hesitação em duas linhas: (a) na perspectiva da formulação textual (b) na perspectiva da interação e da discursividade Em (a) ela pode ser observada na sua condição de descontinuadora na ordem sintática, sendo que em (b) ela seria observada em sua condição de continuadora no nível da enunciação, ou seja, das relações interpessoais dos interlocutores e na condução dos tópicos. Tudo indica que neste segundo caso pode-se mais propriamente falar em funções, enquanto que em (a) não se trata propriamente de funções, mas de papéis ou sintomas. Considerando a perspectiva (b), é comum que a hesitação, sobretudo na forma de um alongamento de vogal, seja utilizada como estratégia de entrega de turno, num momento em que começa a ficar difícil manter a palavra. Trata-se, pois, de uma entrega de turno disfarçada. Esta estratégia joga com a expectativa da manutenção da palavra e a possibilidade da perda. Outro papel de continuadora discursiva é o da hesitação com alongamento de vogal usada como forma de pedir socorro ao interlocutor em momentos de esquecimento. No geral, quando se fala em papel da hesitação na perspectiva (a) acima, ou seja, da descontinuidade material, tem-se em mente a questão do processamento lingüístico. Neste caso, parece mais adequado dizer que as hesitações 184
não teriam funções, mas operariam como indicadores ou sintomas de atividade de planejamento lingüístico. Resumidamente, proporia o seguinte quadro geral para explicitar este fato: (a) perspectiva da descontinuidade sintagmática oracional (b) perspectiva da continuidade: textual discursiva interacional cognitiva No geral, diz-se que a hesitação com papel de descontinuadora indica atividade de planejamento lingüístico, ou seja, indica intervenção na construção de estruturas sintagmáticas. Assim, nesse contexto parece exercer papéis como testagens do falante para escolha de formas de uma palavra adequada ou organização de uma construção de maneira mais compreensível. Nesses casos teríamos atividades voltadas para o falante, situando-se tanto na fase do planejamento como da formulação, o que mostra que a hesitação diria respeito ao processamento lingüístico como um todo. Um argumento bastante razoável para identificar a hesitação como reveladora de atividade de planejamento lingüístico é o fato de ela ocorrer na primeira metade da unidade em que intervém. É pouco comum hesitar após a segunda metade de uma estrutura realizada. Já no caso das atividades reveladoras de funções discursivas ou conversacionais, as pausas e os alongamentos, por exemplo, estão em geral no final das unidades. Parece que completude sintática e completude discursiva não são isomorfas. Cabe aqui indagar se existem hesitações que exercem predominantemente papéis na perspectiva da formulação textual e hesitações que operam mais na perspectiva discursiva. Esta é a indagação que se fazem Beattie & Beattie & Butterworth (1979), quando indagam se as hesitações são funcionalmente diversas. Esses autores notaram que se os falantes fossem “penalizados” por pausas além de uma certa duração, perdendo o turno, por exempo, essas pausas baixavam significativamente, subindo o número de repetições ou pausas preenchidas. Concluem com isso que “as pausas não preenchidas e os tempos de repetições hesitativas parecem ser intercambiáveis” (p. 342). Isso sugere que tenham funções parecidas, pelo menos parcialmente. 185
Um fato notado no decorrer das análises foi o que diz ao escopo da hesitação. Ela parece voltar-se para elementos em suas imediações. Além disso, volta-se para atos futuros, ou seja, sua orientação é prospectiva, diferindo, neste particular, da repetição e da correção que são sempre retrospectivas, até mesmo porque só se repete algo já dito e só se corrige algo que se formulou de forma tida como inconveniente por alguma razão qualquer.3 O ponto essencial da distinção entre hesitação e todos os demais fenômenos discursivos característicos da fala reside não tanto nas formas (já que ela tem aparências de repetição, correção, marcadores etc.), mas no seu papel no processo de formulação textual-discursiva. A hesitação, ao contrário da repetição, por exemplo, não faz parte das atividades de formulação e sim dos sintomas que evidenciam rupturas na formulação. A hesitação não pode ser tida como proposta de solução para algum problema de formulação mas sim como indício de atividade de busca de solução. Por isso, não é uma atividade formulativa. Quando usamos repetições para construir o texto, as repetições com a função de fator coesivo são identificadas como uma estratégia de coesão. Mas a hesitação nunca é identificada como alguma estratégia similar a essa no plano da formulação. Mais do que uma estratégia de solução é um indício de problema, revestindo-se, por isso, de interesse enquanto fator de “ralentamento do texto”. A hesitação é indício de trabalho por parte do falante; ela conduz o analista ao laboratório do falante. Ao lado dos papéis textuais e interacionais há ainda o papel cognitivo. Quanto a isto, a hesitação revela os segredos da própria atividade cognitiva do falante, na medida em que vem associada a outros processos, tais como o fluxo informacional dos referentes. Notei que em várias ocasiões as hesitações precedem a introdução de elementos novos, sendo menos freqüente na reintrodução de elementos já conhecidos. Parece, pois, relevante analisar as hesitações na relação com seu status informacional. Este aspecto é frisado também por Silva (em preparação). A expressão “indivíduo hesitante” tem a ver, no geral, com uma avaliação cognitiva e não textual-discursiva. Hesitante é uma pessoa que não conhece ou que não tem segurança do que está dizendo ou fazendo. Este parece ser o senso comum. Mas este é apenas um dos aspectos pelos quais se poderia observar a hesitação. Goldman-Eisler (1968) considera como um de seus maiores achados nos estudos sobre a hesitação o fato de que “os índices de pausa eram signifi186
cantemente mais altos durante as interpretações do que durante as narrações”. Isto sugere que há uma relação entre a hesitação e a atividade discursiva. Essa correlação/diferença ainda não foi feita. As observações feitas no corpus analisado permitem a sugestão de que quanto mais espontânea a situação, tanto menores vão sendo as pausas silenciosas. Quanto a outras correlações, não há resultados relevantes.4 Com base nestas análises, a tentativa aqui feita de sistematizar os papéis das hesitações distribui esses papéis em três grandes classes gerais: (A) papéis formais (B) papéis cognitivos (C) papéis interacionais Não há um rigor muito grande neste momento quanto a essa distribuição e ela ainda deveria ser objeto de uma análise mais aprofundada. (A) papéis formais Até hoje continua controversa a idéia de que estruturas de fala de maior complexidade exigiriam maior tempo de planejamento, dando origem a mais hesitações. Goldman-Eisler (1968) informava que não havia encontrado uma relação clara neste sentido. Na verdade, nota-se um grande número de hesitações em estruturas bastante simples, mas fica por definir o que é uma “estrutura simples” ou uma “estrutura complexa”. Segundo Beattie & Butterworth (1979: 347-350) os estudos a este respeito são contraditórios. De um modo geral, podemos dizer que as hesitações exercem dois grandes papéis formais: (a) indicação de orientação/reorientação de seleções sintagmáticas (b) atividade de busca/confirmação de seleções lexicais Quanto a (a), trata-se de uma atividade muito comum, devida ao processamento lingüístico on line. É um indício de atividade de planejamento. Trata-se de um indicador da busca de um item lexical com a antecipação de um elemento que lhe convém formalmente. Nós dominamos as regras gramaticais e sabemos que nomes masculinos têm artigos no masculino, um nome no plu187
ral tem artigo no plural e assim por diante. A competência lingüística enquanto domínio de uma regra formal não é garantia de uso da regra, pois isso dependerá também de outras seleções, ou seja, um item lexical determina por antecipação seleções específicas de outros itens. O problema aqui é distinguir se temos, na hesitação um caso de correção especializada, ou seja, uma correção por antecipação, ou se temos um caso em que ainda não encontramos o item que buscávamos. Nesta segunda hipótese trata-se de uma tentativa de preenchimento. Ocorre, porém, que na fala quase sempre executamos construções curtas, seqüenciadas e com alto índice de pré-fabricação. Por isso não hesitamos tanto como seria de esperar. Quanto a (b), é fundamental ter presente que neste caso não se trata da tese clássica de que a presença de uma hesitação diante de um nome revelaria dificuldade de encontrar aquele nome ou então uma “baixa predizibilidade” do item lexical. Goldman-Eisler “notara que a escolha de uma palavra pelo falante em qualquer ponto dependeria ‘da freqüência do uso do símbolo na língua como tal, mas as restrições eram derivadas do contexto e da estrutura da língua’ ”. Isso envolvia aspectos de freqüência, bem como aspectos semânticos, sintáticos e pragmáticos. A questão está em como distingui-los. Por isso é preferível formular a função acima como busca de elementos adequados, seja de natureza sintática ou lexical. As razões podem ser múltiplas e não uma só. Entre as razões que levam a hesitar nos casos (a e b) devem-se a atividades de: (i) construção de estruturas (ii) identificação de referentes (B) Papéis cognitivos A expressão papéis cognitivos tem aqui um sentido um tanto amplo e diz respeito a todos os fenômenos relacionados à compreensão, intenção e organização tópica. Isso significa que quando produzimos a fala estamos submetidos a condições de produção em que a forma e o conteúdo são realizados simultaneamente. Tanto é necessário planejar o conteúdo como a forma. Mas isso tem sinalizações diversas. O problema está em como identificar a diferença dessas operações. No caso do planejamento cognitivo, nota-se a presença de silêncios, diminuição do ritmo e pausas preenchidas. Os planejamentos verbais são mar188
cados por mudanças de estruturas ou nas rupturas sintagmáticas (sobretudo nas cabeças dos sintagmas). Entre os papéis cognitivos mais comuns das hesitações, poderíamos identificar: (a) sinalização de saturação de tópico (b) sinalização de atividade de compreensão (c) indicação de organização tópica (d) indicação de atividade de planejamento (C) Papéis interacionais Um dos princípios mais gerais da produção discursiva oral é o envolvimento interpessoal. Esse princípio comanda uma série de processos que se traduzem em estratégias que organizam atividades formulativas tais como o sistema de polidez, o sistema de atenção para com o ouvinte (com todos os seus marcadores) e assim por diante. É neste caso que se pode imaginar papéis identificados como: (a) sinalização de manutenção de turno (b) sinalização de finalização de turno (entrega “disfarçada”) (c) sinalização de atenuação de afirmações Sobretudo as hesitações do tipo PP, que parecem indicar uma prevenção contra a “perda” do turno. Às vezes a hesitação pode operar como uma forma de chamar atenção do outro em momentos de distração, o que é uma forma de “suspender” momentaneamente o fluxo da fala. Também se aponta como papel interacional, em alguns casos, o fato de a hesitação operar como: (d) sinalizador de superioridade, segurança e tranqüilidade De fato, já se notou que muitos conferencistas tarimbados e bem conceituados hesitam muito mais do que conferencistas estreantes. Talvez para sugerir segurança e até mesmo descontração e familiaridade com o tema.
8. Considerações Finais Nestas considerações finais cabe retomar alguns aspectos centrais tratados em vários momentos do trabalho, mas inconclusivos. Quando tratei do 189
problema das funções das hesitações, preferi adotar o termo papel da hesitação, pois um dos problemas ainda aberto é o seguinte: – qual o grau de consciência do falante quando age com a linguagem? Será que no caso específico da hesitação pode-se falar em intenção? Tudo indica que não, pois isso conduziria a uma intencionalidade permanente, o que, ao meu ver, é um caso insolúvel e sobretudo incontrolável. Assim, a pergunta que ainda fica, neste caso, é a seguinte: – como tratar o problema da intenção na relação com a hesitação? Ao lado da questão acima, há outra também complexa. Trata-se do fenômeno do monitoramento na língua. A indagação que aqui permanece aberta é a seguinte: – será que os falantes se monitoram o tempo todo? Isto recoloca, sob uma nova roupagem, o problema anterior da consciência do uso da linguagem. Não temos uma resposta a esta questão e a psicolingüística parece não estar voltada para ela. Uma questão levantada logo na abertura do trabalho era a seguinte: – a hesitação é uma propriedade da língua ou do falante? Talvez essa questão não esteja sequer bem posta, mas ela aponta para a necessidade de distinguir entre o que poderíamos chamar de idiossincrasia e fatos lingüísticos. Outra questão tratada, mas não decidida, foi a que diz respeito à hesitação em seu aspecto de fluência e continuidade discursiva e textual. A pergunta, neste caso, é a seguinte: – será possível distinguir entre a linearização material do texto e a continuidade discursiva? Suponhamos que sim. Neste caso, a hesitação seria um aspecto descontinuador da materialidade textual, mas não do discurso, ou seja, da produção de sentidos como tal. Na realidade, não é pacífica a idéia de que a hesitação é uma simples descontinuadora da fala. A rigor, o texto, em sua materialidade, pode ser visto como uma pista relevante para a observação das estratégias de sua formulação. 190
NOTAS 1
No estudo de Scliar-Cabral et alii (1981: 128) são formuladas duas hipóteses para analisar a pausa e a hesitação, afirmando que ambas estariam em “distribuição complementar”. As hipóteses foram: “(1) função de codificação e (2) integrante dos traços conversacionais”. A posição adotada no estudo de Scliar-Cabral et alii considera como hesitação um conjunto de fenômenos, tais como o “sabe”, “né”, “entende”, “bom, “lógico”, “digamos”, por exemplo”e outros nessa mesma linha. No caso das hesitações na função (1) apontada, suas posições e sub-funções coincidem com as aqui também sugeridas. As funções apontadas em (2) são praticamente as que se atribui aos MCs. Gostaria de frisar o caráter pioneiro, entre nós, desse estudo de Scliar-Cabral et alii, que a meu ver deveria ter merecido mais atenção e recebido continuidade.
2
E interessante observar que no estudo de Walker (1985) as pausas silenciosas intra e inter-turno foram as mais críticas, sendo que as pausas preenchidas não foram avaliadas negativamente. Também são mais críticas as pausas atribuídas ao respondedor, sendo menos preocupantes as pausas atribuídas ao perguntador.
3
Em Marcuschi (1992) tentei mostrar as funções da repetição e, naquele momento, distinguia entre repetição e hesitação, mostrando que uma era prospectiva e a outra retrospectiva. Tanto assim, que eliminei do rol das repetições todas a hesitações que se davam por repetição de elementos lingüísticos. Isto porque as repetições hesitativas pouco têm a ver com as repetições stricto sensu.
4
Lembro que a própria Goldman-Eisler em estudos posteriores chegou à conclusão que não havia distinção relevante entre as duas situações discursivas em relação às pausas hesitativas.
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ASPECTOS BASICAMENTE INTERACIONAIS DOS MARCADORES DISCURSIVOS
Hudinilson Urbano (Universidade de São Paulo)
Resumo: O trabalho, que se apóia em pesquisa maior, apresenta resultados de outra mais profunda sobre os marcadores classificados funcionalmente como marcadores “basicamente orientadores da interação”. Esses marcadores são agora analisados e estudados com o objetivo específico de observar suas subfunções, propriedades e comportamentos interativos salientes.
1. Considerações preliminares A presente pesquisa está condicionada à pesquisa maior anterior intitulada Marcadores Discursivos: Traços Definidores, realizada por Mercedes Sanfelice Risso, Giselle M. O. Silva e Hudinilson Urbano para o PGPF1 . Aquela referia-se aos marcadores discursivos de um modo geral; distinguindo fundamentalmente marcadores “seqüenciadores de tópico” e marcadores “orientadores da interação”, com implicações recíprocas; esta trata de um subconjunto dos marcadores, que desempenham, exclusiva ou inclusivamente, a função de marcadores “basicamente orientadores da interação”. Esses marcadores serão analisados sob esse aspecto, com abstração feita à eventual função concomitante de “seqüenciadores de tópico”. Naquela pesquisa, buscamos o “estabelecimento de traços identificadores do estatuto dos Marcadores Discursivos, capazes de conduzir a uma definição mais precisa e operacionalmente viável de sua natureza”. Para tanto, fizemos, no corpus mínimo do PGPF, um “levantamento denso das unidades que têm sido, consensualmente ou não, apontadas como marcadores”, observando as suas peculiaridades na integração textual e depreendendo as regulari-
dades ou constantes, capazes de formar um fundo comum das ocorrências, com base nas quais pudemos configurar “matrizes básicas” de traços e um “núcleo-piloto” definidor dos marcadores discursivos. Cada ocorrência foi investigada e analisada em relação a cada uma das dezesseis variáveis, subcodificadas em traços, devidamente descritos e comentados, a seguir relacionados: VARIÁVEIS / TRAÇOS 01 Padrão de recorrência 1 – de 1 a 3 vezes 2 – de 4 a 9 vezes 3 – de 10 vezes em diante 02 Articulação de segmentos do discurso 1 – seqüenciador tópico 2 – seqüenciador frasal 0 – não-seqüenciador 03 Orientação da interação
09 Autonomia comunicativa 1 – comunicativamente autônomo 0 – comunicativamente não autônomo 10 Massa fônica 1 – até três sílabas tônicas 2 – além de três sílabas tônicas 11 Tipo de ocorrência (contigüidade/combinabilidade) 1 – contíguos combinados
1 – secundariamente orientador
2 – contíguos não combinados
2 – basicamente orientador
3 – contíguos repetidos
0 – fragilmente orientador 04 Relação com o conteúdo pro-posicional
0 – não contíguos 12 Base gramatical (fonte)
1 – exterior ao conteúdo
1 – substantivo
6 – pronome
0 – não exterior ao conteúdo
2 – adjetivo
7 – interjeição
2 – não se aplica
3 – advérbio
8 – preposição
05 Transparência semântica 2 – totalmente transparente 1 – parcialmente transparente 0 – opaco 3 – não se aplica 06 Apresentação formal
4 – verbo
9 – formação mista
5 – conjunção
10 – não se aplica
13 Sexo dos informantes 1 – mulher 2 – homem 14 Local do inquérito
1 – forma única
1 – Recife
4 – São Paulo
2 – forma variante
2 – Salvador
5 – Porto Alegre
07 Relação com a estrutura oracional 1 – sintaticamente independente 0 – sintaticamente dependente 08 Demarcação prosódica 1 – com pauta demarcativa 0 – sem pauta demarcativa
3 – Rio de Janeiro 15 Tipo de inquérito 1 – DID 2 – D2 3 – EF 16 Posição 1 – inicial 2 – medial 3 – final
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As “matrizes básicas” representam combinatórias de oscilações flexíveis, mas bastante fortes, quer por sua natureza, quer por sua freqüência. Essas matrizes foram submetidas a novos testes, tendo sido observada certa instabilidade (embora contrabalanceada) em algumas variáveis. As consideradas estáveis (Variáveis 02, 03, 04, 07 e 09) permitiram então a detecção de um “núcleo-piloto”, definidor dos marcadores discursivos prototípicos.
2. A presente pesquisa Na presente pesquisa, objetivamos apurar subfunções, propriedades e comportamentos textuais interativos específicos dos marcadores listados na pesquisa anterior como “basicamente orientadores” (traço 2 da Variável 03). Em razão dos objetivos específicos, com tônica na perspectiva interacional, em termos de procedimentos metodológicos, repensamos e recodificamos a Variável 16, cuja análise não fora concluída na pesquisa anterior, e acrescentamos novas variáveis, expostas na seqüência, do que resultou um conjunto complementar de variáveis, codificadas com as letras A, B, C, D, E, F, G.2 Por outro lado, adotando critério da pesquisa anterior, esclarecemos que, na listagem (Anexo I), os três últimos números da configuração (Variáveis 13, 14, 15) codificam o sexo, o local e o tipo de inquérito, correspondendo efetivamente essa codificação combinada aos seguintes inquéritos do Projeto NURC/ BR: 3 últ. nºs: Inquérito/NURC/BR:
113 121 131 142 143 151 153 211
EF/RE -337 DID/SA -231 DID/RJ- 328 D2/SP- 360 EF/SP- 405 DID/POA- 045 EF/POA- 278 DID/RE -131
3 últ. nºs: Inquérito/NURC/BR:
212 222 223 232 233 241 252
D2/RE-005 D2/SA-098 EF/SA-049 D2/RJ-355 EF/RJ-379 DID/SP-234 D2/POA-291
A – Funções textual-interativas Esta variável, de fundamental significação e importância no presente estudo, representa o levantamento de funções discursivas interacionais desem197
penhadas apenas pelas formas sob análise. Dificilmente uma forma desempenha uma única função; é comum a coocorrência ou sobreposição de funções. Nessa hipótese, optamos, numa análise inicial, pela função que nos pareceu proeminente, passando, às vezes, depois, a considerações periféricas. As funções previstas nos traços desta variável representam alguns possíveis “desdobramentos” do traço 2 da Variável 03 da pesquisa anterior e dizem respeito a “funções” (ou subfunções) que as “formas” sob análise subtendem e desempenham. O conceito de interação tem uma abrangência considerável, não se referindo apenas ao processo de relação interpessoal bem caracterizado (envolvimento do falante com o ouvinte ou vice-versa), mas também ao processo de manifestação pessoal, quando, por exemplo, o falante verbaliza avaliações subjetivas a propósito das significações proposicionais, envolvendose, pois, com o conteúdo (como acho), ou compromete, retoricamente, seu interlocutor (como digamos). A presente pesquisa, entretanto, como já frisamos, se restringe ao traço 2 dessa função (marcadores basicamente orientadores), ressalvados ainda os critérios complementares alinhavados adiante. Esta variável abre-se teoricamente em vários subgrupos, cada um compreendendo um conjunto de funções interligadas, quase num continuum, sob determinada tônica. Esses conjuntos distribuem-se em vários graus de envolvimento dos parceiros, indo do maior envolvimento do falante consigo mesmo e menor com o interlocutor (maior grau de “subjetividade”) até a uma situação oposta (maior grau de “intersubjetividade”). Observemos os exemplos abaixo: a)
“já ouviu falar, conhece de nome taxionomia, só de nos, bem...Eh:: essa palavra taxionomia quer, refere-se mais ou menos a uma classificação (...) (EF POA 278/153 1. 27)3
b)
Doc. quanto tempo... essa refeição ? L2
ah essa refeição... normalmente leva meia hora (...) (D2 SP 360/142 1. 324/325)
c)
L2
(...) já é alguma coisa que eles fazem porque...
L1
ah ajuda demais né ? (D2 SP 360/142 1. 183/185)
198
d)
L1
(...) agora em dois dias da semana ... eu levo à faculdade também... não é ?
L2 L1
ahn ahn e:: depois volto para casa (...) (D2 SP 360/142 1. 153/157)
Em a) o falante formula uma pergunta (retórica) que ele mesmo responde na seqüência. Nesse sentido, na estratégia de ele perguntar e ele mesmo responder, o bem inicia a auto resposta, caracterizando o referido grau de subjetividade, isto é, o falante modalizando sua atitude no próprio texto. Em b) a situação é semelhante. Todavia a Doc. endereça ao interlocutor uma pergunta direta que ele (L2) passa a responder, iniciando, porém, a resposta com o marcador ah. Nesse caso o ouvinte, tornado falante, foi provocado diretamente e o ah teve igualmente a propriedade de facilitar a tomada de turno. Em c) L2 vem fazendo comentários a respeito das atividades dos filhos, sendo interrompido por L1 com um comentário paralelo iniciado com o marcador ah, que favorece a interrupção da fala de L2 e a concomitante tomada de turno, procedimentos que sinalizam o grau de envolvimento interpessoal dos parceiros conversacionais. Em d) o falante está narrando/descrevendo seu dia de tarefas. A certa altura faz uma declaração que termina com o marcador não é ? como reforço de sua asserção, em tom interrogativo, tipificando claramente a interação face a face. Por outro lado, o ouvinte (L2) manifesta claramente, em sobreposição de voz, ainda antes do término do turno do falante, o grau de sua interação com ele, por meio do marcador ahn ahn. Para ampliar o panorama teórico sobre o conceito de interação, cabe referir ainda a ocorrência do marcador ah, de natureza exclamativa, em início de fala citada, como no exemplo abaixo: “eu não leio muito negócio de esporte, eu sempre viro a folha(s) né... meu marido “ah, onde é que se viu, tu não lê esporte ?” (DID POA 045/151
l.190/192)
O ah foi produzido pelo falante corrente, mas o foi com o objetivo de introduzir fala produzida por um terceiro interlocutor fora do evento conversacional em andamento. 199
Trata-se de hipótese complexa ou ambígua quanto às funções de subjetividade/intersubjetividade, uma vez que, sendo a fala produzida originariamente por um terceiro falante (às vezes pelo próprio falante), em situação de fala alheia à situação do evento conversacional em curso, nem sempre se tem conhecimento suficiente das circunstâncias em que teria sido produzida. Sua classificação fica, pois, questionável, mas se trata sem dúvida de um mecanismo de orientação interacional. Há quem atribua a muitos marcadores funções que, no nosso entender, muitas vezes dizem respeito mais a propriedades do que propriamente a “funções”. Assim, as chamadas funções de a) assalto/tomada de turno, iniciador do turno; b) manutenção de turno; c) entrega/passagem de turno são muitas vezes mais precisamente propriedades que alguns deles têm, associadas a certas funções propriamente ditas. Por exemplo, um ah que funciona como iniciador de R. problemática, naturalmente se confunde com uma tomada de turno, mas ele mesmo não tem a função conversacional de iniciar o turno; ele funciona, quando muito, como uma espécie de “engate”. Quando um marcador é sempre empregado numa posição fixa, esse uso sistemático leva a confundir propriedade com função. Não ficando claramente identificada outra função interacional, seu desenpenho costuma ser expresso como “iniciador de turno”. Estão previstos para esta Variável A, em princípio, seis traços. Traço 1 – fático de natureza imperativa e entonação exclamativa. São formas produzidas pelo falante corrente, mas orientadas diretamente para o ouvinte: Olha!, Veja! Traço 2 – fático de natureza ou entonação interrogativa, produzido após enunciado declarativo. São formas produzidas pelo falante após uma declaração também produzida por ele, como né?, certo? Traço 3 – fático de natureza e entonação interrogativa, produzido após enunciado interrogativo. São formas produzidas pelo falante após uma pergunta (retórica ou não) também produzida por ele, como hein? Traço 4 – feed back (FB). São formas produzidas pelo ouvinte, como hétero-monitoramentos, como uhn uhn, certo. Traço 5 – início de respostas formais (R) ou de comentários (C)4. São formas produzidas pelo ouvinte tornado falante seguinte, ao tomar o turno, em respostas, ou como comentário a perguntas ou a comentário do falante anterior, como um Ah, de natureza exclamativa. Esta função comporta muitas variantes, onde marcadores ocorrem por motivações variadas. 200
Traço 6 – início de fala citada. São formas produzidas pelo falante, citando, entretanto, fala de interlocutor fora do evento conversacional em curso (fala cuja autoria pode ser até do próprio falante corrente), como um Ah, de natureza exclamativa. B – Posição na frase oral A frase oral é aqui considerada uma unidade comunicativa entonacionalmente delimitada e segmentada conforme os propósitos do falante e/ou as condições discursivas da produção coletiva do texto. Freqüentemente tem feição oracional, ainda que muitas vezes sem a estrutura e a completude gramatical canônicas. Baseada nessa concepção, a decisão do recorte, contudo, é tomada pontualmente. Traço 1 – Inicial. Trata-se de formas localizadas no início de frases. Incluem-se aqui os casos de início de fala citada e os feed backs seguidos de fala tomando/aceitando o turno, em que, portanto, o ouvinte assume o papel de falante. Traço 2 – Medial. Formas localizadas no interior de frases; inclusive no meio de sintagmas. Traço 3 – Final. Formas localizadas no final de frases. Traço 4 – Não se aplica. Formas que ocorrem solitariamente, isto é, como constituintes únicos de interação, como é o caso dos feed back. C – Posição no turno Traço 1 – Inicial. Formas localizadas em início de turnos. Incluem-se aqui os casos de início de fala citada e os feed back seguidos de fala tomando/ aceitando o turno. Traço 2 – Medial. Formas localizadas no interior dos turnos, podendo ocorrer em início e meio de frases; inclusive no meio de sintagmas. Traço 3 – Final. Formas localizadas no final dos turnos. Traço 4 – Não se aplica. Formas que ocorrem solitariamente, isto é, como constituintes únicos de interação, como no casos dos feed back. As observações em relação à posição na frase (variável B) e no turno (variável C), além de, por si sós, poderem revelar uma tendência posicional particular de certos marcadores, poderão ainda sugerir pesquisas complementares mais específicas, como por exemplo no caso dos marcadores enquadra201
dos no traço 4-não se aplica. Com efeito, os traços 1, 2 e 3 referem-se aos marcadores produzidos pelo falante, em cujas frases ou turnos ocorrem esses marcadores; já em relação ao traço 4, o “não se aplica” se explica pelo fato de que o marcador é produzido por um interlocutor (que não o falante) no início, no interior ou no fim da frase ou do turno do falante. Por esse motivo, faremos, em relação a essas Variáveis B/C, observações complementares, atendendo às seguintes hipóteses: a – posição inter turnos bem delimitados do falante b – posição intra turno mas inter frases, do falante c – posição intra turno e intra frase, do falante (portanto, entre constituintes) d – posição após turno (completo ou interrompido) do falante corrente e antes do turno do ouvinte produtor do feed back tornado falante e – nenhuma das hipóteses anteriores. Em relação aos traços 2 ou 3, em se tratando de Inquéritos EF ou DID, embora normalmente analisemos como 2 (medial), porque, ou não havia propriamente turno (EF) ou os turnos eram por demais longos (DID), pode-se pensar em segmentações de turnos “virtuais”. De qualquer forma, contudo, sem a intervenção de parceiros, a análise e interpretações ficam prejudicadas. D – Sobreposição de vozes Esta variável considera a hipótese da ocorrência ou não de sobreposição de vozes entre as formas em questão e os demais segmentos textuais, fenômeno que certamente se constituirá numa tendência em relação a certas formas e certas subfunções. Traço 0 – não ocorrência de sobreposição Traço 1 – ocorrência de sobreposição. E – Coocorrência de pausa Esta variável visa a permitir observar a ocorrência de pausa antes e/ou depois, que parece ser um fenômeno bastante recorrente em relação a certas unidades em estudo, capaz de auxiliar na caracterização das funções discursivas, que tais unidades desempenham. 202
Numa segunda etapa talvez seja de interesse observar não só a coocorrência da pausa mas também sua duração. Traço 0 – sem coocorrência (inclui casos de marcador inicial ou final de turno, em relação aos quais a interpretação é de silêncio de transição e não propriamente de pausa, entendida esta como “suspensão motivada” de voz; inclui, em conseqüência, também casos de FB não iniciais de turno). Traço 1 – ocorrência só antes, no interior de turno. Traço 2 – ocorrência só depois, no interior de turno. Traço 3 – ocorrência antes e depois, no interior de turno. F – Coocorrência de outro marcador Traço 0 – sem coocorrência Traço 1 – ocorrência antes Traço 2 – ocorrência depois Traço 3 – ocorrência antes e depois Traço 4 – ocorrência em sobreposição O “outro marcador” pode ter sido produzido por quem produziu o primeiro, mas também pode ser de produção do parceiro, como no caso dos FB. A apuração das hipóteses sugeridas poderão permitir, numa pesquisa complementar, a verificação do tipo, funções e eventual correlação entre marcadores. Assim, se a forma sob análise for né ? e ocorrer uma forma uhn uhn em turno imediatamente posterior, é possível que haja alguma correlação de relevância condicional entre ambas. G – Natureza dos enunciados anterior (para os casos das funções 2, 3, 4) ou posterior (para os casos das funções 1 e 5) Traço 0 – ausência de enunciado escopado5 (por exemplo, casos de enunciados interrompidos) Traço 1 – declarativo objetivo Traço 2 – declarativo subjetivo Traço 3 – interrogativo Traço 4 – imperativo Traço 5 – optativo Traço 6 – emotivo 203
Esta variável sugere que os marcadores sob análise possam ter uma função correlacionada com a natureza dos enunciados a que eventualmente se refiram, ou escopam. Há algumas dificuldades na observação dessa variável: a) o caráter freqüentemente bidirecional dos marcadores, seja em relação ao texto seja em relação aos interlocutores. Em princípio, nos casos de marcadores como né?, sabe?, uhn uhn, o enunciado escopado é o anterior, porém no caso de mas, será o posterior ou o anterior e posterior; b) quando o marcador for medial de frase, caso em que, em princípio, consideramos o enunciado todo, no interior do qual ocorre o marcador; c) a hipótese, bastante plausível, de que o escopo do marcador seja uma palavra ou constituinte apenas e não um enunciado todo. Em todos esses casos – e em outros – a análise localizada dessa variável fará com que a questão seja rediscutida. Assim, no caso do traço 3, apuramos se se trata de (a) pergunta fechada ou (b) pergunta aberta. Uma vez definidas as novas variáveis, passamos a uma análise complementar das formas já levantadas na pesquisa fundamental anterior, dentro de novos critérios dos novos objetivos, no termos sucintamente estabelecidos na seqüência: 1 – como já foi frisado inicialmente, todas as formas a serem analisadas registram o traço 2 (“basicamente orientadoras”) na Variável 03, podendo provocar as combinações 0 – 2 ou 1 – 2 nas Variáveis 02 e 03. Ressalte-se então que serão objeto da presente pesquisa apenas marcadores classificados como “basicamente orientadores”, independentemente de serem, concomitantemente, “seqüenciadores tópicos”. Excluímos também na presente instância as formas digamos, digamos assim, vamos dizer, vamos dizer assim, embora registrem a combinatória 02. 2 – quanto às outras Variáveis (04, 07, 09) do núcleo-piloto, permanecem igualmente os traços 1, 1, 0 respectivamente. Feitas essas considerações, analisaremos, pois, as formas que apresentam os seguintes padrões dentro das Variáveis do “núcleo-piloto” da pesquisa anterior: Padrões a) b)
204
Variáveis e traços 01 – –
02 0 1
03 2 2
04 1 1
05 – –
06 – –
07 1 1
08 – –
09 0 0
10 – –
3 – além das variáveis do “núcleo-piloto”, foram recuperadas algumas variáveis e traços (Variáveis 05, 08, 10) considerados particularmente fortes e estáveis, registrados nas “matrizes básicas” apuradas na pesquisa anterior, conforme exposto abaixo: a) quanto à Variável 05 – “transparência semântica”, foram consideradas apenas as formas naturalmente vazias (como é inclusive o caso das formas não lexicais; traço 3 anterior) e as com perda semântica total ou parcial (traços 0 e 1), excluindo-se, portanto, as formas com traço 2 – “totalmente transparentes”, tanto quanto apurado no conjunto das “matrizes básicas”. Nessas condições, foram excluídas formas como eu pergunto a você, na sua opinião, tá claro isso? e vamos ajudando. b) quanto à Variável 08 – “demarcação prosódica”, a hipótese é analisar apenas as formas prosodicamente demarcadas (traço 1), como sugerido em todas as “matrizes básicas”, ainda que dentro de um critério de demarcação “virtual” do fenômeno, isto é, demarcação reconhecidamente possível, embora não esteja objetiva e claramente constatada ou realizada na fronteira sob observação. Com essa restrição ficam excluídas as formas eu quero saber e eu vou explicar a vocês. c) quanto à Variável 10 – “massa fônica”, serão analisadas as formas até 3 sílabas tônicas, (traço 1), como também apurado em todas as “matrizes básicas”. Essa orientação determina a exclusão de formas como como eu disse a vocês, como vocês estão vendo, eu já disse a você. Dessa forma, consideradas as Variáveis 02, 03, 04, 07 e 09 do “núcleopiloto” e recuperadas as citadas Variáveis 05, 08 e 10 apreciadas nas “matrizes básicas”, as formas a serem estudadas se enquadram em um dos seguintes padrões da listagem de marcadores apurada na pesquisa original (Anexo 2 daquela pesquisa): Padrões a) b)
Variáveis e traços 01 – –
02 0 1
03 2 2
04 1 1
05 0/1/3 0/1/3
06 – –
07 1 1
08 1 1
09 0 0
10 1 1
A todas essas 8 Variáveis se somam as 7 variáveis específicas desta pesquisa (A, B, C, D, E, F e G). Cada ocorrência, levando-se em conta a análise anterior, estará sendo analisada, portanto, em relação a 15 variáveis, acrescidas ainda de estudos complementares para as Variáveis B/C e G. 205
Dentro dessas condições e princípios, foram arroladas 345 ocorrências constantes do Anexo I, extraídas do Anexo 2 da pesquisa original.6
2.1 Análise particularizada das formas Nesta parte foram seguidos os seguintes passos: 1) Análise preliminar individualizada de todas as ocorrências com amostragens nos Quadros 1 a 8, ao final do texto. 2) Relação das funções e das configurações analíticas por formas (com respectivas quantidades e porcentagens). (Quadros 1-A a 7-A, ao final do texto) 3) Estudo particularizado das formas segundo as análises e levantamentos, principalmente em relação às ocorrências mais freqüentes e às variáveis que apresentam grande regularidade, freqüência e/ou motivação especial nos seus traços.
2.1.1 Formas ah, ahn, ahn ahn, hem?, uhn, uhn uhn, uhn? a) variantes gráficas e fonéticas Em relação a ah, ahn e ahn ahn, uma mesma forma fonética, independentemente das funções discursivas, tem sido transcrita por mais de uma forma gráfica; assim ah e há; ahn, hã e ã. Por outro lado, nem sempre fica clara a percepção acústica dessas produções. Por isso e ainda (a) porque tais diferenças gráficas e/ou fonéticas normalmente não afetam a análise e (b) para economia da própria análise, utilizamos as formas ah, (para ah ou há); ahn (para ahn, hã, ã); hem, quando com pouca discriminação, submentendo-as a uma análise conjunta. Uma vez ou outra poderá ser feita referência especial. Analisamos 51 ocorrências (contando a de nº 36-a, não incluída na pesquisa anterior) conforme exemplificação no Quadro 1, ao final do texto. b) funções As 51 formas distribuem-se em 5 funções, conforme se demonstra cabalmente no Quadro 1-A, ao final do texto. Traço 2 – Fático de natureza ou entonação interrogativa, produzido após enunciado declarativo Na realidade, além da ocorrência nº 35 (da linha 253) – única listada na pesquisa base – deve-se considerar outra, antes e muito próxima, no mesmo turno. Observe-se o contexto todo, onde ocorrem as duas formas: 206
L1
(...) agora num ambiente fora da ... da sala de aula ... que é que nós (precisamos) de ter? ... um ambiente bem gostoso bem::... gostoso pro doente pro:: doente ahn? ((risadas))
Doc ( ) ((risadas))7 L1
pro estudante... ter o seu recreio ter a sua hora de descanso... ahn...prática de esporte (..) ([35] 8 DID SA-231 121 l. 250-253)
Ambas as formas ahn? parecem exercer aqui uma função de Busca de Aprovação Discursiva (BAD), semelhante ao né? (v. adiante), pois são subseqüentes a enunciados declarativos e não a enunciados interrogativos. (v. função 3 abaixo). Embora apareça na 1ª linha uma pergunta [que é que nós (precisamos) de ter?], na realidade ela é apenas uma pergunta retórica, pois o próprio L1 responde: um ambiente gostoso bem::... gostoso pro doente por:: doente; pro estudante... ter o seu recreio ter a sua hora de descanso... Os marcadores ahn escopam respostas, portanto, declarações. Traço 3 – Fático de natureza e entonação interrogativa, produzido após enunciado interrogativo As formas ahn? (nº 36) e uhn? (nº 330) (ambas do DID/SA-231) ocorreram após perguntas abertas entonacionalmente formais (enunciado interrogativo). Em certas situações, parece tratar-se de pergunta apenas retórica. Doc (...) qual é o tipo de:: de móveis que nós vamos encontrar na biblioteca ahn? (...) ([36] DID SA-231/121 l. 302) Doc (...) vamos dizer... de que se compõe a universidade... administrativamente ela se estrutura como uhn? L1
aí você me apertou porque... ([330] DID SA-231/121
l. 167)
Na verdade, o ahn? e o uhn? sinalizam um reforço à pergunta anterior. Na ocorrência 36a registra-se, com a mesma função, a forma hem?, que nos parece ser a forma mais corrente, com essa função. Entre a função 2 e 3 o traço caracterizador e diferenciador é o fato de que na 2 o marcador ocorre após enunciado declarativo e na 3, após enuncia207
do interrogativo (Variável G, traços 1 e 3), mas nem sempre fica clara a oposição. Traço 4 – feed-back Como se observa, é alta a freqüência das formas sob análise como feed back (34 = 66,67%), isto é, como partículas retroalimentadoras, como héteromonitoramentos, em que o ouvinte demonstra estar acompanhando e entendendo as colocações do falante. Como veremos ainda, há muitas outras formas, lexicais ou não, que também desempenham esta função. Quanto às Variáveis B/C, a observação complementar permite quantificar as seguintes situações: a – posição inter turnos bem delimitados, do falante [25,27, 317, 319, 320, 324, 327]
7
b – posição intra turno mas inter frases, do falante [15, 19, 20, 21, 33, 316, 323, 326, 328]
9
c – posição intra turno e intra frase, do falante (portanto entre constitutintes) [1, 16, 17, 18, 26, 30, 31, 32, 34, 320] d – posição após turno (completo ou interrompido) do falante corrente e antes do turno do ouvinte produtor do FB tornado falante [29, 318, 321, 322, 325, 329] e – nenhuma das hipóteses anteriores [22, 23]
10
6 2
Quanto à Variável D – Sobreposição de vozes, esta registra uma porcentagem relativamente grande de formas sobrepostas (24%, ou 8 em 34), fenômeno bastante natural, de vez que o marcador, destinado a apenas monitorar o falante – e não interferir – vai sendo produzido bastante mecanicamente nas proximidades dos limites dos turnos ou das frases, ou ainda intra frase do falante. Quanto à distribuição de ahn, ahn ahn e uhn, uhn uhn, registra-se uma elevada porcentagem para o uso de ahn ahn e uhn uhn (76% ou 26 em 34) em relação ao ahn e uhn. Essa elevada porcentagem sugere para o futuro um aprofundamento relacionado à eventual responsabilidade da massa sonora em prol da função fática dos marcadores. Quanto à Variável F – Coocorrência de outro(s) marcador(es), o levantamento revela que há 17 marcadores coocorrentes nas 51 formas analisadas. 208
Desses 17, 13 referem-se aos FB, o que pode não representar grande destaque, uma vez que os FB já representavam 66,67% das formas analisadas. Mas, como em termos absolutos há um número considerável de FB, uma análise em relação a essa coocorrência revela observações interessantes: a) há 6 marcadores em posição anterior às formas sob análise, a saber sabe? (2 vezes), não é? e tudo mais, e 5 em posição posterior, isto é:, não?, (2 vezes), né (2 vezes), bom, sei e não é verdade? b) dos 13 marcadores coocorrentes, 8 [sabe? (2 vezes), não é? (2 vezes), né? (2 vezes) não? e não é verdade?] desempenham funções iguais ou semelhantes entre si, sendo, por ora, denominados BAD (Busca de Aprovação Discursiva). Isto faz supor uma estreita relação dos FB com os BAD ou com os enunciados finalizados por BAD; c) dos 8 BAD, 5 ocorrem antes do FB e 3, depois, o que significa, no segundo caso, que não é o BAD que provoca necessariamente o FB, mas sim o “enunciado” finalizado pelo BAD ou ainda outro fator a ser apurado. Quanto à Variável G (natureza do enunciado escopado), observa-se o seguinte quadro: Traços Nº de ocorrências
Qtd.
0
22, 23
2
1
1, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 24, 25, 26, 27, 30, 31, 32, 33, 34, 316, 317, 318, 319, 320, 321, 322,
2
323, 324, 325, 326, 327, 328, 329
30
15, 19
2
As ocorrências classificadas com o traço 0 devem na verdade ser entendidas como traço 1, pois só aparentemente essas formas não estão escopando algum enunciado. Com efeito, observe-se: L1
quando sai... aquela folia assim de um correr atrás dela então ela... se cala um pouco |
n. 22 L2 L1
ahn
mas
n. 23 L2 ahn L1
não se dobra
[22 e 23]
209
A ocorrência n. 22, cuja forma se realiza depois do “então ela... “, na verdade refere-se ao enunciado “quando sai... aquela folia assim de um correr atrás dela” e não ao início do novo enunciado temporariamente suspenso por pausa: “então ela...”. O mesmo acontece na ocorrência nº 23 onde aparentemente o ahn se posiciona após o “mas”, mas na realidade refere-se a “se cala um pouco” imediatamente anterior. Feita a correção e para ficar apenas na análise dos FB – cujo número de ocorrência é mais significativo – verifica-se que eles escoparam basicamente enunciados declarativos (de caráter objetivo, 88% ). Tal constatação, porém, por ora, diz pouco, porque os enunciados declarativos representam 71% de todos os enunciados. Traço 5 – Início de R ou comentário As formas em questão ocorrem, como é natural, normalmente em início de turno e de frase oral. (v. Variáveis B e C), quando o falante se propõe a responder alguma pergunta, principalmente de conteúdo problemático. Outras vezes não se trata de resposta a perguntas, mas de réplicas ou comentários a comentários anteriores. Em ambos os casos, podem revelar também um indício de hesitação ou de dúvida, ganhando tempo o falante para iniciar as respostas. Trata-se, pois, às vezes de uma função retardadora. Dizer que eles iniciam respostas ou comentários significa admitir que eles contribuem para a produção desse tipo de ato, sinalizando-o tipicamente. Esta função mescla o caráter de “subjetividade”, ao menos parcial, no sentido de auto-envolvimento (mistura de hesitação, surpresa, preocupação), com intersubjetividade plena, na medida em que se trata de início de resposta ou comentário de um interlocutor a outro interlocutor anterior; às vezes, inclusive, em correlação com um marcador de Busca de Aprovação Discursiva, como acontece no ocorrência 6 abaixo, onde L2, concordando com L1, reforça essa concordância auto-exemplificando-se: L1
(...) eu não conheço um professor que ensine em apenas um lugar, já começa por aí certo?
L2
Ah eu ensino em dois lugares(...) ([6] D2/RJ 355/232
l. 12)
A análise com base na Variável G – natureza do enunciado escopado, permite considerar dados interessantes. Das 11 ocorrências, 5 iniciam R a per210
guntas (3, 5, 8, 9 e 15), e 6 (6, 10, 11, 12, 14 e 28) desencadeiam comentários sobre comentários. Admitindo que P normalmente põem em risco à face dos interlocutores e trazem tensão ao perguntado (cf. exemplo típico na ocorrência 3)9, sobretudo nas P abertas (que são a maioria: 3, 8, 9 e 15), a produção desses marcadores, nesses casos, parece permitir ao destinatário uma tomada de ar para oxigenação da R. Daí, a natureza exclamativa do marcador. Quanto aos 6 marcadores que iniciam comentários, há que se notar que 5 deles introduzem comentários de concordância com os comentários do falante anterior; apenas um encabeça discordância. Nesses casos, o ah favorece uma estratégia de alinhamento dos parceiros, de caráter, antes de tudo, fático. Note-se, inclusive, a recuperação sistemática, nos comentários do falante seguinte, de vocábulos referenciais do falante anterior. Entre as formas, ah, ahn, ahn ahn, o levantamento revela, para esta função de iniciar R ou comentário, o uso generalizado da forma ah. Freqüentemente formas como ah, ahn (também éh, eh) preenchem pausas de diversa natureza. Com essa função, tais formas são localizadas no interior de frases e turnos, às vezes produzidas com alongamento e numa entonação hesitante.
2.1.2 Formas certo, certo?, claro, exato Incluímos nesta parte as formas certo, certo?, claro e exato, porque elas mantêm características comuns significativas, entre as quais: a) possuem todas como fonte a classe gramatical do adjetivo (traço 2 da Variável 12 da pesquisa anterior); b) distribuem-se apenas entre as funções 2 e 4, previstas na Variável A. As análises particularizadas de cada marcador encontram-se exemplificadas no Quadro 2, ao final do texto. O agrupamento desses marcadores nas 2 funções referidas e nas configurações analíticas idênticas, considerados apenas os números das ocorrências, estão demonstrados no Quadro 2 A, ao final do texto. Ao todo são 20 ocorrências ( nºs 37 a 50, 99) que se distribuem apenas entre as funções 2 e 4: 2 – Fático de natureza ou entonação interrogativa, produzido após enunciado declarativo. 211
Nesta função o corpus revelou apenas a forma certo?, mas também as formas claro e exato (para falar só das formas contempladas na presente pesquisa) podem desempenhar esse papel. Basta testar, nas ocorrências com certo? analisadas, a comutação deste por claro? ou exato? Entretanto a ocorrência de 100% de certo? em oposição a 0% de claro ou exato não deixa dúvida quanto a alguma motivação especial, possivelmente em relação às propriedades semânticas do primeiro em relação aos outros dois. 4 – feed back Nesta função, a observação comparativa entre certo, claro e exato revela a freqüência certo: 7 vezes (= 53,84%), claro: 5 vezes (= 38,46%) e exato: 1 vez (= 7,69%). Se considerarmos a observação de Margarida Basilio (1992:86) de que certo e claro, enquanto marcadores de assentimento (aqui enquadrados sob a denominação de feed back), atribuem lógica transparente em comparação à atribuição de correção, exercida por exato, e sem entabularmos considerações de mérito, verificamos que FB de atribuição de lógica transparente são muitas vezes mais freqüentes do que os de atribuição de correção. Essa freqüência, que ratifica a observada na função 2 acima, grosso modo, foi constatada igualmente por Margarida Basílio nos inquéritos D2 SP 360 e D2 SP 62 completos e sugere estudos específicos da semântica dos próprios enunciados escopados e dos respectivos inquéritos. Mas não é tarefa para o presente trabalho. A observação complementar sobre a posição especial destes FB dentro das Variáveis B/C acusa as seguintes freqüências: a – posição inter turnos bem delimitados, do falante
0
b – posição intra turno mas inter frases, do falante [38, 39, 52, 99]
4
c – posição intra turno e intra frase, do falante (portanto entre constituintes) [41, 42]
2
d – posição após turno (completo ou interrompido), do falante corrente e antes do tunro do ouvinte produtor do FB tornado falante [37, 40, 55, 43, 51, 54] e – nenhuma das hipóteses anteriores [53]
6 1
Chamam a atenção, se comparadas com o quadro igual referente aos ahn, ahn ahn, as hipóteses (b) e (d) – sobretudo (d) – que revelam comportamentos bem diversos entre os dois conjuntos de marcadores. Como esse qua212
dro será repetido em relação a outros marcadores, faremos uma análise mais profunda oportunamente.
2.1.3 Formas é, é claro, é verdade Como fizemos em 2.3.2, aqui também reunimos três formas para uma análise conjunta. Nos três marcadores ocorre a forma do verbo ser (é), e praticamente todas as formas desempenham uma única e mesma função, a função de feed back. Exemplos de análises da forma é e as únicas duas ocorrências de é claro e é verdade figuram no Quadro 3, ao final do texto, e a reunião das configurações analíticas idênticas dessas formas, considerados apenas os números das ocorrências, consta do Quadro 3-A, também ao final do texto. Foram analisadas 32 ocorrências (nºs 56 a 89). Apenas uma (é? – nº 89) desempenha a função 3 e será estudada adiante, juntamente com o marcador né? As demais cumprem a função 4. 4 – feed back As 31 formas com esta função são representadas por 29 ocorrências com é (93,54%), 1 com é claro (3,23%) e 1 com é verdade (3,23%). A altíssima freqüência de é parece explicar-se pela sua simplicidade estrutural perante as outras duas, as quais, concorrendo com a primeira, não parecem, porém, ter nenhum matiz interativo especial em relação a ela. Cremos que é é uma forma evoluída ora de uma (é claro), ora de outra (é verdade) expressão de estrutura oracional mais explícita do que o é. A redução formal revela mais uma vez, ao menos teoricamente, o continuum dos fenômenos discursivos, aqui também, mais uma vez, em relação a um esvaziamento semântico progressivo. Em termos discursivos, porém, é muito difícil a tentativa de distinguir o uso das 3 formas entre si. Os feed back em geral (não apenas referentes às formas sob análise no momento) são usados normalmente em duas situações: a) solitariamente, retroalimentando o falante e mantendo-o no seu papel conversacional; b) no início do turno do ouvinte, possibilitando a este assumir o papel de falante: a)
L1
coitado, cinco anos e já... colocado assim (...)
L2
é ([86] D2/SP 360/142 1.355)
213
b)
Doc reformaram também os departamentos (nem) aumentaram ou reduziram de forma que Inf
é porque eles fizeram exatamente isso (...) ([56] DID/SA 231/121 1.179)
É significativa a freqüência do caso (b) sobre (a) (2410 = 77,41% x 711 = 22,58%), situação bem ao contrário do marcador ahn, ahn ahn na mesma função (1 = 5,00% x 19 = 95,00%). Ao final serão analisadas, nesse sentido, todas as formas na função de FB.
2.1.4 Formas entende?, entendeu?, sabe?, tá?, viu? As formas entende?, entendeu?, sabe?, tá? e viu? serão analisadas em conjunto, dadas as características comuns que possuem: fonte gramatical verbal e função única. Ao todo são 53 ocorrências, a saber: entende? 2 (nºs 90, 91), entendeu? 7 (nºs 92 a 98), sabe? 24 (nºs 274 a 297), tá? 11 (nºs 305 a 315) e viu? 9 (nºs 337 a 345). As análises particularizadas de cada marcador estão exemplificadas no Quadro 4, ao final do texto, e todas as configurações analíticas, considerados apenas ou números das ocorrências, são reproduzidas nos Quadro 4-A, também ao final do texto. Todas as 53 formas desempenham a mesma função 2 (fáticos de natureza interrogativa) e têm como fonte gramatical a classe verbal (traço 4 da Variável 12 da pesquisa original). Três são primitivamente vocábulos lexicais (entende? / entendeu?, sabe? e viu?), um é relacional (tá). O tá?, contendo apenas significação interna, sugere tratar-se de oração elíptica, cujo percurso já foi desenhado na pesquisa original por meio da seguinte seqüência: Está claro isso até aqui? – Está claro até aqui? – Está claro? – Claro? / Tá?. Com efeito, na pesquisa anterior, foi analisada no corpus Está claro até aqui?, como unidade limítrofe, e, nesta pesquisa, já analisamos claro? (2.3.2.) e a expressão, paralela a está claro?, isto é, é claro. (2.3.3.) Tá? pode ser considerada, pois, redução da Está claro isso?, o que explica tratar-se de vocábulo apenas relacional. Outra observação interessante é que a redução fonética de está para tá não deve ter ocorrido da forma solitária está mas sim de está claro? para tá claro?. O uso proclítico do está justifica a aférese. Com efeito, não se encontra no corpus nenhuma ocorrência com a forma está isoladamente na função de marcador. 214
Nessa linha de considerações, cabe observar que uma característica dos marcadores é não estarem eles sujeitos à flexão número-gênero-modotemporal, como já observou, entre outros, Margarida Basílio (p.86). No caso dos marcadores aqui sob estudo, cabe constatar nesse sentido que: a) entender apresenta as variantes entende? e entendeu? com uso bem mais freqüente de entendeu? sobre entende? (77,77%): b) sabe? e tá? ocorrem só na forma do presente do indicativo. Fora do corpus, observa-se um uso moderno de sabia?, principalmente na linguagem jovem, mas parece que já acusa declínio; c) viu?, ao contrário, ocorre somente no pretérito perfeito12. Embora não objetivemos, nesta pesquisa, fazer análises quanto ao uso dos marcadores por regiões, inclusive porque entendemos que o corpus seja muito restrito para tal finalidade, os presentes marcadores sugerem observações comparativas que por si sós parecem adiantar hipóteses a serem perseguidas em trabalhos mais exaustivos. Para tanto, elaboramos a seguinte tabela: Marcadores
Recife
Salvador Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre Totais
a) entende?
–
–
2
–
–
2
b) entendeu?
2
5
–
–
–
7
c) sabe?
–
2
15
5
2
24
d) tá?
–
–
11
–
–
11
e) viu?
2
2
–
5
–
9
Totais
4
9
28
10
2
53
Pode-se facilmente constatar que: – nenhum dos marcadores tem uso generalizado em todas as regiões; – todas as regiões empregam algum tipo de marcador; – o marcador de maior distribuição é sabe? (foi observado em 4 das 5 regiões). Não só é o marcador de maior freqüência em termos absolutos, como também é o de maior concentração: 15 vezes no Rio de Janeiro (62,50%), sendo que 14 vezes por um único falante. – tá? só ocorre no Rio de Janeiro e ainda assim de uso de um único falante. 215
2.1.5 Forma mas Este marcador é um dos mais férteis em termos de matizes funcionais e deverá no futuro merecer uma análise mais ampla e profunda. Aqui vamos nos ater, dentro dos propósitos e possibilidades do presente trabalho, a aspectos mais salientemente interacionais. Mas temos que reconhecer a dificuldade dessa limitação. Já na pesquisa anterior, à semelhança de ah, o par das Variáveis 02 (articulação de segmentos do discurso) e 03 (Orientação da interação) acusou as combinações de traços: 1-2, 1-113, jamais 0-2, o que significa que, mesmo na combinação 1-2, o mas não deixa de funcionar como “seqüenciador tópico” (traço 1), merecendo, portanto, uma análise especial nesse sentido. Ao combinar seu traço de “seqüenciador” com o de “basicamente orientador” (traço 2 da Variável 03), ficam desde já ressaltados, não só a dupla função mas também: a) seu caráter bidirecional, retrospectivo e prospectivo; b) seu caráter de operador argumentativo de diversos níveis: reforço de alinhamento / desalinhamento direto / indireto, baseado em enunciado explícito ou em enunciado / contexto pressupostos; c) seu caráter de forte orientador interacional na administração dos turnos. A propriedade de operador argumentativo, a par da implicação com a gestão do tópico, não deixa de implicar também aspectos interacionais, na medida em que representam propostas de argumentos ou de (re)direcionamentos argumentativos (num sentido amplo), ou visam a levar o interlocutor a uma certa linha de idéias ou delas a afastá-lo, ou, ainda, no mínimo, apontam para a necessidade de considerar sua possibilidade de ligação diretamente com a enunciação. Nesta pesquisa, como ficou dito, são 19 ocorrências que apresentaram o traço 2 (“basicamente orientador”) na Variável 03 (“Orientação da interação”) da pesquisa anterior e o traço 5 na Variável A desta pesquisa: início de repostas formais ou de comentários. As análises individualizadas das 19 ocorrências encontram-se por amostragem no Quadro 5, ao final do texto, e todas as configurações analíticas, porém apenas pelos números de ocorrências, estão no Quadro 5-A, também ao final do texto. Pelos motivos recém-expostos, vamos nos limitar a apenas duas reflexões, de natureza mais tipicamente interacional: 216
a) como mecanismo estratégico (ainda que frustado no caso) para apoiar a tomada de turno. Tomemos a seqüência abaixo L1
(...) você tá criando uma cul uma criança inculta pra quando ela crescer e ficar velha você educar no mobral
L2
mas CLAro... mas CLAro... lógico... você também
L1
|
L2
mas claro mesmo porque se você tem
não pode então é im-por-tan-tís-si-mo... cultivar a plantinha desde pequena |
L1
torná-la culta enquanto ela é jovem
baratear o lucro L2
|
se você tem filhos ... ô Ed. se você tem filhos cultos você tem a cultura dentro de casa... (...) ([115, 116, 117] D2/RE 005/212 1. 396-406)
Trata-se de momento em que L1 expõe uma argumentação problemática, provocativa e até de certa maneira agressiva sobre a qual L2 procura se manifestar mas não consegue tomar o turno disciplinadamente, apesar de tentar de maneira firme e estratégica por duas vezes com mas amparados ainda por CLAro (também 2 vezes e intensificados na sílaba inicial) e com lógico. Em seguida, L2 tenta mais uma vez e com a mesma estratégia (mas claro), perdendo, entretanto, novamente o turno, na base da sobreposição de voz de L1. Finalmente, no derradeiro turno da transcrição, utilizando estratégia diferente (repetição), consegue completar seu turno e sua contra-argumentação. b) como engate para digressão opinativa, e até de natureza emotiva. Observemos as seguintes seqüências: 1)
Inf (...) nós fomos a um restaurante há::... numa região de mas é uma região muito típica italiana (...) ([106] DID/RJ 328/131 1. 656-657)
2)
Inf (...) éh:: um grupo assim:: da minha idade (...) são é uma assistente social MAS ela é formidável sabe? ([107] DID/SP 234/241 1. 8-10)
217
3)
Inf
(...) não tinha nem onde sentar viu? eu disse “meus Deus” foi domingo à tarde MAS uma molecada... sei lá eu (...) ([108] DID/SP 234/241 1. 137-139)
Nas três ocorrências, os falantes introduzem, por meio do mas, uma reorientação discursiva, dentro do seu próprio turno, mas de maneira a impregnar, às vezes explicitamente, os novos segmentos reorientados com um colorido emotivo. Com efeito, em (1), o falante desvia o procedimento discursivo narrativo para um comentário descritivo com um matiz subjetivo (muito típica); em 2 e 3, os falantes passam de comentários descritivos ou narrativos para comentários emotivos, sinalizados não só pelo próprio conteúdo como também pela entonação expressiva sobre o MAS.
2.1.6 Formas não é verdade?, não é? / num é?, né? As formas em questão serão objeto de estudo conjunto porque: a) 98,48% desempenham a mesma função básica (função 2); b) têm a mesma estrutura de origem (oração com verbo ser); c) contêm a mesma forma negativa (com não) e d) podem merecer em conjunto uma análise comparativa com as chamadas “tag questions”. Todas as formas, na verdade, parecem provir da matriz isso não é verdade? e ter feito o seguinte percurso: Isso não é verdade? – Não é verdade ?– Não é? / Num é? – Né?. Pode-se levantar inclusive a hipótese se o é?, a ser comentado mais adiante, não seria o subseqüente e derradeiro passo. Trata-se do grupo mais numeroso de marcadores, se bem que com desvio acentuado para o marcador né? que, com 102 ocorrências representa 75,00% de todas as 136 ocorrências14 desses marcadores em conjunto. Os menos usados são não é verdade? (uma ocorrência, nº 120) e não? (4 ocorrências, nº 146, 147, 148 e 149). Por estar incluído o marcador né? (que não deixa de ser apenas uma variante dos demais), com mais de uma centena de ocorrência, parece de interesse apresentar a tabela abaixo, onde se constata a distribuição de uso desses marcadores por regiões: 218
Marcadores
Recife
Salvador Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre Totais
não?
–
–
–
4
–
4
não é? / num é?
11
1
7
7
3
29
né?
3
36
20
26
17
102
não é verdade?
–
–
–
1
–
1
Totais
14
37
27
38
20
136
Sem entrar em considerações mais profundas, observa-se facilmente o uso generalizado e muito freqüente do né? em todas as regiões pesquisadas, nesse uso incorporando-se também o não é? / num é? como suas mais diretas variantes. O uso menos freqüente é do não? (muito elíptico oracionalmente) e do não é verdade? (muito elaborado e muito longo para automatismos). É interessante observar que o né? não só ocorre em todas as regiões, como também ocorre em praticamente todos os inquéritos do corpus mínimo e mesmo na boca praticamente de todos os informantes, sendo de destacar ainda a grande freqüência de uso pelo informante do DID/SA-231 (24 vezes em 102 = 23,52%), pelo informante do DID/SP-234 (17 vezes em 102 = 16,66%) e pelo informante do DID/POA-045 (16 vezes em 102 = 15,68%). Se considerarmos que foram tomados para análise cerca de 10 minutos de gravação por inquérito, o falante de Salvador produziu em média 2,4 né? por minuto, o que pode sugerir um uso idiossincrático. As análises das ocorrências apresentam exemplificação por amostragem no Quadro 6, ao final do texto, e a relação de todas as configurações, desconsiderados os contextos, figuram no Quadro 6-A, também ao final do texto. a) Variantes gráficas e fonéticas Como aconteceu em 2.3.1. com as formas ah, ahn, aqui também nem sempre ficam perceptíveis acusticamente as formas não é? e num é?, sendo em conseqüência às vezes transcritas uma pela outra. Parece que em Recife há uma ligeira preferência de uso por num é?, mas os dados são muito reduzidos e a percepção auditiva não foi necessariamente acurada para conclusões nesse sentido. Por essas razões foram as duas formas, ao final, incluídas num só grupo. O próprio né? às vezes se confunde acusticamente com o num é?. Observamos esporadicamente os mesmos trechos transcritos por transcritores diferentes, ou até pelo mesmo transcritor em momentos diferentes, onde aparecem as formas gráficas não é?, num é? ou né?. Em termos de uso, funções e análises, essas possíveis confusões são totalmente irrelevantes. 219
b) funções A freqüência tão desproporcional desses marcadores aparentemente não se explica por alguma motivação discursiva especial. Uma das razões talvez seja porque o né? represente a forma semântica e foneticamente mais esvaziada de todas. Em termos funcionais, grosso modo, 98,48% delas se equivalem, podendo ser perfeita e completamente permutáveis entre si. Só um estudo mais profundo das ocorrências dentro dos seus contextos, em termos de correlação com os enunciados e tipos de fala escopados, num sentido amplo (em relação inclusive a propriedades de ordem argumentativa e não apenas em termos da Variável G já investigada) poderá talvez determinar a observação de nuances funcionais ou alguma particulariedade secundária. Os marcadores sob análise parecem equivaler às chamadas “tag questions”, como já observamos em trabalho específico (Urbano, 1994). Para considerações ligeiras nessa linha, começamos arrolando alguns exemplos de apoio: 1. [120] L2 (...) lá em casa é tudo em função de horário... não é verdade? 2. [138] L2 bom porque fome é mundial não é? 3. [135] Inf (...) as estradas melhores são de tráfego mais... pesado não é? 4. [137] L1 (...) estamos falando de professores não é? 5. [140] Inf (...) drama já basta a vida ((risos)) não é? 6. [146] Doc eu acho que foi Casa de Boneca não? 7. [222] L2 (...) então deu quarenta e, quarenta e poucos por cento né? 8. [232] Inf (...) porque em qualquer lugar a gente pode fazer uma escola né? 9. [242] Inf (...) o pessoal deixou de ir a teatro né?
Se admitirmos, com Mira Mateus et al. (1983:372), que “Uma interrogativa ‘tag’ (...) é constituída pelo V. da frase declarativa que a precede e uma partícula de negação” ou que “sempre que a seguir a uma declarativa se encontre: ( V da frase declarativa) ..................................., não (é
(verdade (assim
220
)
?
ou seja: a) frase declarativa + não + mesmo v da declarativa + ? b) frase declarativa + não + é + verdade + ? c) frase declarativa + não + é + assim? d) frase declarativa + não + é + ? e) frase declarativa + não + ? Podemos assumir que em alguns dos exemplos arrolados estamos perante interrogativas, tags nos termos das autoras, desde que se entenda por V qualquer verbo, inclusive o verbo ser, que normalmente compõe a própria expressão interrogativa. Comecemos reproduzindo os exemplos de Mira Mateus et al. para os diversos casos do seu esquema: a) Vocês lembram-se, não se lembram? b) Vocês lembram-se, não é verdade? c) Vocês lembram-se, não é assim? d) Vocês lembram-se, não é? e) Vocês lembram-se, não? Parecem que se enquadram nas descrições das autoras os nossos exemplos 2 (= letra a), 1 (= letra b), 5 (= letra d). Não constatamos exemplos exatamente iguais às letras (c) e (e). O exemplo 2 corresponde à letra (a) d Mira Mateus et al, com o pormenor de que o verbo da declarativa, repetido na pergunta, é o verbo ser. Embora as autoras não condicionem expressamente que o tempo verbal da interrogativa seja o mesmo da declarativa, parece, todavia, que essa idéia está contida na sua exemplificação. Já Quirk e Greenbaum (1973:194) e Quirk et al (1975)15 expressamente dizem que o tempo da interrogativa depende ou é determinado pelo verbo da declarativa, o que significa que os nossos exemplos 6, 7 e 9 não satisfaçam perfeitamente o esquema. Considerada a diferença estrutural do inglês (que omite o verbo lexical, mas expressa sistematicamente o pronome), para termos uma idéia da questão, o enunciado 9 poderia, por exemplo, contemplar as seguintes hipóteses: a) o pessoal deixa de ir a teatro não é? b) o pessoal deixou de ir a teatro não foi? a) o pessoal deixou de ir a teatro não deixou? Por outro lado Quirk et al. esclarecem que o pronome – e portanto o verbo também – repete ou volta-se para o sujeito da asserção, isto é, o pronome 221
– no caso do português, o verbo – da interrogativa deve estar na mesma pessoa e número da pessoa e número do verbo da declarativa, o que, como se observa nos exemplos 3, 4, 6, 7 e 9 não acontece. Nos nossos não é verdade?, não é / num é? e né?, há uma completa autonomia desses marcadores em relação aos verbos das declarativas, o que mais claramente tipifica esses marcadores como tais. As ocorrências abaixo foram classificadas como função 3, isto é, fáticos de natureza e entonação interrogativa após enunciados também interrogativos: Doc (...) como é que você descreveria uma:: uma... [229]
um estabelecimento de ensino né? ... agora vamos entrar (...) o que é que a gente tem numa escola
[230]
né? das coisas menores (...)
Com efeito, os marcadores posicionam-se no final de perguntas abertas introduzidas pelos pronomes interrogativos característicos, enfatizados por é que (como é que, o que é que). Como veremos na retomada final – quando comentaremos mais demoradamente a função 3, esta função, isto é, marcador após pergunta, não é muito freqüente. Na situação semelhante à sob comentário, foi registrada também a forma é? na ocorrência abaixo: [89]
L2 (...) se puder acabo pedindo transferência pra Universidade Federal do Paraná... L1 (Vo)cê gostou assim é?
onde a pergunta “Você gostou assim”, por ser fechada, não fica muito bem caracterizada. Parece um misto de pergunta e comentário subjetivo.
2.1.7 Formas olha/olhe, vamos ver, veja, vem cá Reunimos mais uma vez um grupo de formas que facilitam um estudo conjunto mais consistente, favorecido pelas suas propriedades comuns: a) todas formas são de origem verbal; b) todas são de natureza imperativa; c) 95,00% são classificadas na função 1. 222
Ao todo são 20 formas, a saber: olhe / olha: 13, vamos ver: 2, veja: 1 e vem cá: 3. Marcadores
Recife
Salvador Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre Totais
olhe/olha
5
–
–
5
4
14
vamos ver
–
–
–
–
2
2
veja
1
–
–
–
–
1
vem cá
3
–
–
–
–
3
Totais
9
–
–
5
6
20
As análises individualizadas por marcador são exemplificadas por amostragem no Quadro 7, ao final do texto, e a relação de todas as configurações analíticas apenas pelos nºs de ocorrências compõe o Quadro 7-A, também ao final do texto. A distribuição por regiões permite levantar a seguinte tabela: As observações – embora de caráter precário (por causa do número reduzido de ocorrências pesquisadas) mas importantes como sugestão de pesquisas mais amplas e profundas – chamam a atenção ao menos para dois pontos: a) a concentração desses marcadores nos inquéritos de Recife (9 ocorrências; 45%) distribuídos pelos 3 tipos de inquéritos; b) o uso por um único falante (L1, do Inq. D2/005) de 5 deles (55,55%): 1 olhe, 1 veja e 3 vem cá. O marcador vem cá e o marcador veja são privativos desse falante. Rastreando de propósito o inquérito todo à busca de sanção, observamos que foram produzidos mais 2 vem cá (1. 591 e 852) e 1 veja (1. 526) e os 3 o foram pelo mesmo L1. Aliás, entre os locutores, L1 foi quem produziu desproporcionalmente o maior número de marcadores “basicamente interacionais”. Vê-se pela amostragem abaixo que ele produziu 84,31% dos marcadores contra apenas 15,59% de L2: né?
não é?
viu?
entendeu?
compreende?
certo?
olhe
olha
veja
vem cá
L1
7
1
3
1
12
1
4
3
2
5
L2
1
1
2
2
–
–
1
1
–
–
223
escute
claro
exato
Totais
%
L1
1
2
1
43
84,31
L2
–
–
–
8
15,69
Total
51
Mesmo com essa quantidade, aparentemente muito grande, de marcadores, afigura-se-nos reduzido seu volume para um D2 tão dinâmico e interativo quanto esse inquérito, o que, ao menos numa apreciação ligeira, faz crer que haja muitos outros tipos de estratégias de interação além dos marcadores. Uma pesquisa dirigida nesse sentido seria por certo bastante proveitosa. Por ora, reproduzimos um trecho da transcrição do citado inquérito: L2
mas por quê... por que você não leva a cultura ao povo primeiro?
L1
não porque:: eu acho que ( ) |
porque se você não tiver outra
L2
opção não tiver Chacrinha não tiver Flávio Cavalcanti |
L1 L2
não tiver Sílvio Santos o povo |
L1 L2
eu continuo achando
o povo vai ligar pra tv universitária |
L1 L2
eu eu continuo achando
não eu continuo achando viu?
pra tom Jobim pra Chico Buarque Holanda Caetano
L1
|
ora se vai |
não veja eu continuo achando
viu? E. eu
continuo achando que o Brasil só tem três problemas graves: educação educação e educação (...) (D2/RE
005
1. 307-321)
Em 15 linhas os dois parceiros se empenham em negociar uma simples exposição argumentativa, que em síntese é a seguinte:
224
L1
se o povo não tiver opção, ligará para tv universitária
L2
o Brasil só tem uma solução: educação
Para tanto, os interlocutores tentaram produzir 5 turnos cada um, quase sempre em sobreposição de vozes, sendo que L1 foi quem mais lutou pela tomada definitiva do turno, tendo tentado nada menos que 6 vezes, sempre com eu acho que ou variantes: 1. 309: “eu acho que”, 1. 312: “eu continuo achando”, 1. 314: “eu continuo achando”, 1. 316 “eu continuo achando viu?”, 1. 319: “veja eu continuo achando viu? E. eu continuo achando que”. Note-se que na penúltima vez L1 reforçou, finalizando o segmento com o marcador viu? e na última iniciou e terminou com marcadores: o primeiro, sinalizando pedido de atenção (veja) e o segundo com o mesmo viu?, que chamamos de “busca de aprovação discursiva” (BAD). Reunimos num só subgrupo olhe/olha não só porque o uso de um ou outro não parece ter qualquer motivação a não ser um uso acidental, como também nem sempre é perceptível a identificação auditiva de um ou outro. De resto, não prejudica a análise. De qualquer forma, fica observado que o uso mais generalizado é de olha. Com efeito, o emprego de olha é 2,5 vezes maior do que de olhe. Quanto às funções, a natureza imperativa de todos esses marcadores favorece a sua caracterização como pedido de atenção ou como proposta de uma atitude atenciosa. Olhe/olha são perfeitamente intercambiáveis; vem cá nos parece mais do estilo de L1 (do D2/RE), possivelmente de caráter regional, e mais enfático em termos de pedido de atenção ou de cooperação para a interação. Quanto a vamos ver, na forma do plural retórico, representa uma expressão menos informal e mais polida e envolvente, aliás típica do discurso didático. Com efeito, a locutora, professora, utiliza durante a aula toda freqüentemente a fórmula vamos (imperativo) mais verbo principal (no infinitivo ou gerúndio), às vezes complementado pelo respectivo argumento (O.D.) (1. 039, 144, 247, 249, 254, 370, 373). Menos freqüentemente alterna essa fórmula com “vejam”. Como se observa nos Quadros ilustrativos atrás, o marcador olha aparece abrindo uma citação de fala em discurso direto (Função 6 = início de fala citada). Trata-se da seguinte ocorrência: Inf
(...) então... não é uma história ligadinha que a gente possa dizer “olha... se desenvolveu NESte sentido...”muitas vezes a gente supõe que as coisas tenham ocorrido assim... ([265] EF/SP 405/143 1.036)
225
Na verdade, não se trata exatamente de uma fala real reproduzida: a falante professora utiliza a estratégia didática da dramatização, colocando na sua própria boca (embora usando o indefinido “a gente”, uma fala idealizada “olha... se desenvolveu NESte sentido...” O olha não é simples abertura de frase; tem realmente uma significação pragmática de solicitação de atenção, sem evidentemente qualquer valor semântico que a forma verbal de fonte lexical pareça embutir.
2.1.8 Formas pois é, sei, sim Reunimos em um só grupo pois é, sei e sim por motivos totalmente diversos dos motivos que justificaram os demais agrupamentos. Trata-se aqui de formas com muito poucas ocorrências. O número reduzido delas não só não compensa estudos mais demorados particularizados, como também não oferece segurança para isso. São ao todo 10 ocorrências, cujas análises, por amostragem, vão reproduzidas no Quadro 8 (ao final do texto).
2.2 Análises complementares dos marcadores por funções Nesta parte faremos breves considerações analíticas complementares sobre os marcadores aqui tratados, a partir de sua classificação pelas 6 funções previstas na Variável A. Ressaltamos inicialmente mais uma vez o caráter não definitivo dessa classificação e catalogação que objetivam, na metodologia aqui adotada, nortear e tornar operacional a pesquisa, com vistas à facilitação computacional (não computadorizada porém) das ocorrências. Fica para reexames em pesquisas futuras, a serem projetadas com outros propósitos, a possibilidade de reformulação, desde denominações e nomenclaturas funcionais até interpretações mais aprimoradas e finais das ocorrências. No corpo do presente trabalho, uma vez ou outra foi feita algum aprofundamento interpretativo nesse sentido. Mas só em estudos exaustivos de cada marcador ou conjunto de marcadores poderão ser identificadas conclusivamente funções mais específicas e precisas deles, dentro do contexto real de suas ocorrências.
2.2.1 Fáticos de natureza imperativa e entonação exclamativa (Traço 1) Como se trata de apenas um grupo com essa função e ela já foi estudada em 2.1.7, acrescentamos poucas observações aqui. 226
Os marcadores que desempenham esta função possuem todos a mesma fonte gramatical verbal (traço 4 da Variável 12 da pesquisa anterior), naturalmente na forma imperativa, com endereçamento direto ou indireto ao interlocutor. São três verbos que aparecem nas 17 ocorrências: dois perceptivos (olhar e ver) e um de movimento (vir). Apenas neste último caso, a forma verbal se associa, de maneira indissolúvel, a um vocábulo de origem adverbial (cá).
2.2.2 Fáticos de natureza ou entonação interrogativa pós asserção (Traço 2) Trata-se do grupo mais numeroso, funcionalmente falando, em termos de número de ocorrências (191 ocorrências), e um dos maiores em número de formas individuais, a saber: ahn? (1), certo? (7), entende? (2), entendeu? (7), não é verdade? (1), não é? / num é? (25), não? (4), né? (100), sabe? (24), tá (11), viu? (9). (Ver 2.1.1, 2.1.2, 2.1.4 e 2.1.6). A predominância é de formas simples (ahn?, certo? etc.). Há duas formas compostas [não é?, não é verdade?. não é? / num é? e uma contracta (né?)]. Preponderam marcadores de origem verbal ou combinados com verbo (entende? / entendeu?, sabe?, (es)tá?, viu?, não é verdade?, não é?). As demais fontes gramaticais representadas são: 1 adjetivo (certo?), 1 advérbio simples (não?) ou combinado (não é? / num é?, não é verdade?, né?). Caracterizamos esses marcadores como de natureza interrogativa, no sentido de que eles têm uma (estrutura) entonação ora mais marcada ora menos marcadamente interrogativa. Não se deve confundir estrutura interrogativa com força ilocucionária de pergunta ou pedido, embora esse tipo de força ilocucionária parece sempre estar presente, mesmo em grau mínimo, o que levou Settekorn (1977) a classificar esse tipo de marcador como de “busca de aprovação discursiva”, abreviado por nós por BAD. Discussão sobre essa atitude de busca já apresentamos em comunicação no GEL (1995). Aqui faremos alguma recuperação, ao comentar a função 4 – fático de retroalimentação.
2.2.3 Fáticos de natureza e entonação interrogativa, pós interrogação (Traço 3) Foram observadas 6 formas diferentes em apenas 7 ocorrências: ahn?, hem?, é?, não é?, né? (2 vezes), uhn? 227
Na verdade, esta função é uma variante da anterior: na anterior, o marcador ocorre após enunciado declarativo; nesta, após enunciado interrogativo. Todavia, essa aparente pequena diferença embute uma diferença significativa. Se considerarmos, com Settekorn, que o marcador possui “uma força ilocucional de natureza argumentativa, na medida em que frisa a proposição asseverada”, o enunciado frisado só pode ser um enunciado declarativo e não interrogativo como acontece aqui, ao menos claramente na maioria dos casos. Por outro lado, se considerarmos ainda que na idéia de “busca” estão implícitas não só a busca de aprovação do “argumento”mas também a busca de aprovação do “papel conversacional” de falante (nas reflexões de Settekorn), o marcador, mesmo após enunciado interrogativo – ou até principalmente por isso – sinaliza esta função especial 3.
2.2.4 Fáticos retroalimentadores [feed back (FB)] (Traço 4) Trata-se do segundo maior grupo em ocorrência (87 ocorrências), mas do primeiro em número de formas diferentes, a saber: ah (1), ahn (13), ahn ahn (6), certo (7), claro (5), é (29), é claro (1), é verdade (1), exato (1), pois é (1), sei (4), sim (4), uhn (2), uhn uhn (12). É o único conjunto de marcadores que é produzido pelo ouvinte, o qual, ao produzi-los desacompanhados de qualquer seqüência, não só retroalimenta a própria produção do falante, como também o mantém no seu papel conversacional de falante, conseqüentemente mantendo-se como ouvinte. Este tipo de FB solitário acontece em 54,12% das ocorrências (46/85)16. Por outro lado, freqüentemente também, como evidenciam esses dados, observa-se uma propriedade complementar dos FB de servirem como “engate” para que o ouvinte assuma o turno, tornando-se então falante, o que acontece numa significativa porcentagem de 45,88% (39/85). É de notar nesse particular que, entre os marcadores de natureza não lexical e os de natureza lexical, o segundo tipo, em relação ao primeiro, é que mais parece favorecer a tomada de turno. Com efeito, enquanto 66,66% (34/51) dos marcadores lexicais iniciam turno, apenas 14,70% (5/34) dos não lexicais o fazem, manifestando simples função de contato. Supõe-se, pois, que dado o valor semântico totalmente vazio dos marcadores não lexicais, estes são naturalmente os mais adequados para essa função fática. A condição de “engate”, que tão freqüentemente os FB realizam no corpus analisado, revela o sintonizado envolvimento dos parceiros, que até 228
certo ponto se explica em função da metodologia adotada nas gravações do Projeto NURC. O aspecto retroalimentador caracterizado pela função sob comentário e a freqüente referência da literatura a respeito levam-nos a refletir sobre a relação desses marcadores com os marcadores que têm sido denominados de “busca de aprovação discursiva” (BAD). A hipótese é que, se os BAD representam uma atitude de “busca”, os FB deveriam, ao menos em teoria, se correlacionar com aqueles, satisfazendo essa condição de busca, isto é, fornecendo o assentimento buscado. Todavia, os dados parecem não revelar a consciência dessa busca, nem por parte do falante nem por parte do ouvinte. Vamos inicialmente aos dados: a) a pesquisa arrolou 191 ocorrências de BAD e 87 de FB; b) o contexto das 191 revelou que nas proximidades de 166 delas (86,91%) não ocorreu qualquer marcador com a função de FB (nem antes, nem depois, nem em sobreposição); c) apenas 25 FB se localizam nas proximidades dos BAD, ocorrendo 21 vezes depois do BAD, 3 vezes antes e 1 vez em sobreposição. d) ocorrem apenas 26 BAD em finais de turno, sendo 13 nos D2, 11 nos DID e 2 nas EF, em oposição a 165 mediais, a saber: 32 nos D2, 93 nos DID e 40 nas EF. O próprio criador da expressão “busca de aprovação discursiva”, Wolfgang Settekorn, considera que os BAD exercem uma força ilocutória de natureza argumentativa, na medida em que “frisam” a proposição asseverada. Explicitamente, apresenta a seguinte descrição e interpretação:17 1) o falante afirma uma proposição (asserção); 2) o falante indica que a asserção é considerada como exata/indiscutível/conhecida/ certa (caracterização da exigência de verdade); 3) o falante indica que ele leva em conta a caracterização da exigência de validade (caracterização da posição do falante em face da proposição); 4) o falante indica que ele parte do fato de que o ouvinte participa da posição dele, falante, em face da proposição (caracterização da posição esperada da parte do ouvinte); 5) o falante indica que ele parte do fato de que o ouvinte está disposto a aprovar a afirmação e sua própria posição em face da proposição (caracterização do ato de esperar da parte do ouvinte). 229
Settekorn resume depois essas características dizendo que: “Sendo dado que se considera P como exata/indiscutível/conhecida/certa, eu estou no direito de esperar de você que você se junte a minha posição em relação a P e que você traduza esse acordo por um ato de aprovação”. Na concepção de “busca de aprovação discursiva” estão implícitas buscas de dois tipos de aprovação: a busca de aprovação do argumento e a busca de aprovação do papel de falante. Em conseqüência, marcadores BAD são formas de argumentação que podem servir para relacionar segmentos argumentativos em si e implicam ainda sempre outros dois aspectos: um ato do falante, isto é, a busca de aprovação, e um ato do ouvinte, isto é, a concessão de aprovação ou a recusa expressa. Na realidade, espera-se sempre uma aprovação e não uma recusa. Settekorn lembra ainda, de acordo com a situação que descreve no seu resumo, que, retoricamente, é de se aceitar que o falante, dada a exigência de validade por ele considerada, está no direito de avaliar conseqüentemente a aprovação do ouvinte como certa, independentemente de sua manifestação explícita. A partir das observações de Settekorn e dos dados acima constatados e relacionados, perguntamo-nos até que ponto elas valem para o português falado do Brasil, ou seja: a) em que medida se pode dizer que o falante realmente “busca” a aprovação do ouvinte? b) em que medida ele, falante, “espera”, realmente, a manifestação do ouvinte por meio de um ato de aprovação, no caso, por meio de um FB? c) em que medida realmente o ouvinte se manifesta em relação ao falante e a sua asserção? A letra (d) dos dados relacionados revela que ocorreram inúmeros BAD no interior dos turnos e pouquíssimos nos seus finais, mesmo nos D2 (nos DID, e sobretuto nas EF, a pretendida busca já seria naturalmente inusitada). Isso sinaliza que o falante normalmente produziu os BAD de forma mecânica, automática e despretensiosa, em posição desfavorável para que o ouvinte pudesse produzir mecanismos de aprovação. Na verdade, o BAD no interior do turno, principalmente sem pausa posterior, sugere neutralização da “busca”, uma vez que o falante, produzindo o BAD e ao mesmo tempo permanecendo sem interrupção no turno, estaria cometendo duas intenções aparentemente contrárias: busca de aprovação e abstração de qualquer aprovação. 230
Por outro lado, os dados da letra (b) revelam que os BAD e os FB não se correlacionam em 86,91% das ocorrências; logo não se implicam, como a noção de busca faria supor. Apenas 25 FB (13,09%) letra (c) aparecem em posições próximas dos BAD, ainda assim 3 deles ocorrem “antes” do próprio BAD (da própria busca). Da perspectiva do ouvinte, portanto, a baixa freqüência de FB parece revelar que o ouvinte simplesmente faz igualmente abstração dos BAD. Como ocorreram 87 FB e apenas 25 nas suas proximidades, ao menos nos outros 62 casos (71,26%), o FB foi produzido não em atenção a qualquer BAD mas sim eventualmente ao enunciado anterior ao BAD ou a qualquer outro fator motivador. Do exposto, parece poder-se concluir que: a) esses BAD não são, de maneira generalizada, formas de busca de aprovação discursiva; b) o ouvinte não reconhece, de maneira generalizada, essa função; c) caso o reconheça, não manifesta, de maneira generalizada, esse reconhecimento por meio de FB verbal. Feitas as presentes considerações, mas assumindo, por princípio, a alta recorrência (que o próprio corpus comprova) dos mecanismos reatroalimentadores e que eles caracterizam os próprios textos conversacionais, é de se supor que, na verdade, por ocasião das gravações (e em qualquer evento conversacional) tenham ocorrido abundantemente FB “não verbais”, através de gestos corporais e traços fisionômicos, que, infelizmente – e obviamente – não são registrados nas gravações. Essa suposição, feita a bem do rigor científico, pode restringir a força das argumentações anteriores, mas não as desqualifica, antes as complementa. Por outro lado, as conversas telefônicas constituiriam o campo fértil, seguro e controlável para se constatar e analisar a efetiva relação em termos puramente verbais entre os BAD e os FB, pois o único recurso de interação e contato é a voz.
2.2.5 Fáticos de início de R ou C (Traço 5) Arrolamos no corpus 31 ocorrências com marcadores classificados com a função 5. Em relação a formas, computamos 11 ah, 19 mas e 1 pois é, as quais, entretanto, apresentaram nuances próprias de uso. A forma pois é, apesar de única, revela uma aceitação pacífica de turno explicitamente transferido pelo falante anterior (Doc) ao interlocutor, ao qual solicita que lhe conte a história de um financiamento para o seu apartamento: 231
Doc
Conta um pouco a história desse financiamento
L2
Pois é, é, esse, esse apartamento é um problema todo de, de, de compra de apartamento (...) ([272] D2/RJ-355/232
l. 018)
Embora a aceitação do turno se tenha dado de maneira pacífica e o informante tenha assumido o seu papel conversacional de falante, a execução efetiva do pedido não foi tão tranqüila (observem-se os gaguejamentos); mas este é um fenômeno de outra natureza, que não cabe aqui considerar. Uma comparação deste marcador com seu homônimo na ocorrência 273 revela a diferença de função entre ambos: Inf
(...) praticaram... a natação... também é bom pra saúde quanto pra defesa né?
Doc Inf
|
pois é... claro
aprender a se defender né? ([273] DID/SA-231/121
l. 297)
onde o pois é (no meio no turno do falante) é mecanismo retroalimentador, reforçado por marcador com igual função (claro). Quanto às outras 2 formas, ah e mas, embora as tenhamos classificado dentro da mesma função (fático iniciador de turno responsivo ou de comentário), manifestam atitudes um pouco diversas, sobre as quais uma análise contrastiva talvez deite luzes. O ah é uma forma não lexical, enquanto mas é uma forma de natureza lexical, cuja fonte é a conjunção mas, dela conservando algumas propriedades, como bem salientou Moraes (1987), residindo nesse aspecto a principal diferença com ah. Por outro lado, ambos têm caráter bidirecional, mas de feições diferentes, decorrentes do fato de terem eles sido classificados, na pesquisa anterior, dentro da Variável 05 – transparência semântica, de maneira diferente: o ah com o traço 3 – não se aplica (sem conteúdo, nem inerente nem de origem) e o mas com o traço 0 – opaco ou traço 1 – parcialmente transparente. Enquanto iniciadores de turno, o mas, talvez por causa de seu traço sêmico básico de constraste e pela inseparável orientação argumentativa, pare232
ce intensamente mais interacional que o ah, caracterizando maior dinamismo no diálogo. De resto, ambos assimilam, com freqüência, uma entonação expressiva, que colabora para a espontaneidade e dinâmica conversacionais. Todavia, pelas observações acima, não se pode também deixar de reconhecer que o ah e o mas revelam uma carga fática diferente.
2.2.6 Fáticos de início de fala citada (Traço 6) A pesquisa revela apenas 3 ocorrências com 2 marcadores: ah (2 vezes) e olha (1 vez). Ao descrever a Variável A, já comentamos uma das ocorrências com ah (ocorrência nº 007). A outra vai transcrita abaixo: Inf
eles lá indicaram: “ah, vai na fuLA:na que a fulana serve (...) (DID/RJ-328/131
1. 353)
Quanto a olha, trata-se da seguinte ocorrência: Inf
(...) então... é uma história ligadinha que a gente possa dizer “olha... se desenvolveu NESte sentido...”(...) (EF/SP-405/143
1. 036)
O reduzido número de ocorrências não fornece elementos para reflexões demoradas e conclusivas. No entanto, a reprodução de uma fala dentro de outra com o uso de dois marcadores diferentes, um não lexical, outro de fonte lexical verbal, que o corpus revela, sugere algumas perguntas: a) o marcador pertence realmente ao texto da fala reproduzida, isto é, o falante personagem, cuja fala se reproduz, teria realmente iniciado sua fala com um ah ou olha? b) o marcador é um mecanismo geral para introduzir reprodução de fala? c) em caso positivo, há marcador(es) específico(s) para essa função como regularidade da linguagem conversacional? d) o marcador usado nessas aberturas pertence ao estilo do falante corrente narrador ou é típico do falante citado? 233
Esses questionamentos abrem várias hipóteses que, entretanto, só uma investigação de ocorrências em número representativo poderá responder.
3. Considerações finais A pesquisa ateve-se ao propósito de ser um passo adiante em relação à pesquisa Marcadores Discursivos: Traços Definidores, numa das direções projetadas naquele trabalho: a dos aspectos interacionais dos marcadores definidos como tais. Procuramos ser fiéis aos resultados daquela pesquisa, sem deixar, porém, de buscar novos caminhos, seja em aspectos teóricos específicos, seja, sobretudo, na metodologia. Apesar de se tratar de pesquisa estreitamente vinculada à anterior, tentamos dar-lhes certa autonomia de leitura. Nesse sentido, recuperamos daquele trabalho coletivo o mínimo necessário, porém, suficiente, para a compreensão e acompanhamento deste, o que foi feito, entre outros passos, por meio da reprodução da relação das Variáveis e Traços e da inserção de informações fundamentais sobre “matrizes-básicas” e “núcleo – piloto”, pontos basilares daquele texto. No aspecto metodológico, embora reconheçamos a avaliação que se faz sobre as descrições e interpretações qualitativas, tivemos sempre em mente, ao lado delas, um percurso também quantitativo, que parece melhor satisfazer nossa preocupação com o rigor científico. Embora extensa, reconhecemos que os limites impostos à pesquisa permitiram certas lacunas. Algumas são secundárias, outras, porém, mereceriam alguma atenção, mas ficarão para projetos futuros. Assim é que foram tratadas superficialmente – ou até deixaram de ser tratadas – questões de relevância maior ou menor para a boa compreensão dos marcadores basicamente orientadores, como a bi-direcionalidade anafórico-catafórica de certos marcadores, os aspectos prosódicos, sobretuto entonacionais dos marcadores em si, a questão da invariabilidade dos elementos de origem gramatical, sobretudo verbos (apesar de entende? / entendeu?, olha / olhe etc.), a eventual distribuição complementar no uso deles, o caráter continuum revelado em muitos níveis de descrição e análise dos marcadores, etc. Não foi possível, por outro lado, uma revisão na literatura específica, principalmente para rediscutir, entre outros aspectos, a vasta lista de denominações desses elementos discursivos, com implicações no seu próprio conceito. Não foi feita – e também estava fora dos limites do trabalho – uma análise sistemática das variáveis tradicionais, como sexo dos informantes, tipos de inquéritos, regiões de uso, etc. 234
Muitas observações sobre problemas muito fluidos não chegaram a ser aprofundadas ou foram feitas com bastante cautela, em virtude do reduzido número de ocorrências para instruírem essas questões. Privilegiamos normalmente, em cada caso, os aspectos comprovados por ocorrências mais freqüentes. De qualquer forma, a intensa pesquisa e reflexão sobre cada uma das cerca de 350 ocorrências permitiu a depreensão e análise de funções, propriedades e uso dos marcadores arrolados, consolidando um elenco bastante grande desses mecanismos basicamente orientadores da interação. Sobretudo salientou a regularidade de muitos aspectos em relação a cerca de três dezenas de formas. O inventário e as análises configurados nos Anexos II permitem não só comprovar as muitas reflexões que foram feitas, como também asseguram muitas outras observações e a construção de hipóteses a serem aprofundadas, bem como sugestões de temas a serem explorados. Todavia, graças às amonstragens inseridas no texto principal, o citados Anexos II dispensam consulta obrigatória. Ao largo da análise principal, pode-se perceber que muitas formas desempenham uma mesma função, dependendo naturalmente de aspectos contextuais convergentes ou determinados, como a entoação, posição e articulação com os enunciados que escopam ou que lhes são adjacentes. Assim, exercem a mesma função, por exemplo, certo?, entendeu?, sabe?, viu? etc. ou certo, é, é verdade etc. Por outro lado, porém menos freqüentemente, a mesma forma pode exercer funções diferentes, como nos casos de certo, ah, uhn, como demonstram os Quadros A das diversas análises. A relação forma / função é, em princípio, o dado identificador de marcadores diferentes. Assim, o mesma forma ah pode ser classificada como dois marcadores diferentes, segundo desempenhe funções diferentes. Percebe-se também que muitos marcadores se combinam seqüencialmente num mesmo turno ou em turnos diferentes (v. ocorrências nºs 6, 10, 25, 29, 33, 50, 289 etc.), outros articulam-se entre si, inciando ou finalizando um mesmo enunciado (v. ocorrências nºs 5, 12, 74, 81, 257, 261, 333, 339 etc.) e outros, ainda, se contrapõem a seus homônimos gramaticais. (Observe-se a ocorrência 290: É só o que eu sei sabe?) Verifica-se, ainda, o uso aparentemente idiossincrático de alguns marcadores (como o né?) por alguns falantes. (Já tínhamos constatado que o falante do DID/SA-231 produzira em média 2,4 né? por minuto. Mais pontualmente observamos as linhas 242-261 com 9 né? em 20 linhas ou as linhas 205-240 com 11 né?) Repisamos que a linha central e orientadora da pesquisa são as funções descritas e arroladas na Variável A, o que não deve levar a pensar, entretanto, 235
que se trata de funções claramente identificáveis e exaustivamente enumeradas. Na realidade, são portas de acesso para o exame de diversos outros aspectos como poderão ser percebidos e estudados os marcadores. O refinamento das análises vai cada vez mais permitir observar e reconhecer certos usos, valores e traços funcionais desconhecidos e inusitados. A função norteadora para a depreensão dos traços funcionais apontados na Variável A em questão é a função fática, que, diferentemente matizada, se reproduz nos 6 traços. A seção 2.3, sob o título “Análises complementares dos marcadores por funções”, já pode ser interpretada como parte integrante destas CONSIDERAÇÕES, uma vez que retoma, de maneira sintetizada, complementar e inferencial, aspectos do fulcro e das idéias centrais do trabalho. Das 7 novas Variáveis (A-G) rastreadas analiticamente nem todas produziram igualmente resultados relevantes e definitivos em relação ao aspecto interacional aqui perseguido, podendo, todavia, serem eventualmente revisitadas ante novas hipóteses de análise. Apesar dos limites necessariamente atribuídos à pesquisa e à análise, das lacunas inevitáveis e das reflexões nem sempre confortavelmente conclusivas, estamos convencidos de que o levantamento e a análise da forma como foram realizados se constituem em sólidos subsídios para colaborar na descrição de elementos tão típicos da língua falada do Brasil e na observação da sua regularidade de uso.
NOTAS 1
Para a compreensão e acompanhamento deste estudo, aconselha-se a leitura do trabalho em questão.
2
Codificamos com letras as Variáveis específicas desta pesquisa para diferenciá-las das Variáveis da pesquisa anterior, codificadas com números.
3
Na seqüência EF POA 278/153 l. 27, os três primeiros algarismos (278) indicam o nº original do inquérito nos arquivos do Projeto NURC/BR e os três números subseqüentes (153), a codificação atribuída ao inquérito pela pesquisa básica.
4
Usamos “comentário” no sentido comum de “observação”, “apreciação”, “esclarecimento”, “ponderação”.
5
Usamos “escopar” no sentido de “referir-se a”, “ter como alvo” ou ainda “pontuar”, “predicar”.
6
Nessa nova listagem (Anexo I) incluímos uma coluna para nº de ordem e excluímos as colunas correspondentes às Variáveis 11 – Tipo de ocorrência e 12 – Base gramatical, que já haviam sido desconsideradas na pesquisa anterior, durante a análise dos dados e
236
apuração das “matrizes básicas”. Como ficou esclarecido anteriormente, mantivemos os números dos inquéritos atribuídos pela pesquisa básica, mas recuperamos, numa coluna paralela, os dados originais do Projeto NURC/BR. 7
8 9
10
11 12
As ((risadas)) se explicam em virtude do comentário falho deL1: “em ambiente bem gostoso bem::... gostoso pro doente pro:: doente”, corrigido na seqüência: “pro estudante”. O número entre colchetes refere-se ao nº de ordem, conforme explicado na Nota 3. Doc e como é que a senhora Acha que é elaborada uma peça de teatro antes dela ser apresentada? Inf ah aí você me pegou porque (...) ([3] DID/SP 234/241 l.164) ocorrências n. 56, 57, 61, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 79, 81, 83, 84, 85, 87 e 89 ocorrências n. 58, 59, 60, 78, 80, 82 e 86. remetemos os interessados para as observações feitas na pesquisa anterior sobre a ocorrência das variantes olha ~ olhe ou entende? ~ entendeu? e não ocorrência de olhem, olhemos ou entendes?, entendia?, por exemplo. Mas esse tipo de reflexão precisa ser retomado.
13
A pesquisa básica anterior arrola 53 ocorrências, todas com o traço 1 na Variável 02 e, destas, apenas 19 com o traço 2 na Variável 03, o que significa que 34 apresentam a combinação 1-1.
14
Na realidade, foram analisados 132 ocorrências.
15
O grupo de Quirk constata as hipóteses de declarativa positiva mais interrogativa negativa e vice versa, mas aqui só nos interessa o primeiro caso, isto é, da declarativa positiva mais interrogativa negativa.
16
A diferença de 2 ocorrências (de 85 para 87) deve-se a que essas 2 ocorrências estão indefinidas quanto ao aspecto ora investigado.
17
Reproduzimos em seguida parte das reflexões que, nessa linha, fizemos na já citada comunicação publicada nos Anais do GEL (1995:660-665), em que, com base em parte desta mesma pesquisa, levantáramos algumas hipóteses, que vêm a se confirmar agora com dados mais completos.
4. REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASILIO, Margarida. (1992) Flutuação categorial de base adjetiva no Português Falado. In: ILARI, Rodolfo (org.) Gramática do Português Falado VII. Campinas, Ed.UNICAMP. MORAES, Lygia C. Dias. (1987) Nexos de coordenação na fala culta de São Paulo. (tese de doutorado) RISSO, Mercedes Sanfelice; SILVA, Giselle Machline de O. e URBANO, Hudinilson. (no prelo) Marcadores Discursivos: Traços Definidores. 237
SETTEKORN, Wolfgang. (1977) Pragmatique et Rhéthorique Discoursive. Journal of Pragmatics 1, North-Holland Publishing, Co., p.195-210. URBANO, Hudinilson. (1995) Marcadores conversacionais: um novo aspecto do né? XXIV Anais do GEL, São Paulo, p.660-665.
5. ANEXO I Listagem extraída do Anexo 2 de Marcadores Discursivos: Traços Definidores
6. QUADROS Anexo I Listagem extraída do Anexo 2 de Marcadores Discursivos: Traços Definidores Nº de Ord.
Configurações Inq. Variáveis cf. pesq. de 01 a 10 básica
Dados NURC
linha/ token
025
3021321101
142
246
026
3021321101
142
275
027
3021321101
142
348
134
028
3021321101
142
381
136
(Forma ahn ahn)
164
029
3021321101
121
DID/SA-231
353
030
3021321101
142
D2/SP-360
501
031
3021321101
142
217
(Forma ah)
001
3021321101
241
002
3021321101
241
DID/SP-234
234
003
3021321001
241
004
3121321101
131
005
3121321101
131
006
3121321101
132
D2/RJ-355
012
032
3021321101
142
224
007
3121321101
151
DID/POA-045
191
033
3021321101
142
278
008
3121321101
151
219
034
3021321101
142
009
3121321101
151
188
3021321101
121
010
3121321101
232
011
3121321111
232
012
3121321101
142
DID/RJ-328
D2/RJ-355
D2/SP-360
156
289 DID/SA-231
234
006
(Forma ahn ahn?)
014
035
3021321101
121
253
3021321101
121
302
185
013
3121321101
142
325
036
014
3121321101
212
D2/RE-005
301
(Forma hem?)
011
(Forma certo)
036a
(Forma ahn)
151
DID/POA-045
268
3021121101
241
DID/SP-234
225
3021121101
241 EP/POA-278
041
015
3021321101
241
DID/SP-234
016
3021321101
142
D2/SP-360
143
037
017
3021321101
142
145
038
018
3021321101
142
170
039
3021121101
153
019
3021321101
142
231
040
3021121101
153
020
3021321101
142
233
041
3021121101
142
021
3021321101
142
235
042
3021121101
142
178
022
3021321101
142
237
043
3021121101
142
371
023
3021321101
142
240
(Forma certo?)
024
3021321101
142
244
044
238
3021121101
212
245
042 D2/SP-360
DE/RE-005
168
277
045
3021121101
143
113
085
3021121101
142
347
046
3021121101
143
EF/SP-405
024
086
3021121101
142
355
047
3021121101
143
119
087
3021121101
142
368
048
3021121101
143
046
088
3021121101
142
372
049
3021121101
232
006
(Forma é?)
050
3021121101
232
011
089
D2/RJ-355
3021121101
232
D2/RJ-355
014
DID/RJ-328
552
(Forma entende?)
(Forma claro) 051
3021121101
212
D2/RE-005
288
090
2021121101
131
052
3021121101
121
DID/SA-231
298
091
2021121101
131
053
3121011101
212
D2/RE-005
398
(Forma entendeu?)
054
3121011101
212
398
092
2021121101
222
055
3121011101
212
402
093
2021121101
222
094
2021121101
222
095
2021121101
212
096
2021121101
212
097
2021121101
098
2021121101
(Forma é) 056
3021121101
121
057‘
3021121101
121
DID/SA-231
186
058
3021121101
121
210
059
3021121101
121
214
060
3021121101
121
236
061
3021121101
252
D2/PO-291
179
H530
062
3021121101
113
EF/RE-337
207
063
3021121101
222
D2/SA-098
M425
064
3021121101
222
065
3021121101
222
066
3021121101
131
067
3021121101 3021121101
131
069
3021121101
232
070
3021121101
232
3021121101
E417 DID/RJ-328
131
068
071
E146
309 443 626
D2/RJ-355
006 020
232
003
(Forma é claro) 072
3021121101
121
DID/SA-231
300
241
DID/SP-234
017
(Forma é verdade) 073
3021121101
(Forma é, é) 074
3021121101
232
D2/RJ-355
005
(Forma é, é, é) 075
3021121101
232
004
(Forma .é...) D2/SP-360
D2/SA-098
E515 E580 E655
D2/RE-005
281
223
EF/SA-049
094
121
DID/SA-231
193
EF/RE-337
439
(Forma exato) 099
1021121101
113
100
1021121101
113
280 191
(Forma mas) 101
3121011101
121
DID/SA-231
300
102
3121111001
212
D2/RE-005
262
103
3121111001
212
104
3121111001
212
105
3121011101
131
106
3121111101
131
107
3121011101
241
108
3121011001
241
109
3121111001
212
110
3121011001
212
286
111
3121111001
212
307
112
3121111001
212
349
113
3121111001
212
351
114
3121111001
212
367
115
3121011001
212
398
117
3121011001
212
402
116
3121011001
212
118
3121011001
241
DID/SP-234
046
3121111001
232
D2/RJ-355
007
142
D2/SP-360
290
DID/POA-045
194
076
3021121101
142
077
3021121101
142
133
119
078
3021121101
142
137
(Forma não é verdade)
079
3021121101
142
176
120
080
3021121101
142
196
(Forma não é?)
081
3021121101
142
254
121
3021121101
151
082
3021121101
142
262
122
3021121101
151
083
3021121101
142
263
123
3021121101
151
084
3021121101
142
272
124
3021121101
143
D2/SP-360
647
3021121101
268 288 DID/RJ-328
651 656
DID/SP-234
010 139
D2/RE-005
248
398
228 291 EF/SP-405
005
239
125
3021121101
233
005
170
3021121101
121
201
126
3021121101
233
EF/RJ-379
025
171
3021121101
121
242
127
3021121101
233
029
172
3021121101
121
244
128
3021121101
233
088
173
3021121101
121
247
129
3021221101
233
119
174
3021121101
121
248
130
3021121101
113
119
175
3021121101
121
256
131
3021121101
113
207
176
3021121101
121
257
132
3021121101
113
219
177
3021121101
121
261
133
3021121101
113
233
178
3021121101
121
296
134
3021121101
113
293
179
3021121101
121
299
135
3021121101
113
307
180
3021121101
121
268
136
3021121101
222
D2/SA-098
E570
181
3021121101
121
269
137
3021121101
232
D2/RJ-355
010
182
3021121101
121
275
138
3021121101
212
D2/RE-005
322
184
3021121101
121
292
139
3021221101
131
DID/RJ-328
070
183
3021121101
121
276
140
3021121101
241
DID/SP-234
157
185
3021121101
121
141
3021121101
142
D2/SP-360
155
186
3021121101
233
142
3021121101
142
165
187
3021121101
233
025
143
3021121101
142
171
188
3021121101
233
104
144
3021121101
142
218
189
3021121101
233
144
145
3021121101
142
234
190
3021121101
233
191
3021121101
113
085
192
3021121101
113
EF/RE-337
(Forma não ?) 146
2021121001
147 148 149
284 EF/RJ-379
014
151 EF/RE-337
101
241
DID/SP-234
2021121101
142
D2/SP-360
200
193
3021121101
222
2021121101
142
336
194
3021121101
222
E299
2021121101
142
356
195
3021121101
222
E535
196
3021121101
222
(Forma né) 150
3021121001
151 152
127 D2/SA-098
E146
E580
223
EF/SA-049
091
197
3021121101
131
3021121101
151
DID/POA-045
157
198
3021121101
131
261
3021121101
151
189
199
3021121101
131
367
153
3021121101
151
191
200
3021121101
131
397
154
3021121101
151
197
201
3021121101
131
501
155
3021121101
151
178
202
3021121101
131
515
156
3021121101
151
185
203
3021121101
131
527
157
3021121101
151
230
204
30211/1101
131
537
158
3021121101
151
202
205
3021121101
131
660
159
3021121101
151
206
206
3021121101
131
043
160
3021121101
151
207
207
3021121101
131
161
3021121101
151
212
208
3021121001
241
162
3021121101
151
217
209
3021121001
241
175
163
3021121101
151
245
210
3021121001
241
184
164
3021121001
151
255
211
3021121001
241
195
165
3021121001
151
258
212
3021121001
241
196
166
3021121001
151
262
213
3021121001
241
208
167
3021121101
121
166
214
3021121001
241
209
168
3021121101
121
169
215
3021121001
241
219
169
3021121101
121
187
216
3021121001
241
222
240
DID/SA-231
DID/RJ-328
071
139 DID/SP-234
171
217
3021121001
241
225
262
3021121101
241
218
3021121001
241
235
263
3021121101
241
219
3021121001
241
242
264
3021121101
142
D2/SP-360
286
220
3021121101
211
DID/RE-131
009
265
3021121101
143
EF/SP-405
036
3021121101
151
DID/POA-045
289
025 159
221
3021121101
153
EF/POA-278
049
266
222
3021121101
232
D2/RJ-355
010
(Forma olhe)
224
3021121101
121
DID/SA-231
206
267
3021121101
212
D2/RE-005
415
225
3021121101
121
207
268
3021121101
113
EF/RE-337
042
226
3021121101
121
209
269
3021221101
113
227
3021121101
121
213
270
3021121101
211
DI/RE-131
001
228
3021121101
121
228
(Forma pois é)
229
3021121101
121
230
271
2121121101
222
D2/SA-098
E456
230
3021121101
121
232
272
2121121101
232
D2/RJ-355
018
231
3021121101
121
235
273
2121121111
121
DID/SA-231
297
232
3021121101
121
237
(Forma sabe?)
233
3021121101
121
234
3021121101
232
235
3021121101
236
3021121101
237
224
240
274
3021111101
233
EF/RJ-379
139
001
275
3021111101
252
D2/POA-291
G505
232
005
276
3021111101
131
DID/RJ-328
170
232
011
277
3021111101
131
178
3021121101
232
020
278
3021111101
131
063
223
3021121101
121
DID/SA-231
205
279
3021111101
131
213
238
3021121001
241
DID/SP-234
016
280
3021111101
131
213
239
3021121001
241
039
281
3021111101
131
217
240
3021121001
241
048
282
3021111101
131
229
241
3021121001
241
074
283
3021111101
131
246
242
3021121001
241
143
284
3021111101
131
325
243
3021121101
142
175
285
3021111101
131
349
244
3021121101
142
179
286
3021111101
131
414
245
3021121101
142
185
287
3021111101
131
455
246
3021121101
142
310
288
3021111101
131
630
247
3021121101
142
367
290
3021111101
151
159
248
3021121101
142
380
289
3021111101
131
249
3021121101
223
EF/SA-049
031
291
3021111101
241
250
3021121101
142
D2/SP-360
301
292
3021111101
241
251
3021121101
142
303
293
3021111101
121
252
3021121101
142
116
294
D2/RJ-355
D2/SP-360
027 DID/SP-234
010 120
DID/SA-231
121
188 136
295
3021111101
142
037
296
3021111101
142
245
113
078
297
3021111101
142
213
113
131
(Forma sei)
113
196
298
1021111101
232
D2/RJ-355
017
299
1021111101
142
D2/SP-360
278
DID/RJ-328
(Forma num é) 253
3021121101
113
254
3021121101
255
3021121101
256
3021121101
EF/RE-337
(Forma olha) 257
3021121101
151
DID/POA-045
157
300
131
258
3021121101
151
159
301
131
259
3021121101
252
D2/POA-291
G325
(Forma sim)
260
3021221101
113
EF/RE-337
280
302
2021111101
212
261
3021121101
241
DID/SP-234
020
303
2021111101
212
D2/SP-360
221
063 067
D2/RE-005
237 359
241
304
2120121111
304A
142
D2/SP-360
381
327
3021321101
142
121
DID/SA-231
245
328
3021321101
142
151
329
3021321101
142
164
EF/RJ-379
033
(Forma uhn::)
(Forma tá?) 305
3021121101
233
306
3021121101
233
055
330
307
3021121101
233
065
(Forma uhn?)
308
3021121101
233
065
309
3021121101
233
070
(Forma vamos ver)
310
3021121101
233
075
331
1021111101
153
311
3021121101
233
080
332
1021111101
153
312
3021121101
233
096
(Forma veja)
313
3021121101
233
096
333
314
3021121101
233
113
315
3021121101
233
139
(Forma uhn) 316
3021321101
142
D2/SP-360
386
(Forma uhn uhn)
1121311101
1021321101
1021111101
241
D2/SP-360
DID/SP-234
121
212
147
058
167
EF/POA-278
039 144
D2/RE-005
319
(Forma vem cá) 334
2021111001
212
378
335
2021111001
212
426
336
2021111001
212
430
316
(Forma viu)
317
3021321101
241
318
3021321101
241
DID/SP-241
073
030
319
3021321101
241
094
321
3021321101
241
103
322
3021321101
241
323
3021321101
324
337
2021111101
212
338
2021111101
212
339
2021111101
241
340
2021111101
241
057
147
341
2021111101
241
089
241
199
342
2021111101
241
138
3021321101
241
221
343
2021111101
241
325
3021321101
241
243
344
2021111101
121
326
3021321101
241
210
345
2021111101
121
242
319 DID/SP-234
020
070 DID/SA-231
265 281
243
237
167
121
330
DID/SA-231
058
241
329
DID/SP-360
073
318
268
DID/PO-045
036a
151
302
036
DID/SA-231
D2/SP-360
012
253
121
142
022
D2/RJ-355
164
035
232
006
DID/SP-234
Nº de Linha / Token
240
241
003
Dados do Projeto NURC
023
Nº Inq. Pesq. Básica
Nº de Ordem
Doc
Doc
Doc
Inf
Doc
Inf
L2
Inf
Loc/ Doc/ Inf.
Variáveis:
Formas: ah, ahn, hem?, ahn ahn, uhn, uhn uhn, uhn?
Quadro 1 ANÁLISE D Sobreposição E Pausa
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno
3
4
Doc (...) vamos dizer... de que se compõe a universidade ... administrativamente ela se estrutura como uhn? L1 aí você me apertou porque...
4
Inf (...) mas a peça valeu viu? também palavrões... Doc uhn:: eu já sei
3
3
2
4
Inf (...) não vou muito a cinema prefiro o teatro Doc uhn uhn e o que a senhora a senhora falou (...)
uhn, uhn uhn, uhn?
Inf Aí depois com o professor... que é, hem?... (Obs.: incluído nesta pesquisa)
Doc qual é o tipo de:: de móveis que nós vamos encontrar na biblioteca ahn? como é (...)
Inf (precisamos ter um ambiente bem gostoso) pro estudante... ter o seu recreio ter a sua hora de descanso... ahn?... prática de esporte...
4
5
L1 quando sai... aquela folia assim de um correr atrás dela então ela... se cala um pouco | ahn L2 L1 mas L2 ahn
5
A
Outro marcador Natureza enunc. escopado
L1 (...) eu não conheço um professor que ensine em apenas um lugar, já começa por aí certo? L2 Ah eu ensino em dois lugares (...)
F G
Doc e como a senhora a cha (...)? Inf ah aí você pegou
ah, ahn, hem?, ahn ahn
A B C
3
1
1
3
3
3
4
4
1
1
B
3
1
1
2
2
2
4
4
1
1
C
B/C G
0
0
0
0
0
0
0
1
0
0
D
0
0
0
2
0
3
0
0
0
0
E
Variáveis
0
0
2
0
0
0
0
0
1
0
F
3
1
1
3
3
1
0
0
1
3
G
d
d
e
e
B/C
b
b
b
b
G
Pesquisa Complementar
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
Quadro 1-A
Funções
Outras/variáveis
Pesquisa Compl.
Nº das Ocorrências
A
B
C
D
E
F
G
B/C
4
4
4
0
0
0
1
c
1, 16, 17, 18, 24, 26
4
4
0
0
1
2
b
15
4
4
1
0
0
1
b
19, 20
4
4
1
0
1
1
b
21
4
4
1
0
0
0
e
22
4
4
0
0
0
0
e
23
4
4
0
0
1
1
a
25
4
4
0
0
0
1
a
27
1
1
1
2
2
2
d
29
4
4
1
0
2
1
c
30
4
4
0
0
3
1
c
31
4
4
1
0
0
1
c
32
4
4
0
0
2
1
b
33
4
4
0
0
2
1
c
34
1
1
0
0
0
3
1
1
1
0
0
1
1
1
0
0
1
1
1
1
1
0
0
3
1
1
0
0
0
1
1
1
0
0
3
1
10
1
1
0
0
2
2
28
1
1
0
0
0
4
4
1
1
0
0
0
3
2
3
2
0
3
0
1
3
3
2
0
0
0
3
b
36
3
2
0
2
0
3
b
36a
Subt. Total
%
G ah, ahn, ahn ahn, hem?
5
6
b
20
55,55
11
30,55
7
2
5,55
35
1
2,80
3, 8, 9, 13 12 6
a
5 11, 14
5,55
2 (faltam dados)
1 Total
37
Total analisado
36
100,00
1
6,66
uhn, uhn uhn, uhn? 3 4
3
3
0
0
0
3
b
330
4
4
0
0
0
1
b
316, 323, 326
4
4
0
0
0
1
a
317, 319, 327
1
1
0
0
2
1
d
318, 321, 322
4
4
0
0
0
1
c
320
4
4
0
0
3
1
a
324
1
1
0
2
3
1
d
325
4
4
1
0
2
1
b
328
1
1
0
0
0
1
d
329 Total
244
14
93,34
15
100,00
245
113
99
EF/RE-337
280
398
212
53
D2/RE-005
277
D2/RE-005
212
225
44
DID/SP-234
Nº de Linha / Token
245
241
37
Dados do Projeto NURC
38
Nº Inq. Pesq. Básica
Nº de Ordem
Formas: certo, certo?, claro, exato
ANÁLISE
Quadro 2
Inf
L2
L2
Doc
Doc
Loc/ Doc/ Inf.
Variáveis: D Sobreposição E Pausa
F G
I.L.A. (...) eu fico com:: com quem diz que:... é igual... | fica em dúvida? Inf I.L.A. é igual | Inf são iguais exato... olha... é mais fácil... pensar:... que (...)
exato
L1 (...) você tá criando uma cul uma criança inculta pra quando ela crescer (...) você educar no mobral L2 mas CLAro...)
L2 esporte é cultura / você não vai me negar isso aí certo?... eu pratico esporte desde menino
Inf tenho impressão não sei Doc certo Inf como Hair você já imaginou (...)
Inf eu acho que (...) que::... deve ser um tipo assim de trabalho mais ou menos oo pessoal de tel/ de de de te/ de televisão né?... Doc certo... ((em tom baixo)) e a senhora nota alguma diferença... (...)
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno
certo, certo?
A B C
4
4
2
4
4
A
Outro marcador Natureza enunc. escopado
1
1
3
4
1
B
1
1
2
4
1
C
B/C G
0
0
0
0
0
D
2
2
2
0
2
E
Variáveis
2
3
0
1
3
F
1
6
2
2
2
G
b
e
b
d
B/C
G
Pesquisa Complementar
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
Quadro 2 A Funções
Outras/variáveis
Pesquisa Compl. B/C
Nº das Ocorrências
A
B
C
D
E
F
G
2
3
2
0
2
0
2
44
3
2
0
3
2
1
45, 46
3
2
0
1
0
1
47
3
2
0
1
2
1
48
3
2
0
0
0
1
49
3
3
0
0
2
1
50
Subt. Total
%
G certo?
7
50,00
7
50,00
14
100,00
5
100,00
1
100,00
certo 4
1
1
0
0
3
2
d
37
4
4
0
0
1
2
b
38
1
2
0
0
0
1
d
39, 40
4
4
1
0
0
1
c
41, 42
4
4
0
0
0
1
d
43 Total claro
4
1
1
1
0
2
0
d
4
4
0
1
1
1
b
51 52
1
1
0
2
3
1
e
53
1
1
0
0
0
1
d
55
1
2
0
2
3
1
d
54 exato
4
246
1
1
0
2
2
1
b
99
247
017
241
73
DID/SP-234
300
121
72
DID/SA-231
355
86
309
131
66
DID/RJ-328
M425
D2/SA-098
222
179
63
DID/SA-231
Nº de Linha / Token
214
121
56
Dados do Projeto NURC
59
Nº Inq. Pesq. Básica
Nº de Ordem
Formas: é, é claro, é verdade
ANÁLISE
Quadro 3
Doc
Doc
L2
Inf
L2
Doc
Inf
Loc/ Doc/ Inf.
Variáveis: D Sobreposição E Pausa
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno F G
Inf (...) prefiro ir a teatro do que a cinema ... quando o filme não é bom né? Doc é verdade e que tipo de peça (...)
é verdade
L1 aprender a se defender né? Doc é claro... mas voltando ainda (...)
é claro
L1 coitado, cinco anos e já... colocado assim (...) | é L2
Doc tem um gosto diferente... Inf é tem um gosto bastante diferente(...)
L1 (...) é a conhecida Vitória – Minas L2 é mas isso também é uma puxada danada...
Inf ainda é faculdade né? porque tem o (...) | Doc é
Doc reformaram também os departamentos (nem) aumentaram ou reduziram de forma que Inf é porque eles fizeram exatamente isso (...)
é
A B C
4
4
4
4
4
4
4
A
Outro marcador Natureza enunc. escopado
1
1
4
1
1
4
1
B
1
1
4
1
1
4
1
C
B/C G
0
0
1
0
0
1
0
D
0
2
0
0
0
0
0
E
Variáveis
3
3
0
0
0
4
0
F
1
1
6
1
1
1
0
G
d
d
c
d
d
b
d
B/C
G
Pesquisa Complementar
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
Quadro 3-A Funções
Outras/variáveis
Pesquisa Compl. B/C
Nº das Ocorrências
A
B
C
D
E
F
G
3
3
3
0
0
0
3
4
1
1
0
0
0
0
d
56
1
1
1
0
0
1
d
57
4
4
1
0
1
1
b
58
4
4
1
0
4
1
b
59
4
4
0
0
1
2
b
60
1
2
0
0
0
6
b
61
1
1
0
0
0
1
d
63, 64, 66, 69, 71
1
1
1
2
0
1
d
1
1
0
0
0
3
d
1
1
0
2
0
1
a
68
1
1
0
0
2
0
d
74, 75
1
1
0
2
0
1
c/d
1
1
0
2
0
1
d
77, 78
4
4
0
0
1
1
c
78
1
1
0
0
1
1
d
79
4
4
1
0
0
1
c
80
1
1
1
2
0
1
c/d
Subt. Total
%
G é a
89
1
3,33
29
96,67
1
100,00
1
100,00
65 a
67
76
81 é, é?
4
4
0
0
2
1
b
82
1
1
0
0
1
0
d
83
1
1
1
2
0
1
c/d
84
1
1
0
0
0
6
d
85
4
4
1
0
0
6
c
86
1
1
1
2
2
1
d
87 62,70 faltam dados é claro
4
1
1
0
2
3
1
d
72 é verdade
4
248
1
1
0
0
3
1
d
73
249
343
070
089
241
341
DID/SP-234
033
233
305
EF/RJ-379
630
288
DID/RJ-328
178
131
552
277
DID/RJ-328
Nº de Linha / Token
439
131
90
Dados do Projeto NURC
96
Nº Inq. Pesq. Básica
Nº de Ordem
Formas: entende?, entendeu?, sabe?, tá?, viu?
ANÁLISE
Quadro 4
Inf
Inf
Inf
Inf
Inf
L1
Inf
Loc/ Doc/ Inf.
Variáveis:
(...) eu falo muito em verduras porque justamente é a base da minha alimentação entende?... então a (...)
porque eu acho que a base é mais a carne sabe? ... lá em cima não eles têm (...)
F G
Inf (...) mas foi bom também viu? sei lá eu acho que (...)
Inf (...) não lembro o nome dela viu? Doc e o que mais chamou a atenção (...)
viu?
2
2
2
2
2
2
2
A
Outro marcador Natureza enunc. escopado
Inf (...) a a população do Japão... (...) SABIA que pra conseguir sobreviver... tá? ... PREcisava AMPLIAR a sua área (...)
tá?
Inf (...) nós não vimos nada sabe? Doc agora aquela... (...)
Inf
sabe?
L1 (...) as pessoas cultas dizem que | mas ele é bom Ed L2 L1 Roberto Carlos é bom... entendeu? | L2 é bom
Inf
D Sobreposição E Pausa
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno
entende?, entendeu?
A B C
3
3
2
3
3
3
3
B
2
3
2
3
2
3
2
C
B/C G
0
0
0
0
0
0
0
D
0
0
3
0
2
1
2
E
Variáveis
2
2
0
0
0
0
2
F
1
1
1
1
2
1
1
G
B/C
G
Pesquisa Complementar
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
Quadro 4-A Funções
Outras/variáveis
Pesquisa Compl. B/C
Nº das Ocorrências
A
B
C
D
E
F
G
2
3
2
0
2
2
1
90,91
3
2
0
1
0
1
92, 94, 95
2
2
0
3
0
1
93
3
3
0
1
0
1
96
3
2
0
3
2
1
97
2
2
0
2
2
1
98
Subt. Total
%
9
100,00
24
100,00
11
100,00
9
100,00
G entende?, entendeu
Total sabe? 2
3
2
0
0
0
1
274, 275, 279, 280, 281, 282, 284, 285, 290, 292
3
3
1
0
0
1
3
2
0
2
0
2
276 277
3
2
0
2
0
1
278, 283, 287
3
2
0
1
0
1
286, 297
3
3
0
0
0
1
288
3
2
0
0
1
1
289
3
2
0
0
2
6
291
2
2
0
1
0
1
293
2
2
0
3
0
1
294
3
2
0
0
2
1
295
3
3
0
0
2
1
296 Total tá?
2
2
2
0
3
0
1
2
2
0
1
0
1
305, 309, 313 306
2
2
0
0
0
1
307, 312, 314
3
2
0
0
1
1
308
3
2
0
3
0
1
310, 315
3
2
0
1
0
1
311 Total viu?
2
3
3
0
0
0
1
337
3
2
0
0
0
1
338, 340, 342
2
2
0
0
0
1
339
3
3
0
0
2
1
341
3
2
0
0
2
1
345
3
2
0
3
0
1
346
3
2
0
1
2
1
347 Total
250
251
402
10
117
DID/SP-234
656
398 398
241
107
DID/RJ-328
300
115 116
131
106
DID/SA-231
Nº de Linha / Token
139
121
101
Dados do Projeto NURC
108
Nº Inq. Pesq. Básica
Nº de Ordem
Formas: mas
Quadro 5 ANÁLISE
L2
L2 L2
Inf
Inf
Inf
Doc
Loc/ Doc/ Inf.
Variáveis: D Sobreposição E Pausa
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno F G
L1 (...) você tá criando uma cul uma criança inculta pra quando ela crescer (...) você educar no mobral L2 mas CLAro... L2 mas CLAro... lógico... mas você também não pode | então é im-por-tan-tís-simo... cultivar L1 ... a plantinha desde pequena L2 mas claro mesmo porque (...)
Inf (...) não tinha nem onde sentar viu? eu disse “meus Deus” foi domingo à tarde MAS uma molicada... sei lá eu (...)
Inf (...) éh:: um grupo assim:: da minha idade (...) são é uma assistente social MAS ela é formidável sabe?
Inf passamos uma noite nós fomos a um restaurante há:: ... numa região de mas é uma região muito típica italiana (...)
L1 aprender a se defender né? Doc é claro... ma(i)s voltando ainda aos móveis é... a:: a estrutura física (...)
A B C
1
1
5 5
1
1
1
1
1
B
1
1
1
2
2
2
1
C
B/C G
5
5
5
5
5
A
Outro marcador Natureza enunc. escopado
0
0
0
0
0
0
0
D
0
0
0
0
0
0
1
E
Variáveis
2
2
2
0
0
0
3
F
0
6
6
6
6
1
1
G
B/C
G
Pesquisa Complementar
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
Quadro 5-A Funções
Outras/variáveis
Pesquisa Compl.
B
C
D
E
F
G
5
1
1
0
1
3
1
1
1
0
0
0
3
1
1
0
0
0
6
103
1
1
1
0
2
1
104
1
2
0
1
1
1
105
1
2
0
0
0
1
106
1
2
0
0
0
6
107, 108
1
1
1
0
0
1
109, 112
1
1
1
0
0
6
110
1
1
0
0
0
1
113, 114
1
1
0
0
2
6
115
1
2
0
0
2
6
116
1
1
0
0
2
0
117
1
1
0
0
0
2
118
1
1
0
0
2
1
119
252
B/C
Nº das Ocorrências
A
Subt. Total
%
19
100,00
G 101 b
102,111
253
142
113
232
147
256
222
D2/RJ-355
EF/RE-337
D2/SP-360
010
196
200
085
241
146
DID/SP-234
E570
D2/SA-098
219
222
EF/RE-337
290
136
113
132
D2/SP-360
Nº de Linha / Token
293
142
120
Dados do Projeto NURC
134
Nº Inq. Pesq. Básica
Nº de Ordem
Formas: não é verdade?, não é? / num é?, né?
Quadro 6 ANÁLISE
L2
Inf
L1
Doc
L1
Inf
Inf
L2
Loc/ Doc/ Inf.
Variáveis: D Sobreposição E Pausa
F G
L2 (...) então deu quarenta e, quarenta e poucos por cento né? não tenho bem idéia mas (...)
né?
Inf (...) então ... essas... são as três.. num é? perspectivas ... elas são (...)
num é?
L1 (...) é supervisora nata é assim... ah... toma conta... precocemente não? das:: atividades dos irmãos (...)
Doc eu acho que foi Casa de Bonecas não? Inf foi... com quem foi Casa de Bonecas?
não?
L1 (...) Porque geralmente as estradas melhores são de tráfego mais... pesado não é? L2 Bom, mas você.. você viu (...)
2
2
2
2
2
2
2
2
A
Outro marcador Natureza enunc. escopado
Inf (...) nós poderíamos sim distinguir esses ... a legal... não é? e a sociologia do direito (...)
Inf (...) bem nós VA:MOS não é admitir... aqui... em aula... que: existe (...)
não é
L2 (...) lá lá em casa é tudo em função de horário... Doc ahn ahn L2 ... não é verdade? então eles são (...)
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno
não é verdade?
A B C
3
2
2
3
3
2
2
3
B
2
2
2
3
3
2
2
2
C
B/C G
0
0
0
0
0
0
0
0
D
0
0
0
0
0
1
0
1
E
Variáveis
0
0
0
0
2
0
0
1
F
1
1
1
2
1
1
1
1
G
B/C
G
Pesquisa Complementar
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
Quadro 6-A Funções
Outras/variáveis
Pesquisa Compl.
A
B
C
D
E
F
G
2
3
2
0
1
1
1
B/C
Nº das Ocorrências
Subt. Total
%
G não é verdade? 120 V. é verdade (FB) não?
2
3
3
0
0
0
2
2
2
0
0
0
1
147
146
3
3
1
0
0
1
148, 149
4
100,00
26
100,00
não é?, num é? 2
3
2
0
3
0
1
121
3
2
0
0
0
1
122, 125, 137, 255
3
2
0
2
0
1
123
3
2
0
3
1
0
124
2
2
0
0
0
0
126
3
2
0
0
2
1
127
2
2
0
0
0
3
128
3
2
0
0
3
1
129
2
2
0
0
0
1
130, 132, 254, 256
2
2
0
1
0
1
133, 134, 135
3
3
0
0
2
1
136
3
2
0
1
0
1
140
3
2
0
1
1
1
141
3
2
0
3
2
1
142
3
3
1
2
0
1
143
3
2
0
3
3
1
144
3
2
0
1
2
1
145 (131, 139, 253) não analisados né?
2
3
3
0
0
0
1
3
2
0
0
0
1
150, 162, 172, 233 151, 152, 155, 156, 158, 159, 165, 168, 170, 174, 188, 189, 190, 191, 200, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 209, 211, 213, 220, 221, 222, 223, 224, 234, 236, 237
3
2
0
2
0
1
153, 160, 161, 163, 164, 169, 182, 195, 197, 212, 232
3
3
0
0
2
1
154, 171, 179, 194, 208, 214, 235, 238, 243
254
2
2
0
2
0
1
157, 176
2
2
0
0
0
1
166, 186, 187, 201, 239
2
2
0
2
0
0
167
3
2
0
0
0
2
173, 216, 217, 218, 242
3
2
0
2
2
1
175, 196, 215, 228
3
3
0
0
0
2
177
3
2
2
0
2
1
178
(Continuação do Quadro 6-A)
3
2
2
0
3
0
0
180
3
2
0
3
0
2
181
3
2
0
3
0
1
183, 185
2
2
0
1
0
0
184
3
2
0
0
2
1
192, 198, 226, 231, 246
3
3
1
0
2
1
193
2
2
0
0
0
2
210
3
3
0
0
2
2
219
3
2
1
0
0
1
225, 244, 247
3
2
1
0
4
1
227
3
2
0
0
0
6
240
2
2
0
0
2
1
241
3
3
1
0
0
1
145, 250
2
2
1
‘0
0
1
248
2
2
0
3
0
1
249
2
2
0
0
0
1
251
3
2
0
1
2
1
252,
3
2
0
2
0
3
b
229, 230
100
98,03
2
1,97
255
Quadro 6 ANÁLISE Variáveis:
Formas: olha, olhe,vamos ver, veja, vem cá
D Sobreposição E Pausa
Outro marcador Natureza enunc. escopado
B/C G Variáveis
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
G
F G
F
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno
E
A B C
D
153
212
212
EF/POA-278
D2/RE-005
D2/RE-005
036
039
319
378
Inf
L1
que a gente possa dizer “olha ... se o desenvolveu NESTe sentido...“ (...) vamos ver Inf (..) simplesmente eu classifiquei mas eu isso não acontece quando se faz uma taxionomia então, vamos ver, vamos ajudando texionomia é uma classificação mas é mais do que (...) veja L2 (..) o povo vai ligar (...) pra Chico Buarque de Holanda Caetano ora se vai | não veja eu continuo achando viu? vem cá
L1
G
C
a
265
331
333
334
|
B/C
B
3
b
Pesquisa Complementar
A
0
3
Loc/ Doc/ Inf.
0
0
1
Nº de Linha / Token
0
0
0
1
Dados do Projeto NURC
1
0
2
2
1
Nº Inq. Pesq. Básica
1
1
0
0
0
1
Nº de Ordem
1 1
1
0
0
0
1
olha
1
1
2
1
0
0
1
Inf
6
2
2
0
2
0
157
1
2
2
1
0
151 DID/POA-045
1
2
1
1
257
1
1
1
Doc Não gosta de jogo? Inf Olha, eu gostode jogo de carta né? ... mas Doc Que tipo de jogo? Inf Olha, só sei jogar buraco (...)
L2 (...) eu não ligo ((TV)) porque ( ) | na minha opinião L1 é o teatro vem cá eu eu impugno... acho (...)
1
1
Inf (...) então... não é uma história ligadinha
L2 não é ruim não eu acho que não | L1 vem cá ... não adianta se dizer (...)
1
Inf
L1
pois eu gosto dele vem cá vou dizer mais uma coisa a você...
159
L1 L2 L1
EF/SP-405
426 L1
143
335 430
258
336
256
Quadro 7-A Funções
Outras/variáveis
Pesquisa Compl. B/C
Nº das Ocorrências
Subt. Total
%
A
B
C
D
E
F
G
G
1
1
1
0
0
0
3
a
257, 259, 264
1
1
0
0
0
3
b
258
1
2
0
3
1
1
1
2
0
0
2
3
1
2
0
0
0
1
1
2
0
0
0
3
1
2
0
0
0
0
268
1
2
0
1
0
1
269
1
1
0
0
0
0
270
13
1
1
0
2
0
1
265
1
7,14
14
100,00
Total
2
100,00
Total
1
100,00
Total
3
100,00
olha, olhe
6
260 b
261 262, 263, 266
b
267
Total
92,86
vamos ver 1
2
2
0
0
2
1
331
2
2
0
0
0
1
332 veja
1
2
2
1
0
0
1
333 vem cá
1
2
2
0
0
0
1
334
1
1
1
2
0
1
335
1
1
1
0
0
1
336
257
Quadro 8 ANÁLISE Formas: pois é, sei, sim
Variáveis: A B C D Sobreposição E Pausa
Outro marcador Natureza enunc. escopado
B/C G Variáveis
Pesquisa Complementar Pesquisa Complementar
G
F G
F
Ocorrências e contexto
Funções Posição/frase Posição/turno
E
L1
L2 (...) então ontem já começou a | sei ah é? ah apareceu um negócio L1
B/C
D
017
sei D2/RJ-355
sim
232
381
359
237
298
D2/SP-360
D2/RE-005
Doc
212
142
G
Pesquisa Complementar
C
pois é
B
Loc/ Doc/ Inf.
A
Nº de Ordem
Nº de Linha / Token
b
Dados do Projeto NURC
1
d
Nº Inq. Pesq. Básica
2
0
c
L1
2
2
1
d
E 456
1
0
2
1
d
D2/SA-098
1
1
0
0
1
d
222
1
1
0
0
2
1
271
4
1
4
1
0
1
L1 (...) chamam até de Vitória-Minas. Pois é (superp.) é uma viagem de ida muito interessante (obs.: faltam dados para a análise)
4
4
1
0
0
Doc
4
1
1
0
027
297
4
1
1
DID/RJ-328
DID/SA-231
L2 (...) eu tenho assistido ou ouvido coisas notáveis de Dom Helder no programa das seis horas da manhã | | L1 é óbvio sim que é que tem isso? L2 verdadeiras lições de vida
4
1
131
121
L1
L2 (...) porque a televisão é tempo caro depende de ... patrocionador L1 sim e que tem isso? L2 ora então até para patrocinador (...)
4
300
273
L1
L1 (tempo) suficiente (né?) de repouso L2 ah sim sete sete e meia que sois e meia da manhã (...)
Inf (...) praticarem... a natação... tanto é bom pra saúde quanto pra defesa né? | Doc pois é .... claro Inf aprender a se defender né?
L2
Inf (...) eu geralmente levo maçã... Doc sei Inf sabe? eu gosto muito de maçã
302
303
304
258
ASPECTOS TEXTUAIS-INTERATIVOS DOS MARCADORES DISCURSIVOS DE ABERTURA BOM, BEM, OLHA, AH, NO PORTUGUÊS CULTO FALADO
Mercedes Sanfelice Risso (UNESP/Assis – CNPq)
Apresentação O acompanhamento dos inquéritos do Projeto NURC (Br.), que fazem parte do corpus mínimo compartilhado estabelecido para a elaboração de uma gramática referencial do português culto falado, permite atestar a presença de procedimentos diversificados de abertura de unidades textuais, de dimensão e natureza variadas. Trata-se de procedimentos em geral polivalentes que, embora comumente associados à função de abertura, nem sempre a exercem em caráter permanente e exclusivo. Entre eles, constam, por exemplo: – recursos variados de tematização, aplicados à apresentação de um quadro de referências para o que vai ser dito a seguir (“... depois o café :: em casa o café é muito demorado ... muito complicado (...)” – SP-360, l. 311-312); – advérbios modalizadores, com forte propensão, dentro de sua variabilidade posicional, para aparecerem à margem esquerda dos enunciados, traduzindo a avaliação do locutor sobre o fato asseverado (realmente, certamente, naturalmente, logicamente...); – enunciados oracionais mais ou menos formulaicos, configuradores do ponto de vista dentro do qual um conteúdo subseqüente é abordado (eu tenho a impressão de que, eu penso que, eu acho que...); – formulações metadiscursivas, referidas à atividade verbal que fundamenta o desenvolvimento do tópico ou segmento de tópico dado a seguir 259
(pergunto a você o seguinte, uma última coisa que eu gostaria de dizer é ..., vamos agora entrar com a parte bem prática); – marcadores discursivos (bom, bem, olha, ah, agora, é o seguinte, quanto a, para começar, primeira coisa, primeiro ponto, e tem mais ...), que encerram em si uma espécie de ato preparatório de uma declaração seqüente. Considerando-se o plano específico dos marcadores (doravante designados como M. ou M.D.), serão objeto de exame neste trabalho as quatro primeiras unidades citadas: bom, bem, olha, ah. Essas unidades destacamse conjuntamente em relação às demais, por apresentarem em comum a propriedade reiterante de iniciarem turnos de resposta, em estruturas de pares conversacionais adjacentes, nos textos analisados e, portanto, por serem veículos de uma seqüencialização dependente do contrato de interlocução que propiciam. Estabelece-se, assim, o primeiro contexto de ocorrência dos referidos M., participantes de uma estrutura seqüencial interativa, em que os turnos de pergunta e resposta, reciprocamente interdependentes e atados por uma relação de relevância condicional (Schegloff, 1972), denunciam o envolvimento mútuo dos locutores, no evento discursivo. A articulação das duas partes constitui um esquema bastante reincidente: no turno da pergunta, observa-se com freqüência, mas não invariavelmente, o M. e, a abrir a proposição de um novo tópico que o locutor, geralmente documentador, pretende ver abordado pelo parceiro na seqüência discursiva. No início do turno resposta, ora o M. bom, ora bem, ah ou olha, a definirem a reação imediata ao esquema enunciativo envolvido no turno precedente e, portanto, a “atitude responsiva ativa” (Bakhtin, 1992) do interlocutor, para o atendimento do que lhe foi solicitado1: (1) 317 Doc -
E como passavam o dia?
318 Inf -
Olha eu era tão pequena sabe que eu já não me lembro disto...
319
O que é que a gente fazia? A gente andava pra... por aqui,
320
por ali ... mas o que a gente fazia mesmo eu não ... posso dizer. (DID-POA-045)
260
(2) 162 Doc -
e como é que a senhora Acha que é elaborada uma peça de
163
teatro antes dela ser apresentada?
164 Inf -
ah aí você pegou porque eu não sei como é
165
elaborada? ... deve ser como na televisão eles preparam
166
o o o::... o a peça ... e:: devem dividir o o os ... o o as
167
partes para os artistas deve ter um ensaio meDOnho aquilo
168
deve ser cansativo horroROso (...) (DID-SP-234)
(3) 11
L2 -
Qual é o pior ... horário ... dessa saída da cidade ... de manhã?
12
L1 -
Bom ... o pior horário ... de saída ... da cidade de manhã ...
13
L2 -
fica mais ou menos entre seis e oito horas né?
14
L1 -
não de seis ainda sai bem ... mas entre sete ... até umas:
15
oito e meia ... é a pior ... hora de saída ... (D2-SA-098)
(4) 221 I.L.A. - daí é que vem minha 222
pergunta porque que: o experimento em laboratório... é
223
mais válido do que experimento “in loco?”
224 Inf. -
bem... o de laboratório é mais válido João... sempre
225
que você pode fazer porque normalmente é difícil você
226
fazer o experimento de laboratório... é mais válido...
227
porque você... tem o homem como se o homem estivesse...
228
despido... de ideologia... de sua cultu:ra... de seu:
229
sentido... de religiosidade... tanto quanto possível
230
é claro... (EF-Rec.-337)
261
Esse traço básico de intersecção entre os quatro M. carreia também uma conseqüente identidade entre eles, pelo vínculo comum que apresentam com a dialogicidade, em sentido restrito, ou seja, com a interlocução ativa relacionada à dinâmica de alternância de turnos, na interação face a face. A aplicação dos referidos M. às aberturas de turnos na segunda parte de pares adjacentes e as particularidades interacionais e articulatórias carreadas nesse processo constituem, assim, a motivação inicial do presente estudo e, portanto, um dos pontos de abordagem neste trabalho. A exploração do corpus revelou, entretanto, que a atuação dos M. em questão não fica restrita a esse esquema estrutural de intermediação do par pergunta/resposta. Estende-se também a outros enquadramentos, podendo-se verificar seu emprego em processos de abertura, de um modo mais geral: abertura de tópicos, coincidentes ou não com o início de turnos; abertura de segmentos intratópicos, delimitando a introdução de pequenos passos na evolução da informação, dentro de um mesmo ponto global de centração tópica. Assim, uns mais, outros menos, encabeçam, no decorrer do tópico, operações de exemplificação, de citações, de reintrodução de uma seqüência expositiva temporariamente suspensa, de movimentos argumentativos de ressalvas, concessões, entre outros aspectos. Ao mobilizarem essas diferentes instâncias de abertura no plano da informação, a posição ocupada pelos M., relativamente às unidades do tópico e do turno, define-se, pois, como inicial ou intermediária. É, entretanto, invariavelmente inicial a posição que ocupam relativamente às unidades frásicas que dão corpo às operações a que acabamos de nos referir. Esta constatação permite, pois, assegurar o teor de abertura atribuído aos M., mesmo quando ocorrentes em posição intratópica ou intraturno, casos em que a abertura será compreendida relativamente a aspectos novos de uma informação já parcialmente desencadeada. As circunstâncias acima referidas apontam para a questão da unidade de análise a ser tomada como base para a observação dos aspectos funcionais variados das ocorrências. Dada a incidência de todos os aspectos no tecido informativo do texto, o tópico discursivo, conforme definido em Jubran, Urbano et alii (1992), destaca-se naturalmente como coordenada central de observação, suficientemente abrangente para viabilizar o exame das diferentes aplicações dos quatro M. O recorte dessa unidade global de análise não exclui a tomada de unidades de diferente natureza, atinentes a outras formas de organização mais local do texto 262
falado, como o turno, os pares adjacentes, ou a própria frase, a serem vistas sempre na sua relação com a estruturação tópica. O corpus que serve de base para a investigação do comportamento das formas selecionadas envolve, como modalidades de inquérito, elocuções formais (EF), diálogos entre informante e documentador (DID) e diálogos entre dois informantes (D2), do Projeto NURC-Br, assim codificados: EF
DID
D2
Salvador (Sa)
049
231
098
Porto Alegre (Poa)
278
045
291
Recife (Rec.)
337
131
05
Rio de Janeiro (RJ)
379
328
355
São Paulo (SP)
405
234
360
Investigam-se quinze minutos de cada gravação, perfazendo um total de 225 minutos. A linha textual-interativa é assumida, como expressão da adoção de uma concepção de texto nitidamente firmada na perspectiva sócio-comunicativa, que aponta não só para os aspectos cognitivo-informativos contidos no produto lingüístico e nas partes de sua estrutura, mas também para a compreensão desse produto como algo que congrega e sinaliza os interlocutores, o processo de produção e interação (Koch et alii, 1993). O tratamento dos M. bom, bem, olha, ah permitirá, com especial evidência, revelar essa inscrição do processo formulativo e interacional na materialidade lingüística do texto, uma vez que se firmam claramente como sinalizadores pragmáticos do monitoramento local do texto falado e das relações interlocutivas responsáveis por sua co-produção dinâmica e emergencial. Na sua condição de M., estabelecem-se como embreadores dos enunciados com as condições da enunciação, apontando, portanto, para as instâncias produtoras do discurso e definindo a relação dessas instâncias com a estruturação textual-interativa. Na busca de aspectos sintagmáticos da organização particular do texto falado, assim compreendido como algo simultaneamente estruturado e emergente, a análise procurará examinar as regularidades de ocorrência dos M., a partir da observação de sua recorrência em contextos definidos e da qualidade do preenchimento conjunto de funções interacionais e articuladoras que se vão manifestando ao longo da construção textual. 263
O trabalho está dividido em três partes. Uma primeira, introdutória, tem uma tônica teórico-conceitual, ao centrar-se na delimitação da natureza da classe dos M. Nela são registrados, na pista de pesquisa anteriormente desenvolvida (Risso, Silva e Urbano, 1996), os traços básicos definidores dos M.D., de modo geral (1.1), como suporte para o enquadramento subseqüente de bom, bem, olha e ah, relativamente aos traços categoriais apurados (1.2). A segunda parte detém-se na análise qualitativa das funções textuais dos quatro M., com centração nos aspectos da orientação interacional e da articulação de segmentos do texto, detectados no tratamento do corpus. Após estabelecimento de um dado de análise preliminar (2.1), parte-se para a apreensão de características relacionadas à atuação desses M. em estruturas de pares adjacentes com pergunta/resposta (2.2), que correspondem a 42,18% das ocorrências levantadas. Posteriormente (2.3), estende-se o campo de observação para outros contextos, dissociados da correlação pergunta/resposta, os quais perfazem, no corpus examinado, um conjunto de 57,82%. Em forma de considerações finais (3), é feita uma rápida síntese retrospectiva de alguns aspectos examinados (3.1), e são apuradas diferenças gerais, de ordem tipológica, entre as classes de inquéritos investigados, no tocante a tendências básicas observadas no uso dos quatro M. (3.2).
1. Introdução 1.1 Marcadores Discursivos: Assentamento de Traços Definidores O assentamento de traços definidores dos M.D., tendo em vista a delimitação de seu estatuto face a outros elementos discursivos que deles se avizinham, constituiu objeto de consideração pormenorizada em trabalho conjunto anterior (Risso, Silva e Urbano, 1996). Uma das constatações feitas no processo de investigação das propriedades gerais dos M.D. foi a de que estes se definem por matrizes de traços mais ou menos constantes a eles aplicáveis. A apuração das matrizes básicas de traços decorreu, na referida pesquisa, da consideração de diferentes variáveis, e do exame das formas de enquadramento das ocorrências no elenco de alternativas previstas no interior de cada variável2. As freqüências obtidas, reveladoras das regularidades ou tendências de enquadramento dos exemplares, forneceram indicações sobre aqueles que podem ser considerados como traços fortes na compreensão do que venham a ser os M. Os elementos apurados apontam para uma concepção básica de M. como elementos: 264
a) altamente recorrentes no espaço textual (na variável 1, referente ao padrão de recorrência dos M., a maior freqüência recaiu sobre o traço 3 (recorrência alta)). b) atuantes no plano da organização textual-interativa, com tônica funcional na articulação entre segmentos textuais (variável 2 (função articuladora) = traço 1 (articulador tópico)), ou na sinalização das relações interpessoais (variável 3 (orientação para a interação) = traço 2 (basicamente orientado para a interação)). A projeção da função articuladora é quase regularmente equilibrada com o menor peso do fator interacional. E, em contrapartida, o estabelecimento focal da interação corresponde, quase sempre, a uma diluição do papel articulador. Essa constatação permite apurar, no que diz respeito às variáveis 2 e 3, as seguintes associações de traços complementares contrabalanceados: Var. 2 (articulação de segmentos do discurso)
1 (articulador tópico)
Var. 3 (orientação para a interação)
0 (fragilmente interacional)
T ex.: então R 1 (articulador tópico)
1 (secundariamente interacional)
A ex.: agora Ç 0 (não seqüenciador)
2 (basicamente interacional)
O ex.: certo? né? S
A possibilidade prevista pela combinação cumulativa 1 (articulador tópico) + 2 (basicamente interacional) é atestada em ocorrências esporádicas de M. c) exteriores ao conteúdo informativo dos tópicos ou segmentos de tópicos (variável 4 (relação com o conteúdo proposicional ou tópico) = traço 1 265
(exterior ao conteúdo)). Entretanto, asseguram a ancoragem pragmática desse conteúdo, ao definirem, entre outros pontos, a força ilocutória com que ele pode ser tomado, as atitudes assumidas em relação a ele, a checagem de atenção do ouvinte para a mensagem transmitida, a orientação que o falante imprime à natureza do elo seqüencial entre as unidades textuais. Codificam, portanto, no dizer de Fraser (1990), uma informação pragmática; d) não totalmente transparentes do ponto de vista semântico-referencial, em decorrência de uma espécie de cristalização de semas e acomodações de significados à sinalização de relações no espaço discursivo (variável 5 (transparência semântica) = traço 1 (transparência parcial)). e) de pouca ou nenhuma variação fonológica, flexional ou sintática: a ausência ou a reduzida proporção das variações e/ou elaborações, observadas em poucas formas variantes, (Ex.: né ~ não é; olha ~ olhe; entende ~ entendeu), atesta para os M. a sua condição de fórmulas mais ou menos fixas, já prontas para serem automaticamente usadas no discurso (variável 6 (apresentação formal) = traço 1 (forma única) ou 2 (forma variante)). f) independentes do ponto de vista sintático, isto é, sem integração sintática na estrutura oracional em que se alocam (variável 7 (relação sintática com a estrutura oracional) = traço 1 (sintaticamente independente)). g) realizados, na maior parte das vezes, com o acompanhamento de uma pauta prosódica demarcativa, ora bem definida – em ocorrências delimitadas por nítida curva entonacional, com rebaixamento de tom no final da unidade –, ora bastante sutil (variável 8 (demarcação prosódica) = traço 1 (com pauta demarcativa)). h) insuficientes para constituirem enunciados completos por si próprios: na condição de sinalizadores de aspectos da estruturação textual-interativa, os M. são, do ponto de vista comunicativo, unidades não-autônomas, diferenciando-se, nesse ponto, mas não somente nele, das interjeições, dos vocativos, das palavras-frase (variável 9 (autonomia comunicativa) = traço 0 (comunicativamente não-autônomos)). i) reduzidos, em sua massa fônica total, a um limite de até três sílabas tônicas (variável 10 (massa fônica) = traço 1 ( até 3 sílabas tônicas)), o que, do ponto de vista da constituição léxica, significa uma extensão reduzida a 1, 2 ou, no máximo, 3 palavras. O envolvimento de maior número de unidades léxicas ou de sílabas tônicas, na constituição de um possível MD, implicaria, normalmente, um grau maior de elaboração sintática e de transparência semântico-referencial, que parece pouco compatível com o caráter mais formulaico característico de sua composição. 266
Da soma de traços fortes (mais freqüentes) assim estabelecidos dentro das variáveis investigadas, decorrem combinatórias básicas que permitem avaliar o padrão de prototipicidade dos MD, conforme sua amoldagem parcial ou total às seguintes configurações: Variáveis →
Traços
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
3
1
0
1
1
1|2
1
1
0
1
3
1
1
1
1
1|2
1
1
0
1
3
0
2
1
1
1|2
1
1
0
1
A aplicação dessas matrizes, longe de ocorrer de forma monolítica e absoluta, realiza-se numa margem relativamente flexível de oscilações, dentro da qual é possível situar a classe dos M.D. Em razão, pois, de sua própria condição de mecanismos discursivos, os M., mesmo que admitam traços mais ou menos regulares, que definem o seu estatuto, não chegam a constituir uma classe discreta e absolutamente homogênea. A possibilidade de desvios em um ou outro ponto das combinatórias apuradas não acarreta, necessariamente, a eliminação de ocorrências, com pequenos traços desviantes, da classe dos M.D. A afirmação não se aplica, porém, às variáveis 4, 7 e 9, cujos traços 1, 1 e 0 – que definem, respectivamente, a exterioridade dos MD em relação ao conteúdo proposicional e tópico, a independência sintática e a falta de auto-suficiência comunicativa – estabelecem-se como configuração “sine qua non” da condição de M. Esses traços são sempre estáveis e formam, juntamente com a já referida distribuição de funções entre os aspectos da articulação tópica e da orientação da interação, das variáveis 2 e 3, um núcleo piloto essencial para um reconhecimento inicial do estatuto de marcador, mas nem sempre suficiente para a sua segura delimitação relativamente a outros mecanismos discursivos que lhe são limítrofes. Constitui um importante complemento, na configuração geral da classe dos M., a forma de preenchimento de traços, nas demais variáveis (mencionadas em a, d, e, g e i), dentro de limites de flexibilidade mais ou menos previsíveis e descritíveis. A aplicação da rubrica de MD a formas que não preenchem uniformemente toda a seqüência de traços fortes detectados e que, portanto, não apresentam em bloco todas as propriedades das matrizes-padrão, manifesta a concepção de uma classe gradiente, própria de configurações discursivas. Tería267
mos, segundo essa concepção, um continuum, característico de uma série em movimento, com elementos mais típicos e mais modelares – que incorporam de modo uniforme e integral os referidos traços de uma das matrizes-padrão– e elementos menos típicos e modelares – que manifestam esses traços de modo mais ou menos parcial e diversificado. Essa diversificação se dá dentro de uma margem relativamente controlável quanto ao(s) ponto(s) de sua incidência e quanto à proporção da manifestação desviante, a qual, de modo geral, não ultrapassa dois pontos de uma das matrizes.
1.2 Posição dos Marcadores em Estudo no Continuum de Traços Definidores de Marcadores Discursivos O exame do subgrupo das unidades em estudo, à luz do assentamento de traços-padrão definidores da classe dos MD, permite atribuir com segurança a todas elas a condição de marcador. Permite também situá-las no referido continuum que vai dos M. mais prototípicos aos M. menos prototípicos, conforme a configuração das matrizes de traços apuradas no enquadramento textual das ocorrências. A análise empreendida em cada uma das 64 ocorrências das formas em estudo define para estas a constituição das seguintes combinatórias de traços mais freqüentes: 3
Variáveis
1
2
3
4
5
6
7
8
9 10
Traços
3
1
1
1
1
1
1
1
0
OLHA
Variáveis
1
2
3
4
5
6
7
8
9 10
(OLHE, Ó)
Traços
3
1
2
1
1
2
1
1
0
BOM BEM
1
AH
1
As duas matrizes acima acusam a estável preservação dos referidos traços básicos do núcleo piloto, invariavelmente assumidos por toda e qualquer unidade com formato de M. Estamos, com efeito, diante de unidades exteriores a conteúdos proposicionais ou tópicos, sintaticamente independen268
tes e insuficientes para constituirem enunciados completos por si próprios (cf. a regularidade dos traços 1, 1 e 0, na variáveis 4, 7 e 9). Além disso, observamse as formas especificadas de preenchimento das funções textuais, que se definem pela expressão da seqüencialização tópica e/ou manifestação das relações interacionais, igualmente típica da categoria dos M.D. (cf. traços especificados, nas variáveis 2 e 3). Essas constatações, somadas à observação da qualidade de preenchimento das demais variáveis complementares (1, 5, 6, 8 e 10), permitem concluir, em confluência com o assentamento feito no item 1.1 deste trabalho, que: a) bom, bem e ah enquadram-se perfeitamente no conjunto de M. prototípicos, ou seja, no rol de M. que assumem integralmente traços-padrão identificadores da prototipicidade da classe. Como tal, definem-se e identificam-se entre si, na seqüência das variáveis, por um padrão alto de recorrência, pela condição de seqüenciadores tópicos, em princípio não orientados, de forma dominante, para a interação, exteriores aos conteúdos tópicos ou proposicionais, parcialmente transparentes em relação ao adjetivo, advérbio e interjeição homônimos, sistematicamente representados por suas respectivas formas únicas e invariáveis, sintaticamente independentes, prosodicamente demarcados, sem autonomia comunicativa e de massa fônica reduzida. O componente interacional, inerente às funções textuais de todos os M., e dos mecanismos discursivos em geral, é visto como um fenômeno graduável no evento discursivo e a sua dimensão não se estabelece de forma estanque e absoluta. A eventual projeção de um aspecto interpessoal de confronto de opiniões e pontos de vista, na dinâmica das relações textuais, pode envolver os três M., em princípio não definidos por um grau denso de evocação do quadro interacional, na expressão mais direta do movimento interlocutivo – o que acaba conferindo a eles, em algumas de suas ocorrências, o feitio característico de unidades mais fortemente interativas. b) olha: incorpora características de quase prototipicidade, afastandose apenas das configurações do modelo-padrão e mais freqüente de M., pela projeção cumulativa da função seqüenciadora com a de unidade basicamente mobilizada para a interação, ou seja, para a explícita remissão do falante ao ouvinte. Essa cumulação, que na verdade é expressão do forte valor funcional desta forma, não integra a matriz prototípica da classe dos M., por ter sido encontrada em ocorrências esporádicas. Também diferentemente de bom, bem e ah, este M. submete-se a uma pequena variação formal, prevista entre os 269
traços-padrão, concretamente realizada no corpus em estudo como: olha ~ olhe ~ ó (cf. traço 2, na variável 6).
2. Desenvolvimento (funções textuais-interativas) 2.1 Dado Preliminar Reconhecidas, em linhas gerais, a condição de M.D. prototípicos ou bastante próximos da prototipicidade das formas em pauta, cabe examinar de perto as particularidades articulatório-interacionais que assumem no interior do texto, ao sinalizarem diferentes instâncias de abertura na tessitura textual da informação. O destaque dessas particularidades permitirá mostrar, paralelamente às identidades entre as quatro formas, no desempenho da função geral de sinalização do processo de abertura, na estrutura do fluxo informacional, alguns pontos de especificidade quanto aos seus contextos de preferência, suas dimensões argumentativas, seus direcionamentos interacionais. No tocante a essas especificidades, o dado preliminar que o contato com os fatos permite levantar é o de que os M. em questão deixam transparecer traços sêmicos e funcionais diferenciados, como manifestação sutil de seu vínculo igualmente diferenciado com os correspondentes itens lexicais, sem estatuto de M., que lhes servem de base, ou seja, com as expressões homônimas em formato categorial de adjetivo (bom), advérbio (bem), verbo (olha) e interjeição (ah)4. Neste particular, destacam-se, no funcionamento textualinterativo de cada um dos M. em estudo, nuanças individuais do fenômeno geral de acomodação de traços sêmicos para a sinalização de relações dentro do espaço discursivo. Assim, por exemplo, as passagens (1), (2), (3) e (4), dadas no início deste trabalho, permitem qualificar de antemão essa diferença: No caso de olha, visível em (1), o conteúdo do turno-resposta é dirigido diretamente para o interlocutor, cuja participação é requerida, o que confere ao M. o referido teor de unidade basicamente orientada para a interação (Cf. atrás, análise feita em 1.2). A tendência para a cristalização semântica, comum nos M., define aí um apagamento da referência literal à atividade de fitar a vista em algo, típica do verbo. No estatuto discursivo do M. em questão, essa referência à ação visual aparece remanejada para a expressão de uma outra espécie de envolvimento sensorial-cognitivo, proposto ao ouvinte em forma de um chamado de sua atenção para a declaração superveniente, no citado fragmento. Decorre daí o forte estatuto interacional desse M., como uma pre270
servação do foco na segunda pessoa, típico da modalidade deôntica da forma verbal de origem. A presença do M. sabe, co-ocorrente na referida passagem transcrita, é uma confirmação a mais da orientação da fala ao interlocutor. Ah, em (2), aparece no início da fala da informante, sinalizando a abertura do canal comunicativo e o comprometimento com a resposta, embora o rumo desta seja ainda ignorado quanto a o que dizer e como dizer, conforme atestam os preâmbulos subseqüentes e as modalizações das afirmações aí inscritas. Diferentemente de olha, este M. deixa de apontar diretamente para o parceiro do diálogo, manifestando, por isso, um grau interacional mais brando. O seu foco específico incide preponderantemente, e mais freqüentemente, no próprio locutor, definindo sua reação pessoal ao teor da pergunta ou afirmação precedente, numa sensível adaptação, à expressão das relações textuais, do extrato semântico-discursivo da interjeição homônima. Bem e Bom, em (3) e (4), têm sua orientação direcionada fundamentalmente para a informação a ser provida pelo locutor, o que define seu compromisso básico com a “estrutura ideacional” do discurso (Halliday, 1976), sem prejuízo de sua participação na conformação do quadro interlocutivo que envolve os participantes. Deixando transparecer parcialmente os semas de atribuição qualitativa própria dos respectivos predicadores homônimos, em estatuto de advérbio e adjetivo, os dois M. assumem, no âmbito textual, a propriedade geral de traduzirem a predicação em formato de uma avaliação positiva que o locutor faz do momento interlocutivo como adequado para o desencadeamento do tópico ou de um aspecto informacional em seu interior. A abertura desse tópico vem, geralmente, em feitio de um ato discursivo preliminar, destinado a definir o novo passo, a corrigir alguma direção da pergunta ou da declaração do parceiro e, assim, compor um quadro de referência dentro do qual o que segue tem validade. Em síntese, a idéia básica decorrente dos elos referenciais com as instâncias homônimas, assim estabelecidos, é a de que os quatro M., nas aberturas que promovem, recortam diferentemente o campo textual-interativo, apontando o seu foco predominantemente para a primeira pessoa (ah), para a segunda (olha), ou para o plano de uma “não-pessoa” (Benveniste, 1976), correspondente ao próprio assunto ou tópico em centração (bom, bem). Evidentemente, pressões contextuais, nascidas do próprio andamento das relações discursivas, podem interferir nesses valores sêmicos básicos, modificando e neutralizando as diferenças assim estabelecidas. As expressões e deslocamentos desses traços gerais serão objeto de consideração a seguir, na 271
descrição funcional das quatro unidades, em seus particulares enquadramentos estruturais.
2.2A Abertura de Turnos em Pares Adjacentes de Pergunta e Resposta A presença dos M. em estruturas de pares adjacentes define sua participação em um aspecto de organização local do texto falado, com implicações simultaneamente seqüenciais e interacionais, dignas de nota. Do ponto de vista da estrutura seqüencial, atuam como pistas da articulação de dois turnos interdependentes e, portanto, como sinalizadores do desenvolvimento iminente, no segundo turno, do ponto tópico relevante antecipado no primeiro, constituindo-se, no conjunto, uma parcela de construção coesa e coerente do texto falado. Do ponto de vista interacional, são marcas concretas da dialogicidade entre locutores, indiciadoras da predisposição imediata daquele que responde apara o atendimento da expectativa daquele que pergunta, cumprindo-se, na soma de ações coordenadas, uma interação verbal centrada. Confirma-se, nessa simultaneidade de campos de atuação, a multifuncionalidade destacada por Marcuschi (1989) como uma das características dos M., de modo geral. Mas a atitude responsiva sinalizada pelos M., logo na abertura do segundo turno, nem sempre implica o desenvolvimento imediato do tópico que o primeiro turno propõe. O exame da constituição do par conversacional pergunta/resposta, em corpus do Projeto NURC, revela que os locutores, com alguma freqüência, reagem a questões que lhes são dirigidas recorrendo a respostas prefaciadas, que adiam o atendimento imediato do ponto relevante da informação suscitada pelas perguntas dos interlocutores. A investigação desse aspecto e do acionamento constante dos quatro M. na abertura dos segmentos preambulares envolve três questões básicas a serem elucidadas, atinentes: a) ao tipo da pergunta que favorece o aparecimento dos M. abrindo respostas prefaciadas, em contrapartida ao que os desfavorece; b) aos aspectos textuais-interativos dos M., na intermediação do par pergunta/resposta e a sua repercussão na identidade funcional dos preâmbulos; c) às constantes formais tipificadoras dos segmentos prefaciadores. 272
O exame do corpus revelou o elo dos M. não propriamente com as interrogações globais que, centradas na relação de predicação, afetam todo o enunciado e suscitam em geral respostas mais breves, de teor afirmativo ou negativo. O vínculo maior apurado foi com as interrogações parciais ou de instanciação, geralmente encabeçadas por pronomes e advérbios interrogativos (o que?, quais?, como?, quando?, por que?, quanto?), marcadores de tematização (e quanto a ...? e em relação a ...? ...), ou expressões solicitadoras de opinião (o que acha de?, na sua opinião...?, no seu ponto de vista ...?) que, em princípio, propiciam, como resposta, desenvolvimentos tópicos e posicionamentos que vão além de respostas lacônicas, ou de simples afirmação ou negação. Com efeito, do total de 27 pares de pergunta-resposta mediados pelo conjunto dos M. em estudo, 21 (77,78%) envolveram as interrogações parciais, instanciadoras de tópicos ou circunstâncias diversificadas, a respeito dos quais o depoimento do informante é solicitado5, e apenas 6 (22,22%) corresponderam às interrogações globais, observando-se, em relação a esses números, uma distribuição mais ou menos equilibrada de cada um dos quatro M. Também os dados do inglês revelaram a Schiffrin (1987), em seu estudo sobre a forma Well, que o uso desse M. em respostas é influenciado pela natureza da pergunta, ocorrendo mais freqüentemente a sua presença sempre que um conjunto mais amplo de opções de resposta está potencialmente previsto pelo teor da questão. O eventual desencadeamento dos M. em início de resposta a questões centradas no verbo, que normalmente poderiam ser respondidas de forma delimitada pela afirmação ou negação, acusa, em geral, aspectos argumentativos dignos de nota. Um deles é destacado por Lakoff (1973, apud Owen, 1981), a respeito da forma well em contextos que, no português, corresponderiam a: A - Você matou sua esposa? B - Bem, matei. Assim usado como prefaciador do que seria uma resposta direta, bem permite inferir que a informação está incompleta e que circunstâncias múltiplas associadas à morte da esposa deixam de ser mencionadas (op. cit, p. 107). Embora essa ocorrência seja detectável no português falado, o corpus pesquisado não acusou exemplos reveladores dessa sugestão de incompletude informacional sugestiva de uma admissão forçada de um ato, na resposta prefaciada por bem. Mas a abertura de resposta a perguntas que escapam ao pa273
drão mais geral das perguntas de opinião ou de instanciação de circunstâncias é aí realizada com outras implicações, por algumas ocorrências de M. Nesses contextos especiais de ocorrência, os M. aparecem geralmente neutralizando os extremos de uma resposta sim / não, ao desencadearem uma alternativa intermediária e/ou uma informação mais expandida, adequada a explicações e auto-posicionamentos perante o assunto. Bastam-nos duas amostras: (5) 228 L2
os outros mesmo não se incumbem de colocá-la no
229
lugar dela?
230 L1
bom... com uns TApas... às vezes ela se coloca
231 L2
ahn [
232 L1
mas com palavras ela não se coloca porque ela [
233 L2 234 L1
ahn aumenta a voz com os irmãos... não é?... (D2-SP-360)
(6) 185 Doc -
[o senhor nunca cozinhou nada?]
186 I1 -
Olha, eu me limito a faze(r) um bom, bom! Um churrasco
187
(superposição) churrasco. Mas eu posso fala(r) da, da experiência
188
engraçado, tem pessoas que tem um, um, um, em termos
189
gastronômicos um, um, uma, uma, um talento, uma habilidade,
190
impressionante, a minha avó era assim, ela qualque(r) prato,
191
podia se(r) o mais complexo, de gosto mais estranho ou exótico
192
possível, ela detectava tempero por tempero e depois reproduzia (...) (D2-POA-291)
Em (10), a simples presença do M. bom, abrindo a resposta, antecipa que esta não será dada em termos absolutamente positivos ou negativos (se 274
incumbem / não se incumbem), mas relativizados por explicações sobre as diferentes atitudes da filha autoritária (se coloca (no lugar dela) / não se coloca), em conformidade com as diferentes formas de reação dos irmãos (com tapas / com palavras). O mesmo aspecto geral da expansão de dados manifesta-se, com alguma particularidade, a partir de olha, na passagem (11). A pergunta do documentador, que potencialmente seria respondível em termos monossilábicos, é aí, concretamente, a deixa para que um dos informantes entre em cena e comece a falar em substituição ao outro que anteriormente ocupara boa parte do tempo dando explicações detalhadas sobre a receita de um prato. Assim entendida, a pergunta suscita, como resposta, uma longa manifestação, apenas parcialmente transcrita no recorte acima, a qual vai muito além da especificidade aparente do tópico proposto pelo documentador. O conhecimento de que suas falas estão sendo gravadas e, portanto, a consciência por parte dos informantes da necessidade de que sejam receptivos ao menor estímulo dos entrevistadores ou dos parceiros do diálogo, parece explicar os 22,22% de respostas expandidas e, com elas, os preâmbulos e a incidência dos M. de abertura de turno, em contextos onde normalmente não seriam esperados. A situação especial de entrevista permite, pois, ao documentador dar às vezes às suas perguntas o formato de interrogação global, sem correr o risco de obter estritamente respostas monossilábicas, centradas na simples confirmação ou não da predicação expressa pelo verbo da frase interrogativa. Assim identificado o tipo de pergunta mais favorável às respostas prefaciadas encabeçadas pelos M., resta uma segunda questão a ser examinada, quanto a diferenças semântico-funcionais que os individualizam, na intermediação do quadro seqüencial-dialógico em que atuam, com conseqüente diferenciação na qualidade dos segmentos de prólogo da resposta. As instruções textuais codificadas pelos M. permitem ver, na retenção do fluxo tópico carreada por esses segmentos preambulares, ora um espaço predominantemente informacional e argumentativo, para expressão de ressalvas e acertos de enfoques, pontos de vista e opiniões sobre o assunto colocado em pauta, ora um espaço sobretudo técnico e fático, para a manipulação da pergunta, na busca simultânea da manutenção de contato e de tempo para o planejamento e a formulação. Na sinalização de motivos de ordem mais claramente referencial e argumentativa, atuam com maior freqüência os M. bem e bom. Assim se dá, por exemplo, nas passagens (4) e (7), abaixo transcritas: 275
(4) 221 I.L.A. -daí é que vem minha 222
pergunta porque que: o experimento em laboratório... é
223
mais válido do que experimento “in loco?”
224 Inf. -
bem... o de laboratório é mais válido João... sempre
225
que você pode fazer porque normalmente é difícil você
226
fazer o experimento de laboratório... é mais válido...
227
porque você... tem o homem como se o homem estivesse...
228
despido... de ideologia... de sua cultu:ra... de seu:
229
sentido... de religiosidade... tanto quanto possível
230
é claro... (EF-Rec.-337)
(7) 279 Doc.
qual é digamos assim o esporte que você:: aconselharia (ao) tipo de criança
280
conforme... os primeiros anos do curso primário criança do curso secundário
281 L1
bom qualquer tipo de esporte é válido... viu? agora o esporte... que me-
282
lhor pro organismo... por causa de todos os músculos e (tu/) é a natação... (DID-Sa-231)
Observa-se que, em (4), a pergunta focaliza a causa da maior validade do experimento em laboratório e que a explicitação dessa causa só vem na resposta, a certa altura (l. 227 a 230), após um esclarecimento prévio que a professora julga necessário passar ao aluno (l. 224-226). Esse esclarecimento preliminar tem aí o teor de uma advertência ou ponderação contra a idéia, inferida na pergunta do aluno, de que o experimento laboratorial é facilmente operacionalizável em qualquer situação. O M. bem, logo na abertura do segmento-prólogo, ao mesmo tempo que sinaliza a atitude responsiva da professora perante ao aluno, antecipa um certo tom de reparo ou restrição confirmado pelo enunciado que precede a resposta propriamente dita. 276
A reparação da direção argumentativa manifesta-se em (7) com uma espécie de ressalva ao limite estabelecido pela pergunta do documentador, de indicação do esporte que seria aconselhado às crianças. Reagindo à pergunta, L1 primeiro generaliza (“bom qualquer tipo de esporte é válido ... viu?”), para somente depois entrar no ponto específico solicitado, e ater-se à consideração de apenas uma modalidade desportiva – a natação. A passagem põe à mostra o emprego de marcadores diferentes, na definição de direções argumentativas assim situadas: fazendo balanço com bom, que indica a intenção de ressalva com relação ao ponto de vista restrito da pergunta e que, portanto, prepara o terreno para a observação generalizadora do informante, entra, na segunda parte da resposta, o M. agora (l. 281), intermediando a volta para a operação delimitadora, num movimento de reajuste ao ponto específico de relevância tópica proposto no primeiro turno da seqüência. Exemplos como (4) e (7) revelam o envolvimento de bem e bom com um modo de a informante registrar seu ponto de vista sem ser contundente. Segundo Vicher e Sankoff (1989), essa peculiaridade de indiciar um ato de consentimento ou admissão de uma questão, sob certas restrições, faz de bem (diríamos também de bom) “uma partícula prototipicamente concessiva, que contém em si a insinuação de um desacordo dentro da expressão de um acordo básico”. (p. 92). A simultaneidade de pontos de vista, assim reunidos nesse ato enunciativo, torna ambos os M. essencialmente polissêmicos e argumentativos, na expressão verbal do jogo de representações e intenções estabelecido entre os interlocutores, e no confronto de opiniões sobre um detalhe do tópico em centração. A motivação de natureza predominantemente fática e formulativa, sustentando o adiamento da resposta, envolve, mais amiúde os M. de instanciação pragmática de primeira e segunda pessoas – respectivamente ah e olha – e, mais esporadicamente, bom. Desenvolve-se nessas circunstâncias, e a partir desses M., verdadeiros enchimentos verbais que funcionam fundamentalmente para manter o canal de interlocução em aberto, enquanto se procura o rumo da formulação a ser dada ao tópico. O esquema é recorrente nas entrevistas (DID), o que parece natural pelo relacionamento assimétrico dos participantes, no qual o documentador dirige o diálogo pela contínua solicitação de novo depoimento do informante, nem sempre preparado para um pronto atendimento de cada nova questão. Bastam-nos aqui dois exemplos, além das passagens (1) e (2) do início, igualmente ilustrativas do fato: 277
(8) 187 Doc -
em alguma em alguma parte do nordeste você
188
que gosta de carne ... você não experimentou uma
189
carne ( )? |_
190 L -
Ah, a tal carne seca né? que eles faze/... tá falando? ...
191 Doc 192 L -
[ é ... aquela carne seca ao sol ...
193 Doc - isto
194 L -
não nós não tivemos ... nós não tivemos a oportunidade de
195
comer não ... (DID-RJ-328)
(9) 17
Doc - é verdade e que tipo de peça a senhora gosta e o que
18
chama mais atenção da senhora quando a senhora vai ao
19
teatro?
20
Inf - peças? olha nem sei viu? o que falar agora sobre
21
peças Todas as peças que eu tenho assistido eu tenho
22
gostado ... agora::... o que me chama muito atenção ... ah
23
é roupas eh::... cenários eu acho acho que uma::última peça
24
que eu assisti foi da::... foi lá defronte o SESC... no
25
teatro do SESC foi a da::... olha não lembro qual foi a
26
peça agora... uma peça muito comentada... (DID-SP-234)
A análise de preâmbulos como esses, que estampam, na superfície do texto, o processo de planejamento e construção da resposta, oferece uma amostragem de algumas constantes formais tipificadoras dos segmentos prefacia278
dores. Além da presença dos M., desenvolvem-se, com freqüência, seqüências inseridas entre a primeira pergunta e a resposta final, como as duas assinaladas em (8), desencadeadas sob pretexto de elucidação de aspectos da indagação do documentador. A essas características, soma-se freqüentemente a repetição de parte ou da totalidade das perguntas (l. 190 e 192, em (8) e l. 20 e 22, em (9)); a menção de condições cognitivas pessoais pouco favoráveis à resposta (cf. em (9): “nem sei viu? o que falar .......; cf. também em (1) e (2): “eu era tão pequena sabe que eu já não me lembro disto” .... “eu não posso dizer”, “aí você pegou porque eu não sei não...”), entre outras particularidades. A incidência desses traços nos preâmbulos fáticos, que asseguram o contato entre os interlocutores e trazem simultaneamente para dentro do discurso o monitoramento pessoal do processo de planejamento e formulação da resposta, é pouco observada nos casos em que os segmentos prefaciadores apresentam sua ênfase no conteúdo informacional, envolvendo o ajuste de alguma idéia expressa na proposição do tópico, via pergunta. Essa constatação, atinente ao plano formal, reflete a diversificação entre os dois tipos de atos ilocutórios prefaciadores, além de confirmar a diferença de foco dos M. sobre a estrutura (inter)pessoal ou ideacional do discurso.
2.3 Outras Instâncias de Abertura Fora das estruturas correlativas de pergunta-resposta, o papel textualinterativo dos M. manifesta-se em outras instâncias de organização do texto falado, a serem aqui especificadas, indiciando movimentos de abertura de aspectos variados da estruturação tópica, com maior ou menor grau de envolvimento na estrutura interpessoal do discurso. Os quatro M. entram, porém, com diferente peso na expressão dos aspectos a serem mencionados, nos novos enquadramentos, ficando por conta de bom e bem a cobertura do maior número de contextos e particularidades textuais diferenciadas. Já a atuação funcional de olha é bastante restrita, esgotando-se praticamente na sinalização do contato interlocutivo, pelo qual o falante busca a atenção do ouvinte, a quem a informação em curso é diretamente orientada: (10) 285 Inf - (.......) me lembro 286
de ter escorregado, caí ... dentro d’água e (es)tava me
287
afogando, vim ... vim pra cima assim e o rapaz esse,
279
288
estava ali do lado ... eu nunca me esqueço do jeito dele
289
de pergunta(r) “quer sair?” olha, eu (es)tava me afogando
290
e ele perguntou se eu queria sai(r) da água, eu nem ...
291
nem pude fala(r), não é ... Ai ... eu nunca me esqueço disso. (DID-POA-045)
A presença de olha e variantes é, por isso mesmo, típica dos inquéritos dialogados (D2 e DID), onde a remissão ao interlocutor costuma ser mais explícita. Seu desencadeamento esporádico fora desses inquéritos exige sempre um processo de relação interpessoal bem caracterizada, como o atestado no exemplo a seguir, tomado de uma elocução formal (EF), em momento particular em que a professora interrompe temporiamente o desenvolvimento da matéria para dirigir-se explicitamente a seus alunos. A abertura desse intervalo interacional explícito, em meio à aula, é definida pelo M.: (11) 138 bem nós VA:MOS não é admitir... aqui... em aula... que: exista 139 uma: complementariedade entre esses três saberes... ou três 140 conhecimentos... olha isso eu repi:to... porque... geralmente 141 naquela primeira avaliação:... eu co:bro um pouco... esse 142 aspecto... eu acho importante bem importante mesmo... essa 143 complementariedade (EF-Rec-337)
Quanto ao M. ah, aparece, em um de seus usos, dividindo terreno com bom, na abertura de falas citadas pelo locutor durante a conversação, para representar uma outra situação dialógica já transcorrida ou simulada. Posicionados no início da fala apresentada em formato de citação em discurso direto, os dois M. criam efeitos de espontaneidade, pela evocação de um traço comum da oralidade6: (12) 01
L-
(...) eu adorei o tal do acarajé porque quando
02
me serviram aqui, uma vez eu vi e não gostei...
03
sabe? mas vi feito por uma baiana de lá
280
04
indicaram... [ah ::... vai na fuLAna que a
05
fuLAna serve muito bem o acarajé...] nós fomos
06
eu gostei muito eu gosto muito de coisa mistu-
07
rada. (DID-RJ-328)
(13) 189 (...) Eu 190 não... eu não leio muito negócio de esporte, eu sempre 191 viro as folha(s) né... meu marido [“ah, onde é que se 192 viu, tu não lê esporte?”] que os outros gostam... mas eu 193 de esporte eu não... não... não me preocupo muito assim 194 ... não é... (...) (DID-POA-045) (14) 09
(...) aí tenho que
10
complementar o meu salário com o dinheiro dum, dum cargo à noite e que
11
se... conforme for eu acabo deixando, aperto o, o cinto e aí problema
12
de, de, aí que entra o problema de dinheiro, porque justamente eu não
13
posso deixar a, ainda, nesse momento, dizer, [bom, agora vocês vão fa-
14
zer isso, eu largo,] eu vou ter que pensar, fazer contas porque eu es-
15
tou com financiamento de compra de apartamento (...) (D2-RJ-355; p. 6)
Um segundo uso do M. ah é visível em passagens de diálogos nas quais costuma indiciar formas de reação espontânea do locutor perante seu parceiro, no enfoque do tópico em discussão. Manifestando um crescendo na revelação das ligações interpessoais, o referido M. entra no delineamento de convergências ou divergências de pontos de vista entre os interlocutores, fazendo parte do jogo argumentativo movido na relação entre os turnos. Nos exemplos apresentados a seguir, confluindo com o teor de concordância ou discordância aberto pelo M e ajudando a defini-lo, pode-se-ver, do ponto de vista lingüístico-discursivo, a sua combinação seja com a partícula de assentimento (sim), como em (15), seja, por outro lado, com o M. de contrapo281
sição argumentativa (mas), como em (16), ou com o enunciado de forte peso assertivo também contraposto ao anterior, como em (17). Ressalte-se que em (15) o próprio feitio próximo de interrogativa-tag do turno anterior (l. 6: “mas ele teria outros gastos, né?”) leva o informante a preferir a direção de confirmação, em seu turno (l. 7: “Ah, sim”): (15) 0
Inf.1 -
1
(...) ele já teria que sair da Zona Sul, pensar em termos de Zona Norte ou, ou talvez...
2
Inf.2 -
Mas não faz muita diferença não
3
Inf.1 -
Talvez a diferença não seja...
4
Doc. -
Mas alguma diferença ( )
5
Inf.1 -
É, é
6
Doc. -
mas ele teria outros gastos, né?
7
Inf.1 -
Ah, sim
8
Inf.2 -
É, teria outros gastos. (D2-RJ-355, p.2-3)
(16) 8
Inf.1 -
Mas acontece o seguinte, que aqui você tem outras pers-
9
pectivas, você tem outras chances que lá você não tem, já que estamos
10
falando de professores, não é, nenhum de nós... eu não conheço pro-
11
fessor que ensine em apenas um lugar, já começa por aí, certo?
12 13
Inf.2 -
Ah, mas eu ensino em dois lugares por quê? o dinheiro que eu ganho num só não dá, mas eu por mim estaria só na escola (...) (D2-RJ-355, p.4)
(17) 298 L1 - (...) mas acontece que eu 299
não acredito de maneira nenhuma que através dos meios de
300
comunicação que você dispõe você possa trazer o povo à cultura
301 L2 - ah pode e eu vou lhe mostrar como (D2-Rec-05)
282
O fato de um mesmo M. como ah, nos exemplos dados, poder encabeçar enunciados assim confirmadores da opinião do parceiro (15), ou estabelecedores da discordância (16 e 17), faz pressupor a hipótese da realização prosódica como possível indício antecipador do teor da manifestação pessoal explicitada no enunciado subseqüente. Uma tentativa de confirmação da hipótese dessa diferença de realização foi, entretanto, dificultada pela interferência de variáveis relacionadas às diversificações de informantes e/ou de regiões de sua procedência, nos exemplos encontrados no corpus, ilustrativos das duas direções argumentativas aqui consideradas. Pistas mais fortes das relações argumentativas assentadas no confronto de pontos de vista entre os interlocutores são dadas pelos M. bom e bem, na atividade conversacional. Sua presença está fortemente vinculada a diálogos que reúnem pronunciamentos dos interlocutores, sobre temas gerais de sua experiência comum. Os dois recortes abaixo permitem ilustrar a natureza das instruções antecipadas pelos dois M. para a decodificação da opinião do interlocutor sobre o depoimento do parceiro, e para situar a seqüência do discurso relativamente ao argumento anteriormente exposto: (18) 236 L1
foram dimensionadas as estradas para um tráfego muito mais leve
237
do que elas estão suportando... então vem aquele negócio
238
da lei da balança [
239 L2
bem ainda tem uma coisa também aqui é que sempre
240
quando chega no fim... na hora de botar a última camada de as-
241
falto [
242 L1
hum
243 L2
ou seja (de fazer) a CApa asfáltica sempre não tem dinheiro
244
... então... acaba (risos) sempre assim ( )
245 L1
[ houve uma
246
tentativa de se limitar a carga por roda quer dizer de e-
247
vitar que carros muito pesados com cargas muito pesadas
283
248
... trafeguem... acima quer dizer acima do peso para o que
249
ela foi construída... (D2-Sa-98)
(19) 319 L1
viu E eu
320
continuo achando que o Brasil só tem três problemas
321
graves: educação educação e educação agora...
322 L2
bom porque fome é mundial não é? a gente não vai falar
323
nisso (D2-Rec-05)
Discorrendo sobre as condições das rodovias brasileiras, L1 focaliza, em (18), a inadequação das estradas, como decorrência do excesso das cargas que passam a suportar no tráfego, em contraposição ao previsto. L2 acrescenta um dado a mais para o enfoque da inadequação, destacando, diferentemente, o aspecto contingencial da falta de dinheiro na etapa de conclusão das obras. Sem levar adiante o aspecto específico destacado por L2, L1 prossegue na complementação de seu próprio argumento anterior, centrado no problema do tráfego (l. 245-249). O M. bem, que aparece abrindo a fala de L2, apresenta-se bi-direcionado, apontando simultaneamente para trás – ao definir a sintonia com o outro locutor quanto ao ponto básico ( o de que as estradas não são boas) – e para frente –, ao antecipar que um ângulo diferente vai ser expresso, quanto às causas do problema. Igualmente, em (19), L2 antecipa, pelo M. bom, a admissão do ponto de vista de L1 quanto à questão da educação no Brasil, mas insinua também que essa admissão é relativa (há outros problemas mais graves, como a fome) e se dá sob certa condição: o de aceitar-se que se está falando de problemas específicos do Brasil e não de problemas comuns entre o Brasil e outros países do mundo. Em síntese, em ambos os exemplos, os M. indiciam, concomitantemente à avaliação positiva do conteúdo exposto pelo interlocutor, uma espécie de apreciação negativa implícita, dada em termos de discordância ou de restrição a uma aceitação total do fato declarado. Imprimem, portanto, no discurso, pistas de abertura de um lance típico de conciliação, concessão, ou de consentimento entre os interlocutores. 284
Observa-se, aqui, um ponto de confluência com as constatações feitas por Schiffrin (1987) para o inglês, a respeito do M. well. Segundo a Autora, os desacordos, as recusas, as respostas desfavoráveis são muito mais comumente marcados por Well, do que propriamente a concordância (p. 114-116). Para além desse dado, a confluência da perspectiva de concordância com a de discordância, reunidas numa só expressão, permite confirmar o estatuto de “partícula prototipicamente concessiva”, destacado por Vicher e Sankoff (1989) em relação a bem, que parece igualmente extensivo, no português, a bom, quando em enquadramentos similares ao observado em (19). O uso dos M. em contextos interacionais de posicionamento em relação ao argumento anteriormente expresso pode contemplar, retrospectivamente e simultaneamente, o conteúdo de duas falas: a do próprio locutor, em cujo interior o M. aparece, e a do parceiro, como acontece no exemplo (20) abaixo, com a forma bom: (20) 120 L1
nós tamos até fazendo uma estrada agora próximo às grutas
121
de Ituaçu... lá pro lado de Contendas ( )... é um fim de
122
mundo ali (vozes)
123 L2
não não é fim... bom... fim de mundo atualmente é (vozes)
124
porque você não tem onde ficar tem Ituaçu que é uma cida-
125
dezinha lá que inclusive me ofereceu hospedagem... mas me
126
disseram que é uma miséria que não tem nada que preste
127
lugar muito ruim... (D2-Sa-98)
Observa-se aqui, por parte de L2, uma reação imediata de desacordo (não não é fim) com a afirmação final de L1 (é um fim de mundo ali). Logo a seguir, entra o M. bom (l.123), sinalizando o cancelamento do desacordo, ou seja, revelando a intenção de reconsideração da discordância e, conseqüentemente, de concessão relutante ao ponto de vista do interlocutor. A re-orientação assim indiciada vem confirmada, de forma plena, no enunciado subseqüente ao M. (fim de mundo atualmente é). Empregos como esse inscrevem o M. bom entre os mecanismos sinalizadores da correção, aproximando-o do valor de unidades como ou me285
lhor, ou seja, isto é, quer dizer, etc, que atuam nesta outra esfera funcional, sem entretanto apresentarem a expressividade da sugestão polifônica de uma concessão ou consentimento do falante à opinião do interlocutor, traduzida por bom. Uma outra particularidade funcional bastante freqüente dos M. bom e bem diz respeito ao seu vínculo com a organização global da informação em tópicos discursivos e com a estruturação interna dos tópicos, envolvendo particularizações do assunto, dentro de seu campo de concernência. No que se refere ao primeiro aspecto, é visível a recorrência com que os dois marcadores aparecem, nas elocuções formais, abrindo operações metadiscursivas associadas à revelação do plano geral da tessitura do texto e, pois, à apresentação das grandes partes que entram em sua composição. O inquérito EF-SP-405, por exemplo, possibilita alguns recortes ilustrativos: (21) 54 55 56 57
BEM... então vamos tentar reconstruir a maneira de vida desse Povo para depois poder entender como surgiu a arte... e... porque surgiu um determinado estilo de arte...
(22) 150 151 152 153
...bom... então primeiro em nível de tema... a seguir... qual seRIA... o motivo pelo qual... eles:: ...começaram... a pintar ou a esculpir... estas formas...
(23) 384 385 386 387 388
(...) BOM... então chegamos aqui eles vão criar uma arte... naturalista realista... em:: virtude da função pragmática desempenhada por essa mesma arte dentro da sociedade... ou dentro do grupo... em que eles vivem...
(24) 388 389
bom... outra coisa que nós vamos ver... nos slides na na aula que vem... é a...
286
390
extrema precisão do desenho... eles conseguem
391
chegar a uma fidelidade linear... da natureza...
392
a extrema exatidão do desenho... ou precisão...
(25) 400
...bem... uma última coisa que eu gostaria
401
de dizer é o fato de que nessa época ainda não
402
existe preocupação com composição... o que a gente
403
encontra são desenhos... individuais...
A regularidade desse aspecto estrutural, detectável em maior ou menor escala em outras elocuções formais, permite associar essa modalidade de inquérito com um maior índice de planejamento prévio e uma maior centração na estrutura ideacional do discurso. O anúncio de cada passo novo no tratamento do assunto, sempre introduzido, nas passagens destacadas, pelos M. bom e bem, alternantes nessa função, são uma revelação a mais da consciência dos falantes de que a tessitura da informação não se dá de forma aleatória, mas obedece a uma estruturação em tópicos que se ordenam e se interrelacionam hierarquicamente. O destaque dessa organização aos interlocutores costuma fazer parte dos procedimentos didáticos das aulas e denuncia a preocupação com a clareza da exposição, em termos globais. O uso do M. como apoio para instanciar o avanço linear dos tópicos, no tratamento da matéria, acaba por torná-lo um mecanismo delimitador de partes que se iniciam subseqüentemente a outras que se fecham, no desenvolvimento seqüencial do texto. Como destaca Stammerjohann (1977), “todo sinal de abertura de alguma coisa de novo implica o fechamento daquilo que precede; sinais de abertura ou sinais de fechamento são, pois, sempre, sinais de delimitação.” (p. 118) Reconhecer o papel delimitador dos M. é reconhecer, simultaneamente, a sua bi-direcionalidade, como um pontuador discursivo anaforicamente incidente no fechamento da seqüência anterior, para cataforicamente viabilizar a progressão para a seqüência superveniente. Essa bi-direcionalidade inerente aos mecanismos mediadores da relação seqüencial das partes do discurso é concretamente assinalada, por exemplo, na passagem (22). Nela, a formalização do fecho do tópico precedente, 287
sobre os temas da arte no período paleolítico (“então primeiro em nível de tema”) e a apresentação do tópico seguinte (“a seguir... qual seRIA... o motivo pelo qual... eles:: ... começaram... a pintar ou a esculpir... estas formas...”) podem ser vistas como a explicitação discursiva da dupla orientação indiciada pela informação pragmática que bom codifica: a de que o locutor avalia o momento como adequado e favorável à introdução de algo novo no fluxo informacional, subseqüentemente a algo anteriormente dado. Essas duas formas de definir as relações estruturadoras do texto – por pistas indicativas fornecidas pelos M. bom e bem e por formulações com maior grau de transparência referencial, estabelecidas por outros tipos de M. ou expressões em geral – complementam-se quase sempre nessa ordem, na apresentação dos tópicos. A título ilustrativo dessa complementaridade, observem-se as duas passagens abaixo, extraídas de uma outra elocução formal: (26) 01 LOC. Então é como eu tinha dito a você...quarto ítem...é a forma...quinto... 02 dimensões...infância...puberdade...etc...sexto ítem...nós temos a::...explora03 ção...exploração aqui vale a dizer é exame...sétimo...nós temos os planos 04 cons::titutivos...sexto...exploração...exploração é o exame...feito na glân05 dula...nos planos constitutivos...nós temos a pele...temos o tecido subcutâ06 neo...e a camada...retro...mamária...com a sua definição...ligamento... (espe07 cial) da mama...oitavo...nós temos os vasos...e nervos...nono...é...e a veias 08 ...quem...copiaram? ...vou lhe passar alguma coisa...bom...então vamos...já 09 copiaram o que escreveu...bom...vamos começar...região mamária:: ...ora nós 10 definimos como sendo região mamária...a região ocupada pela glândula mamária 11 ...como vocês aqui estão vendo...
(EF-Sa-049) (27) 29 30 31 32 33 34 35 36
a partir da puberdade... é que essas glândulas por ações hormonais... então na mulher... por ação dos/ ...de hormônios femininos... né? ...pode incluir a progesterona... essas glândulas... então... se desenvolvem... ao passo que no menino... por ação também hormonal... pela produção da ( ) hormônio masculino... elaborado pelos tecidos... então essas glândulas... elas não se desenvolvem... porque esse hormônio tem uma ação cremadora... sobre essas glândulas... bem... além então em relação também quanto ao número... há casos de::–muito raros– de::
37
amastia... quer dizer... a ausência de mamas... mas é muito raro... entretanto...
288
38
não é tão raro o caso de::polimastia... poli. .como cês sabem... é um número a-
39 40
lém daquele normal... ou seja ou mais de dois... então a polimastia é mais comum... a amastia... não é tanto assim... visto... não é tanto assim encontrado...
(EF-Sa-049)
O trecho citado em (26) corresponde à parte inicial de uma aula de biologia que começa por uma súmula de itens classificatórios, repassados pelo professor, a título de recordação de assunto já abordado (l. 1-7). Após essa introdução, observa-se um primeiro sinal do locutor para o início do tratamento do tópico recortado para a aula ( l. 8: “bom ... então vamos”). Esse início é ligeiramente protelado pela interposição de uma pergunta à classe, feita pela professora como um ato indireto de fala para solicitar a atenção dos ouvintes para o seu discurso ( l. 8-9: “já copiaram o que escreveu...”). A re-abertura do tópico é destacada por nova incidência do M. bom, conjugada à de outro M. (l. 9: “bom ... vamos começar) e ao recurso de tematização ( l. 9: “região mamária...”), num tríplice processo de abertura enfática da exposição a ser iniciada, como matéria central da aula. A entrada propriamente na exposição se dá, imediatamente depois, pelo padrão de uma formulação tipicamente definidora (l. 9-10: “... ora nós definimos como sendo região mamária ... a região ocupada pela glândula mamária”). Aspecto bastante próximo se dá também na passagem (27), desta feita com o M. bem (l. 35), que igualmente atesta a decisão do professor para deslocar o ponto de centração do aspecto do desenvolvimento diferenciado das glândulas mamárias no homem e na mulher (l. 29-35), para a questão do número de glândulas e das anomalias de formação no que diz respeito a esse aspecto (l. 35-40). Uma vez mais é visível a compatibilidade do M. bem com os M. de progressão e de tematização (bem ... além então em relação também quanto ao número). Outra instância de abertura promovida pelos M. na estrutura tópica diz respeito à sua ocorrência no interior de um tópico, dando entrada a porções menores de informação, integradas no conjunto de referentes que o constituem. Destaca-se, nessa instância, a operação exemplificadora, visível no seguinte fragmento: (28) 27
(...) É, essa palavra
28
taxionomia quer, refere-se mais ou menos a uma classificação,
289
29
digo mais ou menos porque nós vamos ver qual é a diferença que
30
existe entre uma taxionomia e uma classificação, eu poderia, por
31
exemplo, dividir esta aula em os alunos homen(s) e as mulheres, eu
32
estaria, fazendo uma classificação sem, no entanto, dizer qual é o
33
mais importante, sem, no entanto dizer, qual dos dois é mais completo
34
talvez, os homens dissessem o mais importante não sei, mas mais
35
complexas são as mulheres, bem, eu poderia, dividir a, uma coleção
36
de livros em livros didáticos e não-didáticos, sem, no entanto,
37
dizer que, quais seriam os mais importantes, simplesmente, eu
38
classifiquei, mas eu, isso não acontece quando se faz uma taxionomia
39
então, vamos ver, vamos ajudando, taxionomia é uma classificação
40
mas é mais do que uma classificação. (EP-POA-278)
A informação focal nesse momento da mensagem é a do estabelecimento do sentido de taxionomia, por oposição ao de classificação. A exemplificação entra como recurso concretizador da diferença que se busca estabelecer, e é dada em dois lances: o primeiro (l. 30-35), mediado pelo M. prototípico da operação exemplificadora ( l. 30-31 –“por exemplo”); o segundo (l. 35-40), mediado pelo M. bem, que não define explicitamente a exemplificação, mas a indicia, delimitando-a simultaneamente como um segundo passo em relação ao segmento anterior. Ainda na instância intratópica, a atuação funcional dos M. estende-se às operações de retomada de um ponto de relevância temporariamente suspenso, em razão da interposição de informações subsidiárias incidentes na informação básica que vinha em curso. Essa atuação pode ser vista em passagens como a seguinte: (29) 163 Inf.2 -
(...) aí está ao lado um pirex todo forrado com queijo
164
fatias mais ou menos de um centímetro, põe aquele refogado ali
165
dentro e tapa, vai ao forno.
166 Inf.1 -
Também com queijo.
167 Inf.2 -
Hein?
290
168 Inf.1 -
Cobre com queijo.
169 Inf.2 -
Tapa, é claro, com queijo. Bem, aí vai ao forno / e junto vai
170
também já preparado o arroz que foi feito à parte (...) (D2-POA-291)
Observa-se no exemplo acima, como segmento inserido, uma seqüência lateral (Jefferson, 1972): o registro de procedimentos que vinha sendo feito em cadeia, em consonância com a ordem das ações referenciadas (l. 163-165), sofre uma suspensão, motivada por um pedido de esclarecimento do interlocutor (l. 166); seguem-se trocas de turnos (l. 166-169), centradas no problema incidental e, após a solução da questão secundária, o ponto de relevância tópica temporariamente suspenso é retomado, juntamente com o tom encadeado da formulação (l. 169-170). A coesão anafórica com a instância anterior do discurso é firmada concomitantemente pelo M. bem, pelo típico M. da sucessividade narrativa aí – responsável por reestabelecer o feitio de seriação de procedimentos –, e pela repetição da mesma frase final do segmento suspenso (“vai ao forno”). Instalado no ponto em que se acha, bem aí se destaca como elemento multifuncional, atuante a um só tempo como: pontuador do fim da seqüência desviante; sinalizador do começo da operação de retomada; delimitador de planos diferentes de relevância informacional, no interior do quadro de referências estabelecido; e articulador das porções descontínuas da informação focal do tópico.
3. Considerações finais 3.1 – A análise das formas bom, bem, olha e ah, aqui empreendida, pôde revelar a sua condição de M. prototípicos ou bastante próximos da prototipicidade, atestada pelos traços apurados no conjunto de suas ocorrências. Pôde revelar também, em concomitância com o preenchimento comum da função geral de abertura de unidades textuais, aspectos de especificidade entre eles, no tocante à natureza ou proporção de sua participação na estrutura correlativa pergunta/ resposta, e em outras instâncias de organização do texto falado. De modo geral, as particularidades identificadas nos diferentes âmbitos remetem ao dado preliminar, visto em 2.1, de que os quatro M. deixam transparecer traços sêmicos e funcionais diferenciados, como manifestação do vínculo que sutilmente preservam com as correspontes fontes lexicais homônimas, em formato categorial de adjetivo (bom), advérbio (bem), verbo (olha) 291
e interjeição (ah). Destacam-se, assim, no funcionamento textual-interativo dos M., nuanças particulares do fenômeno geral de acomodação de traços sêmicos para a sinalização de relações dentro do espaço discursivo. Os valores básicos depreendidos nessa ótica revelam que os M., nas instâncias de abertura em que atuam, recortam diferentemente dados do campo textual-interativo, ao apontarem seu foco predominantemente para a primeira pessoa (ah), para a segunda (olha), ou para o plano de uma “não-pessoa”, correspondente aos dados referenciáveis do tópico em centração (bom, bem). A proeminência dessas direções explica, por exemplo, em respostas prefaciadas, a natureza predominantemente fática e de auto-monitoramento formulativo dos preâmbulos abertos por olha e ah – os quais funcionam fundamentalmente para manter aberto o canal de interlocução, enquanto se procura o feitio da resposta propriamente dita –, em contraposição à tônica argumentativo-referencial dos prefácios desencadeados por bom e bem – que costumam exprimir formas de acerto ou ressalva sobre algum aspecto do tópico introduzido pela pergunta. O envolvimento com a “estrutura ideacional” do discurso dá conta também do fato de bom e bem monopolizarem, em relação aos demais M., o campo de atuação na macro-estruturação do texto, demarcando as grandes partes de uma exposição ou, em plano mais pontualizado, abrindo lances menores de informações integradas na constituição interna de um determinado tópico. A função seqüenciadora dos M., proeminente nesses contextos, convive com uma tênue expressão da relação dialógica assentada na consideração do interlocutor, a quem se destina a sinalização de cada passo da evolução da informação que vai sendo tecida. O adensamento do quadro interlocutivo, definido na dinâmica das situações discursivas, dá conta de momentos de assimilação de ah, e mais especialmente de bom e bem, a estruturas de forte acento interpessoal, onde se confrontam as opiniões dos interlocutores sobre um fato em consideração. Essa estruturas fazem ressaltar, em algumas instâncias, o estatuto prototipicamente concessivo assumido por bom e bem, na mediação de lances típicos de consentimentos ou admissões parciais de pontos de vista. Neles, a sinalização de uma concordância aparente antecipada pelos M., em início de enunciados, deixa automaticamente implícito um ponto de discordância com o argumento do parceiro. Essa propriedade confere aos dois M., de abertura, assim atuantes, a condição de unidades polifônicas, indiciadoras de diferentes vozes enunciativas reunidas na manifestação verbal do locutor. 292
3.2 – As particularidades textuais-interativas apuradas, se associadas à forma de distribuição dos quatro M. pelos inquéritos examinados, ganham importância na revelação de diferenças tipológicas dos textos, segundo o caráter mais dialógico ou menos dialógico de sua configuração. Vale lembrar, a esse propósito, que, no corpus do Projeto NURC, os inquéritos se dispõem numa escala decrescente de dialogicidade – aqui tomada restritamente em termos de coprodução verbal ativa – indo dos inquéritos de diálogo entre dois informantes (D2), passando pelos de diálogo entre informante e documentador (DID) e chagando aos de elocução formal (EF). A qualidade das referidas funções atestadas pelos M. e a distribuição das mesmas, segundo o tipo de inquérito, sugere um recorte preliminar nessa escala, que leva a formar um primeiro conjunto com D2 e DID, reunidos por características comuns que os distinguem de EF. Assim, D2 e DID se aproximam entre si pela incidência considerável dos M. mediando estruturas de pares adjacentes pergunta-resposta, que só excepcionalmente acontecem em EF, quando esta se abre para uma relação dialógica, em intervalos esporádicos de interação explícita implicando trocas de turnos. Do total de 27 exemplos encontrados, 24 (88,89%) ocorrem em contextos de interlocução de D2 e DID e apenas 3 (11,11%) em EF. Sugerindo um sub-recorte, essa incidência é nitidamente maior em DID (16= 59,26%) do que em D2 (8= 29,63%), o que se explica não propriamente pela maior intensidade dialógica daquele tipo de inquérito em relação a este, mas, antes, pelo maior índice da atuação inquiridora do documentador em DID, cujo papel principal é realimentar constantemente a fala do informante, fazendo perguntas a serem respondidas por ele. D2 e DID reúnem também o maior número de M. com orientação argumentativa direcionada à fala do interlocutor: 12 (92,30%), em confronto com 1 (7,70%) de EF. Neste particular, entre D2 e DID, a incidência já é bem mais acentuada em D2 (8= 61,54%) do que em DID (4= 30,76%), o que praticamente vincula o movimento de concordâncias, de discordâncias parciais ou totais e de ressalvas, a situações de crescimento da dialogicidade explícita, mais presente em D2. Em contrapartida, os textos de EF, que estampam o decréscimo da interlocução ativa, paralelamente a uma maior concentração no assunto e controle do andamento do fluxo informacional, carreiam uma outra especialização funcional dos M. Em EF se concentra, assim, a totalidade (13) das ocorrências de M. com foco na organização global da informação em tópicos dis293
cursivos; esse foco se manifesta pelas indicações relativas ao plano de tessitura do texto e à abertura formal de tópicos, nas circunstâncias em que esta é feita fora do contexto pergunta-resposta. Não se incluem nessa totalidade os vários empregos referidos à estruturação interna do tópico, envolvendo particularizações do assunto implicadas em seu desenvolvimento, os quais se distribuem mais ou menos uniformemente pelas três modalidades de inquérito analisadas.
NOTAS 1
As citações dos inquéritos de São Paulo são feitas conforme transcrições publicadas em Castilho e Preti (1986 e 1987) e Preti e Urbano (1988). As demais seguem transcrições apresentadas em mimeo.
2
Para maiores dados elucidativos sobre as variáveis selecionadas e sobre o elenco de alternativas dispostas em seu interior, v. Risso, Silva e Urbano (1996).
3
Esse total de ocorrências apresenta-se assim distribuído pelas quatro formas: 24 bom, 11 bem, 15 olha, 14 ah.
4
A preocupação em detalhar esses vínculos reveladores de uma espécie de fundo comum entre as duas instâncias (MD / não-MD), já revelada em outros estudos sobre marcadores, do Projeto Gramática do Português Falado (Risso, Silva e Urbano, 1996; Risso, 1993 e 1996), sugere a possibilidade de uma abordagem integrada das formas, pela qual a descrição gramatical das classes de palavras talvez devesse estender-se às propriedades textuais atestadas pelos M. Um passo nesse sentido é dado no tratamento do advérbio, em âmbito inferior, igual e superior à sentença, por Ilari et alii (1990).
5
As passagens de 1 a 4, transcritas no início deste trabalho, oferecem uma primeira ilustração desse contexto peculiar da ocorrência dos M. em respostas prefaciadas.
6
Não obstante esse torneio imitativo apoiado nos M., por meio do qual os locutores citantes bucam uma forma de representação do caráter espontâneo do oral, a citação de falas na interação verbal prossegue geralmente em formato idealizado e acusa a edição de particularidades de formulação inerentes à oralidade (hesitações, interrupções, entre outras). (V. dados a esse respeito em Marcuschi, 1992).
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296
ANATOMIA E FISIOLOGIA DOS MARCADORES DISCURSIVOS NÃO-PROTOTÍPICOS Giselle Machline de O. e Silva Equipe auxiliar: Vasti Rodrigues e Silva Ana Lúcia Braga Resende Simone Assafim
Introdução Ao estudarem os chamados marcadores discursivos (daqui em diante M.Ds.), Risso, Silva e Urbano (1995) propuseram traços1 a partir dos quais foram examinados todos os candidatos a M.Ds., isto é, todas as formas que os autores, seja por experiência, seja por conhecimento bibliográfico, suspeitavam serem M.Ds. Esses traços, ao mesmo tempo que os separam de outras formas, caracterizam-nos como M.Ds. e situam-nos ao longo de um continuum. A representação gráfica abaixo mostra que os itens estudados distribuem-se em dois grupos, conforme classifiquem-se ou não como marcadores. O espaço à esquerda é ocupado pelos marcadores discursivos que incluem tanto os prototípicos quanto os não-prototípicos. Uma linha vertical pontilhada separa-os dos discursivos não marcadores: limítrofes e totalmente rejeitados, elementos eliminados por não exibirem aqueles traços ou combinações de traços julgados requisitos indispensáveis. CANDIDATOS
A MARCADORES
MARCADORES DISCURSIVOS
DISCURSIVOS NÃO MARCADORES
M.Ds. prototípicos
M.Ds. não-prototípicos
Limítrofes
Né? então
assim, etc... por exemplo,
digamos que
totalmente rejeitados assim (adv)
digamos
O subconjunto denominado M.Ds. prototípicos, assim chamados por se caracterizarem por traços ou combinações de traços estatisticamente relevantes, inclui aqueles elementos fortemente seqüenciadores e fortemente interativos. Os primeiros, geralmente situados no início do enunciado, foram analisados neste volume por Mercedes Risso; os interativos, geralmente no final do enunciado, foram pesquisados por Hudinilson Urbano. Tratarei aqui de alguns que não foram considerados M.Ds. típicos, daqui para frente referidos como não-prototípicos. O modelo acima é simplificado, já que, por sua vez, as variáveis a que nos referimos, em sua maioria, são não-discretas. Um melhor modelo seria talvez uma cadeia, com superposição entre os vários estágios, ou ainda melhor, uma representação como a da propagação ondular. Este trabalho tratará dos M.Ds. por exemplo, digamos, etc... e assim. Além de terem sido considerados não-prototípicos, têm uma característica em comum: todos fazem referência implícita a um conjunto de elementos, como veremos na parte 3. Nosso objetivo é determinar quais desses M.Ds. estão correlacionados à teoria dos conjuntos, que correlações lingüísticas e externas fazem prever a escolha, por parte de um falante, de um dos elementos desse conjunto em detrimento dos outros, enfim qual o grau de tipicidade e uso dos mesmos. Também observaremos atentamente a demarcação entre os M.Ds. não-prototípicos, situados de um lado da fronteira, e os limítrofes, situados do outro lado, com o intuito de, futuramente, desvendar se há e, em havendo, como se dá a passagem de um lado a outro. Para isso, sempre que possível, cotejaremos os M.Ds. com as formas limítrofes que parecem exercer as mesmas funções discursivas. Assim, serão analisadas paralelamente as duas formas: M.D. digamos e limítrofe digamos que; (todas) essas coisas versus (tal) e coisa, etc... Essa comparação permitirá uma caracterização mais profunda do continuum e poderá trazer luzes quanto à origem dos M.Ds. Por fim, vale lembrar que a forma assim, que se distingue das listadas acima, por não dispor de uma contrapartida limítrofe e por abrigar estatutos categoriais e funções distintas – uma enquanto M.D. e outra enquanto advérbio – também será investigada criteriosamente Finalmente, investigaremos a colocação sintática dos M.Ds. aqui analisados dada a relevância desta variável, vislumbrada em Tarallo e Kato (1992), Kato e Tarallo (1993) e detalhada por Silva, Tarallo e Braga. Enquanto os dois primeiros trabalhos mostravam que os elementos discursivos, de modo geral, 298
ocupavam as fronteiras de constituintes das margens esquerda e direita, o último sustentava que os diferentes M.Ds. ocupavam um “nicho” preferencial, seja à direita seja à esquerda. Assim, porém, distinguia-se deles por ocupar outras fronteiras de constituintes e também por se colocar fora delas. Seriam justamente os menos prototípicos os que ocupariam essas posições não marginais? O corpus utilizado inclui 18 entrevistas completas e, para melhor equilibrar o tipo de entrevista quanto ao sexo/gênero do falante, acrescentaram-se ao corpus compartilhado as entrevistas DID, SA no100; EF, RJ no 364 e D2, SP no333.
1. Não prototipicidade Nesta parte resumiremos as razões pelas quais a maioria dos M.Ds. a serem tratados aqui foram considerados não-prototípicos em Risso, Silva e Urbano. Dissemos acima que alguns traços (agrupados em variáveis), ou melhor ainda, combinações de traços, foram julgados mais relevantes do que outros e que uma das variáveis mais pertinentes foi o tipo de articulação com os segmentos do discurso. Essa variável (variável 2) compreendia três traços: O traço 0 caracterizava os não-seqüenciadores, isto é, aqueles M.Ds. que pouco ou nada têm a ver com a articulação dos segmentos do discurso (né?, entende?, etc...): 47,0% de todos os elementos discursivos que foram, num primeiro momento, candidatos a M.Ds. incluíram-se nessa rubrica. O traço 1 foi atribuído àqueles candidatos a M.Ds. que promoviam a organização tópica do discurso (como agora e então): 47,8% foram inseridos nesse grupo. Em 2, foram agrupados os candidatos a M.Ds. que tinham, nesse particular, certa semelhança com advérbios e conjunções, ajudando na organização da estrutura frásica. A esse grupo pertenceram apenas 5,1% de todos os candidatos. Observa-se, portanto, que este último traço abriga poucos M.Ds. O M.D. assim, quanto a essa variável, recebeu o traço 0, insuficiente, por si só, para descaracterizá-lo como M.D. prototípico, pois, como dissemos, são as combinações de traços, e não os traços de per si, que serviram de critério para eliminar certas formas. Os demais M.Ds. a serem considerados aqui, como: por exemplo, etc..., e digamos receberam o traço 1. Outra variável bastante importante para a ordenação dos M.Ds. ao longo do continuum foi a orientação (modo e grau) da interação. Receberam o traço 0 (então, primeiro) os fragilmente orientadores, isto é, aqueles que sina299
lizam fraco envolvimento dos interlocutores, funcionando o enunciado em que ocorrem como os enunciados sem-M.D. (desnecessário recordar que num evento conversacional não teria sentido, por definição, existir orientação interacional realmente nula). Apenas 17,9% dos candidatos a M.Ds. classificaram-se como tal. O traço 1, secundariamente orientador, foi atribuído às formas através das quais o falante tenta envolver, embora indiretamente, seu interlocutor ou avaliar subjetivamente significações proposicionais (agora – quando claramente sinaliza haver uma guinada em seu discurso –, bom – quando sinaliza haver aparente concordância inicial, seguida de pontos polêmicos, etc...). Dos candidatos a M.Ds., 44,7% foram considerados como secundariamente orientadores. Finalmente foram codificados com o traço 2 os basicamente orientadores, aqueles que marcam um processo de relação interpessoal explícito, como nos requisitos de apoio discursivo (né, entende? etc...) ou naquelas formas de 4a pessoa (digamos) (37,5%). Nota-se, entre as duas variáveis mencionadas até agora, certa distribuição complementar: as formas altamente pontuadas quanto à articulação serão baixamente pontuadas quanto a envolvimento. O M.D. menos típico é aquele classificado com o traço 0 quanto à interação. Serão examinados, à luz dessa variável, os que supomos de início fracamente M.Ds.: dos tratados aqui, somente a etc... foi atribuído o traço 0; assim e por exemplo foram codificados como sendo 1; digamos e vamos dizer como 2, já que tentam, com a 4a pessoa, envolver o interlocutor. Da interrelação dessas duas variáveis formam-se as combinações abaixo (com as respectivas freqüências): ARTICULAÇÃO INTERAÇÃO não-seq. 0
seq. tópico 1
frágil
208/1169=17,79% 339/1169=29,00% 550/1169=
3/1169= 0,26%
0 secund.
etc...
2
0%
205/1169=17,54% 257/1169=21,98% 97/1169=8,30%
1 básica
seq. frasal 2
1/1169= 0,09%
totais linha 47,05% 559/1169=
por exemplo
assim
47,82%
57/1169= 4,88%
2/1169=0,17%
60/1169=
digamos
5,13%
Pelo critério da ação combinatória, vê-se que os M.Ds. digamos e assim já se situam numa combinação de freqüência baixa (0,09% e 8,30%, respectivamente), atípica portanto. Os demais continuam na sua luta pela sobrevivência entre os M.Ds. Algumas variáveis só serviram para separar os M.Ds. dos não300
M.Ds., sem distribuir típicos e não típicos pelo continuum. Entre elas, está a variável 01, que diz respeito à freqüência do M.D., seu padrão de recorrência. Todos os M.Ds., mesmo os supostamente não-prototípicos constantes deste presente trabalho, têm o traço 3 correspondente ao mais alto padrão de recorrência. A quarta variável – relação do M.D. com o conteúdo proposicional, isto é sua relação com a informação conteudística do enunciado – tampouco serviu para distinguir M.Ds. de não M.Ds. ou para diferenciar a os M.Ds. em pauta dos demais, os mais típicos. Com relação a esta variável, todos os M.Ds., ou pelo menos 91,8% deles, típicos ou não, se comportam do mesmo modo, isto é, são exteriores ao conteúdo, ao contrário de formas como eu considero..., faz isso, faz não sei que, eliminadas do rol dos M.Ds. Outra variável imprópria para distinguir os não-típicos é a transparência semântica que tenta verificar o grau de afastamento do M.D. da forma que provavelmente lhe deu origem. Haviam sido considerados quatro graus: semanticamente opacas (traço 0), isto é, formas que não deixam transparecer seu sentido gramatical, previsto pelas gramáticas, ou lexical, previsto pelos dicionários. Os graus 1 e 2 (respectivamente parcial e totalmente transparentes) se afastam progressivamente desse grau 0. Entre os postulantes a M.Ds., 53,4% receberam o traço 1, transparência parcial e 36,0% receberam traço 2, transparência total. Os M.Ds. mais típicos se caracterizariam pela transparência parcial. Ora, analisando à luz desta variável os M.Ds. que estamos tratando aqui, vemos que assim se comporta adequadamente, mas digamos, etc... e por exemplo são mais transparentes do que se esperaria de típicos M.Ds. A variável seguinte (06) trata da apresentação formal, isto é, da variabilidade das formas. Com efeito, espera-se que um M.D. esteja sob forma estereotipada e que, por conseguinte, seja pouco ou não variável. Foram atribuídos os traços 1 para forma única e 2 para forma variante. Os resultados apontaram para uma distribuição aproximada de 50% entre as duas freqüências2, não nos servindo agora, portanto, como traço distintivo. Das formas aqui analisadas, assim foi classificado como uma forma única e os demais como tendo formas variantes digamos (digamos assim); etc... (etc... e tal), por exemplo (como por exemplo). Quanto à relação com a estrutura sintática da oração (variável 07), os M.Ds. são considerados, particularmente por Schiffrin (1989),3 como sendo sintaticamente independentes (traço 1). Nossos resultados ratificam esta hipótese: 86,9% dos candidatos a M.Ds. ao qual essa variável se aplicava4 foram codificados como tal, evidenciando a força desse traço. 301
A demarcação prosódica é variável para cada forma e cada realização pode exibir ou não uma demarcação. A tendência é de que os M.Ds. sejam demarcados (68,9%). Veremos o comportamento dessa variável quanto a nossos M.Ds. não-prototípicos quando da sua análise individual. A autonomia comunicativa indica a possibilidade das formas poderem (traço 1) ou não (traço 0) constituir enunciados proposicionais em si próprios. Os resultados mostram que apenas 3,8% das formas então analisadas eram autônomas. Estes 3,8% não incluíam os marcadores objeto da análise em pauta. A quantidade de massa fônica foi incluída como variável na crença de que os M.Ds. tendem a perder essa massa que, conseqüentemente, se tornaria parca. Com efeito, é freqüente a redução desde a fonte até o M.D., haja visto não é? e né?. Receberam o traço 1 os candidatos com até três sílabas tonaicas e o traço 2 aqueles com mais de três. Os resultados evidenciaram o acerto dessa hipótese: a 96,7% dos candidatos foi atribuído o traço 1 e os M.Ds. que nos propusemos a estudar passaram garbosamente por essa variável. Em resumo, examinando a possibilidade das diferentes combinações suscitadas pela alternância entre os traços 0 e 1 na variável 02 (articulação de segmentos do discurso), 0, 1 e 2 na variável 03 (orientação da interação) e 1 e 2 na variável 06 (apresentação formal) formam-se matrizes, teoricamente possíveis, de combinações fortes. Essas combinações serão examinadas agora e eventualmente atribuídas aos nossos M.Ds. para que, finalmente, decidamos se são prototípicos ou não. No quadro abaixo, as matrizes estão dispostas em combinações de a a l. Nossos M.Ds. estão dispostos na parte de baixo da combinação mais aproximada, com a(s) codificação(ões) discrepantes. Observase, nesse quadro, que os M.Ds. examinados sofreram pequenos deslizes em alguns traços, situando-se, pois, no continuum entre os típicos e os limítrofes, mas ainda no campo dos M.Ds., como foi sugerido no gráfico da p.1, que representa o continuum.
302
VARIÁVEIS
01 02
COMBINAÇÕES 3 FORTES e
1
03 04 05 06
07 08
09 10
1
1
0
1
1
1
1
M.D.
1
2
assim
seus deslizes a) b)
3
1
2
1
1
1
1
1
0
1
c)
3
1
0
1
1
1
1
1
0
1
d)
3
1
1
1
1
2
1
1
0
1
2
por exemplo
e)
3
1
2
1
1
2
1
1
0
1
f)
3
1
0
1
1 2
2
1
1
0
1 etc...
g)
3
0
1
1
1
1
1
1
0
1
h)
3
0
2
1
1
1
1
1
0
1
i)
3
0
0
1
1
1
1
1
0
1
j)
3
0
0
1
1
2
1
1
0
1
k)
3
0
1
1
1
2
1
1
0
1
l)
3 25
0
2
1
1 2
2
1
1
0
1 digamos
2. Variáveis comuns a dois ou mais M.Ds. Descrição Consideramos nesta parte algumas das variáveis compartilhadas pelos M.Ds. aqui abordados. Os resultados correspondentes a elas serão apresentados na parte dedicada a cada um. Mais do que meramente querer descrever os M.Ds. menos prototípicos, interessa-nos compará-los entre si. 303
Para verificar se os M.Ds. aqui analisados estão ligados a dificuldades de processamento e se os elementos a que se referem são ou não prototípicos, investigamos-se três variáveis: a subjetividade e a concretitude do trecho anterior e/ou posterior e a coocorrência de descontinuidades nas proximidade. 2.1 A variável objetividade do assunto visava a verificar se: i – Estaria o assim e o digamos precedendo enunciados subjetivos? Uma resposta afirmativa constituiria uma evidência de que estes M.Ds. exerceriam a função de pausa preenchida, facultando ao falante um certo tempo para processar um enunciado mais laborioso, e argumentaria a favor da não prototipicidade dos elementos regidos por eles. ii – Tentaria o falante objetivar mais sua argumentação subjetiva citando exemplos mais objetivos? A hipótese subjacente era a de que um enunciado mais “difícil” de ser formulado deveria suscitar mais reformulações e hesitações, e de que um enunciado subjetivo é mais “difícil” de formular do que um objetivo. Como a “dificuldade” de um enunciado é inescrutável, foram usados subterfúgios para tentar alcançá-la. É difícil traçar o limite entre objetividade e subjetividade e, até onde se saiba, o uso desse conceito como aqui concebido não é usual em trabalhos lingüísticos. Foi, entretanto, utilizado com sucesso em Silva e Macedo (1989) a propósito do assim, demonstrando que de acordo com a hipótese, esse M.D. tendia a sinalizar contextos posteriores subjetivos. Para aferir a “objetividade” valemo-nos dos seguintes critérios: a) Foi julgado objetivo um enunciado descritivo ou de procedimento que, além de ter sido apresentado de forma fria e técnica, não acrescentava nenhuma opinião, nem comentário pessoal, enfim um enunciado que se referia ao mundo físico, exterior ao falante. Considerou-se ainda como enunciado objetivo aquele que não apresentava elementos anteriores nem posteriores que viessem a indicar algum grau de subjetividade, tais como verbos modais, expressões como “em termos de”, “uma espécie de” etc...): (2.1) Eu gosto muito de coisa misturada assim com azeite de dendê (DID, RJ-328, token 366)
b) Foi considerado como subjetivo o enunciado em que o falante exprimia suas opiniões, sentimentos e anseios, ou aquele em que o conceito era expresso por meio de adjetivos que remetem a quantidades imprecisas, depen304
dentes de avaliação pessoal (grande, pequeno) ou de qualidades (bom, gostoso) – que, de certo modo, são também opiniões –, enfim aquele enunciado que se referia ao mundo interno do falante. No exemplo seguinte, o que é “aromático” e agradável para uns, pode ser horrível para outro: (2.2) Então fica assim aromático [5] (D2-PoA-291, t. H140)
Para verificar se realmente existia uma correlação entre o maior uso de M.Ds. e a subjetividade do enunciado, optamos por examinar previamente a distribuição de peças de informação subjetiva e objetiva ao longo do texto, em enunciados sem marcadores. Para tal, estudamos uma amostra constituída por uma página de 4 entrevistas DID (aproximadamente 20 enunciados em cada uma). O levantamento do grau de subjetividade/objetividade do segmento após o verbo, posição usual dos nossos M.Ds., mostrou um predomínio de 48 enunciados objetivos (48/78 e 30=38,5%). 2.2 – Ainda com o mesmo espírito de aferir a prototipicidade do(s) elemento(s) referido(s) pelo M.D. (quando substantivos, acompanhados ou não de adjetivos), mediu-se a concretitude desse(s) elemento(s). Foram considerados concretos aqueles que, segundo Mira Mateus et alii (1989), designam “objeto físico, animado, localizado (ou pelo menos localizável) espaciotemporalmente, com propriedades perceptuais directamente observáveis” (ex. 2.1). O rótulo abstrato foi aplicado àqueles que, ao contrário, são não-palpáveis, àqueles que se mantêm no nível das idéias (2.3). 2.3 – Ainda para tentar circunscrever o grau de dificuldade experimentado pelo falante na sua enunciação, foi medida a presença de outras possíveis6 marcas formais de dificuldade, coocorrendo na proximidade do M.D., tais como hesitações, gagueiras e repetições não estilísticas. O que foi considerado “proximidade” variou para cada M.D. e dependia de suas peculiaridades. Quantificaram-se as descontinuidades anteriores e posteriores ao elemento. Parecia-nos que as dificuldades no processamento, por exemplo a dificuldade em encontrar de imediato um termo necessário à codificação de uma peça de informação, deixariam seus vestígios no texto. As descontinuidades só teriam razão de ser durante o processamento do termo procurado, portanto antes de sua enunciação. Há, entretanto, que se comparar esses vestígios anteriores com os posteriores, posto que descontinuidades existem no texto todo, em maior ou menor profusão. 305
(2.3) Agora:: eh nos assim na na nossa minha faixa de idade eu tenho impressão que o pessoal ainda é pelos filmes mais... que antigamente:: existiam mais os filmes bons. (DID-SP, l.008)
2.4 – Para a maioria dos M.Ds., a intuição e os estudos anteriores sugeriam a existência de uma correlação entre o tipo de M.D. e o status informacional da seqüência em que ele está articulado. Esse status tem sido analisado a partir das categorias de Prince (1992) ou de Chafe (1994) A tipologia da primeira é basicamente textual e compreende três tipos de entidades: novas, entidades que ainda não ocorreram no texto; evocadas, entidades já mencionadas previamente; e inferíveis, entidades que se depreende facilmente de outras presentes no texto prévio (2.4). Já Chafe tem uma fundamentação cognitiva e refere-se a referentes dados, novos e acessíveis. Para um estudo quantitativo, consideramos a proposta de Prince mais operacional, daí nossa opção pela mesma. Com relação a este grupo de fatores, nossa hipótese era a de que, em um enunciado sobre tópicos não totalmente dominados pelo falantes, haveria mais possibilidade de hesitação, daí o maior uso assim e digamos, por exemplo. Investigamos ainda se a informação precedia o M.D. (expansores), seguia-o (assim, digamos) ou circundava-o (por exemplo). (2.4) Eles fazem um molho com pimenta muito gostoso, se bem que é muito forte, né? A gente sente assim aquele gosto muito picante. (DID RJ-328, token 403)
Nesse enunciado, o gosto picante já estava implícito por ser inerente à pimenta e a muito forte. Como foi verificado posteriormente que as informações inferíveis e as evocadas se comportavam analogamente, foram amalgamadas em um só fator. 2.5 – Conforme já foi dito, o estudo do lugar onde se situa o M.D. é um dos objetivos desta fase da análise. Pioneiros no estudo dos M.Ds., Castilho (1986) e Marcuschi (1989) chamaram a atenção para a preferência dessas partículas pelas margens direita e esquerda. Silva (1990), por outro lado, nota que o M.D. assim, longe de ser marginal, situa-se sistematicamente diante de complemento, nunca entre sujeito e verbo, sofrendo, portanto, séria restrição sintática. Tratando-se aqui de um trabalho de cunho discursivo, cabe justificar porque não utilizamos as unidades discursivas como unidades de segmentação, 306
como as preconizadas por numerosos autores, como Castilho (1986), entre outros. Como os M.Ds. têm freqüentemente contorno entoacional peculiar, podem servir de marco para a segmentação de tais unidades, chegando até a poder constituir uma unidade de per si. Parece-nos circular dizer serem os M.Ds. marginais, se eles próprios servem de delimitação para as margens. A partir da proposta de Tarallo (1991) e Tarallo e Kato (1992), referida acima, passamos a utilizá-la em Silva, Tarallo e Braga (1994) com enorme ganho, já que, utilizando apenas um critério sintático, não há perigo de alegar ser circular e viciosa a análise da localização dos M.Ds. Nesse último trabalho, os autores sugerem que cada M.D. pode ter uma fronteira preferencial. Constatam, também, ser possível a presença de alguns M.Ds. fora de fronteira de constituinte. Verificar-se-á aqui que os M.Ds. em tela ocorrem preferencialmente numa fronteira (em qual delas) e, caso contrário, qual a outra localização preferencial.7 Por se tratar de M.Ds. não ligados às tomadas de turno, foi totalmente desnecessário verificar sua localização relativamente ao turno. Como muitas instâncias não estavam na fronteira, foram previstos para esses codificações agrupadas em duas variáveis: uma que previa qual a posição geral ocupada pelo M.D., se tópico, sujeito, complemento (qual) ou adjunto; e outra que discriminava mais finamente a posição: entre dois adjuntos adnominais, entre adjunto adnominal e nome, etc... 2.6 – Com o objetivo de detalhar a entoação dos M.Ds. verificando-se seu destaque, a pauta entoacional foi subdividida em diversas variáveis: pausa anterior, pausa posterior, estabilidade da altura, comprimento da última sílaba, intensidade auditiva, (des)aceleração do ritmo. Foi também utilizado, numa subamostra de 20 dados de cada M.D., o programa CECIL, sistema de análise fonética que permite refinar a análise acústica dos traços suprasegmentais. A – A pausa, medida de acordo com a metodologia descrita em Silva (199?), foi considerada relativamente à velocidade média da entrevista. B – Quanto à altura do(s) último(s) segmento(s) do M.D. relativamente aos primeiro(s), os padrões encontrados foram: a) estável, quando não havia percepção de subida nem descida; b) ascendente contínuo, quando havia uma subida desde o início; c) descendente quando, pelo contrário, identificava-se uma descida de altura;. d) ascendente/ estável:
307
como o gráfico indica, esse padrão consistiu em uma subida de altura inicial, seguida de uma estagnação. C – A variável relativa ao comprimento da última sílaba é binária, tendo sido considerada como alongada apenas a sílaba que oferecesse um alongamento perceptível. D – A variável intensidade também compreendia dois fatores, que visavam a identificar se o M.D. tinha sido emitido com intensidade inferior à do resto do enunciado ou não. (Não houve ocorrências de M.D. positivamente proeminente) E – A aceleração ou desaceleração do ritmo em que vinha sendo empregado pelo ouvinte foi registrada naqueles M.Ds. em que esse fenômeno era claramente perceptível em relação às últimas palavras anteriores e às primeiras posteriores ao M.D. O M.D. por exemplo foi, no entanto, codificado de maneira um pouco diversa já que seu padrão consiste em uma aceleração anterior a ele que se prolonga pelo exemplificante. 2.7 – É sabido que alguns M.Ds. tendem a se aglutinar a outros. São amalgamações comuns aí então, mas então, ah bom, etc... Mencionaremos como cada M.D. aqui estudado se comporta quanto a essa propriedade. 2.8 – As freqüências gerais foram corrigidas (v.c) de acordo com a duração de cada entrevista e foi, também, acrescentado o conceito de repartição. Com efeito, uma freqüência alta poderia refletir uma idiossincrasia do falante. Já a repartição indica em quantas entrevistas aparece o M.D. Um número pequeno confirmaria a idiossincrasia ou, dependendo da variável região, um regionalismo. Essa variável foi cotada de 1 a 18 (número de entrevistas analisadas). Considerando que a linguagem desabrocha durante a interação social, não poderiam faltar no elenco dos grupos de fatores comuns à análise de todos os M.Ds. as variáveis sociais sexo e região do informante e ainda o tipo de entrevista (EF, DID e D2) todas suficientemente conhecidas para dispensar descrição.
3. Teoria dos conjuntos Trataremos agora da relação dos M.Ds. etc..., por exemplo, digamos e assim com a teoria dos conjuntos, pois reivindicamos que todos se referem 308
implicitamente a um ou mais elementos dentro de um conjunto de elementos. O M.D. por exemplo ilustra tal uso: (3.1) Em lojas comerciais de artigos diversos,... por exemplo eletrodoméstico, nós temos o Correia Ribeiro. (DID, SA l.701)
O falante refere-se a um conjunto de lojas que acha desnecessário ou difícil identificar por meio de um enunciado explicativo. Certamente, qualquer outro estabelecimento comercial (de roupas, sapatos) que não vendesse produtos alimentícios (já descartados anteriormente no texto), serviria para o propósito do falante. No outro exemplo abaixo, da mesma forma, a falante se refere a diferenças observadas em peças teatrais. (3.2) eu tenho notado diferença por exemplo aquele teatro que tem lá na rua dos Ingleses que passou essa peça essa comédia que nós comentamos eu tenho a impressão que ela é mais assim ah não tem tanto preparo, tanto eh... (DID-SP 2 l.230)
Ao invés de dissertar sobre vários tipos de diferença, escolhe, como ilustração, no conjunto de peças, um dos elementos, uma peça daquele teatro citado. Vemos abaixo também um exemplo mais explícito de como o falante se vale simultaneamente da teoria de conjuntos (e aqui conscientemente) e desse grupo de M.Ds. (3.3) então uma firma x precisa de um determinado elemento y por exemplo então ela diz os::os elementos que eu gostaria... normalmente são dos concorrentes é de tal tal tal empresa (D2, SP l.1029)
Em outro enunciado, não encontrando explicitamente um elemento perfeitamente prototípico que sirva de escala para comparar com “as mais amplas”, serve-se de vários elementos (as religiosas, as morais) para que seus alunos expandam o conjunto de elementos éticos, fazendo-se uma idéia do que ela quer lhes transmitir. 309
(3.4) São as mais abrangentes, as mais amplas, mais do que por exemplo? Isso eu expliquei... eu acho que na segunda ou terceira aula. Mais do que as religiosas, mais do que:: as regras morais etc... (T-062b/EF, RE)
O M.D. assim também se relaciona à teoria dos conjuntos, sendo usado enquanto o falante, ao processar seu enunciado, procura, entre os termos de um campo semântico, o mais adequado elemento de um conjunto aberto pelo sub-tópico. Esse conjunto se aproxima também ao frame de Minsky (apud Brown & Fillmore,1983). (3.5) mas são muitas frutas silves...assim selvagens [1] que eles tiram assim mesmo da, da mata. (DID, RJ 051 31) (3.6) e, são frutas [2] assim, muito, assim, duras, sabe? (DID, RJ 063 31)
No exemplo 3.5, a falante abre um campo semântico, no caso um subconjunto de frutas cultivadas ou não e procura o elemento que melhor convenha aos seus propósitos, a descrição das frutas em pauta. Há até um indício dessa procura já que tinha, provavelmente, iniciado o elemento silvestre, que foi abandonado:
FRUTAS selvagens
não cultivadas
silvestres
Em 3.6, ela visivelmente procura um elemento adequado entre os congêneres de dura. Ela certamente teria preferido, dentre os do mesmo campo semântico, um adjetivo que intensificasse melhor a dureza da fruta. Não o encontrando, enuncia mesmo o dura e ainda pede, com o sabe?, a compreensão do ouvinte já que o termo escolhido não lhe parece o melhor. 310
Os dois M.Ds. aparentados digamos e vamos dizer assim também se referem a elementos de um conjunto no sentido de sinalizarem ao ouvinte a existência de um conjunto de elementos possíveis, apontar para um, avisando o seu interlocutor que qualquer um dos elementos próximos a ele teria igualmente servido ao seu propósito comunicativo, não havendo, portanto, nenhum compromisso de sua parte com esse elemento mais do que com outro. Ancorado na 4a pessoa, persiste, no uso enquanto M.D., uma referência ao interlocutor, buscando torná-lo cúmplice e acentuando seu não comprometimento. O M.D. etcétera também se refere a elementos de um conjunto. O falante cita alguns deles esperando que o ouvinte entenda e generalize o conjunto desejado. Com esse M.D. e valendo-se de apenas uma palavra, o falante leva o interlocutor a fazer uma síntese do resto dos demais elementos. Devido a esse aspecto é algumas vezes chamado de sintetizador. Funciona à semelhança de expressões explícitas que podem finalizar uma enumeração, como a do final de (3.7), em que o falante se refere ao conjunto após já ter citado seus elementos: (3.7) há possibilidade dependendo...do grau de conhecimento... de um juiz... de um advogado...de um promotor... enfim de um profissional de direito. (EF, SA l. 112)
Por outro lado, indica também que o conjunto se expande além dos poucos elementos citados. Por esse motivo, será aqui tratado como expansor.
4. Os M.Ds. Expansores Nesta seção analisaremos o M.D. etc..., sua outra possibilidade de realização etc... e tal e ainda as formas e tal e coisa, e tudo (o) mais, e numerosas outras, quando também consideradas M.Ds.8. Paralelamente, serão estudadas formas que desempenham a mesma função mas que foram consideradas como limítrofes. Vimos, na parte 1, que algumas propriedades do etc... (e das similares) o caracterizavam como M.D. não-prototípico. No decorrer desta segunda etapa, consideraremos a variável 07 – relação sintática com a estrutura oracional –, que distribui os elementos em pauta em dois subgrupos, conforme sejam sintaticamente dependentes ou não. Os primeiros situam-se ao lado dos 311
limítrofes, já que a dependência sintática pesou fortemente, por ser um traço eliminatório. Esse estudo sobre os expansores se calca nas hipóteses iniciais de que: i) nas enumerações, a maior dificuldade do falante em arrolar os membros que constituem um conjunto pode propiciar a ocorrência de expansores; ii) independentemente da dificuldade, o falante não utilizaria expansores se o tópico ilustrado pela enumeração fosse considerado relevante. A análise se baseará, portanto, primordialmente em variáveis que tentarão abeirar-se tanto do grau de dificuldade, quanto da relevância do tópico em que está inserida a enumeração. Dissemos: “tentar abeirar-se” pois temos total consciência da impossibilidade de aferir, exata e objetivamente, o grau de dificuldade quando de enumeração e hierarquização dos elementos de uma lista. Verificou-se, após a primeira análise desses M.Ds., que não bastava a análise do expansor propriamente dito, mas que se tornava necessário certa análise dos elementos que o precedem. Algumas das variáveis dizem, pois, respeito ao tipo de enumeração dos elementos do conjunto. Dada a definição de enumeração, pensávamos haver pelo menos dois elementos antes de um possível expansor. Deparamo-nos, no entanto, com formas de expansores após a citação de apenas um elemento (4.1) (4.1) o sexo na Suécia todo mundo fala normalmente...não tem problema... discute-se em casa... das... das filhas... da atividade sexual...coisa e tal... de meninas de 12... 15 anos não tem problema (D2-RJ l.768)
Considerou-se, então, que a enumeração seria a estrutura indispensável para a ocorrência de um expansor, mesmo que ela se reduzisse a um só elemento. O inverso nem sempre ocorre: uma enumeração pode conter ou não um expansor (cf. 4.2). (4.2) Doc. E o que que se cultivava na fazenda? Inf. Bom...ahn::até hoje se cultiva apenas eu hoje eu estou afastado do::...do habitat...(riu) mas::cultivava milho... cana de açúcar...e:: culturas que:: quer dizer não eram constantes culturas anuais... que se renovavam... por exemplo algodão... e::... depois plantava-se também às vezes eucaliptos... (DID-SP l.38)
312
Priorizou-se entretanto o estudo das enumerações em que ocorreu um expansor, já que a ênfase dada a essa pesquisa se concentra nos M.Ds. Tendo identificado a enumeração e o M.D. (ou o limítrofe) que a encerra, ainda há, em alguns casos, uma outra dificuldade, principalmente em enumerações curtas: a delimitação do escopo do M.D. Nem sempre há pistas cabais. As mais comuns são curvas entoacionais peculiares e paralelas para todos os elementos. Por vezes, a utilização da mesma estrutura formal quando da listagem de cada membro (o que é aqui chamado de paralelismo (Hilgert, 1989)), pode, eventualmente, fornecer pistas. No exemplo a seguir, aponta-se para duas possibilidades de interpretação (a e b): (4.3) Aí, pronto, tem as lanchonetes, esses bares de esses barzinhos da orla marítima e tem os cinemas (est) não é? tem os clubes sociais, que nós podemos pode-se...geralmente há reuniões entre os amigos, a) etc. e tal b) etc. e tal E durante a noite, não se fala, né? (DID, SA l.789)
Na interpretação a), o conjunto inclui os tipos de lazer: clubes sociais, cinemas, barzinhos de reuniões. Em b), o conjunto seria do tipo de reuniões: entre amigos, colegas, parentes. Nem a entoação, nem o paralelismo elucidam bem a questão. A incidência desse M.D. parecer constituir dificuldade para o analista; não, porém, para o ouvinte: nunca foi encontrado nenhum pedido de esclarecimento por parte do último. É bem verdade que a maioria das enumerações com expansor, e justamente aquelas com expansor de âmbito duvidoso, foi classificada como irrelevante. Esse âmbito do expansor foi de suma importância, já que, freqüentemente, do escopo dependeu toda a codificação, até mesmo a decisão de ser sintaticamente independente ou não, isto é, em última análise, a decisão de ser M.D. ou limítrofe. Veja-se por exemplo: 313
(4.4)
ele passava a incorporação saia vendendo cotas de terreno a)
isso tudo
b) c)
isso tudo isso tudo (D2-RJ l.551)
Em a), o “isso tudo” remeteria à oração “saía vendendo cotas de terreno”; em b), a “de terreno” (cotas de clube...); em c), ao verbo “saia” (anunciava...). Se não fosse, no caso b), haveria provavelmente uma preposição (disso tudo) paralelamente repetida, e no caso c), um verbo. Os aspectos considerados a seguir avaliarão a motivação que leva ao uso ou não de um expansor9. Como já foi dito, numerosos expansores e formas limítrofes podem desempenhar a mesma função. Listam-se abaixo as formas encontradas, agrupadas em núcleos em volta de TUDO (cf.4.4), COISA (4.1), TAL (4.13), SEI e, naturalmente, o próprio ETC... (4.8): M.Ds a)
LIMÍTROFES
N.
%
N.
22/62
35,5
0
15/62
24,1
1/8
e tal e coisa tal Total
6/62
14,5
0
não sei (o) que (tatata) mais não sei (o) que Total
7/62
11,3
3/8
etc... etc. e tal etc.etc.. Total
isso tudo tudo tudo (o) mais tudo isso todo esse negócio esse negócio todo Total
%
b)
c)
d)
314
12,5
37,5
e)
f)
essas coisas outras coisas interessantes uma coisa e outra por aí e coisa coisa e tal qualquer coisa assim umas coisas assim Total
6/62
9,7
3/8
37,5
3/62
4,8
1/8
12,5
e por aí vai afora nada disso tatata Total
A grande diferença entre as porcentagens apresentadas pelos diversos M.Ds. e pelos diversos limítrofes, além do pequeno número destes últimos, deve-se ao fato do etc... nunca exercer nenhuma função sintática, não podendo, portanto, ser classificado como limítrofe. Como esse foi o critério para a separação de M.Ds. e limítrofes, criou-se um desequilíbrio quantitativo entre os dois lados. Com o objetivo de aquilatar sua inserção no enunciado (Dubois, 1992), inserção essa curiosa para um M.D., foi analisada a presença (4.5) ou ausência (4.1) de conjunções imediatamente anteriores ao expansor. A forma etc... foi considerada sem conjunção, malgrado sua fonte, exceto se aparecesse explicitamente com ela como em: (4.5) o dia que você der autonomia financeira aos colégios... aos diretores e etc... (D2-RJ l.1271)
A grande proporção de expansores sem conjunção (39/62=62,9%) devese, em parte, à grande quantidade de etc. Mas, mesmo que fossem retiradas as 22 formas cujo núcleo é etc..., ainda haveria 16 ocorrências sem conjunção. Das formas limítrofes 4/8=50% vêm sem conjunção. Não há pois diferença relevante. Dubois (1992) encontrou um número mais baixo sem conjuntores no Québec (42%), o que se deve provavelmente ao menor número de etc... O paralelismo, como observamos previamente, ajudava a delimitar o âmbito do expansor. Para avaliar sua atuação, propusemos uma variável com três fatores: sem paralelismo, paralelo e misto. O rótulo do primeiro fator é 315
auto-explicativo, dispensando, conseqüentemente, maiores comentários. O segundo identificava aquelas enumerações em que havia repetição de estruturas, independentemente das alterações que pudessem sofrer no decorrer do ato de fala. O terceiro remetia ou à repetição de um item muito pequeno ou a uma lista com poucos elementos paralelos.10 Os resultados estão expostos na tabela seguinte, mas sua interpretação, correlacionando o paralelismo ao maior ou menor uso de expansores, demandou a comparação de paralelismo em uma amostra de enumerações sem essas partículas. Vê-se, na tabela abaixo, que há menos paralelismo naquelas enumerações com M.Ds. e limítrofes. Sabendo-se que as enumerações sem expansores são, via de regra, mais relevantes para o tópico em que estão inseridas (o que será visto adiante), cruzaram-se as variáveis relevância e paralelismo. Os resultados mostram que as enumerações relevantes tendem a ser mais paralelas (7/11=63,6%). Os índices percentuais para as não paralelas ou fracamente paralelas, no que diz respeito à relevância, são bem mais inferiores (15/35=42,8%). M.D. Nenhum paralelismo
25/42=59,5%
pouco ou paral. misto
7/42=16,7%
paralelismo
10/42=23,8%
Limítrofes 3/4=75,0%
Enumer. sem M.D. nem limítrofe. 20/54=37,0% 12/54=22,2%
1/4=25,0%
22/54=40,7%
Para analisar a relevância da enumeração, face à seqüência tópica em que estava inserida, valemo-nos dos seguintes fatores: a) Relevante – Consideraram-se relevantes as enumerações a serviço de tópicos que o falante julga essenciais, a ponto de prosseguirem no decorrer da entrevista, ou seja, tópicos retomados, explorados, expandidos. Ou que respondem diretamente à pergunta do documentador (4.2). Este conceito corresponderia aproximadamente ao de figura, nas narrativas. Nas EFs, quando a enumeração é justamente o tema da aula, relevante portanto mesmo que seja inferível ou velha, mesmo que óbvia, o professor, por motivos didáticos, se acha obrigado a ser redundante, enumerando todos os elementos, como em 4.6, em que não poderia haver outras paredes, nem menos do que essas. (4.6) ... tendo essa região, portanto, a forma também quadrilátera, apresentando a mesma...as mesmas paredes que o mediastino anterior, ou sejam seis pare-
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des: anterior, posterior, superior e inferior e as duas laterais, a lateral direita e a lateral esquerda.
b) Não Relevante – Foi considerada não relevante uma enumeração introduzida em forma de exemplo, para ilustrar o assunto predominante, podendo claramente ser omitida sem muito prejuízo para a compreensão, como no exemplo abaixo onde o acidente possível entrou fortuitamente no discurso. Corresponderia aproximadamente ao conceito de fundo, nas narrativas. (4.7) É a rede de... de eletricidade, esses fios de alta tensão, que ficam suspensos; quer dizer, é arriscado, não é, (rindo) a ter um... como de vez em quando acontece, tem acidentes, né, um fio daquele parte por aí e coisa. (L.551/DID masSA)
A hipótese subjacente a essa variável é que quanto mais relevante a enumeração menos partícula de expansão haveria, pois os elementos adquiririam importância de per si, excluindo o uso do elemento coringa. Veja-se o exemplo 4.8, mais abaixo: não teria cabimento o falante fornecer o primeiro elemento “os colonos” e sintetizar com e tal sonegando a informação pedida. Observem-se os resultados abaixo: M.Ds.
Limítrofes
Enumer. sem M.D. nem limítrofe.
não relevantes
32/62=51,6%
4/8=50,0%
10/54=19,0%
relevantes
30/62=48,4%
4/8=50,0%
44/54=81,0%
A tabela acima mostra que os M.Ds. e os limítrofes exibem a mesma percentagem e que as enumerações com expansores tendem a ser menos relevantes. A enumeração, se relevante, tenderá a dispensar os expansores. A disposição dos elementos que caracterizam uma enumeração (entonação, pausa, presença de um quantificador ou de uma conjunção entre os elementos) levou à classificação da mesma em aberta ou fechada. A inclusão desta variável partiu da hipótese de que as enumerações abertas deveriam ter menos partículas de extensão, já que o fechamento faz prever que já foram enumerados todos os elementos do conjunto, não havendo motivos para citar mais algum nem expandir o conjunto com expansor: 317
a) Aberta – Consideraram-se enumerações abertas aquelas cujos elementos não são limitados nem por conjunção (e/ou/também) nem por qualquer outro elemento delimitador ou quantificador. Não é de conhecimento geral que seja fechada, como no exemplo (4.9, abaixo). b) Fechada – Considerou-se fechada toda enumeração limitada por conjunção (e/ou/também) e/ou por elemento quantificador (como em (4.8)) ou ainda que seja de conhecimento geral que seja fechada, como seria o caso da enumeração dos planetas ou dos continentes. (4.8) Doc. Essas pessoas que trabalham... em fazenda têm um nome especial? Inf. Não eram chamá/ eram de dois tipos...de acordo com o trabalho... haviam os colonos... e os camaradas (DID-SP inf.23 l.56) M.Ds.
Limítrofes
Enumer. sem M.D. nem limítrofe.
aberta
25/29=86,2%
4/4=100%
19/50=38%
fechada
4/29=13,8%
0/4=0%
31/50=62%
Nota-se que efetivamente há maior quantidade de enumerações abertas do que fechadas com expansores (M.Ds. ou limítrofes) ao contrário das enumerações sem partículas. Quanto ao número de elementos da enumeração, foram consideradas as seguintes possibilidades: conjunto de um só elemento (4.1); de dois (4.8); de três (4.9); de mais de três (4.10). (4.9) fui recebido pela empregada... eu... Lina... as garotas e tal (D2-RJ l.586) (4.10) parece que o Brasil tem 15 ou 18 impostos... você tem os impostos federais... estaduais... municipais impostos relativos a impostos ( ) impostos de mercadorias em relação à produção de circulação...o IPM... o ICM e por aí vai afora. (D2-RJ l.719)
318
Esperava-se que o número de partículas de expansão aumentasse à medida que aumentasse o número de elementos e que tendesse a se estabilizar, já que, a partir de um certo número de elementos, já estaria definido o conjunto, tornando-se então desnecessário continuar. (Confessamos até, que por uma crença supersticiosa e cultural, achávamos que esse número seria três). Por outro lado, a limitação de memória poderia tornar difícil uma enumeração após a citação de alguns elementos. Vê-se pelos resultados abaixo que tal suposição não foi referendada pelos resultados estatísticos. M.Ds.
Limítrofes
Enumer. sem M.D. nem limítrofe.
1 elemento
33/62=53,2%
4/8=50,0%
———
2 elementos
19/62=30,6%
3/8=37,5%
5/50=10%
3 elementos
5/62= 8,1%
0/8=0%
20/50=40%
mais de 3 el.
5/62==8,1%
1/8=12,5%
25/50=50%
Ao contrário do esperado, a falsa enumeração, a de um elemento, é a mais freqüente; o número de partículas de expansão, seja M.D. ou limítrofe, decai à medida que aumenta o número de elementos, estabilizando-se a partir de três. Esse resultado torna difícil sustentar a hipótese geral de que a falta de memória, a dificuldade de processamento, é que fomentaria o uso de expansores, que se tornaria então um tipo de coringa, cuja função primordial seria a de substituir elementos esquecidos. É difícil sustentar que a memória comece a falhar logo após o primeiro elemento: até mesmo os afásicos com anomia (dificuldade de enunciar nomes, comuns ou próprios) nomeiam alguns, quando se lhes pede que elaborem uma lista de elementos conhecidos como de animais, flores etc... (Souza, comunicação pessoal).11 O número de elementos em enumerações sem expansores evidencia que os falantes do NURC não são tão desprovidos de memória. Mesmo que não se lembrem de todos os elementos, se a enunciação for relevante, os interlocutores procurarão citar o máximo de elementos do conjunto, como evidencia o exemplo abaixo em que o falante, embora sofra estoicamente e confesse várias vezes não lembrar, cita 11 elementos sem sintetizá-los, frisando que não fechou a enumeração. (4.11)Doc. De que instrumentos se compõe uma orquestra? Inf. Bom, tem o piano quando é solista ou também pode ser o primeiro violino, segundo violino, tem fagote, saxo... saxofone acho que tem
319
também, né? Saxofone, aquele como é que se chama que tocam assim, xilo... não é xilofone? Ou tem outro nome agora? É uma espécie de marimba assim, que que mais? Ah! Harpa, tem a harpa, tem aqueles não sei se é címbalos que se chamam aqueles tambores grandes, como é que se chamam? Bombo? Não. Eu não sei o nome daqueles... eu vejo na orquestra, mas eu não sei o nome de todos os instrumentos...fagote, trombone, não...ah! violoncelo também, viola, tudo isso e alguns... que, às vezes, eu não me lembro de todos também, né? Deve ter muito mais (DID-PoA l.441)
A dificuldade que o falante poderia ter tido ao procurar esses elementos foi correlacionada com o número de descontinuidades antes e entre os elementos da enumeração, comparando-o com os encontrados após essa enumeração, ambiente julgado neutro. Não foi constatado resultado significativo: para os M.Ds. foram encontrados 24/62=38,7% antes + durante a enumeração vs. 20/62=32,2% após. Para os limítrofes 3/8=37,5% antes + durante e 4/8=50% após. Esses resultados apontam novamente para a inexistência de dificuldade. Tudo leva, pois, a crer que a relevância ou não da enumeração é mais fundamental para a presença ou ausência do expansor de que fatores ligados à memória. Sempre preocupados com a maior ou menor prototipicidade dos elementos do conjunto envolvido com o M.D., medimos tanto sua objetividade quanto sua concretitude. Esperávamos que os elementos de uma enumeração terminada por um expansor fossem bastante prototípicos, embora não tanto quanto um exemplo: se o falante usa vários elementos, usa-os porque, provavelmente, não lhe ocorreu nenhum excelente, totalmente prototípico, que definisse o conjunto. Daí ter usado outra estratégia que não a exemplificação. A objetividade dos elementos com expansores (43/62=69,3%) ficou a meio caminho entre, por um lado, a dos regidos por assim (41,9%) e por digamos (30,2%) (cujos elementos, veremos, são totalmente não-prototípicos) e, por outro lado, a dos exemplificantes (94,6%), totalmente prototípicos. A dos expansores limítrofes foi de 6/8=75%. Da mesma forma, a concretitude foi de 50/62%=80,6%, enquanto a dos elementos envolvidos com assim foi de 31,3% e com digamos de 39,4%; no outro extremo, a dos exemplificantes foi de 86,4%. Acreditávamos que o status informacional dos elementos da enumeração terminada por expansores não exibiria nenhuma correlação significativa, já que este contexto encontra-se a meio caminho entre a prototipicidade do exemplificante, facilmente acessível, e a difícil procura de um elemento novo regido 320
por assim ou digamos. Assim mesmo, aferimos esse status para efeito de comparação com os demais M.Ds. O resultado (32/62=51,6) é neutro em relação aos demais M.Ds. Quanto à curva entoacional, nem os M.Ds. expansores nem os limítrofes apresentam características que os façam, de forma sensível, sobressair entoacionalmente do resto do enunciado, exceto quanto à tendência à curva entoacional ser descendente (37/95=38,9% dos M.Ds. e 15/32= 46,8% dos limítrofes). O comprimento da última sílaba é normal, assim como a rapidez e a força das partículas; o número de pausas anteriores é insignificante. O número de pausas posteriores é visto no quadro abaixo onde se nota haver menos pausas posteriores do que se suporia. M.Ds.
Limítrofes
nenhuma
76/95=80,0%
22/32=68,8%
curta
6/95= 6,3%
10/32=31,2%
média
10/95=10,5%
longa
4/95= 4,2%
Com respeito à associação com outros M.Ds., os resultados mostram que etcétera, os demais M.Ds. expansores e os expansores limítrofes tendem a se aglutinar entre si, sendo preterida a combinação com outros M.Ds., como foi visto na extensa lista apresentada. Todos os expansores, exceto dois situados dentro do complemento, se encontram em alguma fronteira e são marginais quanto à sua localização, isto é, ocorrem nas fronteira da margem, à direita (após complemento ou após um verbo sem complemento). Observe-se a pouca dispersão dos resultados. 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% f
a
e
d
o
x
321
As partículas expansoras, mesmo que medidas globalmente, exibiram freqüência e repartição pequena: respectivamente 62 e 9. É extremamente curioso e inexplicável o fato de essas partículas terem tantas formas, ao contrário dos demais M.Ds. Vale ressaltar, todavia, que o número de M.Ds., neste corpus, é inferior ao de outros (cf. nota 8). Seu âmbito de dispersão foi de 0 a 22. As ocorrências são derrisórias em DIDs (0,7 por hora), sobem em flecha em D2 (7,0 p.h.) e ocupam posição intermediária nos EFs (2,0 p.h.). A explicação pode ter a ver com uma idiossincrasia aliada a um regionalismo de duas entrevistas D2 (RJ e SP), que sozinhas perfazem 42/62=67,7% de todos esses M.Ds. Descartamos uma explicação que recorra apenas à idiossincrasia, porque os dois falantes de cada uma dessas duas entrevistas usaram com equilíbrio, respectivamente, (incluindo os limítrofes):14, 10, 13 e 10 instâncias. Não há correlações significativas com o gênero (3,8 p.h. para os homens e 4,0 p.h. para as mulheres). Damos a seguir a curva relativa às regiões, onde se observa haver um hipocentro na região sudeste: 8 7 6 5 4 3 2 1 0 Re
Sa
RJ
SP
PoA
Resumindo, notamos que o uso da partícula de expansão está intrinsecamente ligado às características da enumeração à qual está atrelada. As listas com elementos discretos, abertos e reais tendem a fomentar seu uso. A correlação do uso dos expansores com possível dificuldade de processamento é fraca. Mais pertinente é a correlação com a relevância do rol para a continuidade do tópico. Quanto mais relevante a enumeração, menos expansor e mais estratégias outras, como o paralelismo dos elementos. Não houve diferença apreciável entre o comportamento dos M.Ds. e o dos limítrofes.
5. Por exemplo O M.D. por exemplo compartilha com etc... o fato de ser também utilizado na língua escrita (5.15). Defendemos que um bom exemplo deve ser o 322
elemento conhecido e prototípico de um conjunto. No trecho 5.1, querendo demonstrar e argumentar que as imagens pré-históricas não teriam um propósito artístico mas sim ritual, a falante usa um objeto atual, comum, conhecido por todos, prototípico portanto: a igreja. (5.1) por ser no escuro demonstra que a imagem não foi feita para decorar a caverna ou para ser vista por outras pessoas certo? por exemplo numa igreja hoje você tem imagens que representam uma idéia religiosa uma série de coisas mas que estão lá para ser vistas também. (EF-SP l.255)
Nota-se que este enunciado, à primeira vista, não ilustraria a hipótese que estamos defendendo: a de que o M.D. por exemplo integra o rol dos M.Ds. que encontram sua explicação na teoria de conjuntos: a falante precisava, para apoiar sua argumentação, de um elemento que, de forma simultânea, remetesse a um lugar claro para abrigar a exposição de obras de arte (até aqui poderia ser o elemento museu, galeria de arte, igreja) e que servisse também a propósitos religiosos, afastando assim os dois primeiros candidatos. LUGAR DE ARTE
LUGAR RELIGIOSO
museu
galeria
sinagoga
igreja
templo
A análise do trecho em tela reforça, pois, a hipótese que busca a explicação para os M.Ds. em tela na teoria dos conjuntos: há (e muitos) conjuntos unitários, principalmente em subconjuntos advindos de intersecção, como é aqui o caso. Análises quantitativas privilegiam regularidades, ressaltam tendências. É interessante notar, entretanto, que esses M.Ds., por vezes, se afastam da regularidade, desempenhando um papel comum, de modo geral, aos M.Ds.: o de preencher espaços vazios. É o caso de 5.2, que, por se referir a um conjunto unitário, apenas define, sem exemplificar. Parece apenas manter o turno enquanto o falante processa o que vai dizer, como aliás confirmam as hesitações subseqüentes. 323
(5.2) Agora a ginecomastia secundária. É aquela em que, por exemplo, a... eh... atinge o homem em qualquer fase (EF-SA l.105)
As ocorrências de como por exemplo, e um único caso do M.D. um exemplo serão consideradas como variantes de por exemplo, que não apresentaram formas limítrofes com a mesma função. (5.3) ele... pra morar... se ele quisesse..., um exemplo, na zona Sul...um apartamento de CR$1000,00 é apartamento de que? (D2-RJ l.274) (5.4) Sabemos também que os sindicatos também devem levar adiante toda e qualquer reivindicação dos seus associados como por exemplo a questão relacionada diretamente com as vantagens ou os aumentos salariais (DID-RE l.47)
Cumpre ressaltar que, à semelhança de Vincent (1992), que pesquisou esses M.Ds. no francês do Québec, e à semelhança dos demais M.Ds. aqui tratados, o critério que permitiu a identificação do objeto da análise não foi o contexto exemplificatório, mas a presença formal de um marcador, já que se privilegiou a forma sobre a função. Funcionariam, todavia, como indícios de processo exemplificante as enumerações e os expansores, embora o aparecimento deste tipo de marcador, a princípio, devesse anular a possibilidade de ocorrência de um exemplificador. Com efeito, ambos, o etc... e o por exemplo, se valem dos recursos da teoria dos conjuntos, porém de modo distinto e, até certo ponto, contraditório, como exemplifica o trecho 5.5, no qual um marcador de exemplificação parece estar lado a lado com uma partícula expansora, dificultando a compreensão. (5.5) L1- ......o caso de uma alimentação L2- uma ração isso balanceada L1- balanceada L2- mas eu vejo aqui por exemplo, de vez em quando tem uma verdurinha etc e tal, por exemplo. (D2-PA fl.02)
324
Por exemplo refere-se a verdurinha como elemento prototípico de “ração balanceada”, parecendo avisar, todavia, que há outros elementos nesse conjunto (talvez legumes, saladas). A dificuldade de interpretação parece decorrer, justamente, do excesso de estratégias simultâneas, o que violaria a máxima da informação (Grice, 1982: 95), segundo a qual o falante não deve fazer “uma contribuição mais informativa do que é requerido”. Vê-se bem como funciona o mecanismo dos conjuntos pelo discrepante exemplo abaixo, onde o por exemplo era desnecessário, uma vez que o falante vai citar todos os elementos do subconjunto como explicita o fecho “até aí...”: (5.6) Não, eu não sou mecânico nenhum [abre um conjunto de coisas que um mecânico deve saber] eu sei fazer certas coisas no carro [abre um subconjunto de coisas que ele sabe fazer] por exemplo, trocar pneu, examinar se está passando corrente ou não, examinar se está passando gasolina ou não, até aí vão meus conhecimentos de carro. (D2-SA l.657)
Se o processo exemplificante é uma das diversas estratégias argumentativas que o falante usa para atrair seu interlocutor, induzindo-o a aderir à sua tese, o conhecimento do exemplo escolhido para tal fim deve ser compartilhado pelo interlocutor. A extensão do exemplo pode variar de uma simples palavra a uma pequena narrativa. Esta última possibilidade, também mencionada por Vincent (1992) a propósito do francês do Canadá, é pouco explorada pelos entrevistados do NURC12. Vimos na parte 1 os motivos que levaram à consideração desta partícula como M.D., embora não plenamente prototípica. Foram aplicadas agora algumas outras variáveis à análise desse M.D. As variáveis lugar do marcador em relação ao exemplificante, âmbito do exemplo, caráter de realidade do exemplificante e ordem dos constituintes foram adaptadas de Vincent (1992), no intuito de se compararem os resultados. As variáveis incluídas aqui têm por objetivo principal comprovar que usualmente o exemplo é um elemento prototípico, tendendo, portanto, a ser concreto, objetivo, específico e conhecido do falante. Foi observado o grau de concretitude tanto do exemplificante quanto do exemplificado, na hipótese de que o primeiro seja mais concreto do que o segundo. O falante busca objetivar e concretizar seus exemplos mesmo quan325
do são conceitos, orações etc... Veja-se o exemplo abaixo em que o entrevistado, por três vezes, tenta topicalizar um substantivo concreto do exemplificante, que é um pequeno episódio iterativo. (5.7) acho que é difícil mesmo a gente consertar isso. Por exemplo eu... minha casa, a porta de minha garagem... eh...de vez em quando, quando eu saio, quando eu volto, eu encontro sempre um carro estacionado na porta da minha garagem
Os resultados para concretitude do exemplificante (89/103=86,4%) e do exemplificado (39/81=48,1%) evidenciam que os primeiros tendem, realmente, a serem mais concretos do que os segundos. Ainda visando a aferir a concretitude, mediu-se a objetividade do exemplificante em relação ao exemplificado (cf. item 2.1). No exemplo (5.7) o exemplificante é objetivo enquanto (5.8) é subjetivo: (5.8) os sindicatos também devem levar... adiante... toda e qualquer reivindicação de seus associados como por exemplo a que... entende? A questão relacionada diretamente com as vantagens ou: ou aumentos salariais... que anualmente são levados em conta... (DID-RE l.50)
Os resultados encontrados (175/185=94,6% de exemplificantes objetivos e 95/184=47,3% dos exemplificados objetivos) mostram a tendência dos exemplificantes a serem mais objetivos do que os exemplificados. Ainda ligado à prototipicidade do exemplificante, foi quantificada a especificação do exemplo: se a hipótese se confirmar, o exemplificante deve tender a especificar o exemplificado. Tem-se abaixo um caso de especificação, consciente por parte do falante: (5.9) as cooperativas também são entidades realmente bastante significativas dentro de uma conjuntura... nacional por exemplo, para citar especificamente o caso de nosso país. (DID-RE l.106)
Nota-se a estratégia argumentativa cada vez mais particularizante no trecho abaixo, em que o falante, que discorria sobre o processo evolutivo dos 326
sindicatos em geral, passa por “determinados” sindicatos e finalmente particulariza com “nosso” sindicato, especificando suas deficiências. (5.10)Nós verificamos por exemplo que determinados sindicatos realmente tomam um passo adiante no que se refere ao conforto... temos o caso por exemplo aqui do nosso sindicato... sabemos por exemplo... das carências e das deficiências que o sindicato apresentava por não possuir uma sede adequada. (DID-RE l.63)
Vincent (1992) tomou como premissa, e não como hipótese, o fato de o exemplificante ser mais particular do que o exemplificado. Preferimos, aqui, testar empiricamente esse fato pois, caso não se confirmasse, ruiria estrondosamente a hipótese de o exemplificante ser um elemento de um conjunto mais amplo, o exemplificado. Para efeito de codificação, o exemplificante poderia ser mais específico, menos específico ainda equivalente ao exemplificado. Os resultados mostram que apenas um exemplificante (1/185) era mais geral do que o exemplificado. Nas demais ocorrências, ou exemplificante e exemplificado eram equivalentes (18/ 185=9,7%) ou os exemplificantes eram mais específicos (166/185=89,7%). O único caso em que o exemplo em si (o brasileiro) é mais geral do que o exemplificado (a pergunta: brasileiro “do norte” ou brasileiro “do sul?”) merece ser transcrito por sua estranheza que atribuímos justamente a essa característica. Observe a tentativa de emenda por parte do falante que, provavelmente, deve ter-se dado conta da estranheza: (5.11)Doc- Depende, que área, brasileiro do norte ou brasileiro do sul? F-
Por exemplo, que o brasileiro pra, eu acho que de um modo geral, nem o do sul que eu acho que tu come bem na tua casa (D2-PoA l.3)
Ainda para verificar o maior peso, a maior dificuldade, do exemplificado relativamente ao exemplificante, mediram-se possíveis marcas formais de dificuldades tanto do exemplificado quanto do exemplificante. Foram encontradas 100/206=48,5% marcas nos exemplificados e 42/206=20,4% nos exemplificantes. Para a análise do status da informação, privilegiamos, de modo geral, a proposta de Prince (1981), distribuindo as ocorrências em dois graus: novo e 327
não-novo (este último, produto da amalgamação de evocado e inferível após constatarmos que os resultados para duas dessas categorias eram semelhantes). Os exemplificados não foram codificados por serem todos evocados, quase que por definição: constituem o tópico, introduzido já há algum tempo, antes de receberem um exemplificante. Quanto a esses últimos, observou-se que são citados pela primeira vez (171/184=92,9), tão abruptamente (vimos que com freqüência parenteticamente), que a surpresa, o não esperado, parece ser até típico de um bom exemplo. O fato de um exemplo ser novo, desconhecido do ouvinte, pareceu-nos estranho e era contra a hipótese da prototipicidade. Face a esse resultado, decidimos utilizar, também, para a análise do exemplificante, a categoria mais mental de Chafe (1994). Codificou-se, portanto, também a disponibilidade do exemplificante, o que poderia constituir-se numa dificuldade: como saber-se o que é disponível para o ouvinte? Para contornar tal dificuldade, sempre que o elemento era conhecido por nós, consideramo-lo a fortiori conhecido pelo ouvinte. Em 5.12, por exemplo, Camaari não foi considerado disponível, porque nós não conhecemos esse lugar, embora seja provável que o ouvinte o conheça. A partir de tal procedimento, inverteu-se totalmente a proporção, passando os exemplos a serem quase totalmente disponíveis (178/ 184=96,7%). O marcador por exemplo possui grande mobilidade no contexto exemplificatório. Ele pode estar antes do exemplificante (5.8) ou depois (5.9). Há casos ainda em que o marcador aparece no meio do exemplo em si (5.12). (5.12)O que acontece é o seguinte: hoje em dia para você ir como nós vamos, por exemplo todo dia a Camaari, já é hoje em dia uma viagem... (D2-SA l.48)
O marcador tende a aparecer antes do exemplo em si (117/179=63,4), como já se esperava pelos resultados de Vincent. Entretanto, é considerável o número de marcadores nas outras posições: 34/179=20% após e 28/179=15,6% no corpo do exemplificante, afirmando a sua grande mobilidade. Os dados de Montréal são quase análogos quanto a posição inicial (61%), diferindo quanto à posição intrasegmental (34%) e final (4%). Segundo Vincent (1992), a função exemplificadora mudará respectivamente de ilustradora para construtora do argumento de acordo com a ordem dos constituintes do exemplo, isto é, a ordem do exemplificado em relação ao exemplificante que pode ser essa (5.8), ou o inverso (5.9). A ordem mais fre328
qüente é a primeira, uma vez que o falante tende a ir do geral para o particular. Em nossa investigação, em 207 casos analisados, apenas 7 (3,4%) não se apresentaram na ordem esperada. Ainda segundo Vincent, quanto ao âmbito, à abrangência, o exemplificante pode ser único ou extensível. O exemplificante é categorizado como único quando se percebe claramente que ele se basta a si mesmo. Geralmente é uma só palavra, uma só expressão, um só assunto (5.10). O exemplificante será classificado como extensível quando aparecem indícios de expansão codificados por etcétera e outros expansores, ou quando o falante se vale de várias expressões juntas para exemplificar um mesmo assunto como em (5.13), no qual poderia ter havido um expansor após “arroz”. (5.13)e tendo que almoçar... justamente... eu... eu como eu gosto por exemplo muito de feijão... muito de arroz...que são coisas que engordam. (DID-RJ l.328)
Nosso interesse por essa variável foi motivado pela hipótese de o exemplificante ser um elemento prototípico, não se justificando, portanto, nem a citação de vários elementos, nem sua extensão por meio de um expansor, como já se viu no exemplo 5.5, acima. A proporção de incidência de exemplificantes com âmbito único é muito grande em nosso corpus: 149/185=80,5%, maior do que em Montréal (65%), embora tal discrepância possa ter decorrido de tratamentos metodológicos distintos. Quanto ao caráter de realidade do exemplificante, o exemplo pode ser de caráter real (ex.5.11) ou irreal, fictício, hipotético (5.14). Se o exemplificante tem de fato o caráter prototípico, é de se esperar que apresente o traço [+real]. (5.14) eu digo mais ou menos porque nós vamos ver qual é a diferença que existe entre uma taxionomia e uma classificação, eu poderia, por exemplo, dividir esta aula em os alunos homens e as mulheres, eu estaria, fazendo uma classificação sem, no entanto, dizer qual é o mais importante. (EF-PoA 278 l.31)
Sendo o assunto da aula justamente a classificação, a mestra poderia ter escolhido uma classificação real, a classificação zoológica, por exemplo, ou até ter escolhido esse mesmo exemplo, apresentando-o, todavia, de um modo real: “a divisão entre sexos é uma classificação”. Os nossos resultados e 329
os de Vincent mostram que a incidência de exemplificantes reais é muito grande: (156/185=84,3% no NURC e 86% em Montréal), confirmando cada vez mais seu caráter prototípico. A pauta entoacional do por exemplo caracteriza-se principalmente pela tendência à maior rapidez (67/169=39,6) e menor força (25/169=14,8) que atinge não só o M.D. mas o exemplificante todo. Essa maior rapidez leva, em muitos casos, ao ensurdecimento ou perda da vogal posterior e do segmento final, reduzindo-se o M.D. a aproximadamente a [prexEmp]. A maior parte desse M.D. (70,4% ) tem o contorno entoacional estável mas há ocorrências de entonação descendente, ascendente ou até ascendente/estável. A pausa anterior é rara (10%) embora as posteriores são mais freqüentes (18,3%) e mais longas (Silva e Rodrigues e Silva, 1995). Essa pauta entoativa faz com o exemplificante possa ser sentido como uma parênteses, como o demonstra o exemplo (5.15), extraído do Jornal do Brasil de 10/11/95, p.6, numa reportagem sobre esquizofrenia: (5.15) Mostrando que o cérebro pode criar sua própria realidade (por exemplo, ouvindo vozes que não existem), este trabalho nos ajuda a entender a distinção entre mente e cérebro...
Tal parentetização provavelmente decorre do fato de o exemplo ser informação nova inserida bruscamente em um tópico que já vinha sendo veiculado e abandonada logo que seu objetivo foi alcançado. Esse M.D. não tende a se aglutinar a nenhuma outra forma, ressalvando os seis casos de como por exemplo, tratados como variante. A fronteira preferencial do por exemplo é a da margem esquerda, isto é, antes de sujeito ou antes de tópico, quando presente. 45,00% 40,00% 35,00% 30,00% 25,00% 20,00% 15,00% 10,00% 5,00% 0,00% f
330
a
e
d
o
x
O gráfico acima revela, entretanto, maior dispersão, não parecendo haver restrições à presença de por exemplo em nenhuma fronteira (o que destoa do geral), exceto a fronteira o, a mais próxima à da direita, entre complementos. A fronteira d, entre verbo e complemento, que costuma ter poucos preenchedores, mormente discursivos (cf. Tarallo, Kato et al, 1992 e Silva, Tarallo e Braga 199?) alcança 31,8%. É alta a proporção de por exemplo situado fora das fronteiras (30,4%), majoritariamente (78%) dentro do complemento. O M.D. por exemplo teve uma alta freqüência de 207, mas uma repartição de 16. Sua dispersão foi de 0 a 48 (abrangência altíssima). Não houve diferenças significativas entre os tipos de entrevistas (EFs 14,9 por hora; DIDs 17,1 p.h. e D2 14,5 p.h.).Quanto à distribuição segundo o gênero do falante, vale ressaltar que os homens privilegiaram muito esse M.D., o que confirma os dados de Vincent. O resultado relativo a regiões mostrou-se irregular. Concluímos, por enquanto, a análise do marcador por exemplo (veremos outras propriedades em 10) ressaltando que sua principal característica é anunciar um exemplificante que tende a ser: a) concreto, objetivo, real, específico e de âmbito único; b) de localização variável dentro do contexto exemplificador e tendendo a anunciar um ilustrador do argumento c) de freqüente destaque entoacional.
6. Digamos Com base em Vincent (1992), que analisou, no francês do Québec, uma partícula análoga (mettons), levantamos a hipótese de que digamos apresentava características de exemplificador. De fato, em alguns enunciados, como 6.1, esse M.D. parece exercer essa função: (6.1) Mas acho horrível o gosto puro da cebola em si então, digamos um refogado de camarão aonde vai a cebola, vai o alho, vai a pimenta [...] o gosto da pimenta, quer dizer, dependendo do tipo de pimenta... (D2-PoA,l.137)
Nesse exemplo, poderíamos classificar “um refogado de camarão” como sendo um exemplificante de caráter real e de âmbito único, e a parte exemplificada como um trecho argumentativo sobre pratos tradicionais. O falante assume que esse exemplo é “bom” para seu propósito. 331
Caruru vatapá
refogado de camarão conjunto de comidas com cebola
Verificamos, entretanto, que, no corpus do NURC, raramente esses M.Ds. se comportavam de modo análogo. O pseudo-exemplificante anunciado pelo M.D. digamos parecia não exibir as características de um exemplo. O falante parece usar, na maioria das vezes, esse M.D. porque não lhe ocorre nenhum “bom” exemplo, nenhum elemento prototípico do conjunto que tem em mente, elemento que seja objetivo, concreto, de conhecimento compartilhado e porque não deseja assumir sozinho a responsabilidade por escolher um elemento ruim. Sinaliza, pois, ao seu interlocutor que o elemento escolhido poderia ser um outro elemento daquele conjunto e que ele o torna cúmplice dessa imprecisão. Freqüentemente, o conjunto corresponde ao campo semântico do elemento procurado. (6.2) Então uma digamos assim perspectiva, ou linha, ou maneira de olhar o fenômeno jurídico ou o direito. (EF-RE t.191)
No exemplo acima, a professora de direito visivelmente não consegue se decidir pelo melhor elemento do conjunto de palavras que integram o campo semântico que abriu. Decide citar várias paráfrases, dando a alternativa ao aluno. Essa procura pode traduzir-se, também, por mais descontinuidades no texto do que no resto do enunciado. (6.3) Uma constituição... poderá já atualmente... ter... muitos de seus parágrafos (pausa de 3 seg.) digamos assim (pausa de 3 seg.) num estado...de caduquice (DID-RE l.504)
Em 6.4, o M.D. ainda exerce uma terceira função, a de sinalizar a imprecisão da exemplificação (já que a precisão do ano, 1918, é até excessiva para sua afirmação). Mas afirmar que é exatamente a década de 20, tornar-seia também preciso, já que a década de 20 engloba, para o fim de salário em questão, parte da década de 1910 (se é que também não se superpõe a de 30). Toda essa imprecisão é assinalada pelo M.D. 332
(6.4) Ele deve ter sido formado em odontologia por volta de 1917, 18 que ele se formou... então nessa época, vamos dizer, na década de 20, a relação salárioprofissional de nível superior ao aluguel seria a quarta parte. (D2-RJ l. 260)
Ainda foi encontrada uma quarta função, a de introduzir premissas, papel mais característico, entretanto, das formas limítrofes irmãs digamos que e vamos dizer que, (6.5) função que Vincent (1993) atribui a alguns exemplificadores, mas que aqui só foram desempenhadas pelas formas mencionadas e por uma única ocorrência de digamos. (6.5) vamos dizer que agora nessa época do an/ da da vida eu não pudesse pagar doze mil cruzeiros agora. (D2-RJ l.479)
Dessas quatro funções básicas, uma delas, a procura de um melhor elemento, assinalando ao interlocutor essa imprecisão e tornando-o cúmplice, é bem mais freqüente do que as demais: das 68 instâncias, 79,4% preencheram essa função enquanto apenas 13,3% encabeçaram exemplos, 5,9% aproximações e apenas 1,2% apresentaram uma premissa. Em contraposição, os quatro limítrofes encontrados desempenharam, todos eles, essa última função. Parece haver aqui uma especialização dos limítrofes. A hipótese adiantada para os exemplificadores era a de que um exemplo tenderia a ser um elemento concreto, objetivo, conhecido e real. Como se comportam a esse respeito os 9 digamos exemplificadores? E os de função de procura? Seria o elemento procurado tão prototípico quanto o exemplificante? A análise do modo realis ou irrealis ficou prejudicada, pois o próprio M.D. induz à interpretação do elemento posterior como irrealis. Na função de procura, esses M.Ds. anunciam apenas 19/54=35,2% de enunciados objetivos, enquanto que aqueles com função exemplificadora chegam a anunciar 9/ 9=100% , mais até do que os anunciados por por exemplo. Também é diferente a concretitude: enquanto os de procura anunciam poucos elementos concretos (13/33=39,4%), os que exercem outras funções anunciam maioria de concretos (7/11=63,6%). Com respeito ao status informacional, a hipótese relativa ao digamos com função de procura é que o elemento procurado seria novo, uma vez que é apresentado, até timidamente, com restrições, por meio do M.D. Com efeito, o 333
elemento regido por digamos com função de procura tende a ser mais novo (33/50=66,0%), percentagem mais elevada do que a apresentada pela mesma forma com outras funções (9/17=52,9%). Esta característica, provavelmente, explica a pequena quantidade desse M.D. em EFs, situação de fala caracterizada pelo planejamento prévio. No afã de encontrar um termo adequado, o falante deixa transparecer essa procura, abandonando o rastro das tentativas sob a forma de paráfrases. Uma evidência de que essas paráfrases estão ligadas a essa função de procura de elemento é sua coocorrência: de 54 digamos exercendo essa função, 22,2% apresentam duas tentativas e uma três (ex. 6.2). Dos 14 digamos exercendo as outras funções, nenhum apresentou esse tipo de repetições. Foi dito em 2.3 que se ocorressem dificuldades no processamento e se o falante não encontrasse de imediato o elemento de que necessitava, ficariam provavelmente vestígios dessa procura, além das paráfrases mencionadas acima. Esses vestígios se manifestam por descontinuidades diversas, anteriores ao elemento finalmente encontrado. De fato, antes daqueles digamos que exercem função de procura foram encontradas 23/53=43,4% de descontinuidades, enquanto naqueles que exercem outra função há apenas 2/14=14,3%. No ambiente posterior ao elemento precedido por digamos, ambiente presumivelmente sem dificuldade, foram encontrados 12/53=22,6% de descontinuidades. A pauta entoacional de digamos caracteriza-se por uma tendência à maior rapidez em 23,2% dos casos e menor força em 12,5% . O contorno da entoação é estável em 70% dos casos. Pausas posteriores (23,2%) são mais freqüentes e mais longas do que as anteriores (32,1%). Todas essas características se assemelham acusticamente a uma parentética13. Ao contrário do por exemplo, é apenas o M.D., e não todo o ambiente liderado por ele, que exibe essa característica (Silva e Rodrigues e Silva, 1995). Esse M.D. não tende a se associar com nenhuma outra forma. Vale lembrar que consideramos digamos assim, vamos dizer assim como formas variante de digamos e/ou vamos dizer e não como duas formas agregadas. Digamos (assim) e vamos dizer (assim), diferentemente dos expansores e de por exemplo, tendem a aparecer naquela fronteira que costuma abrigar poucos preenchedores, a fronteira central de regência entre verbo e complemento. Outra discrepância é que 57%, a maioria, situa-se fora de fronteira, mas desses, perto de 70% continuam a se aninhar no complemento, como os demais M.Ds. fora de fronteira. 334
50% 45% 40% 35% 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0% f
a
e
d
o
x
Digamos (incluindo suas formas variantes) teve freqüência de 67 e repartição de 10, com âmbito desde 0 até 21. Raro em EFs (1,6 por hora), situação caracterizada por um preparo prévio do discurso, aumenta a freqüência em D2 (4,3 p.h.) e principalmente em DIDs (6,7 p.h.). Curiosamente, são mais empregados por homens, confirmando os dados de Vincent para mettons, exemplificador utilizado principalmente por homens (71%). Os valores por região, apresentados abaixo, mostram, nitidamente, que o Rio é um hipocentro ao contrário. 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 Re
Sa
RJ
SP
PoA
Resumindo, digamos raramente atua como exemplificador; ao contrário, tende a funcionar como o anunciador de um elemento, usualmente, abstrato, subjetivo e novo. Nas suas imediações, por vezes, encontram-se elementos que podem ser interpretados como indícios da dificuldade, por parte do falan335
te, em se encontrar um elemento adequado. Não muito comum, principalmente na região Sudeste, na amostra analisada, foi mais usado por homens. O cotejo entre esse M.D. e os limítrofes, não aprofundada em conseqüência da baixa freqüência dos últimos, sugere que as funções codificadas por cada tipo são diferenciadas, podendo-se falar, pois, em uma especialização funcional.
7. Assim As propriedades intrigantes do M.D. assim manifestaram-se desde a primeira análise, em Macedo e Silva (1990). As gramáticas tradicionais enquadram o assim na classe dos advérbios de modo, dados os critérios morfológico (palavra invariável), sintático (palavra relacionada ao verbo, ao adjetivo ou a outro advérbio) e nocional (palavra que indica circunstância). No entanto, tais parâmetros podem se tornar inadequados quando se trata da língua em uso. A classificação de assim, na modalidade discursiva, como advérbio (um de seus usos mais comum está exemplificado em (7.1)), é problemática. Provavelmente há um continuum (outro!) entre o uso como advérbio de modo, um dêitico de baixa freqüência e difícil identificação no texto, que se refere ao mundo biofísico, e que seria como (7.1'), modificação do exemplo real (7.1), anafórico, e o uso como M.D., ilustrado em (7.3). (7.1) ...tem pessoas que têm... um talento... impressionante... minha avó era assim (D2-PoA, t.330) (7.1') minha avó era baixinha, chegava assim ó em mim (7.2) Às vezes quando elas têm tempo assim elas pegam uma turminha (DID-PoA, t.325) (7.3) Como por exemplo no Norte eles têm assim uma variedade de frutas imensa. (DID-RJ, t.49)
Complicando ainda a noção de continuum e a metodologia para a análise desse M.D., muitas instâncias têm duas interpretações, o que lhes confere um status mais de ambigüidade do que propriamente de etapa intermediária. A 336
diferença sutil, mas relevante, manifesta-se quando do estudo da distribuição por fronteira. As ocorrências que permitem duas leituras, prováveis etapas de transição entre um dêitico e um M.D., com idas e vindas (gramaticalização e desgramaticalização) (Martelotta et al, 1995), serão analisadas à parte e, eventualmente, comparadas com aquelas classificadas como M.Ds. Essa imbricação dos diferentes estágios faz com que o modelo da p. 1 se complique e mais pareça uma “metamorfose” do pintor Escher. Algumas peculiaridades deste M.D. já foram comprovadas em pesquisas anteriores: 1 – Silva e Macedo (1990) observaram, em corpus de falantes menos escolarizados, que este marcador ocorre, majoritariamente, entre um elemento (verbo ou nome) e seu complemento sintático ou semântico, tendo sido, por isso, chamado então de “anunciador de complemento”. Ressalte-se aqui que Ilari (1990) classificou-o de “flag”, atribuindo-lhe a faculdade de adquirir os traços gramaticais do elemento que ele anuncia. 2 – Silva e Assafin (1994) compararam o comportamento desse marcador com as hesitações e analisaram sua co-ocorrência com palavras menos freqüentes, com o intuito de investigar seu possível papel hesitativo. A investigação da correlação entre o uso deste M.D. e dificuldades de processamento já fora iniciada por Silva e Macedo (1990), que já haviam identificado tal função quando da análise da distribuição do assim em contextos que deixavam transparecer dificuldades de ordem social. 3 – Na parte 1, referimo-nos aos traços que Risso, Silva e Urbano (1994) atribuíram a assim. Consideraremos aqui, então, a variável que diz respeito à relação sintática com a estrutura oracional e que compreendia dois fatores: 0 – sintaticamente dependente – e 1 – sintaticamente independente. A maioria foi considerada 1, embora a nove instâncias (16%) tenha sido atribuído o grau 0. Essas instâncias, na sua maioria, foram consideradas ambíguas. No exemplo abaixo, a primeira ocorrência foi codificada como ambígua, a segunda foi retirada do corpus por ser um advérbio e somente a terceira, que recebeu a cotação 1 nesse quesito, foi considerada M.D. (7.4) Quer dizer assim1 para o Brasil eh para nós falarmos assim2 se nós tivermos de falar de alimentação brasileira realmente não não teria assim3 muita relação, né? (DID-RJ l.260)
337
1 – Ambíguo 2 – advérbio 3 – M.D. O objetivo central do atual estudo é o de investigar o porquê do emprego deste marcador como lubrificante do discurso, correlacionando seu o uso com dificuldades com as quais o falante se depara durante o processamento lingüístico do elemento seguinte. A hipótese é que, à semelhança de digamos com função de procura, o assim se coloque antes de um elemento não-prototípico, que tende a ser abstrato, subjetivo, novo e mais difícil de ser processado. O caráter abstrato da seqüência precedida por assim, mormente quando esta inclui um substantivo, é um dos indícios de não prototipicidade desse elemento. Para aferirmos a proporção de abstratos num texto, investigamos, nas entrevistas do NURC, a fronteira V...Co (a preferida por esse marcador) que dispensou este marcador, obtendo uma média de 19 complementos verbais por entrevista. Nessa amostra neutra, encontramos 46,5% abstratos. Em presença de assim, a abstração foi bem mais alta: 68,7% entre os assim M.Ds. e 75,5% entre os ambíguos. Já com relação ao advérbio, este índice desceu para 33,3%. Segundo os funcionalistas, há um aumento de abstraticização à medida que o segmento se gramaticaliza. Note-se, entretanto, que não foi medida aqui, propriamente, a abstração do assim mas sim do seu ambiente. Quanto ao traço objetividade, fizemos o mesmo levantamento em ambientes neutros, isto é, sem assim, obtendo 38% de subjetivos. Já na presença de um assim, sobe a subjetividade quando para 133/229=58,1% quando M. D.; desce para 30/66=45,5% quando ambíguo e ainda para 21,2% quando advérbio. Uma vez que a localização preferencial deste M.D. é a fronteira V...Co, investigamos o tipo de verbo que o antecede. Nosso objetivo era verificar se havia ou não uma correlação entre o tipo de verbos e o uso do assim. A escala usada para os tipos de verbo foi adaptada de Mira Mateus et al.(1889). Os resultados da tabela seguinte mostram que os verbos de opinião e os experimentais (que exprimem cognição, percepção, ou estados afetivos) favorecem as formas ambíguas e marcadores; diferindo, pois, radicalmente, dos de sentido identificacional (verbo ser), e dos verbos discendi. A freqüência mais elevada de assim, enquanto marcador ou ambíguo, com verbos de opinião e experimentais, é mais um argumento a favor da hipótese que explica o uso do M.D. assim como resultado de dificuldades de processamento.
338
M.D.
AMBÍGUO
ADVÉRBIO
N
%
N
%
N
%
ação
64
26,7
21
26,6
19
23,4
experimentais
24
10,0
10
12,6
3
3,7
posse
25
10,4
1
1,3
6
7,4
sentido identificacional
23
9,6
3
3,8
1
1,2
estado
32
13,3
18
22,8
14
17,3
opinião
29
12,1
4
5,1
1
1,2
modal
5
2,1
1
1,3
4
4,9
locativo
1
0,4
0
----
0
----
discendi
0
----
0
----
13
16,4
37
15,4
18
22,7
19
23,4
outros
Ainda para verificar a possível correlação entre emprego de assim o grau de dificuldade engendrada pela não prototipicidade do(s) elemento(s) regido(s) por ele, foram medidas as descontinuidades anteriores e posteriores à seqüência em pauta. O resultado apresentado assemelha-se ao obtido para digamos: 125/242=51,6% anteriores e 80/242=33,1% posteriores. Ao contrário de digamos, assim não fomentou paráfrases durante a procura do elemento. Quanto ao status informacional, os resultados mostram que o elemento encabeçado por assim tende a ser novo: 134/232=57,7% quando M.D. e 40/ 68=58,8% quando ambíguo. A ausência deste M.D. nas EFs (como será visto adiante) reforça nossa hipótese: quando o assunto é bem conhecido, como em aulas, preparadas de antemão, desaparecem as causas que fomentam sua utilização. À curva entoacional desse marcador foi concedida uma especial atenção por acreditarmos que, por intermédio deste fator, poderíamos distinguir os diferentes usos dessa forma, particularmente enquanto M.Ds. e não M.Ds. Essa hipótese havia sido sugerida pelos resultados de um experimento desenvolvido anteriormente por nós e que consistia na leitura de um enunciado que continha um marcador assim. De 20 dos nossos leitores, 14 alongaram a última sílaba. Verificamos, todavia, que esse alongamento não passa de um estereótipo que, audivelmente, só ocorreu em 12/197=6,0% dos dados produzidos fora da situação de teste. Essa baixa freqüência foi confirmada pelo CECIL. A 339
curva entoacional do M.D. é sempre estável, enquanto a dos advérbios é variável, visto que também pode ser descendente (30/63=47,6%) ou ascendente (18/63=28,6%). Essa distribuição possibilita, então, as seguintes estratégias: i – um alongamento constituirá um indício, para o ouvinte, de que não se trata de advérbio; ii – um não-alongamento não permitirá nenhuma decisão; iii – uma ascendência ou descendência eliminará a possibilidade de ser M.D.; iv – uma curva estável não resolverá a ambigüidade. (Silva e Assafim, 1995). Não foi encontrado nenhum tipo de aglutinação com M.D. assim. Por sua vez, há muitas ocorrências de assim-advérbio contíguas ao M.D. digamos e a sua variante vamos dizer. Quanto à localização de assim e de seus ambíguos correspondentes, à semelhança do observado para digamos, tendem a ocorrer não na fronteira de constituinte, mas sim fora dela (143/242=59,1% para o M.D. e 41/79=51,8% para os ambíguos). Os M.Ds. que ocupam uma fronteira caracterizam-se por pouca dispersão. Vale ressaltar que na fronteira da extrema esquerda, antes do sujeito ou do tópico, há uma maior proporção de ambíguos. Curioso é o aparecimento desse M.D. (6 casos) antes de sujeito, pois no corpus CENSO do Rio de Janeiro, de 64 falantes com menos escolarização, não havia sido encontrado nenhum nesta fronteira, parecendo haver séria restrição. Nota-se também a predominância da fronteira central de regência, confirmando sua função de “anunciador de complemento”. Um cotejo entre os vários assim quanto a esse quesito, para efeito de comparação, mostrou que os mesmos tendem a migrar para a fronteira d, entre V...Co e a sair da fronteira f, antes de sujeito, à medida que se tornam M.Ds. Quase todos os situados na x funcionam como advérbios e são os regidos por verbo discendi, distribuição não exibida pelos M.Ds. e ambíguos. 80% 70% 70%
60%
60%
50%
50%
40%
40% 30%
30%
20%
20% 10%
10%
0%
0% f
a
e
AMBÍGUO 340
d
o
x
f
a
ASSIM
e
d
o
x
35,00% 30,00% 25,00% 20,00% 15,00% 10,00% 5,00% 0,00% f
a
e
d
o
x
ADVÉRBIO Quanto aos 51,1% fora da fronteira, a maioria, tanto de M.Ds. (88,8%) quanto de ambíguos (95,2%) e de advérbios (22/23=95,7), está localizada num complemento, como os demais M.Ds. já analisados. O assim teve a mais alta freqüência dos M.Ds. aqui abordados (241, o triplo dos 81 advérbios). A repartição foi apenas de 16 (em um DID e uma EF, ambas de Salvador, não ocorreram). Sua abrangência também foi a maior, de 0 a 72 . Sua ocorrência é de 2,5 p.h. em EFs, discursos mais elaborados e preparados de antemão; 32,1p.h. nos DIDs e 25,1 p.h. nos D2s. É muito usado por mulheres, o que corrobora os resultados encontrados no corpus CENSO, de falantes menos escolarizados, em que a probabilidade de as mulheres usarem esse M.D. subiu a .64 (Silva e Macedo, 1992). Quanto ao uso por região, medido por hora, configura-se da maneira mostrada abaixo: 30 25 20 15 10 5 0 Re
SA
RJ
SP
PoA
Há uma analogia com digamos, exceto quanto a PoA, cuja freqüência sobe em vez de descer. Resumindo-se o que se viu, fica comprovada a estreita ligação do M.D. com dificuldades de processamento do elemento seguinte. A bem maior sub341
jetividade dos ambientes que aparecem após o assim, a abstração do elemento bem como o maior número de enunciados novos após assim, confirmam a hipótese de que este marcador anuncia segmentos não-prototípicos e mais “difíceis”. Chama a atenção a semelhança entre o comportamento de digamos, com função de procura, e o de assim. Mais do que semelhança, a distribuição complementar por sexo e quase por região pode ser indício do uso alternativo de um ou outro. O comportamento dos ambíguos não permitiu caminhar muito na comprovação de uma possível migração dos advérbios para o M.D.
8. Conclusões Os resultados sobre os fatos investigados são compatíveis com o modelo da teoria dos conjuntos que subjazeu a este trabalho. O elemento encabeçado por por exemplo (os exemplificantes) é de fato prototípico: concreto, objetivo, real e disponível. Ademais, o exemplificante tende a especificar o enunciado do qual está a serviço, o exemplificado. Pelo contrário, os elementos encabeçados pelos marcadores caracterizados como de procura de elementos, como digamos, como assim, não são prototípicos e tendem a ser abstratos, subjetivos e novos. As hesitações que coocorrem com esse marcador evidenciam dificuldades de processamento e sugerem que o mesmo está funcionando como um preenchedor de espaço vazio na conversa durante o processamento. As partículas de expansão tendem a fechar enumerações de elementos concretos e objetivos. Descartamos a hipótese que as via como um produto de esquecimento momentâneo dos elementos da enumeração em favor da hipótese alternativa que as vê como um coringa para enumerações de pouca relevância. Quanto maior a relevância, menor a quantidade de partículas de expansão, o que força um maior paralelismo na estrutura da enumeração. Assim e digamos, semelhantes quanto a várias propriedades, distinguem-se pelo fato de o segundo acumular outras funções além da principal, a de procura de um elemento, possibilidade vedada ao primeiro que só exerce essa. Malgrado essa diferença, os dois M.Ds. parecem encontrar-se em distribuição complementar, hipótese levantada após o cotejo da distribuição por região e sexo. Assumindo o verbo como medula espinhal do enunciado, conseqüentemente, como o ponto de referência a partir do qual caracterizar a distribuição 342
dos marcadores, veremos que assim e digamos tendem a ocorrer quase que exclusivamente à direita, principalmente entre verbo e complemento ou nome e complemento. Os fatores discursivos examinados justificam essa posição: é à direita que estão os segmentos novos que são enunciados a respeito do tópico discursivo representado geralmente pelo sujeito. Já os exemplificantes, que anunciam elemento disponível, estão situados preferencialmente na fronteira anterior ao sujeito. Essas duas características de digamos e de assim – não marginalidade e grande quantidade de ocorrência fora de fronteira – (diferentes das exibidas por por exemplo e pelos expansores) devem ser comparadas às dos M.Ds. prototípicos para verificar se se trata de propriedade compartilhada também pelos últimos. Ainda quanto à distribuição, os M.Ds. que estão fora de fronteira encontram-se quase totalmente dentro de um complemento, ignorando o sujeito: no total, menos de 1% estão dentro do sujeito. O fato de a informação do complemento tender a ser nova enquanto a do sujeito a ser velha não basta para explicar essa propriedade: a força da variável status informacional é incapaz de dar conta dessa quase impossibilidade da presença desses M.Ds. nos sujeitos. A não coocorrência dos M.Ds. estudados com outros M.Ds. independe de sua não prototipicidade. Essa propriedade, algumas vezes referida como aglutinadora por nós, parece própria apenas dos iniciadores de tópicos. A demarcação prosódica dos não-prototípicos parece ter sido mais débil do que a dos M.Ds. tomados globalmente (68,9%). Creditamos tal fato à tendência a esses M.Ds. não serem tão marginais. O exame incipiente da fronteira ocupada pelos M.Ds. e por alguns elementos não M.Ds. detectou diferenças dignas de estudos posteriores, tais como a especialização de função do digamos que, diferente da de seu alelo digamos, sem evidenciar, todavia, fronteiras drásticas. Tudo se passa como se houvesse um limite, a relação sintática com a estrutura oracional, limite esse necessário, mas de cunho político, como o arroio Chuí. Não foi avistado nenhuma serra de Caparaó, o que confirmou a idéia do continuum esquematizado na p. 1.
NOTAS 1
Não descreveremos sistematicamente os traços, só o fazendo esporadicamente em relação aos M.Ds. tratados neste trabalho. Sugerimos que Risso, Silva e Urbano (1995) seja lido anteriormente a este.
343
2
Os AA. julgaram que isso em nada retirava o caráter formulaico das unidades, pois as alterações de forma dos M.Ds., quando existem, são bem restritas, não atingindo flexões.
3
“Although markers often precede sentences, i.e. syntatic configurations of an independent clause plus all clauses dependent on it, they are independent of sentencial structure”. (p.32)
4
A algumas unidades essa variável não se aplicava, posto que já eram sintaticamente autônomas por si só (como interjeições, feed backs...).
5
Um dos AA não codificou todos os digamos da amostra por ter tido dúvidas quanto à sua identidade marcadora; daí não ter sido gratificado com o grau máximo de freqüência ao qual faria jus.
6
Nem sempre essas marcas indicam dificuldade. Esta é uma das razões que obrigam, metodologicamente, à comparação do ambiente anterior com o posterior.
7
Remetemos à leitura de Tarallo (1991), Tarallo e Kato (1992) para a descrição das fronteiras.
8
É junto a esse M.D. que se encontram mais formas de mesma função. A lista parece não se ter esgotada quando do estudo no corpus CENSO., de falantes não universitários. No NURC, a lista parece ser menos variada; além dessa diferença, há outra mais curiosa: no corpus CENSO não encontramos nenhuma forma etc.... De todas as comparações feitas entre os corpora CENSO e NURC quanto a numerosos M.Ds., estas parecem ser as únicas diferenças.
9
Algumas estão sendo usadas simultaneamente, de comum acordo, com Sylvie Dubois, que analisou um corpus do francês de Québec.
10
Utilizamos esta terminologia para as listas de um só elemento, quando várias características a respeito da relação de elementos torna-se impossível. Vale lembrar também que alguns dados foram desconsiderados quando da análise dessa variável (“nao se aplica”). A conseqüência numérica é que, nesses casos, o denominador não será de 62.
11
Ricardo Souza é professor de neurologia da UERJ, especializado em organização cerebral e padrões de afasia.
12
Ao contrário do NURC, no corpus Censo, onde também analisamos os exemplificadores, são extremamente comuns a exemplificantes-narrativas (Cf. Silva 1995).
13
As parentéticas estão sendo analisadas por Jubran, C. (Neste mesmo volume).
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347
PARTE II GRUPO SINTAXE I
ESTRUTURAS COORDENADAS ADITIVAS1 Roberto Gomes Camacho (UNESP/São José do Rio Preto)
0. Considerações iniciais No tratamento tradicional das conjunções, são geralmente confusos os critérios que delimitam subcategorias, como os que distinguem, por um lado, as subordinativas das coordenativas e, por outro, as adverbiais das integrantes. Assim, parece-nos que o melhor caminho a trilhar na busca de maior clareza e precisão é iniciar pela descrição do comportamento funcional de unidades conectadas por atuação de juntivos e, especificamente no caso do escopo do presente trabalho, pela descrição da relação semântica de conjunção, que resulta da atuação do conectivo e, tradicionalmente denominado aditivo. De um ponto de vista lógico, a relação-e equivale ao operador ∧, caso em que representaria o juntivo da sentença (1) abaixo. (1) Joana fez a salada e Paulo refogou a couve.
A rigor, não é possível saber a priori o valor de verdade de (1), mas é certo que ela é verdadeira ou falsa, sem qualquer outra possibilidade. Nesse caso, a questão que o cálculo sentencial coloca é como determinar o valor de uma sentença molecular, como (1), conhecidos os valores dos átomos que a compõem, isto é, (1a) e (1b). (1) a. Joana fez a salada. b. Paulo refogou a couve.
A resposta a essa questão é explorar todos os valores possíveis dos componentes de uma sentença como (1), atribuindo V para o valor de verdade 351
e F para o valor de falsidade de cada átomo A e B e construir, assim, uma tabela de verdade para o conjunto A ∧ B: A
B
A∧B
V
V
V
V
F
F
F
V
F
F
F
F
No caso da conjunção lógica, o valor de A ∧ B será V somente se tanto A quanto B tiverem valor V, sendo F em qualquer outro caso. Por essa operação lógica, conhecida como funcional-veritativa, afirma-se que o valor da sentença resultante depende exclusivamente do valor de cada um de seus membros componentes (cf. Hegenberg, 1972). A identidade entre e e o conectivo lógico ∧ prediz uma equivalência lógica, conhecida como lei de De Morgan (apud Schiffrin, 1986), segundo a qual a negação de P e Q é logicamente equivalente à negação ou de P ou de Q, conforme a fórmula seguinte, contida em (2). >
>
(2) ~ (P Q) = ~P Q ~Q
Observa-se, com efeito, que o cálculo sentencial explica várias interpretações de uma sentença, como (3), (3) Eu não quero pizza e cerveja.
possibilitando as seguintes leituras, todas cobertas pela lei de equivalência lógica de De Morgan: (3) a. Eu não quero pizza. b. Eu não quero cerveja. c. Eu não quero nem pizza nem cerveja.
O cálculo sentencial explica, sem dúvida alguma, um dos componentes semânticos da relação de conjunção; é, entretanto, uma versão simplificada de 352
um uso extremamente limitado da linguagem natural, cuja complexidade ultrapassa, na esmagadora maioria dos casos, a presença de conteúdos estritamente funcional-veritativos. É fato passivo entre os lógicos afirmar a existência de divergências entre a significação de símbolos formais, como ∧, e a de suas formas análogas nas línguas naturais, como e. Hegenberg (1972) admite por exemplo que, a rigor, (4) não tem sua verdade determinada pela verdade de seus átomos, pois o e da conjunção se traduz aproximadamente como “e em seguida”, envolvendo, nesse caso, sucessão temporal de eventos. Esse fato constitui um simples fragmento da complexidade funcional dos usos do juntivo e. (4) Joana casou-se e teve um filho
>
No caso específico de (1), é possível realmente assumir que, com efeito, e tem na língua, entre suas funções, a de juntar unidades lingüísticas equivalentes, sejam elas termos ou orações. Isso não significa, entretanto, que seja sua função semântica a de juntar logicamente o conteúdo de duas unidades. Dado que e tem alguns usos paralelos ao do operador lógico e outros que não são, deve-se admitir, em princípio, duas possibilidades teóricas para a análise do juntivo: de uma perspectiva da linguagem lógica, significaria analisar e como e, de uma perspectiva da linguagem natural, o contrário. Um dos argumentos freqüentemente usados para aproximar as línguas naturais da lógica é o de que, de um ponto de vista filosófico, as ciências deveriam ser dotadas de uma metalinguagem descritiva absolutamente explícita e destituída de ambigüidade. Nesse caso, o fato de as formas análogas das línguas naturais possuírem elementos em sua significação que não correspondem aos símbolos formais da lógica é considerado uma imperfeição, pois os conceitos que ligam não podem ser precisamente definidos. Conseqüentemente, em algumas circunstâncias, não é possível atribuir ao todo resultante um valor definido de verdade. O caminho adequado, para essa visão, é conceber e construir uma linguagem ideal que incorpore os símbolos formais, cujas sentenças sejam confiadamente livres das implicações metafísicas projetadas por essa indefinição conceitual (cf. Grice, 1975). De uma perspectiva divergente, a exigência filosófica de uma linguagem ideal baseia-se em certos pressupostos que não devem ser aceitos. Questiona-se, então, se a medida fundamental para julgar a adequação de uma língua deva ser sua capacidade de servir às necessidades da ciência, principalmente porque a linguagem natural serve a muitos outros propósitos importantes e não só à expressão da ciência. Além disso, deve haver espaço para uma lógica não353
simplificada e mais ou menos assistemática das contrapartes naturais dos símbolos formais, lógica essa que, conquanto deva ser auxiliada pela lógica simplificada, não pode ser por ela suplantada (Grice, 1975). Este é o ponto de vista adotado aqui e, nesse aspecto, fazemos nossas as palavras de Sweetser (1991): é um contra-senso analisar palavras da linguagem natural, como o juntivo e, como se fossem idênticas a entidades de uma metalinguagem construída, como a da lógica, e que é claramente derivada da linguagem natural. O máximo que é possível afirmar da relação entre ∧ e e é dizer que ∧ é uma cristalização matemática de um dos usos mais salientes de e. O que se vê da discussão acima é que as propriedades semânticas que se podem atribuir à conjunção não são tão bem definidas quanto as sintáticas. Posner (1980, apud Schiffrin, 1986) admite, por isso, haver duas possibilidades para decidir quantos valores semânticos é possível atribuir a um conectivo: a minimalista e a maximalista. Os que defendem a posição minimalista propõem uma entrada simples no dicionário para e. A conseqüência de uma semântica tão simplificada é a necessidade de acrescentar descrição pragmática para a interpretação do significado referencial com princípios que permitam inferir interpretações baseadas no contexto. Desse modo, o minimalista vê o contexto como fonte de inferências que interage com o significado mínimo da função coordenativa. >
Para os que defendem a posição maximalista, e é semanticamente mais rico que o conectivo lógico , por veicular relações causais e temporais (BarLev & Palacas, 1980, apud Schiffrin, 1986), ou por veicular uma relação de similaridade ou de identidade tópica (Cohen, 1971, apud Schiffrin, op. cit.; Lakoff, 1971) e, ainda, por veicular relações semânticas em diferentes níveis de análise, como o ideacional e o interpessoal (Halliday & Hasan, 1976; Sweetser, 1991). Os semanticistas que defendem a posição minimalista identificam as conjunções da língua natural com os conectivos lógicos; nesse caso, para suprir o significado básico com inferências adicionais, é necessário que os interlocutores usem princípios de interpretação pragmática (como as máximas de Grice). Em contraste, os que defendem a posição maximalista sustentam que os conectivos são dotados de valores semânticos específicos que contribuem para a interpretação pragmática das construções coordenadas. No caso específico do juntivo e, a visão maximalista o definiria como um caso de polissemia, em que múltiplos sentidos se alojariam num lexema, ou um caso de ambigüidade, em que múltiplos lexemas se alojariam numa única forma fonológica. 354
Ao pretenderem atribuir significado a conjunções tanto no nível da sentença quanto no nível do discurso, Halliday & Hasan (op. cit.) assumem uma posição ambígua, quanto às visões minimalista e maximalista, ao subcategorizarem o assim chamado uso conjuntivo ou coesivo da relação e, com base no nível de ocorrência. Segundo os autores, pode-se observar a existência de dois níveis: o do estado de coisas representado pelas predicações coordenadas, que como tais constituem eventos; e o nível do discurso, em que as sentenças constituem eventos lingüísticos, que dizem respeito à organização que o falante imprime a seu discurso. No primeiro caso, a coesão deve ser interpretada em termos da função ideacional da linguagem, como uma relação entre significados enquanto representação do conteúdo da experiência que o falante tem da realidade externa. No segundo caso, a coesão deve ser interpretada no nível da função interpessoal da linguagem, como uma relação entre significados, enquanto representação que o falante elabora da situação de interação2.
>
Uma diferença marcante entre os posicionamentos maximalista e minimalista, segundo Schiffrin (op. cit.) se refere ao tratamento do uso do juntivo e na conjunção simétrica, em que a ordem dos membros coordenados é reversível, e na conjunção assimétrica, em que a ordem é irreversível. Lakoff (1971) assume a posição de que, apenas na conjunção simétrica, o sentido de e equivale ao do conectivo lógico , uso que corresponde à conjunção estrutural de Halliday & Hasan. No outro sentido, não pode ser equivalente, porque a conjunção não somente é assimétrica, mas também são as duas orações ligadas como um todo que contraem a relação de pressuposição, permitindo deduzir que contêm um tópico comum e não partes delas, como ocorre no tipo simétrico. Conforme o exposto, à conjunção aditiva, assim como a outros juntivos da linguagem natural, se associam não apenas determinações funcionalveritativas que caracterizam a função ideacional, mas também determinações vinculadas às funções textual e interpessoal da linguagem (Halliday & Hasan, 1976). Diante disso, uma posição teórica possível seria admitir o estudo da significação das conjunções em dois planos: num deles, o literal, seriam registrados apenas os aspectos funcional-veritativos; noutro, registrar-se-iam as demais determinações, discursivamente orientadas, na linha da análise semântica minimalista. De acordo com Ilari (1995) “essa orientação pulveriza, por assim dizer, o estudo das conjunções, pois implica em decidir, para cada um de seus usos, até onde vai o sentido literal, e onde começam os aportes propriamente contextuais”. Esse segundo posicionamento torna não apenas 355
extremamente fragmentados os valores da conjunção aditiva, mas passa também a idéia, com a qual não concordamos, de que seja possível analisá-los, separando-os em planos muito bem delimitados da estrutura lingüística. Sabe-se, com efeito, que a maior parte dos estudos já feitos no passado sobre determinações semânticas pragmaticamente condicionadas está fortemente vinculada à estrutura do nível ilocucionário, ou do mundo dos atos de fala. Tem-se defendido que a expressão de certo conteúdo primário, associada ao conhecimento da situação extraverbal e dos processos de argumentação, permite a expressão indireta de algum outro conteúdo, que é sistematicamente relacionado ao primeiro, como as implicaturas conversacionais de Grice (1975). Esse tipo de análise, levado para o nível lexical, toma como pressuposto fundamental a existência de polissemia, separando cada conteúdo conforme o tipo de determinação pragmática e inserindo cada item, assim reduplicado, no seu nível de funcionamento. Essa posição é questionada por Sweetser (1991) que defende a idéia de que a conjunção aditiva é ambígua nos usos que se fazem nos domínios referencial, epistêmico e conversacional e é essa a posição teórica assumida neste trabalho. Uma análise simples das conjunções como operadores lógicos é muito fraca para explicar as ambigüidades no uso, ou para dar conta do fato de que essas ambigüidades entre domínios devem ser observadas inclusive numa conjunção simples, como e. Além da necessidade de receber uma análise léxicosemântica mais complexa, deve-se analisar a contribuição desse juntivo para a semântica da sentença no contexto de um estatuto polifuncional do enunciado, isto é, como um veiculador de conteúdo, como uma entidade lógica e como o instrumento de um ato de fala. Sweetser (op. cit.) sustenta que é implausível aplicar a algumas conjunções uma análise léxico-polissêmica, sendo metodologicamente preferível, em vez disso, tratá-las como exemplos do que Horn (1985) denomina ambigüidade pragmática3. Numa abordagem polissêmica, um morfema tem diversos valores semânticos relacionados; no tratamento da polissemia como ambigüidade pragmática, aplica-se uma única análise semântica de diferentes maneiras de acordo com o contexto pragmático. Sustenta Sweetser (op. cit.), com base numa abordagem funcional-cognitiva, que a semântica do campo lexical de alguns juntivos, entre as quais o aditivo, é inerentemente estruturada por uma compreensão cultural multiestratificada da linguagem e do pensamento. Em particular, na mesma medida em que se modela a compreensão de processos lógicos e de pensamento com 356
base na compreensão do mundo físico e social, modela-se a expressão lingüística em si não somente como descrição (um modelo do mundo), mas também como ação (um ato no mundo sendo descrito), e mesmo como uma entidade lógica ou epistêmica (uma premissa ou uma conclusão do mundo argumentativo). O propósito deste trabalho é fornecer uma classificação tipológica dos usos da relação de conjunção, examinando-os nos diferentes níveis da gramática do português falado, e, ao mesmo tempo, comprovar a hipótese de que a melhor interpretação teórica que decorre de sua análise é o da ambigüidade pragmática. Interpretar o juntivo e como um caso de ambigüidade pragmática implica demonstrar que os mesmos princípios que regem a coordenação simples e múltipla de termos, no nível da oração, aplicam-se à coordenação de orações no nível textual. O universo da investigação é constituído por uma amostragem do corpus mínimo do Projeto de Gramática do Português Falado, que constitui, por sua vez, uma seleção operada sobre o material coletado pelo Projeto da Norma Urbana Culta (NURC)/Brasil, gravados com informantes cultos procedentes de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, historiado por Castilho (1990). Esse corpus, que já vem sendo exaustivamente descrito, é composto pelas seguintes entrevistas: Porto Alegre: EF 278, DID 045, D2 291; Rio de Janeiro: EF 379, DID 328, D2 355; São Paulo: EF 377, DID 234, D2 360; Recife: EF 337, DID 131, D2 005; Salvador: EF 049, DID 231, D2 098 A vocação naturalmente empírica deste trabalho implica a necessidade de levantamento quantitativo, com especial relevância para freqüências percentuais dos fatores mais significativos para o exame da relação de conjunção. Para a análise quantitativa, empregam-se alguns programas do pacote Varbrul (cf. Sankoff, 1975), especialmente o Makecell, para dados brutos de freqüência e o Crosstab, que fornece tabulações cruzadas entre dois fatores significativos. É ocioso dizer que se lança mão, sempre que necessário, do recurso aos exemplos construídos, na ausência de exemplos cruciais do corpus para a explicação de aspectos relevantes do comportamento sintático-semântico do juntivo. O roteiro que se pretende seguir é iniciar a análise pelo nível da conjunção de termos e, em seguida, pelo da conjunção de orações. Essa disposição 357
não obedece a uma ordem aleatória. Procede da hipótese de que a ligação entre orações é problemática por situar-se no limite entre as condições estruturais de organização e as determinações funcional-discursivas das quais depende a organização textual. Tomar, como ponto de partida, o uso do juntivo no nível da coordenação de termos pareceu uma decisão mais sensata. Este texto se organiza em duas partes. Na primeira, examina-se a coordenação de termos, em sua manifestação prototípica, estrutural, e em sua manifestação discursiva e, na segunda, a coordenação de orações em estruturas simétricas e assimétricas, descrevendo-se os processos de junção que envolvem também procedimentos discursivos de natureza pragmática.
1. A conjunção de termos 1.1 Coordenação simples Dik (1980) trata a coordenação sob a forma de expansão de elementos da estrutura em séries coordenadas de elementos similares. O seguinte esquema fornece uma representação formal do processo. (5) α→ α1, α2, ...., αn (n≥ 2)
Esse esquema opera sobre algum elemento α, expandindo-o numa série n-ária de termos coordenados do mesmo tipo. Como Termo, para Dik (1989), designa entidades do mundo, é possível distinguir os seguintes tipos de coordenação: (i) coordenação de termos; (ii) coordenação intratermos; e (iii) coordenação de orações, de que se tratará a seguir conforme o roteiro acima programado. A coordenação de termos representa uma espécie de atalho para o falante ser capaz de expressar que diferentes entidades se relacionam de maneira idêntica com o predicado, o que permite expressar dois estados de coisas com a mesma oração. Uma sentença, como João e Maria viram um fantasma, em que os termos desempenham duas funções sintáticas e duas funções semânticas, resume dois estados de coisas, representados na paráfrase João viu um fantasma e Maria viu um fantasma. A coordenação de termos produz habitualmente sentenças ambíguas por permitir tanto a interpretação coletiva quanto a distributiva. Na análise acima, está claro que a interpretação é distributiva: cada qual viu um fantasma e os dois fantasmas não se identificam. 358
Habitualmente, dois diferentes predicados verbais coordenados representam dois estados de coisas, referentes, todavia, às mesmas entidades. Segundo essa análise, casos, como os de (6a) deveriam ser tratados como coordenação de predicados verbais e o resultado do processo, como sentenças complexas. (6) a. nós encontramos nódulos.... nódulos estes que aparecem e desaparecem (EF-SSA-49:85)
Entretanto, a paráfrase de (6a), contida em (6b) contradiz claramente essa interpretação como uma generalização para todos os casos. (6) b. nós encontramos nódulos que aparecem e nós encontramos nódulos que desaparecem.
Os dois verbos parecem, então, consistir num único conjunto coordenado que, na qualidade de oração relativa, aplica-se à entidade singular nódulos. Essa interpretação é defendida por vários autores: Halliday & Hasan (1976), Mateus et al. (1992 ) e Perini (1995) admitem a possibilidade de tratar a coordenação de verbos e sintagmas verbais como coordenação de termos em orações como (6a). A interpretação coletiva, e não distributiva, de João e Maria viram um fantasma significa que os dois indivíduos referenciados pelos termos João e Maria viram simultaneamente o mesmo fantasma. É nessa segunda interpretação que, de um ponto de vista sintático, ocorre um processo de coordenação intratermos, conforme se verificou para o verbo de (6a). Não havendo duplicação de estados de coisas, os dois termos são coordenados numa única função sintática e semântica, como se observa em João e Pedro compraram um livro. O dinheiro não dava para comprar dois exemplares, que constitui, em função do contexto, inequivocamente um único estado de coisas. Quando se trata de dois termos na função de sujeito e dois na função de objeto, três interpretações são possíveis. As duas acima e uma terceira distributiva, como ocorre com João e Maria viram um fantasma e um vampiro, significando a possibilidade de uma espécie de dupla correlação anafórica, que atribui a João a visão do fantasma e a Maria, a do vampiro. O recurso mais comumente empregado para desambiguar a leitura é o emprego do advérbio respectivamente, dirigindo-a para uma interpretação inequivocamente distri359
butiva, como em João e Maria viram um fantasma e um vampiro respectivamente. O levantamento no corpus aponta para um total de 126 ocorrências de coordenação de termos, das quais apenas 10 casos, correspondentes a 7,9%, envolvem três ou mais termos em séries ordenadas, conforme se observa nos exemplos contidos em (7a-c) abaixo. (7) a. representam um conjunto or - de - na - do de definições ... CLASSIFICAÇÕES e proposições (EF-RE-337:178) b. o indivíduo tem que ter conhecimento, compreensão, análise e síntese (EF-POA-278:240) c. seis paredes...anteriores... posterior... superior... inferior... e as duas laterais (EF-SSA-49:277)
As conjunções encontradas se restringem às formas e e nem com a predominância da primeira: 124 ocorrências, correspondendo a 98,5% do total e apenas 2 ocorrências de nem, correspondentes a 1,5% do total, conforme se observa em (8-9) abaixo. (8)
gente vai pensar no homem do paleolítico superiOR ... como um homem que ainda não conseguiu se organizar socialmente nem politicamente ... eles ainda vivem em bandos (EF-SP-405:59)
(9)
então a arte SURge não em função:: de uma necessidade de auto-expressão... nem em função de uma necessiDAde... de::... embelezar o ambiente em que eu vivo... deveria ser uma necessidade estética de ver coisas bonitas... mas Unicamente... em função da necessidade de eu assegurar... a caça... e continuar podendo comer e me manter vivo (EF-SP-405:175)
A utilização de nem... nem nos dois casos, na coordenação de circunstanciais de modo e de causa, seja como termos simples, seja como SPs, em (8) e (9), respectivamente, configura um modo de marcação explícita e não ambígua do escopo da negação, que incide claramente sobre os circunstanciais. 360
No caso específico de (9) a utilização de nem... nem é mecanismo claramente argumentativo para a realização de um foco substitutivo (v. Dik, 1989), que aparece expresso logo após mas e o advérbio focalizador unicamente. Observe-se, a propósito, uma marcação prosódica adicional de focalização no acento especial na primeira sílaba do advérbio. (8), por sua vez, manifesta um tratamento pragmático similar, já que o uso de outra forma de negação, como a que se manifesta em (8a), mantém seu escopo sobre o circunstancial, no caso, advérbios predicativos. (8) a. um homem que ainda não conseguiu se organizar socialmente e politicamente.
Não é obra do acaso essa apropriação pragmática de uma função não ambígua do uso de nem... nem, principalmente em construções marcadamente focalizadoras, como (9). Parece que a repetição estrutural de nem, como ocorre em (10a) e (10b), constitui mesmo um mecanismo de focalização, empregado, nesse caso, para desambiguar o escopo da negação, que deixa de incidir sobre o verbo para incidir sobre o sujeito: (10) a. O Romário e o Bebeto não vão jogar contra a Argentina. b. Nem o Romário nem o Bebeto vão jogar contra a Argentina.
A relação de conjunção, representada pelo juntivo e, que Halliday & Hasan (op. cit.) denominam estrutural, pode ocorrer entre pares ou entre conjuntos de elementos que funcionam teoricamente em qualquer lugar da estrutura sentencial. Podem ser sintagmas nominais, adjetivais, verbais e preposicionais. Um par ou um conjunto de itens ligados por coordenação estrutural constitui um elemento complexo, que funciona como um elemento singular da estrutura em qualquer função sintática. Nos exemplos (11a), (11b) e (11c), aparecem, respectivamente, termos como sintagma nominal, sintagma adjetival e sintagma preposicional exercendo a mesma função na organização sintática que a dos elementos simples equivalentes. (11) a. eu por exemplo que estou acostumado a comer só verdura e carne (DID-RJ-328:128) b. a BR-262 já tá pronta né? tá... pronta... e linda (D2-SSA-98: 119)
361
c. principalmente na Amazonas e no Pará ... a influência indígena sobre a alimentação é muito grande (DID-RJ-328:128)
Subfunções no interior do SN, como a de quantificador, podem também ocorrer como termos complexos coordenados por e, como no exemplo hipotético, representado pela sentença (12) abaixo, em que os termos coordenados têm um valor distributivo: (12) José e Paulo compraram um e dois livros respectivamente.
A tabela 1 mostra a distribuição de termos coordenados segundo a função que exercem na estrutura sentencial. O processo de conjunção de termos não predomina em nenhuma das funções sintáticas, distribuindo-se mais ou menos uniformemente por toda estrutura sentencial. FUNÇÃO SINTÁTICA
N
%
complemento verbal
28
22,2
circunstancial
18
14,2
sujeito
17
13,4
predicativo
10
7,9
modificador
12
9,5
aposto
24
l9,0
complemento nominal
16
12,6
agente da passiva
01
0,7
TABELA 1: Função sintática dos termos coordenados Como a coordenação de termos é uma propriedade estrutural das línguas, em princípio, o processo pode ocorrer em qualquer nível da organização sintática. Por isso mesmo, a freqüência de termos coordenados deve simplesmente refletir a distribuição relativa de termos simples por função. Esse é o motivo que explica a baixa freqüência de termos coordenados na função de agente da passiva. 362
FATORES
MUDANÇA MUDANÇA NÃO POTENCIAL POTENCIAL
TOTAL
N
%
N
%
N
%
106
86,0
17
14,0
123
97,6
PRONOME + NOME
01
100,0
00
00,0
01
1,6
PRONOME
02
100,0
00
00,0
02
0,8
109
87,0
17
13,0
126
100,0
NOME
TOTAL
TABELA 2: Relação entre mudança potencial de ordem dos termos coordenados e forma de manifestação dos itens lexicais
É possível ressaltar duas características do comportamento da coordenação de termos no corpus considerado, de acordo com a freqüência da Tabela 2: conforme o esperado, há uma ocorrência majoritária de conjunção simétrica de termos, relativa a 87,0% dos casos. Comparem-se, a esse propósito, (13a) e sua paráfrase contida em (13b), que mostram um caso comum de termos coordenados cuja ordem é perfeitamente reversível. (13) a. então sucede que você vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de carga e de peso (D2-SSA-98:184) b. então sucede que você vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de peso e de carga
A simetria de termos é representada por alguma forma de manifestação lexical, com incidência de 97,6% do número total de casos (123/126). Essa alta freqüência de SNs na coordenação de termos, associada à posição estrutural, que é preferencialmente pós-verbal, indica que eles exercem predominantemente a função pragmática de introduzir informação nova na sentença. (14) e (15) são ocorrências prototípicas dessa modalidade de ocorrência. (14)
naquela época .... o que existia eram os bisontes e os mamutes também (EF-SP-405:146)
(15) ele pode fazer de três maneiras: translação, interpretação e extrapolação (EF-P0A-278:98)
363
Nos poucos casos de conjunção de pronomes, como (16a), e de pronomes+nomes, como (16b-c), as formas pronominais aí presentes remetem anaforicamente a algum referente já previamente mencionado no discurso, mantendo, então, estatuto informacional de entidade dada. Nas coordenações de pronome e algum item lexical, este sustenta o estatuto informacional de entidade nova: (16) a. É mais cômodo pra ela e pra mim, né? (DID-SSA-231:139) b. que também a gente vai dar um pouco mais de atenção a ela e a Alemanha dentro da Europa... (EF-RJ-379:140) c. ele e o Barte é que vão para a cozinha (D2-POA-291:81)
Os dados coletados manifestam, sem exceção, uma característica fundamental da coordenação de termos: a identidade de função sintática e de função semântica. Essa característica universal da conjunção de termos, denominada Condição do Constituinte Coordenado (Coordinate Constituent Constraint – CCC) por Schachter (1977), representa a formalização da idéia de “equivalência estrutural” contida na definição comum de coordenação. Assim, se uma função sintática for atribuída a um termo de uma série coordenada, a mesma função sintática deve ser atribuída a todos os termos da série, justamente o que ocorre em (17a). De acordo com a CCC, se dois constituintes ligados por coordenação não satisfizerem essas duas condições, o resultado é uma construção anômala4, como se observa na paráfrase de (17a), contida em (17b). (17) a.e que o estilo e a arte sempre vão refletir uma maneira de considerar o mundo e a natureza (EF-SP-405:107). b.?e que o estilo e pela arte sempre vão refletir uma maneira de considerar o mundo e a natureza.
Além da identidade sintática, a gramaticalidade da coordenação de termos deve ser assegurada pela identidade de função semântica. Essa segunda condição também é exemplarmente aplicada a todos os casos examinados de 364
coordenação de termos, como (18a), de modo a excluir automaticamente a possibilidade de casos estranhos, como a paráfrase de (18a), contida em (18b). (18) a. um homem que não conseguiu se organizar socialmente nem politicamente (EF-SP-405: 60) b. ?um homem que não conseguiu se organizar socialmente nem na alimentação
Observem-se ainda (19a) e (19b). A estranheza de (19a) tem motivação no fato de que argumentos na função semântica de agente e força são coordenados como sujeito, enquanto a de (19b) repousa no fato de haver coordenação de termos como satélites de companhia e modo. (19) a. ?João e o vento abriram a porta. b. ?João comeu com sua mãe e com bom apetite.
É necessário considerar, entretanto, algumas violações estilísticas da restrição semântica, como demonstra o exemplo (20a). (20) a. ?Maria faz uma fezinha e todas as suas próprias roupas.
A agramaticalidade de uma construção como essa não pode ser explicada em termos de uma violação da identidade funcional, já que uma fezinha e todas as suas roupas têm claramente o mesmo relacionamento funcional com o verbo fazer. O que parece estar envolvido, de acordo com Schachter (1977), é que fazer recebe o significado de apostar numa combinação e o significado de manufaturar na outra. No modelo de Gramática Funcional de Dik (1989), o esquema de predicado veicula todo o significado de uma oração; conseqüentemente, se um predicado verbal tem diversos significados claramente distintos, ele deve incluir esquemas de predicado distintos correspondentes. Nessa perspectiva, expressões idiomáticas, como fazer uma fezinha, recebem o esquema de predicado já pronto do léxico. Como se obtém a combinação de termos mediante a expansão de posições em esquemas de predicado, uma construção como (20a) não seria normalmente produzida. Entretanto, construções como (20b) têm como característica uma espécie de “contaminação” entre dois ou mais esquemas de predicado distintos e, como tais, são comumente reconhecidas 365
como expressões estilisticamente marcadas, popularmente denominadas “trocadilhos”. (20) b. Maria fez muito café, muitos amigos e uma fezinha na loto.
Não custa lembrar, a esse propósito que Garcia (1975: 32) já assinalava a necessidade de paralelismo semântico e estrutural entre estruturas coordenadas, bem como a ruptura estilística deles. É sua a citação seguinte de Carlos Drummond de Andrade: “Cardíaco e melancólico/o amor ronca na horta/ entre pés de laranjeira/entre uvas meio verdes/e desejos já maduros” (op. cit.: 32) e essas duas outras de Machado de Assis: “Marcela amou-me durante quinze dias e onze contos de réis.” (id.: 33) (os grifos são meus). A regra do paralelismo estrutural, uma exigência formal das gramáticas normativas, nem sempre é respeitada nos exemplos do corpus. Observemse, a esse propósito, os enunciados contidos em (21a-b). (21) a. eu tenho a impressão que eu vou botar num colégio logo maior e que ela fique até a faculdade (DID-SA-231:136) b. por isso ele tem que lançar mão... dos técnicos ... dos assessores ou seja ... de uma equipe de pessoas ... evidentemente habilitada e que possa prestar: ao mesmo... toda assistência devida (DID-RE-131: 252)
Os casos acima respeitam as regras de equivalência sintática e semântica, uma vez que se acham coordenadas expressões atributivas dos núcleos nominais colégio, em (21a) e equipe em (21b). Entretanto, o paralelismo estrutural foi rompido em virtude de uma coordenação entre um sintagma adjetival e uma expansão sob a forma de oração relativa. A Condição do Constituinte Coordenado formaliza, como observado acima, a intuição de que estruturas de termos coordenados apresentam equivalência estrutural, com base em dois princípios: são constituintes hierarquicamente equivalentes e o conjunto resultante representa a mesma função sintática e semântica que receberia um termo singular na mesma posição sintática. Da equivalência estrutural resulta a propriedade de reversibilidade: termos coordenados podem ser livremente intercambiáveis, sem provocar qualquer 366
alteração no valor semântico final da sentença. Com efeito, o exame dos dados revela que 87,0% (109/126) dos termos coordenados são livremente permutáveis entre si, como se observa, por exemplo, em (22a) e sua paráfrase, contida em (22b). (22) a. vocês tentem inclusive ver ... como é um pouco difícil... você separar a realidade industrial e a realidade agrícola... no Japão... (EF-RJ-379:240) b. vocês tentem inclusive ver ... como é um pouco difícil... você separar a realidade agrícola e a realidade industrial... no Japão...
É necessário, agora, examinar em que condições discursivas se enquadram os 17 casos de coordenação com constituintes não permutáveis, correspondentes a uma freqüência, até razoável, de 13% do total. Todos esses casos permitiriam, ainda que teoricamente, a reversão de ordem dos constituintes, mas o resultado seria uma estrutura sentencial pouco natural e até estranha. Considerem-se, por exemplo, (23a) e sua paráfrase (23b). (23) a. terça e quinta... a menina faz fonoaudiologia (D2-SP-360:103) b. quinta e terça... a menina faz fonoaudiologia
Teoricamente é possível reverter a ordem dos termos coordenados que compõem o circunstancial de tempo em adjunção, sem que a alteração produza qualquer mudança significativa no valor semântico do enunciado. Entretanto (23b) parece extravagante ao usuário comum da língua, porque fere um princípio funcional de iconicidade por motivação. A iconicidade por motivação, um princípio saussureano revisto por Haiman (1980), mostra-se exemplificado com maior clareza em seqüências de orações próprias dos discursos narrativos, na ordenação de constituintes e em outros fenômenos em que a organização estrutural da expressão verbalizada reflete a seqüência dos eventos5. Outros exemplos do corpus de ordem preferencial na coordenação, por razões de iconicidade, podem ser observados em (24a-d): (24) a. ela deve ser primitiva e secundária também (EF-SSA-49:95)
367
b. se acha dividida em duas porções...Uma anterior... e outra posterior... (EF-SSA-49:218) c. Agora, no primário e no ginásio, eu acho diferença (DID-SSA-231:52) d. é como aqui... a famosa ( )pessoal sábado e domingo se reúne para comer (DID-RJ-328:390)
Em casos, como os contidos em (25), bloqueia-se a possibilidade de intercambiar os constituintes em virtude de um processo de gradação semântica no tipo de expressão referencial envolvida nos constituintes coordenados: veados é uma expressão genérica, mas definida, enquanto alguma figura humana constitui expressão referencial indefinida, cujo aparecimento, se comparado ao de veados, está matizado pelo emprego do sintagma aspectual algumas vezes indicando baixa freqüência. (25) nós vamos reconhecer veados... - -sem qualquer (em nível) conotativo aí - - ... e algumas vezes MUIto poucas.. alguma figura humana (EF-SP-405:138)
Há enunciados, como os de (26a-b), que bloqueiam a possibilidade de permuta entre os constituintes em virtude de alguma razão pragmática: (26a) identifica um modalizador epistêmico que força a organização estrutural aí manifesta; o adjetivo modalizador linda de (26b) enuncia uma atitude avaliativa do enunciador, devendo, por isso, suceder à enunciação do adjetivo predicador pronta. (26) a. e no entanto o homem está ... sujeito e até certo ponto escravo da lei (EF-RE-337:68) b. a BR-262 já tá pronta ne? tá ... pronta ... e linda. (D2-SSA-98:119)
Em outros enunciados, o segundo componente de uma conjunção de termos contém alguma referência anafórica ao constituinte precedente no interior da coordenação, como ocorre com (27a-c), ou uma referência a um constituinte mencionado mesmo antes da coordenação, como (27-d). O que deter368
mina, nesses casos, o bloqueio da reversão da ordem dos constituintes coordenados são motivações de ordem estrutural, gramatical. (27) a. leis morais: religiosas e de outras naturezas econômicas etcetera... (EF-RE-337:68) b. a traquéia e:: os seus ramos de bifurcação (EF-SSA-49:280) c. eles estão gravando com Lula Porto acompanhados por Lula e por outro rapaz (D2-RE-05:184) d. perdão Alemanha e o Japão principalmente e a Itália... que também a gente vai dar um pouco de atenção a ela e à Alemanha dentro da Europa... (EF-RJ-379:140)
Observe-se, de passagem, que em (27c) uma motivação de ordem semântica se acrescenta à de ordem estrutural, já que Lula representa uma expressão referencial definida (é um nome próprio), enquanto outro rapaz, uma expressão referencial indefinida. Verifica-se, por último, nos exemplos (28-29), uma freqüência elevada de idiomatismos que podem ser considerados expressões prontas do léxico com certo matiz de modalização avaliativa. (28)
se a gente for parar para fazer as coisas calmamente não dá... pura e simplesmente não dá (D2-SP-360:134)
(29)
os advogados ... estão ... aptos a prestar TODA e qualquer assistência ... no setor jurídico (DID-RE-131:169)
Quanto ao exemplo (29), a coordenação dos pronomes indefinidos toda e qualquer parece representar um reforço do operador de existência, que passa a abranger o universo que denota, a ele se referindo também de forma distributiva. Não parece representar, como pura e simplesmente, um processo sintagmático bastante produtivo na variedade formal de português. Ao contrário, na expressão toda e qualquer, os dois itens juntos constituem uma lexia composta e a razão por que a expressão se popularizou como toda e qualquer 369
e não como qualquer e toda parece obedecer a algum princípio cognitivo de gradação silábica.
1.2 Coordenação intratermos Conforme já observado, cada termo coordenado contrai sua própria relação semântica com o predicado e as expressões lingüísticas resultantes podem em princípio expressar tantos diferentes estados de coisas quantas combinações de termos e predicado houver. Conseqüentemente, uma construção como (30a) pode ser interpretada como equivalente a (30b): (30) a. João e Pedro compraram um guia e três postais. b. João comprou um guia e João comprou três postais e Pedro comprou um guia e Pedro comprou três postais.
Isso explica a correspondência entre (30a) e (30b), sem que nenhum